O Rei nem tão Destruído

4 Capítulo 4: O Despertar das Oferendas


Era um quarto extremamente mal iluminado, a única luz era a proveniente do sol que penetrava pelas rachaduras. Pelo corredor, o centauro se aproximava da porta do quarto.

– Chegou a hora de fazer novas oferendas a seu deus. Temos companhia na Ilha. – Disse Hecarim, entrando na sala.

Uma das dezenas de aranhas que estava no teto teceu um fio prateado e deslizou nele em direção ao solo, porém antes de toca-lo, transfigurou-se em uma mulher exuberantemente sensual. Delicadamente, esta lambeu o seu dedo impregnado com sangue e disse:

– Minhas crias e eu estamos famintas.
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Os dois jovens já haviam deixado a clareira e a vasta floresta assombrosa os envolveu novamente. O diferencial é que agora estava claro graças ao Sol. Sarah ia na frente abrindo caminho com as mãos e guiando Brian, que estava muito atento a tudo a sua volta, protegendo a retaguarda. Ele não entendia nada ainda, queria perguntar em um momento mais apropriado, mas ele nunca sabia quando este momento chegaria e, portanto, deixou-se guiar pela garota achando que ela o levaria para fora da ilha.

Depois de horas caminhando, os dois chegaram a uma nascente, onde mais uma vez a beleza contrastava com a macabra atual reputação da Ilha das Sombras. Sarah agachou-se e abasteceu o cantil, advertindo Brian para beber bastante água, pois demorariam para parar novamente. Ele já havia se acomodado na grama úmida embaixo de um salgueiro, mas reconhecendo a sede levantou-se.

– Me dá sua camisa – disse Sarah, segurando o cantil e encarando Brian, indiferente.

Brian olhou para ela e sorriu passando a língua por de trás dos dentes, maliciando o pedido da garota. Sarah revirou os olhos, impaciente.

– Anda logo, ninguém nessa floresta quer olhar para o seu físico desnutrido.

Brian retirou a camisa e jogou para ela, que agarrou com a mão livre enquanto fazia uma expressão zombadora de nojo.

– Experimenta passar o tempo que eu passei enjaulado.

– Não seja dramático, eu te tirei de lá, não tirei?

– Dramático, sei, você não sabe o que é passar fome. Seus pais devem dar tudo para você. Aposto que é uma daquelas patr... – antes que pudesse completar, teve a garganta comprometida por um antebraço enquanto era prensado no tronco da grande árvore. Sarah imobilizou o garoto de forma que era difícil, para ele, respirar. A garota aparava todas as tentativas de Brian de se soltar com a mão livre. Olhando fixamente para os olhos esverdeados dele, ela deixava cair algumas lágrimas enquanto com um nó na garganta gritava. A fúria em seu olhar fez com que Brian temesse quase tanto como na noite passada.

– EU NÃO TENHO PAIS! GUARDE SUA LÍNGUA PARA FALAR DE GENTE MORTA SE NÃO QUISER SE JUNTAR A ELES!

Ela soltou Brian e ele deslizou pelo tronco do salgueiro, sentando-se e massageando o pescoço.

– Está certo – Esforçava-se para falar em meio a tosses devido à falta de ar na traqueia. Foi mal. Mas eu não sabia... E tenta entender meu lado... Estou no meio de uma floresta que quer me matar com uma garota que sequer conheço e também quer me matar, estou confuso... Desnutrido – Ele sorriu, para demonstrar que entendia o lado dela também – E não como nada descente há meses. Pega leve, pode ser? – Ele estendeu a mão em sinal de retratação.

Houve um silêncio onde pode-se escutar o barulho da água corrente, do vento mexendo nas folhas das árvores e alguns pássaros.

– Está bem, – Suspirou, arrependida – me desculpe. Eu explodi por uma besteira... Você não tem culpa de nada. Eu... Só... – disse virando-se para a nascente e enxugando as lágrimas que teimavam em aparecer.
Brian foi até ela e a virou pelo ombro. Ela cedeu e o abraçou. Ele tentou passar a maior sensação de segurança possível, devolvendo um abraço caloroso.

– Calma, calma. – Sussurrava, retirando o cabelo dela dos olhos. – Não chora. – Enxugou algumas lágrimas dela com a mão. – Você tem que continuar forte para continuar me batendo. Ah, e não se esqueça: eu ainda lhe devo um favor. – Sorriu. – Tudo bem que eu ainda não sei bem o que está acontecendo, mas acho devo mais favores se formos contar quantas vezes você salvou minha vida.

Ela olhou nos olhos dele, sorriu e tornou a abraça-lo.
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A mulher-aranha, que espreitava os dois jovens silenciosamente, sorriu, riu e embrenhou-se na floresta.
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Um pouco mais tarde, Sarah estava dispondo seus pertences na mochila e se deu conta de algo.

– Brian, onde está a mochila que te dei?

– Eu a usei para despistar as criaturas, naquele dia que você me salvou. Mas não se preocupe, não tinha nada de importante nela, a não ser o que eu guardei.

– Se eu me lembro bem, naquela mochila tinha um cantil vazio, uma corda e barras de cereais. O que você guardou especificamente?

– Meu canivete aqui – esclareceu, apalpando o suporte de couro preso a seu cinto e retirando o canivete. Exibiu-o e o guardou novamente. – E as barras de cereais.

– Bom, pelo menos a comida você guardou.

– Na verdade... Eu comi as barras de cereais.

– É melhor você esconder muito bem esse canivete de mim.
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A aracnídea sensual andava apressadamente por entre árvores semimortas. Ao chegar em um paredão de flores brancas e cinzas, ela olhou para todos os lados, certificando-se de que estava sozinha e finalmente adentrou por uma fenda. Por trás daquele portal florescente, havia inúmeros ossos e carcaças presas a uma gigante e inacreditável teia de aranha.
Elise ajoelhou-se, fez uma reverência, levantou-se e falou:

– Já podemos começar, meu senhor.

Um som agudo e macabro foi ouvido. Elise gargalhou e voltou para a floresta.