Uma pálida luz entrava no pequeno cômodo em que Queen dormia. Percebendo a invasão luminosa a ruiva abriu os olhos mas logo se arrependeu.

— Ugh, preciso comprar logo uma cortina.

Com o sono interrompido, Queen se levantou e verificou o despertador; 11:23 da manha, já era hora de começar o dia.

Caminhou até a cozinha ajeitando a longa camiseta masculina que usava como pijama, não era de nenhum conhecido, ela a comprou pois achava roupas do sexo oposto mais práticas e confortáveis, ao contrário dos pijamas apertados e com rendas que costumava ganhar.

— Hmm... — Queen perambulava pelo estreito corredor de sua cozinha enquanto decidia se iria tomar café da manha ou almoçaria. Já era quase meio dia afinal, resolve optar por almoço pra economizar nas refeições.

Já faziam alguns dias desde sua chegada a Sunleth, apesar do inicio perturbado as coisas começavam a fluir mais calmamente. As pessoas lá eram gentis e hospitaleiras (tirando um jovem loiro...), além do que poder escutar as ondas do mar de seu chalé era uma das sensações mais agradáveis que poderia ter. Achava até bom que aquele lugar não fosse muito habitado, perderia todo seu charme tranquilo e natural.

"Talvez fosse isso que ele mais gostava aqui. " pensou.

Depois de arrumar a louça do almoço Queen partiu para o destino planejado de hoje, o local estampado no cartão postal que trouxe consigo; Um imponente farol de praia.

A primeira e única pista que tinha para leva-la até ele; Sasha. O único motivo de ela ter saído de sua pacata vida em Chicago para esse fim de mundo paradisíaco.

Mas a busca não foi tão fácil com esperava.

Já caminhando pela praia não via nenhum sinal do farol, não é como se fosse algo que passaria despercebido da sua visão, certo? Queen observou o cartão em sua mão, as letras estampadas na imagem registravam claramente que aquele cartão era de Sunleth, porém não havia sinal do farol, era impossível que algo daquele porte passasse despercebido.

Com os pés já clamando por descanso após a longa caminhada, Queen sucumbiu ao cansaço e deitou na areia fria por conta do dia nublado. Deixando sua mente perambular pelo que devia fazer em seguida, tirou um cigarro de seu bolso, queria relaxar um pouco. Estava tão distraída que nem viu quando um frisbee vinha em sua direção, acertando sua cabeça em cheio.

— Mas que mer...- Massageou sua cabeça, Queen a sentia latejar mas a sensação passou rapidamente.

— Moça, me desculpe! — Um menino distante gritava enquanto corria em sua direção com uma feição preocupada, um pastor alemão o acompanhava correndo alegremente ao seu lado.

— Esta tudo bem, garoto. — Queen deu um suspiro e se levantou afirmando seu bem estado. — Só tome mais cuidado. — Ela estendeu o frisbee para ele.

— Me desculpe mesmo, o Taz é meio lento às vezes. — Comentou sorrindo, olhando carinhosamente para o cão. — Já está um pouco velho, sabe como é.

Queen apenas assentiu com a cabeça. Antes de desviar a atenção do garoto e voltar ao seu querido descanso, algo lhe chamou a atenção. Os olhos amendoados do menino na sua frente eram extremamente familiares.

O garoto voltou a brincar com o cachorro, Queen o fitava enquanto vasculhava em sua memória porque o garoto despertava essa familiaridade mas não encontrou nada.

O menino não aparentava ultrapassar mais dos 14 anos, suas bochechas ainda eram um tanto salientes por sua idade mas o traço forte do maxilar já começa a aparecer, trazendo traços mais maduros ao rosto do garoto. Aquela confusão toda que é ser um adolescente.

Ele era magro e tinha a mesma altura que Queen mas tinha certeza que no futuro a ultrapassaria. Os olhos amendoados chegando ao tom mel contrastavam com as madeixas escuras e lisas, quase pretas, que preenchiam toda sua cabeça.

Ele definitivamente lembrava alguém, Queen só não conseguia lembrar quem.

Queen observava o garoto e o cão enquanto brincavam, Taz corria atrás do frisbee com determinação e o trazia entre os dentes com orgulho até seu dono. A cena a lembrou de quando brincava com seu primeiro e único cachorro, seu nome era Marley, apesar de seu jeito atrapalhado, nada impedia a diversão dos dois.

