Notas iniciais
Esse capítulo é um ponto de virada. Vamos lá!

O silêncio no barraco da bruxa se fez presente durante um curto espaço de tempo. Tanto Gabriel, quanto e, principalmente, Heler, estavam perplexos com o que acabavam de presenciar. Então, o rapaz soltou a mão da garota, se aproximou cautelosamente, pé ante pé, fixando seus olhos sobre o corpo de Lirdina, até ouvir algo pingando no chão de madeira. O sangue dela escorria pela mesa, manchando as joias e harmonizando com as velas vermelhas, cujo apagar misterioso se somava a uma vastidão de perguntas. Morreu de olhos abertos… e eles estão pretos, constatou em pensamento ao se esforçar para ver melhor, pois a luz de fora não era tão eficiente.

-Gabriel… — chamou Heler.

-Eu sei que você tem muitas perguntas, mas agora não é o momento de…

-Não é isso! A gente precisa sair daqui… agora! – advertiu a garota, olhando em uma direção do lado de fora.

Ele foi depressa até a jovem e quando conferiu, perdeu o fôlego. Uma matilha de lobos cinzentos se aproximava e sem tempo para se ater aos detalhes, ambos correram até o cavalo.

-Vai, Heler! Rápido!

-Esse maldito nó! Droga!

Gabriel apanhou um galho grosso e acertou um dos lobos que saltara na direção deles. Foi quando percebeu, antes do animal ser arremessado, um fraco brilho arroxeado em seus olhos.

Invaldarah!

-O que foi isso? – quis saber Heler.

-Não importa agora! Vai mais rápido! – exasperou-se.

-Pronto! Vem! Vem! – exclamou ela, já montando.

O rapaz praticamente se jogou sobre o cavalo, agarrando-se na sela com toda a força e vacilando um pouco quando arrancaram. Outra vez estavam a toda velocidade que Cascudo conseguia, principalmente porque o animal parecia perturbado com alguma coisa, relinchando várias vezes. Os rosnados estavam perto e ao olhar para trás, Gabriel viu que qualquer mínimo erro poderia lhes custar caro, uma vez que a matilha corria a pouco mais de um metro deles. Também pôde perceber grandes ferimentos em todos eles, fosse por parte da mandíbula rasgada, algumas patas no puro osso ou as vísceras balançando do lado de fora da barriga.

-São zumbis! – disse ele em alta voz.

-O que?

-Mortos-vivos! Esses animais estão mortos, só que alguma coisa está controlando eles. Os olhos estão roxos.

-Deve ser por isso que o Cascudo está com tanto medo. – constatou ela, se debruçando sobre o animal para lhe falar – Vamos, bonitão! Você consegue! Não vamos deixar que te façam mal.

Um dos lobos já corria ao lado deles, ao passo em que Gabriel tomou a faca artesanal da cintura de Heler e o encarou enfurecido.

-Vem! Vem, seu filho da puta! – afrontou entredentes.

Contudo, o lobo não saltou no rapaz e sim na perna traseira de Cascudo, que relinchou alto.

-NÃO! – berrou Gabriel transtornado.

O cavalo ainda cavalgou alguns metros, porém tombou e arremessou os jovens para fora da linha que separa a Mata Morta da floresta. Ao lado de ambos, os corpos inertes dos lobos mortos que também atravessaram. Junto ao som de carne sendo rasgada, rosnados e o horrível relinchar de Cascudo que sucumbia diante das feras, estava também os gritos desesperados de Heler que se precipitou para fazer algo, mas foi agarrada por Gabriel, que a abraçou por trás e não a deixou se arriscar.

-Me solta!

-Não posso! Se você for até lá, vai morrer!

E ela ainda se debateu um pouco mais, até cair vencida de joelhos e chorar desconsolada. Quando se deu conta de que a garota finalmente tinha aceitado que não havia como impedir a tragédia, ele começou a andar em círculos e a esfregar os cabelos, visivelmente atordoado e sem saber o que fazer ou pensar. Olhou outra vez para a cena horrível no interior da Mata Morta e aquilo o transtornou, para o que em seguida se abaixou sobre um dos lobos mortos do lado da floresta e começou a desferir inúmeros golpes de faca em seu corpo, gritando:

-Merda! Merda! Caralho! Seu filho da puta! Filho da puta! Porra! – e se levantando, foi até o limite da floresta e encarou os lobos, que não se atreviam a atravessar, mas o encaravam de volta com o mesmo ódio.

