O Regresso do Desespero

5 The Answer is in the Stars!


Notas iniciais
Heey! ~ Então, gente, eu tenho uma dúvida que eu gostava que vocês respondessem nas vossas reviews. Eu estou pensando em fazer free time events, ou seja, capítulos especiais apenas para dar a conhecer um pouco mais sobre personagens específicas. Só que eu tenho um problema: Quais personagens vão receber esses capítulos? Minha primeira ideia foi de fazer esses capítulos depois de cada execução, com as personagens que morreram, como flashbacks. Só que aí algumas personagens (os sobreviventes) nunca vão receber capítulo. Aí eu pensei que vocês talvez gostassem de votar em quem recebe free time events. Só que o problema daí é que eu terei de fazer flashbacks enormes (imagina que o Isao morre nesse capítulo e que vocês querem que ele receba um capítulo para ele mesmo só daqui a 10 capítulos. Tenso, não?) e mesmo assim existirão personagens que não receberão essa "guloseima". Contudo, assim vocês têm detalhes sobre as personagens que vos interessam mesmo. Então eu gostava que vocês votassem: Preferem os free time events DEPOIS das mortes ou ANTES das mortes? No segundo caso, eles são escolhidos por votação de vocês, duas/três personagens a cada. Por favor digam vossa opinião!

Quando ele saiu, todos se mantiveram calados. Como se estivessem à espera que o urso regressasse e gritasse “pegadinha de primeiro de Abril!” ou algo assim. Pelo menos, era isso que EU esperava. Só que tal não aconteceu. Após uns minutos que pareceram durar horas, finalmente alguém quebrou o silêncio – só que não era como se eu desgostasse de como estávamos antes.

– C-COMO ASSIM? – Guinchou Kayo, levando a mão à cabeça e agarrando os cabelos como se estes fossem salvá-la – Não pode ser, não pode ser! ISSO NÃO PODE SER VERDADE, CERTO?

Outro grito fez-se ouvir, mas dessa vez a voz veio de Natasha, que cobria a cara com ambas as mãos e chorava compulsivamente, as lágrimas escorrendo pelos seus braços até eventualmente caírem ao chão.

– NÃO! NÃO! NÃO! ME RECUSO A PASSAR POR ISSO! ALGUÉM ME DIZ QUE É TUDO UM PESADELO, POR FAVOR! – As suas pernas pareceram ceder e ela acabou ficando de joelhos no chão, gemendo coisas incompreensíveis para si mesma.

– Estamos presos nesse lugar e… A única coisa que podemos fazer para escapar é ASSASSINANDO alguém? – Essa foi a vez de Chiyeko comentar alguma coisa. Parecia irritada, mas ao mesmo tempo, pasma, o seu rosto mudando de expressão constantemente, como se não conseguisse se decidir do que sentir – Que espécie… De loucura é essa…?

– Ah não, nem por sombras eu vou aceitar essa merda! – Exclamou Koji num tom acusatório – E quanto à polícia? As pessoas que estão aqui são quase todas relativamente famosas e importantes. É IMPOSSÍVEL que alguém não esteja tentando fazer alguma coisa para nos ajudar!

– Sim, tem razão. – Começou Akatsuki, num semblante sério. De todas as pessoas ali, ela era a que estava mais calma com a situação. Na verdade, parecia até um tanto entediada, como se aquilo acontecesse regularmente no seu dia-a-dia. – Mas tipo… Será qu’eles PODEM nos ajudar?

– C-como assim, “podem” nos ajudar? – A voz de Evan tremeu por uns momentos enquanto ele tentava manter uma expressão otimista da situação – H-Hey… Temos de ter esperança!

– Então, você também notou? – Começou Satoru, encarando o vazio enquanto parecia um pouco pensativo – Que esse lugar… Não é precisamente Hope’s Peak?

– Heeey, geeente! – Connor, após ter ultrapassado o seu choque inicial, voltou ao seu humor natural e… irritante. – Alguém pode me explicar como exatamente é que isso não seria Hope’s Peak? Porque eu vi o símbolo da escola em todo o lado! Até aqui nessa sala, tem o símbolo estampado no aquário e nas paredes!