— Quer jogar também?

O garoto estendeu o frisbee na direção da ruiva, ele a olhava de maneira compreensiva como se soubesse o que estava passando na cabeça dela poucos momentos atrás.

— Não...tô bem. — Ela abanou a mão afastando a ideia.

— Sério? Porque pelo jeito que você estava encarando a gente acho que você estava com muita vontade de jogar...

Ela até que realmente estava.

— Quer saber, vamos lá... hã...

— Jeremy. — Respondeu a dúvida de Queen antes que pudesse questiona-lo.

— Já vou avisando que não sou muito boa com frisbees, deveria saber pelo menos meu nome antes de eu joga-lo no meio do mar. — Ela deu um sorriso irônico. — Sou Queen.

Era engraçado como o fato de ele ter aqueles olhos familiares tornava tudo mais fácil e agradável. Se fosse outra pessoa provavelmente já teria se afastado, seu jeito introvertido não atraia muitas pessoas também. Não é como se ela fizesse questão disso de qualquer jeito.

Mas tinha algo naqueles olhos, no jeito amigável e sereno de Jeremy que a cativaram quase que instantaneamente, ele era o tipo de pessoa com esse raro charme. Provavelmente causava esse efeito nos outros também.

As mãos pálidas da garota arremessaram o disco, Taz nem esperou o disco cair para ir atrás dele. Porem no meio da correria afobada, o cão grunhiu e parou abruptamente. Queen e Jeremy notando que havia algo errado correram em direção ao cão.

— O que foi, Taz?! — O garoto começou a tatear o cão vendo se havia algo errado, quando tocou sua pata direita o cão fraquejou. — É a pata dele, acho que pisou em algo...- Os olhos amendoados exploraram o arredor. — Um pedaço de metal.- o objeto pontiagudo metálico e sujo de sangue reluzia afundado na pata fofa de Taz.

— Lixo na praia... Quando vão aprender? — A ruiva fez uma cara de desgosto, odiava aquele habito que a maioria das pessoas tinham.- Esse metal está enferrujado...

— Droga, é melhor eu leva-lo até o veterinário para tirar isso e aplicar algo anti-tétano.

Apesar de ter sugerido a ideia, carregar um pastor alemão com a pata machucada não parecia ser uma das opções mais viáveis, vendo isso Queen olhou confusa para o garoto.

— Você não pretende realmente levar ele no colo até lá.

— Eu podia chamar alguém mas não quero deixa-lo sozinho, afinal ele não consegue andar. -De repente o rosto do garoto se iluminou. — A não ser que você fosse chamar alguém para mim...?

Queen olhou para o garoto com o cachorro choramingando manchando a areia com pequenas gotas vermelhas, a cena toda era suplicante, apesar de querer voltar logo a sua busca do farol fantasma, não podia deixa-los sozinhos.

— Tudo bem, onde vou encontrar nosso herói? – Suspirou cansada já imaginando que aquilo ocuparia seu dia e que provavelmente sua busca ao farol ficaria para o dia seguinte. Mas sabia que nem Jeremy e Taz mereciam ficar aqui sozinhos.

— Obrigado! Preciso que vá à casa de um amigo meu, ele mora aqui por perto e tem um carro, vai poder nos ajudar.

— Qual o endereço dele?

Jeremy deu as instruções enquanto Queen tentava memoriza-las o máximo possível, era um trajeto de aproximadamente 10 minutos até a casa do dito cujo. Só no meio do caminho percebeu que Jeremy havia esquecido de lhe contar o nome do seu amigo. Tando faz, descobriria quando chegar.

A ruiva se distanciou da praia e não demorou pra chegar na casa amarela nº 206 que Jeremy falou. Ela bateu impaciente na porta de madeira pintada de branco desgastada pelo clima litorâneo.

A porta abriu dando lugar a um jovem esbelto com olhos azuis vestindo somente uma bermuda xadrez cinza, o cabelo dourado totalmente bagunçado, parecia ter acabado de acordar.

Não era possível.

— Você! — Exclamaram em uníssono.

— O que esta fazendo aqui? Como conseguiu meu endereço sua psicótica!? — Confusão e surpresa se misturavam na expressão de Andy, a voz ainda um tanto rouca de sono.