Gabriel apanhou os lobos mortos pelas patas, jogando um por um contra os outros dentro daquele lugar horrível. Acabou acertando dois deles, mas para o seu desgosto, estes não demoraram a se levantar.

Pouco tempo depois, Heler sentiria as mãos do rapaz a segurando na altura das costelas para ajudá-la a se erguer. Estava cheia de arranhões no rosto, nos braços e ao firmar o pé esquerdo, sentiu uma dor intensa.

-Parece que torceu o tornozelo. – verificou ele, então se abaixou na frente dela – Sobe, vou te carregar.

-Ainda tem um longo caminho, sabia? – retrucou com a voz fraca e rouca.

-É, tem mesmo. Então não vamos perder tempo nesse inferno, o senhor Heitor já deve estar bem preocupado.

Heler se debruçou sobre as costas de Gabriel e jogou os braços ao redor do peito dele, que segurou em suas pernas e, por fim, se levantou.

Diferentemente do tempo que levaram para atravessar o longo e acidentado trecho da floresta na vinda, estavam levando quase o triplo na volta. Em vários momentos, Gabriel precisou descer a garota para descansar e limpar o suor em seu rosto, até desistir de vestir a camisa amarela cedida por Kar e amarrá-la à cintura.

-Está acostumado a trabalhar pesado. – comentou Heler com a voz fraca, outra vez sobre as costas dele, despejando os braços ao redor do seu pescoço.

-Um homem que não tem família precisa aprender a se virar. Não posso me dar o luxo de esperar que alguém faça algo por mim, nunca pude. – disse ele francamente.

-Hum. Eu até tentaria perguntar mais sobre você, mas não sei se estou preparada para saber.

Ele ficou em silêncio, continuando a caminhar e a desviar de um amontoado de espinhos com uma atenção que cresceu após sofrer alguns arranhões no tornozelo direito cinco minutos atrás, algo que só não foi pior por causa da calça, também emprestada por Kar.

-Eu estou? – tentou Heler.

-Está o que? – se esquivou Gabriel com a mesma destreza com a qual caminhava.

-Preparada para saber…

-Saber o que?

-Não se faça de idiota! – irritou-se a garota, cujos olhos estavam um pouco inchados depois de prantear por Cascudo.

-Como vou saber? Você é você. – respondeu seco.

-Me desce.

-O que?

-Me desce agora!

-Mas o sol vai se por daqui a pouco e não temos sequer uma tocha. Não podemos perder tempo aqui…

-Agora! – exigiu Heler, dando um tapa forte nas costas do rapaz que cerrou os dentes e a colocou com certo cuidado no chão.

-O que você quer, Heler? – questionou zangado.

A jovem esticou a perna cujo tornozelo estava lesionado e dobrou a outra, jogando o braço sobre o joelho para só então encarar o maior. Suas feições deixavam claro sua determinação e Gabriel percebeu, para o seu desgosto, que não conseguiriam sair dali se não desse a ela o que queria…

-Eu quero a verdade, Gabriel. Esse é o seu verdadeiro nome, né?

-Sim. – respondeu ele sem pestanejar.

-E seu sobrenome?

-Fernandes.

-Está mentindo! – protestou a jovem, semicerrando os olhos castanhos e deixando as linhas ao redor do buço mais acentuadas, como um animal feroz.

-Eu não sou daqui, não pertenço a esse lugar e por uma infeliz coincidência, tenho o mesmo nome daquele que vocês chamam de Rei Negro.

-Pare de mentir pra mim! – vociferou Heler.

-Eu não estou mentindo, porra! – esbravejou Gabriel – Você ouviu o que aquela bruxa falou! Viu o que ela fez! Viu o que havia do outro lado daquele portal!

-E também ouvi ela te chamar de Gabriel Eichen. Não Fernandes, Eichen!

-Mas isso não quer dizer nada!

-Então todo o resto também não quer dizer nada! Ou só vale aquilo que te convém?

