Cinzas e ossos, misturados num amontoado que diminuía a cada sopro do vento partindo do leste, julgando pela direção da fraca fumaça prestes a se extinguir. No solo, as marcas das rodas, dos cascos e do lixo deixados para trás pelos traficantes de escravos, que tinham partido ainda durante a noite. Já estava amanhecendo. A grande fogueira tinha sido apagada com mais cuidado e não fora abandonada como o cadáver do emberlano, que só se rendeu diante da morte. Gabriel entendia isso e era fácil perceber, dada a maneira como fitava os restos mortais numa mistura de admiração e pesar.

-Heler…

-Oi… — respondeu a jovem desolada ao seu lado.

-Quem são os emberlanos de Nova Emberlyn? – indagou com a voz fraca.

-Um povo que foi escravizado pelo grande reino de Calendria. – disse igualmente debilitada – Eles não tem direito a nada. São considerados a escória do mundo.

-Hum… E quem são os emberlanos para você?

Como se tivesse despertado de um longo sono, Heler arregalou os olhos e o encarou. Viu naquelas orbes esverdeadas, perdidas nas cinzas do escravo abatido, uma indignação quase palpável.

-Um povo injustiçado. – disse, ainda o encarando – Calendria roubou tudo deles e não os deixam viver em paz. – continuou em tom de desabafo – Acusam os emberlanos de conspirarem a favor da Escuridão do Sul, mas isso é mentira! Eu sei que é!

-O Kar… ele me disse que o Rei Negro marchou contra Calendria, junto com um exército de rebeldes. E aquele homem, Arim, disse que esse… — fez uma pausa. Não era como se estivesse buscando a palavra certa, mas sim relutando em dizê-la – escravo… estava repetindo algumas coisas durante a viagem. Uma delas era o nome desse rei rebelde, Gabriel Eichen. Um tirano que dizimou toda uma família real e não poupou a própria mãe.

-Isso não é verdade! – protestou.

-Foi o que ele me disse. – e se voltou para ela, finalmente a encarando – Como sabe que não é verdade?

-Porque eu conheci o rei Gabriel.

O rapaz franziu o cenho em surpresa e deu um passo adiante, ficando mais próximo.

-Como assim, Heler?

-Eu o conheci. – reafirmou, levando a mão até o pescoço e segurando um colar – Há vinte anos, a vila foi atacada por um grupo de emberlanos. Eles incendiaram casas, a taverna, espancaram meu pai e nos sequestraram, porém, Gabriel chegou, ordenou que nos libertassem e reconstruíssem tudo o que tinham destruído.

Os olhos de Heler se encheram de tristeza quando se lembrou do fatídico dia em que os soldados Calendrinos brindaram pela morte de Eichen. A dor de perder sua mãe tinha sido incomensurável e sequer teve tempo para se recuperar. Dois choques em um curto intervalo de tempo, deixando cicatrizes profundas.

-O Kar não falou sobre isso. Bom, não é como se a gente tivesse convivido o bastante para que ele falasse…

-A Liz e ele não moravam na vila nessa época. De qualquer forma, precisa acreditar em mim. – apelou, segurando no braço dele – O rei Gabriel era um bom homem.

-Bom ou não, só a menção do nome dele já é bastante problemática e me força a usar um nome falso. De qualquer forma, precisamos voltar e buscar ajuda para a Liz. Vem, vou te carregar.

-De jeito nenhum, Gabriel!

-Tral… — corrigiu o rapaz com firmeza, apesar de estar fraco.

-De jeito nenhum, T-r-a-l. – repetiu ela, irônica – Vou mancando, que se foda.

-Vamos levar o triplo do tempo assim! – reclamou ele, cada vez mais impaciente.

-Ou não vamos chegar de jeito nenhum, quando você desmaiar e eu não conseguir te carregar! – retrucou feroz.

-Deixa de ser teimosa, Heler! – bradou Gabriel, fazendo saltar uma veia na têmpora.

-Teimosa porra nenhuma! Sensata! Se você cair feito uma jaca no chão, o que eu vou fazer? Hein? – replicou tão irritada quanto, ao ponto de ficar vermelha – Não pode deixar que eu me apoie em você e vá mancando?

