O Rei da Praia
6 Capítulo 6
Caminhando tranquilamente pelas ruas de Sunleth, Jeremy voltava para casa cheio de sacolas do mercado em ambas as mãos. Tudo parecia normal até começar a ouvir passos atrás dele, eles eram constantes e não mudavam de direção. Pareciam o seguir.
“De novo não” O garoto pensou. Apressou o passo, os de trás também ficaram mais rápidos. Ele queria largar todas aquelas sacolas e começar a correr, mas sabia que não iria adiantar, nada adiantaria.
De repente, ele sente um empurrão em seu ombro, fazendo-o cair em um dos becos que cruzavam a rua. Jeremy olha para cima e não se surpreende com os três rostos que o encaram de volta, ele sabia que só podia ser eles.
“Kevin e seus dois cones” como ele gostava de pensar, afinal eles não faziam nada a não ser ficarem parados e repetir o que Kevin mandava.
— Olha só o que temos aqui, pelo visto não vamos ter que esperar até a volta as aulas para matar a saudade, não é Jeremy? – Disse Kevin. Passando por Jeremy até fica na sua frente.
Jeremy olhou os três meninos na sua frente e os ignorou, levantando com suas sacolas e andando, tentando sair o mais rápido daquele lugar mas foi empurrado para um beco sem saída por um forte puxão em seu braço.
— Ele estava falando com você marica. – Disse o cone nº1 com sua voz esganiçada.
— Me deixa em paz!
— Uh-oh, que intimidador! Talvez devesse aprender mais a se defender com seu irmão mais velho. – Os meninos se aproximaram, Jeremy se sentia cada vez mais encurralado já que era menor que os três.
— Ah, eu esqueci! Nem ele te aguentou e te abandonou não é?
Uma mistura de sensações desagradáveis corriam pelo corpo de Jeremy, seus pulsos se fecharem e começarem a tremer. Baixou a cabeça e resolveu encarar o chão, afinal não sabia como rebater aquilo e uma parte de si sabia que o que Kevin acabou de dizer tinha um fundo de verdade.
Esperando que tudo aquilo acabasse logo ele ficou em silêncio e fitou o chão de cimento, quem sabe assim iria passar mais rápido. Ele encarava o tom cinza do concreto, dos jeans surrados dos cones, a sombra do punho de um dos garotos prestes a machuca-lo, tudo era tão cinza...
— Jeremy?! – Uma voz conhecida fez o garoto erguer a cabeça e as cores voltarem de volta a seu mundo; o céu azul sob sua cabeça, o vermelho intenso daqueles fios de cabelo...
— Queen...?
— A que nível você chegou para uma menina vir te socorrer? Você não tem vergonha na sua cara? – Debochou Kevin.
— Eu acho que o único que não tem vergonha na cara aqui é você. Suma logo antes que você leve um esporro de uma menina.
— Você acha que eu me sentiria ameaçado por uma garota?
Queen arqueou as sobrancelhas e sorriu de maneira perversa, como se tivesse sido desafiada. Se aproximou dos meninos com passos firmes e lentos até finalmente estar próxima o suficiente para encarar o garoto nos olhos. Aqueles olhos verdes exóticos e belos mas que faziam Kevin se sentir desconfortável pelo simples modo como o encaravam.
— Pois deveria. – A ruiva estalou o pescoço, dando um susto em Kevin. O garoto se afastou e fez um sinal para os outros cones o seguirem também.
— Isso não vai ficar assim Jeremy! – E assim o trio sumiu.
A ruiva observava eles fugindo,pensando no que acabou de acontecer. Jeremy, o garoto gentil com a vida aparentemente tranquila tinha também seus problemas.
Ele parecia um tanto sem jeito após toda a comoção, seu olhar inquieto mostrava que ele estava desconfortável. Se ele não quisesse comentar sobre o ocorrido não seria Queen que o pressionaria, vendo o silêncio do garoto ela se preparava para ir embora até que o moreno perguntou:
— Como você soube o que estava acontecendo?
— Eu não sabia, só estava de passagem quando ouvi sua voz.
Queen estranhou o comportamento e a voz frágil de Jeremy, quando o conheceu ele parecia aquele tipo de pessoa que possuía um tipo de confiança natural, que se dava bem consigo mesmo e todos. Mas agora ele parecia tão perdido e pequeno.
— O que foi isso que você fez?
— A sabia arte de intimidar.
— Você realmente ia bater neles? – perguntou surpreso.
— Não iria bater em pirralhos, apesar de eles merecerem uma surra, mas isso a vida dá de sobra depois.
— Ah, daí entra a “arte de intimidar”, certo?
— Garoto esperto.
— Queen, obrigado por sua ajuda mas não precisava ter se incomodado comigo.
O sorriso gentil e seguro do Jeremy que ela conhecia surgiu novamente, apesar de poder notar que ele estava um tanto forçado. "Ele deve ser do tipo que não gosta de preocupar as pessoas" ela pensou. Não querendo se intrometer demais, a ruiva deu de ombros.
— Tudo bem então.
— Ah, antes de você ir. – Jeremy remexeu sua sacola de compras. – Aqui. – Uma embalagem dourada surgiu em suas mãos.
— O que é isso?
— Uma barra de chocolate oras.
— Mas porque você esta me dando ela?
— Porque me deu vontade... Não sei...e você me ajudou! – Jeremy riu, a ruiva parecia ter sido pega de surpresa pela situação. – Que tipo de pergunta é essa?
— Ah, obrigada.
— De nada, você é meio complicada demais às vezes. – Jeremy parou a fala um momento, como se ponderasse algo, logo continuou: — Deve ser difícil...
— O que?
— Ser nova na cidade...você veio com alguém pelo menos?
— Não. — Cruzou os braços. — Mas isso não me incomoda.
Jeremy abriu a boca para falar mas a fechou, parecia um pouco preocupado, coçou o queixo e olhou para Queen.
— Se precisar de alguma coisa, estou aqui ok?
A própria Queen se espantou com o quanto aquele ato havia surpreendido ela, talvez isso fosse porque ela já estava acostumada a esperar o pior das pessoas. Mas Jeremy era diferente, o tipo de pessoa que se preocupa genuinamente, até com estranhos.
Por algum motivo Queen sentia que qualquer que fosse o atrito que houvesse entre Jeremy e aqueles garotos não era culpa dele. Jeremy construía pontes e não as queimava.
De repente, Queen se lembrou do motivo de estar andando pelas ruas.
— Na verdade você pode me ajudar sim, humm...Jeremy, por acaso você sabe de algum lugar que tem alguma vaga de emprego? Um bico?
— Pode ser qualquer coisa?
— Sim, nada especifico.
— Soube que estão precisando de um ajudante na loja do Riley. – Jeremy levantou as sacolas de condimentos que carregava, uma delas com o logo de um circuito sorridente, embaixo via-se escrito "Riley's — a sua assistência técnica".
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