O Rei Está Morto
1 Único
O Rei Está Morto
O fogo estatelava na lareira espessa, queimando a madeira já inóspita devido à combustão insistente. E, apesar de todo fogo, de toda roupa, de todo o conforto, ainda sentia seus ossos tremerem de frio. Concluiu, por fim, que estava então com algum tipo de saudades — dessas saudades que esfriam o peito e calam a alma, por fazer o corpo ansiar algo inexistente.
Ouviu baterem na porta. Murmurou qualquer conjunto de palavras indicando que poderia, sim, quem quer que fosse, entrar.
— Nadmum está aqui para vê-lo, Majestade — Atri anunciou após empurrar a pesada porta de madeira, permitindo o cavaleiro entrar. O som do palmilhar contínuo não lhe causou mais sensações do que o fechar do quarto.
Já era tempo de Nadmum vir aos seus aposentos pessoais, contar cada detalhe das batalhas que tanto amava, narrar das suas conquistas e explanar sobre as novas ampliações do reinado. Como sempre, já passava da hora dele vir descrever como cada decisão tomada fora feita em nome do reino e do Rei, justificando perdas e ganhos, enaltecendo todas suas ações dentro e fora do feudo. O cavaleiro, depois de semanas fora em nome da missão cristã, sempre voltava a cidadela principal e, sem mais delongas, se dirigia para onde quer que o Rei estivesse; o que normalmente acontecia de modo que ambos permanecessem sozinhos em certas dependências do castelo, uma vez que não havia porque incomodar a Rainha com todos aqueles assuntos complicados.
Ou no mínimo, era isso que todos pensavam que acontecia.
— Você voltou. — afirmou o Rei Johann, exausto. A espera e a ânsia, que tanto o fazia sentir frio, não pareceu acalmar depois de ver o amado cavaleiro armado a sua frente. Precisava tocá-lo. Sentir seus dedos firmarem nos cabelos oleosos e seus lábios se encontrarem com força até satisfazer-se.
O grande problema é que sequer via como é que poderia ficar satisfeito algum dia. Nunca ficara, para ser honesto. Nadmum aparecia, mexia com todas as suas dores e partia alguns dias depois. E não importava o quanto havia aproveitado — nunca era o suficiente.
Estava enlouquecendo, concluiu.
— Eu sempre volto — retrucou o cavaleiro. E era verdade, apesar de tudo. Nadmum sempre voltava, independente de quanto tempo depois ou de quanta guerra, ou de quanto cansaço. E ainda assim, ninguém suspeitava de nada. Johann nada tinha a reclamar sobre isso, uma vez que tinha pavor de encontrá-lo pecando contra tudo aquilo que tanto defendia.
Já aflito por tanta espera, o Rei preferiu sequer responder. Alcançou a armadura gelada e apressou-se a encontrar os lábios machucados, batendo os dentes com força antes de iniciar o beijo urgente. Correu as mãos pelos cabelos grossos e sentiu um confortável arrepio correr debaixo de suas pesadas roupas. Não percebeu, em momento algum, quando foi que Nadmum começara a tirar as de sua vestimenta, desde a armadura barulhenta até a malha de prata antes das vestes de linho grosso. Sentiu-se pateticamente atrasado, quase sufocado pela vontade de também se livrar dos diversos tecidos.
A cama, larga e soberbamente organizada, fora ocupada com o som abafado de beijos e toques afobados por entre as almofadas. Os lençóis se desorganizaram à medida que os corpos foram se encontrando, pouco a pouco, porém com extrema velocidade.
Os dígitos gélidos marcaram suas pernas, subindo pela panturrilha e apertando suas coxas largas, até alcançarem o seu umbigo; Nadmum sabia exatamente onde tocá-lo para fazê-lo sentir um estranho e autônomo calor, extinguindo todo o frio e qualquer possibilidade de saudades. Johann, no meio de tudo aquilo, não conseguia distinguir nenhum dos inúmeros sentimentos que lhe atormentavam.