– Certamente… Isso parece ser Hope’s Peak. O símbolo aparenta legítimo. – Começou Tsubomi, com uma expressão cansada. Além das razões normais, ela era a que tinha mais razões para não estar feliz ali, afinal, ela tinha sido nomeada representante da turma sem sequer querer. Me senti um pouco mal por ela, e um tanto culpado pelo meu voto. – Mas eu também já vi o interior da escola antes. E, definitivamente, esses estabelecimentos por aqui são bastante diferentes.

– Quer dizer que… Isso não é Hope’s Peak? – Perguntei, engolindo em seco. Apesar de tudo, isso faria sentido.

– Bom, é bem claro que isso NÃO deveria ser a academia. Afinal, esse seria o primeiro lugar onde todo o mundo nos procuraria, visto que ainda ontem estávamos todos entrando lá. – Concordou Teemu. – Só que… Esse símbolo da academia é bastante distinto e difícil de replicar. Eu entendo de símbolos e afins. Mesmo que alguém fosse ao site do próprio colégio pegá-lo… Ainda assim, não seria perfeito. Não tanto quanto esses que estão espalhados por aí.

– E esse lugar parece ter custado imenso dinheiro. – Acrescentou Kurama, num tom monocórdico – A pessoa que fez isso tudo tem de ser deveras influente… Mesmo que já houvesse algum prédio previamente construído, os custos de cuidar dele e mantê-lo assim desse jeito seriam elevadíssimos.

– Aiii, Takane está confusa! – Gemeu a Fashion Designer, encolhendo-se no sofá – Takane só queria saber se poderia voltar para a sua quente e acolhedora casa! Ver seus pais novamente…! Não importa onde estamos, de verdade, desde que haja uma escapató…

– Entender essa porcaria em que ‘tamos é o primeiro passo para sairmos daqui. – Cortou Akatsuki secamente – Mas a minha principal suspeita… É que a gente não ‘teja lidando com alguém, e sim com “alguéns”. Um grupo de pessoas influente p’ra caramba…

– Mas quem seria tão poderoso ao ponto de fazer uma coisa dessas? – Perguntei. A resposta não foi a que eu mais gostava de ouvir naquele momento, e também não veio de Akatsuki.

– Não é óbvio? – Disse Chiyeko com um sorriso sarcástico no rosto – Definitivamente, alguém como o clã Tsubomi… Ou talvez ainda um certo grupo de ativistas… Ou talvez isso seja tudo um esquema dos media para obter mais informações sobre gente famosa? O que interessa é que essa gente quer nos ver morta.

Cada frase da morena era uma facada em alguém ali presente, ou até mesmo em gente que não estava ali de todo. A sala caiu no silêncio novamente. A sensação de desconfiança cuidadosamente trazida pelas palavras da justiceira instalou-se no coração de cada um dos presentes até que Kayo decidiu voltar a falar.

– …Eu não acredito. – Disse, num tom sério – Eu me recuso a acreditar que qualquer pessoa aqui fizesse tal coisa. E que vantagens isso traria para eles? Porque é que fariam isso? Eu prefiro… Eu prefiro apenas assumir estão todos no mesmo patamar que eu. Por enquanto, pelo menos.

– Ela está correta! – Apressou-se Evan a concordar – Não importa o que aconteça, temos que ter fé. Fé em nossos amigos, e na polícia que com certeza será competente o suficiente para nos encontrar. Mesmo que isso não seja, realmente, Hope’s Peak Academy… Certamente algumas pistas foram deixadas e eles estão as seguindo nesse exato segundo.

– E, de facto, se eu quisesse realmente matar alguém daqui… – Começou Tsubomi, que depois sorriu docemente para Chiyeko – Oh, deixa para lá. Pormenores, pormenores.

Não era como se o pânico tivesse sumido. Não era como se subitamente tivéssemos ficado todos amigos uns dos outros e fôssemos sair da sala comum de mãos dadas, prontos a enfrentar os perigos que estivessem por vir. Mas, pelo menos, Kayo havia dado um jeito de suavizar a situação. Estávamos todos cansados, e certamente ninguém queria mais pensar nisso… Como se tivéssemos escolha.