-Eu não sou a porra de um tirano assassino! – replicou o rapaz, batendo forte com o lado do punho no tronco de uma árvore – Ou você acha que eu sou? Enxerga um monstro quando olha pra mim? Um assassino que tentou matar a Liz, é isso?

-Eu não…

-Eu não queria estar aqui! – bradou, ainda alterado – Nunca pedi para estar nesse mundo, mas agora não posso ir embora! Não posso ir depois do que eu fiz ou jamais poderei me olhar no espelho de novo. Machuquei uma garota inocente e não sei explicar como aquela merda aconteceu, mas aconteceu e pronto. Agora eu preciso desfazer, encontrar uma solução, sei lá.

-Eu sei que você não tentou matar a Liz. – disse a garota, dessa vez mais calma – E eu…

-A gente só se conhece há um dia. – cortou ele, impaciente, porém também com a voz mais baixa – E eu sei que tudo em mim é suspeito. De repente, surge um cara dizendo coisas estranhas, metido em situações sinistras e uma bruxa velha o chama pelo mesmo nome de um tirano que dizimou uma família real inteira, sem poupar nem mesmo as crianças. Puta que pariu… Que insanidade. No seu lugar, eu falaria pra ele se foder. Só que tudo isso, todo esse absurdo é a mais pura verdade, Heler. Meu nome é Gabriel Fernandes, eu vim de outro mundo e o Kar me encontrou na floresta. Não eram roupas de teatro, eram as minhas roupas. Eu… — suspirou – Estou completamente perdido.

Houve um instante de silêncio, até que ela finalmente ergueu a mão para que ele a ajudasse a se levantar. Heler se apoiou no braço dele e o encarou de uma forma que Gabriel não soube decifrar, exceto por um forte vestígio de tristeza em algum lugar daqueles olhos castanhos.

-Sim, tudo em você é suspeito. Mas se estiver falando a verdade, então significa que vai precisar de muita ajuda. Eastgreen é um lugar hostil e um forasteiro que não sabe de nada só vai acabar morrendo se ficar sozinho. – ela crispou os lábios, desviando o olhar.

-Você foi a única que acreditou em mim quando mais precisei. Obrigado, Heler.

-Tá, chega de melação, se abaixa aí pra eu montar em você. – disse mandona.

Gabriel riu e se abaixou tal como antes, erguendo-se com ela novamente em suas costas.

Já era noite quando finalmente encontraram o limite da floresta, o que significava que a estrada estava perto. A vegetação não os permitiria criar atalhos em direção ao sul, logo só lhes restara percorrer o mesmo caminho de quando vieram. Entretanto, o rapaz notou uma luz bruxuleando perto de algumas árvores e passou a caminhar com mais cuidado, ao passo em que a jovem também já tinha percebido algo de estranho ali.

-Traficantes de escravos. – constatou ela baixinho.

-Escravos? – indagou perplexo.

-Da Cidade Sombria. Aposto que aqueles vagões com grades estão cheios de emberlanos.

Gabriel sacudiu a cabeça, tentando afastar várias perguntas que julgou desnecessárias para o momento.

-Podemos contornar.

-Nada disso, idiota. Você já está no seu limite. – protestou Heler.

-Do que está falando? Chega, vamos.

-Já falei que não. Você está tremendo, suando muito e suas pernas estão muito arranhadas.

-Isso aqui não é nada, para!

-Por que você é tão cabeça dura? Consegue ser pior do que o Kar. Tudo o que eu tenho é uma faca muito da improvisada. Esses caras devem estar armados até os dentes, fora que nem você, nem eu somos espadachins. Isso sem falar que eu já contei sete deles e, com certeza, deve ter bem mais. Entende, cacete!

-Não podemos esperar aqui, é perigoso. Se o seu pai vier junto com o pessoal da vila, vão acabar em problemas. Além do mais, eu tenho alguma noção de esgrima.

-A noção de um cara que está machucado, cansado e desarmado, por melhor que seja, é inútil agora. – jogou a verdade nele sem misericórdia, que claramente não gostou nada e torceu o nariz – Vamos ter que esperar… me põe no chão.