Ela achou que tinha se superado dormindo até as 11h mas Uau. Eram 15h e cá está esse garoto.

— Acredite, eu não esperava essa situação tanto como você e...calma ai você me chamou de que? – Se aproximou de Andy apontando o dedo de forma ameaçadora para o rosto do loiro.

—Ei,ei não precisa ficar irritada, retiro o que disse agora abaixa essa mão. — Disse Andy tentando acalmar Queen. Mal a conhecia mas sabia que irrita-lá normalmente não levava as coisas a rumos muito bons. — Agora pode explicar essa visita...improvável.

Queen explicou tudo o que havia ocorrido, só foi mencionar o nome de Jeremy que Andy pareceu mais disposto a ajudar. Sim, Jeremy não causava aquela sensação cativante só nela.

— Bem, o que estamos esperando então? Vamos! — Andy pegou a chave do carro e fechou a porta da casa.

— Você vai assim até lá? — Queen deu um sorriso irônico apontando para Andy, ele só vestia uma bermuda de pijama, Andy deu um resmungo e foi se trocar, estava preocupado com Taz e Jeremy que nem percebeu que estava de pijama.

Queen esperou do lado de fora até Andy aparecer de novo, agora com uma calça jeans e uma camiseta branca e larga, com um nome de alguma banda no meio.

— Vamos?

— Espera ai, meu dever era só te avisar agora você cuida lá do Jeremy, eu vou embora, tenho que resolver outras coisas. — Queen disse de forma indiferente.

—Qual é? Foi sua culpa Taz ter se machucado e Jeremy está esperando nós dois.

Falando daquele jeito, deixar Jeremy a sua espera parecia ser o errado a se fazer. Queen deu um suspiro e se juntou a Andy, que ligava o Ford Mustang em frente a casa. Apesar de estar obviamente um tanto judiado e nem chegar perto de seus dias de glória, ainda era um carro que dava orgulho e atraia olhares curiosos.

— Nada mal. — A ruiva admitiu.

— Ah, o Gregory?

Ah não, ele era um daqueles caras que dava nome para o carro.

— Dá pra acreditar que essa belezura estava abandonada no ferro velho? Só podia estar esperando por mim. — Pela expressão confiante de Andy dava pra ver que aquele carro era seu orgulho.

— Gregory, sério? — Queen deu um sorriso debochado.

— É, mas pode chamar ele Greg. — Andy respondeu não notando a ironia de Queen. — Vamos logo com isso.

XXX

— Andy!- Jeremy sorriu aliviado ao ver o amigo estacionar o carro e correr em sua direção.

— Ele consegue andar? — Andy apontou para o cão angustiado.

— Não, acho que tem um pedaço de metal ainda preso na pata dele.

— Tudo bem, eu o carrego até o carro.

Andy carregou Taz até seu carro, colocando-o no banco traseiro junto com Jeremy. Queen observava a cena incerta de qual era seu papel ali.

— Bem, acho que já fiz minha parte. — Queen se debruçou pela janela e acariciou a cabeça de Taz. — Vai ficar tudo bem com ele Jeremy, não se preocupe.

— Obrigado Queen. — Jeremy agradeceu.

Andy estranhou a situação, não sabia que aquela garota gelo era capaz de mostrar simpatia para alguém.

O estrondo de um trovão iluminou o céu, dando sinal que uma forte chuva se aproximava, pequenas gotas de água começaram a cair em um ritmo crescente.

— Espere! — Jeremy sinalizou para Andy não dar partida no carro. – Queen vem com a gente! Se você pegar essa chuva vai ficar doente e vou me sentir culpado. — Pediu o moreno com sua voz gentil. Meu deus, ele era realmente um adolescente?

— Mas...

— Andy te leva até em casa depois! — Interrompeu.

— Ei! Acho que isso é algo que o dono da gasolina deveria decidir! — Andy interviu porém foi ignorado.

— Ele é um bom motorista. — Completou Jeremy.

— Mas é claro que...- Andy começou mas foi Interrompido e ignorado, de novo.

— Se você faz questão. — Queen entrou no carro abrindo a porta sem cerimônias. Andy podia jurar que uma parte daquela decisão dela era só para provoca-lo. Mesmo depois da suposta “trégua” dos dois, não importava a situação parecia que a provocação imperava toda vez que se encontravam, quase instintiva de tão natural. Andy bufou e deu partida no carro, finalmente ao veterinário.