– De qualquer jeito, já que me escolheram como delegada de turma… – Começou Tsubomi, o seu sorriso de segundos atrás sumindo instantaneamente, como se ele não tivesse passado de uma ilusão – Eu tenho algumas medidas a propor. Infelizmente, sou incapaz de vos obrigar a segui-las, mas acho que mesmo assim vale a pena dizê-las.

– Medidas de segurança, suponho? – Inquiriu Satoru que, ao ver a empresária acenando afirmativamente como resposta, suspirou. – Quais seriam essas suas ideias?

– Como ouvimos vindo do nosso próprio… Diretor…? Existe um período noturno durante o qual os nossos movimentos estão ainda mais restringidos, não é verdade? – Começou a morena – Então, a minha proposta é que tentemos nos manter nos nossos quartos durante esse mesmo período. Facilitaria muito mais a nossa segurança. É claro, aqueles que quebrarem essa “regra” não serão punidos, mas devem ter a noção que correm muito perigo ao fazê-lo, caso exista alguém cogitando um assassinato.

Não me senti minimamente confortável com a ideia de que aquela regra partia do pressuposto que alguém ali dentro já estava pensando em matar outro alguém só para fugir da escola. Contudo, era razoável. Recusá-la seria estúpido, pelo que não houve ninguém que o fizesse.

– Certo, então está combinado. Avisem os que não estão connosco presentes sobre o assunto, por favor.

– Já agora, eu também tenho uma ideia – Começou Teemu, que parecia estar se esforçando por manter uma expressão séria quando viu que todos os olhares caíam sobre ele de uma forma mais curiosa do que das outras vezes – Bom… Que tal se nos reunirmos todos os dias nessa sala logo de manhã? Ou até mesmo no refeitório, se bem que aqui fica mais prático. Seria como uma forma de… Verificarmos… Que nada aconteceu durante a noite. Só por precaução.

Mais uma vez, não houveram quaisquer críticas ao que foi dito, pelo que o silêncio ditou a aceitação dessa regra.

– Hmm, e tem mais uma coisa. – Começou Natasha, num tom tímido. Não, não era tímido, era só nervoso. Ela estava desconcertada desde o aparecimento de Monokuma e não parecia ter se acalmado muito ainda, provavelmente devido à sua natureza mais natural e impulsiva. – Eu lembro… Que Isao disse que na enfermaria os armários tinham todos chave. Não seria melhor se alguém cuidasse disso? Acho que a representante poderia tratar disso, não?

– Kimoto, pode me dizer uma coisa? – Tsubomi se virou para mim com seriedade – Eu lembro que você mencionou que haviam produtos perigosos lá dentro. Eles estavam misturados com os de cuidados médicos regulares?

– Ah, não. – Comecei, tentando me lembrar do que vira na enfermaria, apesar de ter passado maior parte daquele tempo mais preocupado com Atsuro que propriamente no local em si – Haviam alguns antidepressivos fortes e até mesmo alguns venenos, mas estavam em prateleiras completamente distintas dos outros. Acho que estavam bem assinalados, inclusive.

– Então, façamos assim: Eu guardo as chaves dos armários com os medicamentos “perigosos”, e as outras chaves ficarão na própria enfermaria, para o uso de quem necessitar. – Explicou Tsubomi – Tudo bem com isso?

– Mas é ÓBVIO que NÃO! – Protestou Chiyeko imediatamente, apontando o dedo acusadoramente para a empresária. – Estamos literalmente te dando acesso exclusivo a utensílios que podem ser usados para matar alguém! Como podemos confiar em você!?

– Takane também está preocupada! De que estão falando, mesmo?

– Mas não seria arriscado? – Comentou Kurama friamente – Com certeza, ela poderia se aproveitar disso, mas se assim fosse, seria descoberta imediatamente. Porque ela é a única que tem acesso àqueles materiais. E as regras são bem claras que o “vilão” não pode ser descoberto para sobreviver.

– Obrigada, Kurama. Mais alguma questão? – Perguntou Tsubomi numa expressão demasiado calma para ser verdadeira. Nem mesmo Takane, que sorria de forma que dava a perceber que não estivera entendendo nada dos últimos tópicos, fez-se ouvir dessa vez. – Então é tudo por enquanto.