-Não temos tempo! E se a Liz morrer? Isso não pode acontecer! Não pode, porra! Aquele monstro! Aqueles olhos! Os emberlanos…

Ele parou de falar quando Heler acertou um tapa em cheio no seu rosto e o segurou na altura das bochechas, o sacudindo. A jovem viu o olhar perdido dele e a escuridão se apossando daquele tom de verde tão bonito, como se a noite começasse a cobrir uma floresta inteira.

-Volta pra mim! Volta pra mim, Gabriel! Hey! – o chamou e o sacudiu ainda mais – Me escuta, você não está sozinho.

Foi como se tivesse despertado de um pesadelo e agora pudesse, enfim, compreender a realidade que os cercava. O desespero se apagou do seu rosto e a sanidade finalmente retornara.

-Desculpe por isso. – disse, segurando as mãos dela e sorrindo de maneira confiante – Agradeceria se não contasse a ninguém que me comportei de uma forma tão vergonhosa.

Heler sorriu e cruzou os braços, arqueando uma sobrancelha.

-Depende de você, é só não me irritar e fazer o que eu mando.

-Mas é claro, rainha Heler.

-Hum… — fingiu pensar, colocando o indicador no canto dos lábios – Rainha não. Que tal… grande guerreira?

Gabriel riu e respondeu enquanto puxava o braço dela ao redor dos próprios ombros para ajudá-la a caminhar:

-É, combina mais com você.

O sol ficava cada vez mais forte sobre as cabeças deles, mas depois de tudo pelo que passaram nas últimas horas, esse era o menor dos problemas. Aliás, o calor era até bem-vindo para compensar o frio da noite e também aquele que se abateu sobre seus espíritos. Ambos tinham muito em que pensar, muitas perguntas sem respostas, mas pareciam concordar, através dos risos e das brincadeiras, que de nada adiantaria buscar respostas naquela situação.

-Estou te falando, eu arrebentei a cara dele, aí a namoradinha veio defender.

-E arrebentou ela também? – indagou o rapaz.

-Óbvio! Para que aprendam a nunca mais jogar pedras na casa da tia Lurirta. Ela já está velhinha, não pode passar por isso.

-Que coisa feia isso que você fez… — disse e Heler franziu o cenho na mesma hora – Deveria ter batido mais.

A garota riu, dando um soquinho na região das costelas do maior. Em seguida, viu que a estrada já estava perto e que, vindo do Sul, um pequeno grupo de seis pessoas se aproximava, juntos a uma carroça puxada por dois cavalos marrons. Uma dessas pessoas era um senhor baixinho e bigodudo, que Gabriel não tardou a reconhecer como sendo o pai de Heler e que, ao ver a filha, correu em sua direção, até abraçá-la com força.

-Papai… papai… devagar, vai esmagar meus ossos… — disse ela meio sufocada.

-Meu pedaço de céu, onde você se meteu? Quer me matar do coração?! – questionou choroso.

-Tá tudo bem, calma… — tentou ela, numa mistura de cansaço e alívio.

Embora pálido e enfraquecido pela fome, Gabriel sorriu ao ver pai e filha juntos, sobretudo depois de tudo o que tinha acontecido. Então, um homem desceu da carroça e se aproximou dele, atraindo sua atenção. Eram quase da mesma altura, porém o sujeito tinha, talvez, o dobro da sua idade, de cabelos curtos, grisalhos, pequenos olhos castanhos, barba rala e a julgar pelas linhas em sua testa, soava bastante carrancudo. Amarrado na calça preta estava um cinto repleto de bugigangas e dois saquinhos que quando balançavam, causavam sons metálicos típicos de moedas.

-Você é o Tral? – questionou o sujeito em tom seco.

-É, sou eu. – respondeu o rapaz, sustentando o olhar firme que lhe era dirigido.

-Como se atreve a meter Heler nos seus problemas?

-Tá vendo alguma corda nela? Não a raptei. – replicou com acidez – E quem é você?

-Sou Nicolas e se você falar assim de novo, vai perder alguns dentes. – ameaçou.

-Adoraria te ver tentar. – reagiu o rapaz, começando a caminhar em direção ao outro.

Heitor, ainda apoiando a filha que não parecia se preocupar com o desentendimento entre Gabriel e Nicolas, colocou a mão livre no peito do mais velho e, calmamente, lhe disse:

-Já chega, meu amigo. Esse rapaz não fez nada de errado e até está trabalhando para mim, junto com o cabeça dura do Kar. Vamos, eles precisam voltar e se alimentar. Ah, filha, onde está o Cascudo?

