— Tira esse pé do porta luvas!

Andy repreendeu Queen, a ruiva obedeceu a ordem de mal gosto mas no fim tirou seu Allstar verde do porta luvas. Agora ela era sua nova companheira em algumas entregas, querendo ou não as vezes passava metade do seu dia com ela.

Os dois voltavam da última entrega do dia, a Sra. Darbus teve novamente um problema com o videocassete que comprou, Andy não entendia por que a senhora ainda insistia em usar equipamentos eletrônicos uma vez que era bem óbvio que ela não tinha a mínima capacidade de como lidar com eles.

— Mas que droga de estação é essa? Só tem música ruim. — A ruiva reclamou mexendo no rádio.
— É a breeze FM. — Andy respondeu. — Meu carro, meu gosto musical.
— Parece nome de rádio de gente velha. E esse não é seu carro.
De fato não era, o logo "Riley's" estampado do lado de fora do carro deixava isso bem claro, mas Andy passava tanto tempo naquele carro que sentia que ele era parte seu também.
— Que seja, eu trabalho aqui há mais tempo que você.
— Você sabe que nenhum dos seus argumentos estão fazendo sentido, não é? — Queen deu um sorriso cínico, seus dedos brincando com um cubo mágico.

Queen procurou outra estação, ele nem se deu ao trabalho de reclamar mais. Logo a voz rouca de algum homem, o locutor, que aparentava ter fumado muito na vida dele diga-se de passagem, surgiu no rádio. Uma guitarra abafada podia ser ouvida ao fundo da sua voz.
— Que porcaria é essa?
— The pipe FM, vulgo música boa.
Logo "Rock'n roll night club" do Mac Demarco começou a tocar. Andy nem percebeu que tamborilava a melodia no guidão do carro. Nada mal.
— Sabe, essa música me lembra de um dia que fui ver uma banda tocar no farol.
— Que farol? — A ruiva perguntou interessada, de repente o cubo mágico em suas mãos não tinha mais interesse. Sua atenção agora toda no loiro. Isso era estranho.
— Hã…o antigo farol, faz uns anos que ele não existe mais.
— Me leve até lá. — A afirmação parecia mais uma ordem.
— Mas por que assim do nada? Eu tô cansado, a gente tem que voltar pro Riley e-
— Agora! — Queen avançou para o acento de Andy tentando pegar o guidão. O loiro freou bruscamente.
— Você tá louca?! Que porra foi essa?
— Me leva pra lá!
Andy a encarou sem reação. Podia sentir a urgência na voz e a ansiedade na expressão da ruiva, aquilo era muito diferente da Queen que estava acostumado. Andy resmungou mas resolveu obedece-la, meu deus qual era o problema dessa garota?
Alguns minutos depois e já chegaram na colina do farol.
— Chegamos.

Andy abriu a porta do carro e viu que Queen já estava do lado de fora, a luz avermelhada do pôr do sol sob eles. Não havia nada naquele lugar além de árvores e alguns destroços do antigo farol.
— Me fale sobre esse lugar.
Aquela situação toda era muito estranha, ainda mais naquele lugar abandonado, um calafrio percorreu seu corpo. Coçou o queixo, puxou em sua memória lembranças sobre o lugar.
— Bem…esse era o lugar onde costumava ficar o antigo farol da praia. Ele era bem grande e todo branco, era bem antigo mas com a desativação do porto da praia de baixo acabou sendo deixado de lado também. Ficou abandonado um longo período até finalmente decidirem derruba-lo. É uma pena, eu gostava muito de brincar nele quando criança.

Queen andava em direção onde estaria o antigo farol, alguns pequenos destroços ainda lá. O vento gelado do início da noite a fez estremecer. Andy a observava, totalmente imerso naquele mistério, mas o que afinal ela queria saber tanto sobre o lugar?

Ela parecia tão focada em observar cada detalhe daquele local abandonado que parecia nem se importar (ou notar) o olhar fixo de Andy nela, a seguindo a cada pequeno passo que dava. A ruiva parecia um fantasma vagando no meio daquela paisagem de fim de tarde, o cabelo voando...uma cena quase etérea.

Por mais que conhece cada dia mais um pouco sobre Queen, ela ainda era um mistério para ele. Em todos os sentidos.

— Pode ir.
Hã?
— Você não vai voltar?- Na verdade, o que queria dizer é "você não vai voltar comigo e dizer que droga foi essa?"
— Eu volto sozinha.
— Não, você me arrastou até aqui. Agora tem que me falar ao menos porque!
— Isso é algo pessoal meu.
— Pessoal nada, você quase me fez bater o carro e agora fica com essa frescura?
— Não é da sua conta.
Andy fechou os punhos irritado, ela tirava ele do sério de um jeito as vezes...Parece até que ela faz de propósito; afasta as pessoas.
— Nunca é, nunca é de ninguém. Por isso que você é assim; sozinha!
— Eu consigo lidar com isso. — Deu de ombros, na defensiva.

Andy resmungou de raiva, falou alguns palavrões, deu partida no carro e foi embora. Se ela quer tanto ficar sozinha, então fique!

Quando viu que Andy foi embora, Queen tirou o cartão postal do bolso. "Então esse é o lugar" Queen pensava. Era triste ver que toda aquela imponência e beleza que vira no cartão não existiam mais. Será que Sasha esteve aqui?

Sim.

Cada vez se sentia mais próxima dele. Podia imagina-lo encostado na parede amarelada e desgastada do antigo farol, contemplando a vista noturna do mar com seu cigarro. Tossiu um pouco. Tinha dado uma tragada muito forte.

Queen encostou em um poste solitário ao lado de onde estaria o Sasha imaginário. Ficou pensando em todas as coisas que queria falar para ele e não conseguiu. No meio da conversa ela pediria para ele seu isqueiro prateado e ele a olharia surpreso vendo que sua pequena agora fumava também, mas logo voltariam a conversar novamente. A cena era tão possível que parecia até real.

Mas não era.

Queen se deu conta disso quando tocou o poste e sentiu apenas o metal gelado. Não era o tecido xadrez aquecido pela pele que o vestia que esperava tocar.

Não era, até porque seria impossível.