E dito isto, cada aluno foi para o seu canto. Ninguém ficou com ninguém. Maior parte das pessoas simplesmente se trancou no seu quarto, pensando sobre tudo o que estava acontecendo – eu inclusive. De facto, a única palavra que descrevia com clareza os meus sentimentos naquele dia era “desespero”.

Quando o dia seguinte finalmente chegou, contudo, o ambiente já havia melhorado um pouco. A confiança entre as pessoas havia crescido um pouco mais e eram poucos os que decidiam continuar sozinhos. No nosso encontro matinal, Ichiro não apareceu, mas Kayo fez questão de explicar que, quando o encontrou, não conseguiu convencê-lo a participar das reuniões. Apesar de um pouco desagradada, Tsubomi não teve outra opção se não aceitar. O dia continuou o mais normal possível, tendo em conta as circunstâncias.

Estávamos a meio da tarde. O lugar mais agradável para mim, naquele momento, era a sala comum, onde outros alunos também estavam presentes. Kayo e Reiko conversavam animadamente sobre os peixes, enquanto no outro sofá Kurama e Natasha estavam tendo uma conversa aparentemente bem constrangedora sobre penteados. Constrangedora porque as respostas de Kurama eram quase sempre secas e curtas, deixando a estrangeira um pouco desconfortável enquanto tentava animadamente puxar assunto. Eventualmente, decidi aproximar-me da vlogger e do pescador, para não ficar sozinho o tempo todo.

– Hey… Como é que eles se alimentam? – Perguntou Kayo, cruzando os braços enquanto observava um peixe colorido passando na frente dos seus olhos azuis – Quero dizer, ali dentro não tem comida…

– Eu suponho que tenha um sistema automático que os alimente em horas específicas. – Respondeu Reiko – Eu mesmo tinha um sistema desses nos meus próprios aquários. Só que avariou e eu tinha de alimentá-los da forma “tradicional”.

– E essa coisa aqui? – Continuou a garota, apontando para o que parecia uma pequena porta no aquário – Para que serve?

– Yahooo! – Gritou Monokuma, aparecendo entre nós os três sem aviso prévio – Ainda bem que encontraram isso, porque eu esqueci de mencioná-lo ontem. Atsuro realmente tem razão, os peixes são alimentados automaticamente, só que o sistema de limpeza dessa coisa é um pouco precário.

A simples presença do urso ali relembrava-nos do pesadelo em que estávamos metidos. Não era definitivamente alguma coisa que queríamos encontrar naquele momento. Até Natasha e Kurama, que estavam à parte conversando, decidiram se juntar ao grupo devido à pelúcia.

– Você veio para nos atormentar ainda mais? – Perguntou Kurama, num tom frio e cortante. Ainda mais que o normal, na verdade.

– Não, não! Eu só vim vos explicar como é que isso funciona! Sabem, é que eu sou um ursinho distraído…

– Apresse-se. – Acrescentou Reiko, num já irritado.

– Aii, porque são tão rudes? E eu querendo apenas ser um diretor querido… Bom, de qualquer forma, como eu já tinha dito, esse aquário não tem um bom sistema de limpeza. É preciso que um de vocês cuide disso. Normalmente, a tarefa ficaria para a representante da turma… Mas ela parece já muito cansada e por isso decidi que outra pessoa tem de cuidar disso.

Ele esperou um pouco para que disséssemos alguma coisa. Só que ninguém abriu a boca, então ele continuou.

– Bom, a situação é simples: Vocês abrem esse compartimento aqui em baixo do aquário e clicam nesse botão. O aquário vai se esvaziar até metade, isso dura uns 2 minutos. Depois, com uma escada, vocês entram pela porta do aquário e limpam por dentro, mas cuidado para não pisar os peixes! Depois é só sair, fechar bem a porta e clicar no botão de novo para encher o aquário. Entendido?

– Isso parece um método bastante cansativo só para limpar um aquário. Não vamos molhar as nossas roupas todas ao entrar nesse pilar com água pela metade? – Perguntei, um tanto descrente.

– Bom, na arrecadação existem vários macacões impermeáveis. Se quiserem vesti-los antes de entrar ali, podem fazê-lo. Quanto a quem vai ter de fazer isso, acho que seria um trabalho digno de um SHSL Fisherman! Então, Atsuro Reiko, quem vai fazer isso é você. Beijinhos, beijinhos, meus amados alunos! Não se esqueçam de matar alguém para sair!