Gabriel, que até então ainda encarava Nicolas, voltou sua atenção para Heler e viu aquela já conhecida expressão de tristeza. Se lembrou no mesmo instante do terror que viveram na Mata Morta e se perguntou como explicaria aquilo, se é que dava para explicar.

-O Cascudo morreu. – respondeu a garota – Vamos, papai. Depois eu conto tudo. Torci o tornozelo, então vai ter que me ajudar.

-Ah, claro, claro. – concordou o taverneiro que, embora estranhando a notícia, se ofereceu para ajudá-la a andar.

Quando a noite chegou e as várias tochas foram acesas na Vila dos Farrapos, ouviu-se mais barulho do que o normal na taverna. Cerca de dez soldados calendrinos bebiam em três mesas juntas. Dos mais jovens aos mais velhos, todos pareciam se conhecer, assim como estavam familiarizados com o local. Gabriel, que tinha esvaziado três tigelas de frango e arroz preparadas por Heitor, contra duas de Heler, ajudava a trazer os barris para abastecer todos aqueles clientes, já que não podia andar livremente enquanto os visitantes não partissem. “Se eles te estranharem, será o fim, então é melhor esperarmos”, tinha aconselhado a jovem, que se propôs a ir até a casa de Kar e contar tudo o que tinha acontecido. Isso já faz três horas, onde ela se meteu? Questionava-se em pensamento.

-Psiu! Ei! – chamou alguém discretamente.

O rapaz descansou um barril no chão da cozinha, amarrou melhor a atadura na perna e olhou para a porta dos fundos entreaberta, onde apenas o rosto pintadinho de Heler aparecia. Quando foi até o quintal, se surpreendeu ao ver que Kar também estava ali, usando roupas muito parecidas com as que ele tinha vestido nos últimos dias, pois agora trajava uma calça menor e tão apertada quanto a camisa cinza, que pertenciam a Heron e há muito tempo não eram usadas, a julgar pelo cheiro pouco agradável.

-E aí! – cumprimentou Kar, visivelmente sem jeito.

-Fala. – respondeu Gabriel naturalmente.

-Eu disse pra ele tudo o que aconteceu. – começou Heler, olhando de um para o outro.

-Como tá a Liz?

-Na mesma, inconsciente e amarrada. – dizer isso foi realmente incômodo para Kar e era visível em seu rosto.

-Amarrada?

-É, eu disse que a gente deveria amarrar ela para que não aconteça o mesmo que aconteceu à senhora Lirdina. – explicou a jovem – O Kar não queria.

-Óbvio que não. Quem iria querer amarrar a própria irmã em uma cama? Mas eu sei que é pelo bem dela e de todos. – admitiu meio resmungão e, então, com certa relutância, ele olhou para o outro rapaz e suspirou – Desculpa por tudo o que eu te disse, cara.

-Não esquenta com isso, você só estava protegendo sua irmã.

-Awn, que fofo o casal se reconciliando… — debochou Heler.

-Não fode! – retrucou Kar – Mas e agora, o que vamos fazer? Aquela bruxa velha disse algo sobre Erilla, não?

-Quem é Erilla? – perscrutou Gabriel, lembrando-se do momento em que a bruxa pronunciou aquele nome na cabana, embora na ocasião estivesse irritado demais para ligar.

-É ninguém menos que a rainha dos elfos do reino de Aurora. – contou Kar casualmente – E Aurora está a vários quilômetros daqui, então…

-Espera! Espera! Espera! – interrompeu o outro, bastante confuso – Elfos? Existem elfos nesse mundo?

-Ahn… sim… — afirmou, olhando dele para Heler e vice-versa – No seu não?

-Claro que não! Bom, só nos livros e filmes…

-Filmes? – estranharam Heler e Kar ao mesmo tempo.

-É como o teatro, só que… bom, isso não importa agora. Onde fica esse tal reino de Aurora?

-Perto das Cordilheiras do Oeste, ao Norte daqui. A cavalo, levaria três ou quatro dias para chegarmos lá se aproveitarmos a Estrada da Aliança. Porém, levando em conta os contratempos, como o exército de Calendria, talvez tenhamos que seguir pela floresta. – explicou Kar.

-Não podemos levar a Liz em um cavalo. – observou Heler com preocupação – Nas condições dela, seria perigoso demais.