De um lado, estava alegre por finalmente ter visto Nadmum e sua falta de sorrisos abertos; no entanto, sentia-se estranho por não conseguir se saciar com um simples trocar de toques, como se estivesse vulnerável a qualquer coisa para por algum fim em tudo aquilo. E a dor, ah, a dor de sentir a incontrolável magia queimando-lhe o peito e saber que aquilo não duraria mais do que o amanhecer.
Estava enlouquecendo, concluiu, e a culpa sequer era sua.
E foi no meio dos beijos molhados e dos gemidos densos, que o Rei Johann chegara a sua enorme e mais brilhante afirmação: aquilo tudo estava, sim, muito errado. Não poderia, de modo algum, ser apenas loucura sua.
Oh, não mesmo. Johann era o rei, era o nobre supremo, que dispunha de toda a verdade absoluta após as palavras de Deus e sua representação na Terra pelo clero. Clero, este, que sempre reconheceu todos aqueles atos abomináveis que tanto cometia como pecado, desses considerados imperdoáveis até mesmo para a família real. Pensou, então, em como cada uma das emoções que Nadmum o obrigava a sentir era diferente de tudo aquilo que já experimentara.
A relação entre Nadmum e Johann não era saudável. Não era aproveitável, muito menos inteligível. Não era natural.
Sim, não era natural! Como se tivessem lhe jogado uma praga. Algo parecido com certa hipnose, uma manipulação intensa, um feitiço. E se o cavaleiro era capaz de tal coisa, só poderia significar que Nadmum nada mais era do que um bruxo propriamente dito. Um ser demoníaco capaz de causar a maldade das maldades com alguém tão puro e tão próximo de Deus como um Rei. Só um bruxo seria capaz de impor as sensações mais estranhas, e as dores mais completas, e o prazer mais obsceno.
— E o que houve, Johann? — Nadmum perguntou, confuso, ao sentir o Rei sair ainda firme de dentro de si. Virou-se de frente, ofegante, os lábios impossibilitados de qualquer palavra a mais do que as já proferidas.
— De maneira alguma estou surpreso — O Rei iniciou sua explicação, procurando as roupas perdidas entre os lençóis e gordos travesseiros — És um bruxo, Nadmum. Desses que possuem o pior sangue. Tu és filho de cigana e compactua contra Deus e todos os seus divinos representantes na Terra.
E o sorriso, lotado de prazer e de poucas vergonhas, desmanchou-se até virar pó. Porque o cavaleiro sabia, que mais cedo ou mais tarde, Johann não conseguiria viver sem nenhum tipo de colapso. O Rei de nada entendia sobre o amor, ou qualquer uma de suas vertentes — era incapaz de grandes realizações nesse requisito. Nadmum nada mais poderia esperar de tal Rei.
Não se assustou quando, em um repente, Johann levantou-se nervoso, vestindo suas roupas mais apressado do que nunca antes com as mãos trêmulas, que fechavam os botões de ferro sem paciência devido à ansiedade intrínseca. Não se assustou quando o silêncio perdurou-se forte, carregado de sentimentos pesados, muito menos quando as vidrarias mais caras vieram ao chão, despedaçadas por um surto previsível de desespero.
Nadmum sabia o que viria a seguir. De nada adiantava se rebater ou inventar discursos persuasivos. Precisou concordar, afinal, que era bem mais fácil criar uma alternativa do que aceitar um amor errôneo em um feudo completamente autoritário. E o cavaleiro agradeceu a Deus, muito obrigado por ter me dado a oportunidade de conhecê-lo, mesmo que pelos caminhos mais errados.
Mesmo que precisasse ouvir inúmeras e inúmeras vezes da pessoa que tanto amava a invalidez de seus sentimentos mais puros. Mesmo que para isso, precisasse se passar de bruxo, de herege, de traidor. Mesmo que fosse vivo para fogueira no fim de tudo isso.