E, dito isto, o urso desapareceu. Kayo suspirou pesadamente.

– É só ele aparecer que parece que toda a minha felicidade é sugada… – Comentou, desanimada.

– E ele ainda me deu um trabalho… Que urso chato! Bom, pelo menos agora eu tenho mais que fazer além de andar por aí aleatoriamente sem fazer nada, suponho. – Comentou Reiko. – Não é como se eu pudesse tomar outros daqueles comprimidos e dormir a tarde inteira, visto que Tsubomi tem as chaves agora, hehe.

Ele deu uma risadinha, aparentemente tentando acalmar o ambiente. Não deu muito resultado, contudo. Logo Evan entrou na sala, vindo do seu quarto.

– Ele esteve aqui, não foi? – Perguntou, com uma expressão preocupada – Estava ouvindo a conversa do meu quarto. Eu ia entrar mais cedo, só que eu não queria vê-LO…

– Nhaa, agora estou de mau humor! – Comentou Kayo, esticando os braços e se espreguiçando. – Bom, acho que vou ao refeitório comer qualquer coisa ou algo assim. Comer é legal. Alguém vem comigo?

Concordámos em ir todos os cinco com ela, comer qualquer coisa. E, apesar de tudo, conseguimos regressar a um humor mais agradável após algum tempo.

Os dias seguintes passaram de forma lenta e tediosa. Sem encontrar nada para fazer, tivemos todos de nos contentar com o espaço que tínhamos e de conviver em conjunto. Como é claro, nenhum assassinato aconteceu, mas lentamente, a nossa esperança de alguma vez sair estava sumindo…

Até que aquela manhã chegou. Na nossa reunião habitual de todas as manhãs, subitamente surgiu Monokuma no meio de todos nós.

– Ahhh, vocês são chatos! Chatos, chatos! Tão chatos que dói! Seus chatos! – Repetiu ele vezes sem conta, batendo com o pé no chão como uma criança fazendo birra – Onde estão as mortes? E o desespero? Alguém pode me dizer?

Ninguém lhe respondeu. Apenas ficámos todos o encarando numa expressão um tanto vazia.

– Ahh, sabem que mais? Cansei! Parece que vamos ter de agitar as coisas… De novo. Fui um pouco ingénuo ao pensar que vocês matariam sem um motivo decente.

– Um motivo? – Inquiriu Natasha num tom assustado – O que você quer dizer com… um motivo?

– Eu quero dizer o que eu quero dizer, duh! – O urso parecia fazer ainda menos sentido que o normal – Vocês precisam de um motivo para matar! Assim tipo, um monte de dinheiro ou algo do género. Algo que encha os vossos virtuosos corações de desespero!

– Não vai resultar. – Disse Kurama com convicção – Não importa o que você faça… Ninguém aqui vai matar ninguém.

Era verdade, ou pelo menos eu queria acreditar que era. A simples ideia de que alguém ali faria tal barbaridade não encaixava na minha mente. Para mim, éramos todos amigos, colegas de turma. Uma sensação estranha, como se já nos conhecêssemos a todos há imenso tempo… E parecia que todos ali presentes concordavam, de certa forma.

– Upupu… Isso é o que eles SEMPRE dizem. Mas e depois de ver o que eu tenho para vos mostrar, será que não vão mudar de ideias? Upupupu!

O ambiente ficou tão pesado que eu senti vontade de me jogar para o quarto mais próximo. Mas logo Monokuma me fez arrepender desse meu desejo.

– O vosso motivo é pessoal, por isso devem ir pegá-lo no vosso quarto, por favor! Vamos lá, queridos alunos! Em frente, a visualização do motivo é obrigatória!

