O Reinado da Escuridão
1 Uma serpente-leopardo ataca Manhattan
Notas iniciais
– O que diabos é isso? — me perguntei ao ver aquela coisa. Eu e as outras caçadoras estávamos lutando contra uma criatura que não fazíamos ideia do que era. E ela estava furiosa conosco.
O monstro, se assim poderia chamá-lo, era um híbrido de serpente e leopardo. O corpo era de um leopardo, com pernas musculosas e um tronco delgado e aerodinâmico com a pelagem amarela viva e manchada de marrom, característica deles. Porém, seu pescoço era como o corpo de uma cobra, verde, revestido por escamas rígidas como bronze celestial e com, no mínimo, o comprimento do corpo. A cabeça do animal tinha um "capuz" típico de uma naja, mas o resto era felino. Ele tinha olhos amarelados com as pupilas em forma de fenda, como um réptil. Ao contrário dos leopardos, ele não tinha orelhas, apenas um orifício lateral que levava ao ouvido interno. Da boca escancarada saía uma língua bifurcada, que provava o ar com uma incrível rapidez, e, no lugar onde deveriam estar os caninos, duas presas enormes, de onde pingava um veneno verde gosmento, que corroía o chão onde caía, formando buracos no asfalto em frente ao Empire State. Deuses! Estávamos muito encrencadas.
Eu e as outras caçadoras formamos um cerco ao redor do bicho, em uma tentativa falha de intimidá-lo e domá-lo. Tudo o que conseguimos foi deixá-lo mais nervoso. Foi a partir daí que começamos a ter problemas de verdade.
A criatura avançou na direção de Jennifer, nossa tenente (a anterior, uma filha de Zeus, abandonara o posto para viver com seu irmão...). Ela desviou por muito pouco de um golpe certeiro, mas ficou ferida por causa de algumas gotas de veneno que queimaram seu braço esquerdo como ácido, corroendo a pele e dilacerando a carne. Como foram apenas algumas gotas, somente um pedaço de seu braço foi destroçado, mas o machucado era feio: a pele em volta fora totalmente destruída, revelando sua carne ensanguentada. Isso a impossibilitou de se manter lutando.
Este ato do monstro irritou-nos, pois ele poderia tê-la matado. Sentimos que não podíamos deixar que mais alguma das garotas ficasse ferida, ou pior, morresse. Por isso, disparamos contra ele uma saraivada de flechas prateadas. As mais de 20 flechas cravadas em seu corpo acertaram suas patas, o toráx (deixando algumas costelas quebradas à mostra), transpassaram seu pescoço, e acertaram seu olho esquerdo, cegando-o parcialmente.
Com isso diminuímos um pouco sua velocidade , mas ele continuava tão mortal quanto antes.
Tentei atacá-lo com minha adaga e, por isso, cheguei perto demais do monstro. Automaticamente, transformei-me em seu novo alvo. Ele tentou me perfurar com suas garras, porém, desviei antes que me acertasse. Caindo com um barulho surdo, ele tentou uma nova investida, dessa vez, correndo em minha direção, com as presas à mostra, escorrendo delas a mesma gosma ácida que ferira Jennifer. Esperei que ele viesse ao meu encontro, como um toureiro em uma tourada, e, no último segundo, desviei um pouco para a direita, aproveitando para empurrar mais fundo na carne uma das flechas enterradas em seu flanco direito. Isso o fez rosnar de dor e cair. Da ferida, ao invés da comum areia dourada que jorra dos mostros greco-romanos, jorrava uma areia vermelha brilhante à luz do sol.
A criatura se levantou e preparava-se para atacar, quando, de repente uma sombra passou por nossas cabeças, trazendo consigo uma rajada de vento. Olhei para cima e percebi que a sombra pertencia a um híbrido de cavalo na parte traseira e uma águia na parte dianteira. A serpente-leopardo olhava atônita para o céu, assim como nós caçadoras. Das costas do híbrido alado, saltou uma garotinha, com seus 10 anos de idade. Ela tinha cabelos negros em um corte channel mais comprido na frente. Vestia uma espécie de "pijama" bege de linho e sapatilhas de palha trançada.
Ela desembainhou sua espada curta e curva no ar e, com um só golpe, atravessou a espada na medula do bicho, reduzindo-o a pó.
Eu não sabia quem era aquela garota, nem porque ela nos salvara, ou o que eram aquelas coisas que vimos. Mas, eu sabia que não eram gregas ou romanas. Eu sentia que pertenciam a um lugar completamente diferente do meu. E eu iria descobrir qual era esse lugar.
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