-O Nicolas tá na vila, ele bem que poderia nos ajudar. – sugeriu Kar.

-Sim, se a gente rechear os bolsos dele. – proferiu a garota com sarcasmo – O que me lembra, você não deveria estar reunindo o dinheiro do Jake?

-Eu… Bom, é que…

-É que nada! Sabe o que vai acontecer se não pagar aquele cretino.

-O seu pai bem que poderia nos dar um adiantamento, né? Quero dizer, eu sei que ele já ajudou muito, mas isso é caso de vida ou morte.

-Você é um…

-Heler… — intrometeu-se Gabriel – Se o senhor Heitor tem essa quantia e não vai fazer falta no momento, por favor, peça a ele. Não podemos colocar obstáculos, quando já temos tantos. Eu me comprometi com Jake a pagar essa dívida, mas agora o mais importante é salvar a Liz desse mal. Prometo que quando voltarmos, vou trabalhar dobrado para compensar.

Vencida, a jovem esvaziou os pulmões e encolheu os ombros, encarando a ambos com seriedade.

-Concordo. Mas os dois vão trabalhar dobrado quando a gente voltar e se fizerem corpo mole, encho um por um de porrada.

Kar jogou o braço ao redor dos ombros de Gabriel e o puxou para perto, sorrindo de um jeito que irritou a garota.

-Não se preocupe, minha querida amiga. Esse forasteiro aqui e eu seremos seus servos quando tudo acabar. – e bagunçou os cabelos lisos e curtos dele ao esfregar com a outra mão várias vezes.

-Assim que os soldados saírem, vou falar com o meu pai e pedir o dinheiro para pagar a dívida. Tenho um pouco guardado, acho que vai servir para garantir nossa viagem com o senhor Nicolas. Já volto!

Quando Heler voltou para dentro da taverna, Kar soltou Gabriel e logo o olhou nos olhos, agora mais sério.

-Obrigado por ter ficado pela minha irmã, cara. Sei que não deve ter sido fácil.

-Difícil seria viver como um covarde. – proferiu arqueando uma sobrancelha – Vamos tirar a Liz dessa, pagar nossa dívida com a Heler e o senhor Heitor, para só então pensar no que fazer depois.

-Como assim “pensar”? Não é meio óbvio?! Teremos que descobrir uma forma de você voltar para o seu mundo.

Entretanto, uma expressão de amargura tomou conta das feições de Gabriel, que tinha voltado à cena da tortura do emberlano. Aquilo tinha penetrado sua mente como um afiado prego.

-Sei lá, Kar… — ele olhou para as estrelas no céu, se lembrando que não conseguia vê-las na Terra, na cidade onde morava – Tem uma coisa me incomodando. Talvez seja só um delírio ou algo assim. Eu só… não estou com pressa de voltar para casa. É doido isso, né? Afinal, o mundo de vocês é extremamente perigoso. – e forçou um riso fraco.

-Pra falar a verdade, é muito perigoso. Por isso não entendo o que te leva a querer passar mais tempo aqui, ainda mais se a gente levar em conta o seu nome. Dá arrepios só de pensar o que muitos fariam contigo se descobrissem.

-Eu… vi um escravo emberlano sendo torturado até a morte, não sei se a Heler te contou.

-Contou. – disse Kar, cruzando os braços e os segurando com ambas as mãos, enquanto fitava o rapaz absorto com a visão do céu.

-Eu nunca tinha visto um absurdo tão grande. Aquele desgraçado chicoteava o emberlano com tanta força que chegava a ficar cansado, mas não parava. Só que… aquele escravo… ele se recusava a ceder, se recusava a pedir misericórdia. E no fim, mesmo diante da morte, ele exaltou seu reino, seu povo… — contou cheio de admiração.

-Mas Nova Emberlyn agora voltou a ser apenas a Cidade Sombria… — comentou Kar, cabisbaixo.

Gabriel, porém, continuava olhando para cima.

-É… mas nenhum mal dura para sempre.

Ao ouvir aquilo, o jovem de cabelos longos, presos num rabo-de-cavalo, ergueu a cabeça e fitou o estrangeiro, contemplando a expressão sonhadora em seu rosto, cujos olhos verdes, mais escuros pela pouca luz da tocha presa na parede externa da taverna, pareciam enxergar algo realmente distante e… bonito.


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