– Seu filho da puta… – Rosnou Chiyeko num tom irritado. Ao contrário de maior parte das pessoas, que estava com medo, ela parecia estar simplesmente imersa num profundo ódio pela pelúcia. Sinceramente, ao menos ISSO dava uma certa vontade de continuar em frente. Fomos entrando no nosso quarto um a um até abandonar por completo a sala comum. Quando cheguei ao meu, vi o televisor onde a mensagem do Monokuma do primeiro dia aparecera ligado. E nele estavam escritas as seguintes palavras:

ISAO KIMOTO

SUPER HIGH SCHOOL LEVEL NATIONAL HERO

MOTIVO PARA ASSASSINATO 1

Antes de chegar perto o suficiente para analisar devidamente as palavras, contudo, a imagem mudou. Era uma imagem da minha casa vista de fora. Minha mãe parecia estar limpando a entrada com calma, enquanto meu irmão a ajudava a levar o lixo para fora. Uma sensação de saudades encheu-me o peito ao ver aquilo. Eles pareciam estar vivendo sossegadamente a sua vida, mesmo que sem mim. Será que não sabiam o que tinha me acontecido? Muitas mais perguntas me surgiram na mente, só que todas elas desapareceram tão depressa quanto apareceram à medida que a gravação continuava.

Subitamente, dois homens com uma máscara de Monokuma apareceram. Seguravam sacos e bastões. Minha mãe só teve tempo de olhar para cima quando eles começaram a socá-la e a atingi-la repetidamente com os bastões, deixando-a cair inconsciente no chão. Uma poça de sangue se acumulou à volta da sua cabeça. Tinha sido atingida com força. Meu irmão logo foi lá ter e tentou salvá-la, mas os homens previram isso. Quando ele alcançou o primeiro homem, o segundo socou-o com força na barriga. Kenta só teve tempo de cair no chão e vomitar, até que ele teve a sua cabeça envolta num dos sacos. Ele debatia-se para fugir, mas não conseguia. Amarraram-lhe as pernas e braços e começaram a arrastá-lo para fora, fazendo o mesmo com a minha mãe. Depois disso, uma figura feminina com máscara de monokuma apareceu. Parecia estar vestindo um kimono. Ela saltitava alegremente enquanto despejava um líquido à volta da casa. Depois disso, pegou num fósforo e jogou no líquido. Minha casa, onde eu vivera alguns dias atrás, estava agora envolta em chamas, que logo entraram lá dentro. A figura feminina acenou para a câmera, como se fosse uma menininha que estivesse a dizer adeus para a mãe pela televisão. E começou a dançar. Na frente da minha casa em chamas, ela dançou alegremente.

O que mais me dava ódio era o facto de eu não poder fazer nada. Estava preso àquele lugar, incapaz de intervir na cena que acabara de ver. E isso me deixou desesperado. Quando dei por mim, tinha lágrimas caindo do meu rosto. Todo o meu corpo tremia incontrolavelmente, e por momentos esqueci que tinha de respirar para viver. Mas não havia acabado. O vídeo ainda não tinha acabado.

– Quer salvar a sua família e descobrir o que está acontecendo? – Disse Monokuma, que aparecia no televisor, sentado em um enorme cadeirão com calma. Nas suas mãos… Estava um pequeno broche, que eu reconheci facilmente como sendo da minha mãe. – Então gradue-se e seja feliz! Caso contrário… Upupu.

Ele pegou num isqueiro e pegou fogo ao broche. Eu entendia o que é que aquilo significava. Eu entendia, mas preferia ser a pessoa mais imbecil de sempre e não compreender. O televisor se desligou, sem dar mais informações. Dei um grito e me ajoelhei no chão, ficando em posição fetal. Eu preciso, preciso, PRECISO de sair desse lugar. Urgentemente. Agora. Preciso de ver minha família. Não importa como, desde que eu saia daqui. Talvez se eu…

Não, eu não podia pensar assim. Isso só me levaria a fazer algo que não devia. E foi aí que eu me apercebi.

Se Monokuma tinha deixado um vídeo forte o suficiente para me fazer sequer cogitar assassinato… Então como que os outros alunos, alguns deles de mente mais fraca ainda que a minha, estariam ultrapassando isso?

E subitamente, a ideia de que alguém iria morrer em breve ficou marcada mais profundamente na minha mente.

Notas finais
...É, sem mortes nesse capítulo. Ainda haviam algumas coisas para arranjar antes de todas as peças ficarem alinhadas para o primeiro homicídio! Agora sim, está tudo direitinho, upupu. Até ao próximo.