Embora a contragosto, Gabriel fez o que Heler mandou, sentindo o corpo inteiro formigar por causa de todo o esforço que tinha feito nas últimas horas. Agradeceu internamente por levar uma vida bem ativa, do contrário, jamais conseguiria ter chegado aonde chegaram naquelas condições. Foi quando finalmente se deu conta do cheiro de comida, das gargalhadas e dos berros de vários homens em volta da luz bruxuleante, que se revelou como sendo de uma fogueira grande e alta, usada para assar vários pedaços de carne. Seu estômago gritou. Não ter se alimentado desde o jantar da última noite na casa de Kar finalmente havia se mostrado um grande erro.

-Cadê a porra do sal? Já deveriam ter colocado.

-Vou colocar no seu rabo, seu merdinha. Se quer temperado, pega aqui dentro da minha calça.

Gabriel olhou na hora para Heler, mas se surpreendeu por pouco ao constatar que ela parecia indiferente ao linguajar daqueles homens. Então, ele viu claramente um deles se aproximando das primeiras árvores, onde estava um dos vagões. O sujeito usava um amassado e arranhado peitoral de aço, era ruivo, por volta de um metro e setenta, cabelo e barba desgranhados, levando na cintura uma espada.

-Você! É, você, o idiota que estava falando besteiras lá atrás. – acusou o ruivo, apontando através da cela do vagão – Venha já aqui!

Ele abriu a cela e um rapaz, pouco mais velho que Gabriel, desceu com as mãos para trás e amarradas por uma corda. Usava apenas remendos de panos encardidos que cobriam suas partes íntimas, alto e esbelto, de cabelos castanhos que recaíam sobre seu rosto como os galhos de um salgueiro.

-Encosta a cabeça no vagão! – ordenou o sujeito, tirando da cintura, do lado oposto ao qual estava a espada, um chicote de tiras.

-O que ele vai fazer? Não me diga que… — Gabriel, de olhos arregalados, fez menção de se levantar, mas Heler se jogou sobre o corpo dele e lhe deu uma chave de braço.

-Quieto! Fala baixo! O que está fazendo? – murmurou numa mistura de preocupação e indignação.

-Quantas esse aqui merece? – gritou o sujeito para os comparsas perto da fogueira.

-Cinquenta!

-Dá logo umas cem nesse emberlano de merda!

As respostas vinham acompanhadas de desprezo e deboche, banhadas por um riso que embrulhava os estômagos dos jovens escondidos.

-Cem chicotadas, rapaz. – sentenciou próximo ao ouvido do outro, que já estava com a testa encostada no vagão – Para que reflita sobre as merdas que estava dizendo.

O ruivo ergueu o chicote no alto, fazendo as tiras balançarem, refletidas nos olhos verdes de Gabriel que, boquiaberto, não se movia e nem tentava escapar de Heler. Então veio o primeiro impacto, um estalo e o gemido seco de dor do rapaz, que não condizia com a força da chicotada, suficiente para arranhar a derme. Na segunda vez, a mesma coisa, um pequeno grunhido e nada mais, mesmo que mais arranhões tivessem surgido. Na terceira e na quarta, pequenos filetes de sangue também decoraram suas costas. Gritos puderam ser ouvidos dentro de alguns vagões, contudo o ruivo vociferou:

-Calem a boca! Ou os próximos serão vocês! – e se calaram.

Na décima chicotada, um pequeno pedaço de carne se agarrou nas tiras do chicote, porém se soltou na décima primeira agressão. Gemidos curtos, urros quase imperceptíveis e as pernas firmes, mantendo o escravizado de pé. Na décima terceira, seus braços, que estavam para trás, foram atingidos e tremeram, mas só isso. Heler chorava baixinho, tapando a boca com a mão livre, enquanto ainda agarrava o pescoço de Gabriel com o outro braço, mas sem forçar e já não conseguiria, mesmo se quisesse. E os olhos verdes, arregalados e inquietos, assistiam aquilo com absoluta perplexidade, enquanto seu corpo estremecia como se fosse ele a ser chicoteado.