XXX

A parada no veterinário não demorou muito, extraíram o pedaço de metal da pata de Taz, felizmente o corte não era muito fundo mas requer seus cuidados, a doutora receitou uma pomada que Jeremy prometeu aplica-la no Taz durante os próximos 7 dias. Além disso, o cão tomou uma vacina anti-tétano, parecia calmo diante da situação, o que facilitou as coisas.

Uma hora depois, Andy já havia deixado Jeremy em sua casa. Queen estava no banco passageiro de Andy, a conversa monossilábica dos dois consistia em Queen guiando Andy até seu chalé.

— Então...Você tem algum animal de estimação também? — Andy perguntou na sua tentativa de quebrar o silêncio incomodo dentro do mustang.

— Não, faz só um mês que me mudei. — Respondeu enquanto fitava a paisagem através do vidro cheio de gotículas de chuva.

— Falando nisso, eu nunca soube de onde você veio, onde você morava antes? — Continuou a conversa, mas sempre com rosto focado na rua molhada a frente.

— Chicago.

“Nossa, ela realmente não se esforçava para manter uma conversa; curta e direta” pensou o garoto irritado. Chicago... Já havia visto muitos filmes que se passaram lá, parece uma cidade muito interessante e agitada.

— Por que saiu de lá? — Perguntou curioso.

Desta vez a ruiva parou de encarar a janela e voltou seu rosto para Andy. Ugh, perguntas, perguntas, perguntas. Será que era só isso que ele sabia fazer?

— Acho que isso já não é da sua conta.

— Nossa... — Andy lançou um olhar desaprovador em sua direção. — Só estou tentando manter uma conversa aqui e ser uma pessoa legal, ao contrário de você.

Queen olhou inexpressiva para Andy. Será que ele não entende que ela não quer se aproximar de ninguém aqui? Ela veio para esse fim de mundo por um único motivo e quando acabasse iria embora, não fazia questão de interagir com ninguém nesse período. Isso só complicaria as coisas.

Além do mais, ela nunca iria contar pra ninguém o motivo de sua vinda. Era pessoal demais, algo só entre ela e ele; o dono da caixa de sapato.

— Que seja. — Andy resmungou vendo que Queen permanecia em silêncio. — Pelo visto o único imune dessa sua apatia é o Jeremy.

— Onde você o conheceu?

Andy foi pego de surpresa pela perguntam, será que ela ficou com pena dele e resolveu conversar?

— O Jeremy? — Andy perguntou e a ruiva assentiu. — Bem, faz tempo. Assim como eu, o pequeno Jer sempre viveu aqui, mas me aproximei dele porque seu irmão mais velho era meu amigo...

Queen jurou ver uma expressão agridoce cruzar o rosto de Andy por um segundo, porém resolveu não comentar nada. Alguém aqui sabe respeitar a privacidade dos outros pelo menos.

Se Jeremy sempre morou aqui era estranho ela ter essa sensação familiar perto dele, mas resolveu ignorar, talvez sua mente estivesse lhe pregando peças.

— E você?

— Hoje mesmo, ele me deu boas vindas com um frisbee na cabeça. — Queen respondeu naturalmente.

— Como eu queria ter visto essa cena. — Andy deu sua primeira risada dentro do carro. — Apesar de que você é cabeça dura demais para ter se machucado. — Ariscou uma piada, mas a ruiva pareceu não ligar.

— Olha quem fala.

— Aposto que se fosse qualquer outro cara você teria traumatizado o coitado na hora.

Queen assentiu, aquilo era bem provável.

— Mas não era qualquer cara, era o Jeremy. Tem algo nele que cativa as pessoas, ele é um bom garoto... — Afirmou Andy, apesar das palavras gentis sua voz era um tanto melancólica.

— Acho que sim. — Respondeu apesar de não saber muito bem onde ele queria chegar com aquilo.

Ambos ficaram em silêncio depois, a atmosfera mudou. Queen sentiu que estavam entrando em um assunto estranho, o silêncio seguido só confirmava sua teoria. Pelo visto ela não era a única que possuía segredos em Sunleth.

Notas finais
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