Porque Nadmum sabia que Johann o amava de tal jeito, que sequer sabia como coabitar com tamanha necessidade por outrem.
O Rei Johann não apareceu no Tribunal da Inquisição aquele dia. Não participou das assembléias que tanto gostava e não foi visto na Igreja em nenhum dia daquela semana — não fora visto, aliás, em nenhum lugar fora de seus aposentos pessoais. Quase não comera ou dormira, chegando até mesmo a preocupar a Rainha. E todo o povo entendia, claro, que toda melancolia era justificável uma vez que o Rei fora traído por seu melhor cavaleiro.
Ou no mínimo, era isso que todos pensavam que acontecia.
Porque, na realidade, Johann não conseguia se aguentar no meio de tanto frio e precisava de toda a proximidade possível do fogo. O frio vinha de dentro, como se começasse no seu baço e subisse para seu peito, entrando em cada um dos seus alvéolos, e o matava aos poucos, como se tirasse cada função existente de seu corpo.
No dia em que Nadmum fora condenado à fogueira, fora ainda pior. Todavia, o Rei saíra de casa a fim de assistir a execução do tal bruxo — não gostava da ideia de outras pessoas lhe contando como fora, apesar de ter pavor em pensar em todo o sofrimento pelo qual Nadmum passaria. Suspirou; o feitiço havia funcionado mais do que imaginara.
Nadmum foi preso à estaca por grossas correntes de metal pesado, cercado por madeiras de todos os formatos, gravetos e livros antigos que fazia apologia à heresia. O bruxo recebeu tapas, e pauladas, tomates e ovos podres nos cabelos oleosos. Quase nada vestia em um dos dias mais gelados de todo o inverno, além de pouco pano e imensos xingamentos.
E naquele inverno, não nevou.
A madeira queimou rápida, estatelando alto, e o fogo logo chegou ao centro da praça, inflamando a pele e a estaca, os cabelos e as páginas soltas. Os gritos estridentes do ex-cavaleiro chegaram aos ouvidos do Rei Johann no mesmo instante em que os pertences do condenado foram todos jogados à fogueira, por estarem contaminados com bruxaria.
Johann não conseguiu chorar. Odiou-se naquele instante até o último da sua vida por não ter conseguido trocar algumas últimas palavras com Nadmum, ou rever qualquer um dos seus conceitos antes de condená-lo bruxo que realmente era. Porque, agora, com o coração esfarelado e a visão embaçada, percebera que, talvez, não seria incômodo permanecer enfeitiçado por toda a vida.
E o arrependimento comeu-o de dentro para fora.
Estava enlouquecendo e, talvez, a culpa fosse sua, sim.
— Majestade! Para onde vais? — Atri perguntou, desesperado, seguindo os passos rápidos de Johann em direção a torre mais alta. Horas após a execução de Nadmum na praça pública, custou a encontrar onde raios o Rei estaria. Procurou em todos os aposentos que ele normalmente frequentava duas vezes, depois nos que menos era visto, para no fim chegar àqueles cômodos que sequer pensava existir. Achou sua Majestade nos estreitos corredores de uma das torres mais afastadas, antes de subir os inúmeros degraus. — Já estão terminando a execução! O povo precisa de seu rei!
— Cumprimentarei-os de cima — respondeu, aflito, sem conseguir encontrar palavras que justificassem qualquer um daqueles degraus imundos que subira.
De longe, conseguia ouvir já os gritos abafados dos seus tão amados plebeus, chamando-o pelo nome entre as preces "vida longa ao rei!". Atri gritou mais algumas vezes, mas Johann não escutava. Chegou até o último passo da grande escadaria e entrou em uma sala curta, escura feito breu. De lá, abriu a janela estreita.
Frente ao seu povo, acima dos gritos, Johann sorriu.
E então, deu um passo a frente no ar.
Fale com o autor