A vigésima primeira vez abriu a tez, um cubinho banhado de sangue que ficou pendurado, cercado por várias linhas de ferimentos difíceis de se olhar. Os estalos pareciam acompanhar o crepitar das chamas, porém nem de longe seriam agradáveis de se ouvir. Lágrimas caíram sobre a nuca de Gabriel, que só aí olhou Heler de soslaio e viu aquela expressão chorosa de novo, como se tivessem voltado ao local onde Cascudo fora devorado. A dor dela era quase palpável, mas a do outro rapaz se mostrava difícil de compreender. Por que ele não pede perdão? Por que não grita? Por que não implora? Essas perguntas giravam em sua mente, que a todo instante era invadida pelo som da próxima chicotada e, durante um segundo, se anuviava.

-Seu filho da puta teimoso! – ofegou o ruivo, suando após quarenta e sete chicotadas – Para um emberlano, até que você tem coragem, eu admito. – e o acertou, puxando as tiras que ficaram presas na carne – Só que essa não é a verdadeira natureza de vocês, é? Se curvando a um tirano, conspirando com a Escuridão do Sul. Não há coragem em traidores, há? Hein? – e o acertou de novo.

Grite! Grite de uma vez! Pode ser que ele pare! Grite! Apelava Gabriel em pensamento, esmurrando o chão de terra.

-Coloca mais força nisso aí, Arim! Até meu filho caçula bate mais forte.

-Vai se foder… — retrucou Arim, o ruivo, esfregando o suor da testa com o antebraço cuja mão estava livre – Noventa… e… sete!

Estampido. Já não havia uma única parte intacta nas costas do emberlano, que tinha caído de joelho por duas vezes durante o castigo, mas sempre se erguia e tornava a encostar a cabeça no vagão.

-Noventa e oito, porra!

Heler escondia o rosto na curva entre o pescoço e o ombro de um atordoado Gabriel, que sequer piscava. Seus punhos estavam tão feridos quanto os tornozelos.

-Noventa e nove, seus bastardos! – gritou Arim e os demais ergueram seus copos cheios, rindo e comemorando.

-Por Calendria! – gritaram vários deles.

-Por Calendria… — murmurou com a voz fraca, outra vez com o chicote no alto, tal como fizera da primeira vez.

-Por…. – várias vezes mais debilitado, o rapaz encontrou forças aonde não tinha e se esforçou para que os vagões mais próximos escutassem.

Ali, escondido, observando, Gabriel também conseguiu ouvir.

-Por… Nova… Emberlyn!

Cerrando os dentes em fúria, Arim o girou pelo ombro violentamente e desferiu a última chicotada direto no rosto do emberlano, dessa vez o derrubando no chão.

-Me escuta, seu monte de merda! – rosnou o ruivo, largando o chicote e puxando o rapaz pelos braços de maneira que pudesse falar perto do seu rosto ferido, ensanguentado e sem um dos olhos – E escutem todos vocês! Não existe Nova Emberlyn! Suas terras não são suas, são nossas! O lugar de vocês é em Valtara, como os monstros que são! Você passou a viagem toda repetindo sobre Emberlyn, sobre Gabriel Eichen, Magaroth e liberdade. O “Sol da Liberdade”? É isso que você quer?

Arim o largou, foi depressa até a fogueira, incendiou um pedaço de madeira e apanhou uma garrafa.

-Minha bebida! – reclamou o sujeito que outrora debochou, usando o filho caçula como exemplo.

-Vai se foder, Maron! Esse aqui não pode ser consertado. – justificou-se enquanto voltava ao rapaz caído – Vamos ver se vocês são esse tal “Sol da Liberdade”…

O homem começou a despejar a bebida sobre o corpo do emberlano, que mordeu o lábio inferior com força até ferir e urrou quando seus ferimentos foram atingidos. Só de olhar, qualquer um conseguiria imaginar uma fração da dor infernal que o álcool estava infligindo em todas aquelas feridas abertas.

-Brilhe, sol! Brilhe! – gargalhou Arim, jogando a madeira em chamas sobre o jovem amarrado que começou a se debater e a gritar durante longos segundos.

Gabriel viu aquela pessoa repleta de determinação se desfazer pouco a pouco em meio as chamas. E, em choque, só conseguia assistir, imóvel e impotente, enquanto alguém perecia sem se render. Sem… rendição.


Notas finais
Quem estava, de fato, acorrentado? Você tentaria intervir? Aproveito para ressaltar que não pretendo parar com a história. Na verdade, estou vários capítulos adiantado, contudo, críticas e sugestões são bem-vindas. No mais, obrigado!