O Regresso do Desespero
27 No Reason to Live
Notas iniciais
A sala onde tínhamos os julgamentos estava diferente quando lá chegámos. A iluminação diminuíra, as paredes foram todas cobertas com cortinas longas e roxas, com televisores enormes brotando de entre elas, o símbolo de Hope’s Peak brilhando nas telas. Dava um aspeto funesto, com o urso já sentado na sua cadeira alta e nos esperando. Chegando aos nossos lugares, ele deu uma risadinha, como se tivesse subitamente acordado.
— Upupu… Não se sentem entusiasmados? Não se sentem felizes? – Inquiriu, olhando em volta para obter uma resposta. Como tal nunca chegou, continuou falando. – Estão finalmente mais próximos do fim dessa magnífica história.
— E vamos terminá-la vitoriosos. – Garantiu Teemu, numa expressão cortante – Monokuma… Não, seja lá quem for que está por trás desse urso… Nós te derrotaremos.
— Yahohohoooo! – O Monokuma deu uma risada, levando as mãos à barriga numa expressão divertida – “Na sétima noite, a identidade do terrível Monokuma é descoberta e ele é vencido”, não é mesmo?
Mais uma vez, ninguém respondeu. As garras do urso se sobressaíram, o olho em forma de trovão brilhou vermelho, a sua voz ficando subitamente muito mais grave.
— Mas vocês não podem esquecer o final da história, não é mesmo…? – Murmurou, o tom me trazendo um arrepio na espinha – Têm a certeza que me vencer é realmente “esperança”?
— Já chega. – Dessa vez, fora Kyoishi quem falara – Vamos começar de uma vez.
— Bom, já que insistem – Monokuma piscou o olho sedutoramente – Que tal começarmos com o básico? O assassinato de Seiko Yukimura! Sei que vocês já estão bem seguros de quem foi o assassino, mas… Que tal discutirem um pouco primeiro?
O que é que ele queria dizer com isso? Franzindo o sobrolho, deixei que Akatsuki começasse.
— Bom… Já co assassino confessou… El’é o Connor. – Afirmou, numa expressão interrogativa. Também ela estava confusa quanto ao porquê de sequer termos aquela discussão.
— Ele torturou Seiko, e depois a matou. – Afirmou Teemu, coçando a cabeça. – A causa da morte, pela minha análise e a de KT, é muito provavelmente a facada na barriga.
— Ela teve as unhas arrancadas, dedos entortados, olhos furados, pulsos perfurados e pernas dilaceradas, além de ser eletrocutada, encharcada, esfaqueada, levou com um tiro pós morte e ainda foi queimada! Kawaiii! – Kobayashi deu uma risadinha alegre – Quem diria que Connor-kun seria capaz de tal coisa!
— Seria de se salientar, também, que tudo isso foi feito antes da morte, exceto o tiro. – Confirmou Teemu – O único lugar que sangrava no corpo dela era a zona da facada… O que significa que foi essa a causa da morte.
— Hihihih! – Connor deu uma risadinha feliz – Esse assassinato ficou perfeito! Capaz de vos deixar tão chocados que, provavelmente, nem conseguiriam pensar. Pena que agora não faz muita diferença.
— Pera aí. – Interrompeu Akatsuki subitamente – Teemu, cê disse que ela foi torturada primeiro e DEPOIS esfaqueada, né?
— Sim…
— Iss’é… Mó improvável. – Comentou ela. Subitamente, todas as atenções viraram para a moça, que aparentava ter percebido um detalhe incrível. – Nã tem jeito… Dela ter sido matada apenas depois do que Connor fez cas pernas dela.
— De facto, ter as pernas dilaceradas… Faria ela perder muito sangue. – Concordou Satoru, acenando afirmativamente – Porém, vocês mesmos disseram que isso não foi a causa da morte, pois não havia sangue.
Fez-se uma pausa em que a sala ficou silenciosa, exceto pelo som de Monokuma se espreguiçando, entediado. Após alguns momentos, Kobayashi realmente falou.
— …Tá. E daí? – Inquiriu ela, torcendo o nariz numa expressão incomodada.
— E-E daí? – Akatsuki não devia de estar esperando essa resposta, porque ela ficou sem resposta – Significa qu’ela nã teve as pernas…
— Takane entende o significado disso! – Interrompeu a designer, com um sorriso divertido – O que ela quer REALMENTE saber, é o que diferença isso faz no caso em si. Ara ara, Riya-chan só queria parecer inteligente, não é mesmo? Nada kawaii.
— N-Não me chame de Riya…
Consegui perceber que a estratega não tinha uma resposta para a piromaníaca. Mordeu o lábio inferior e apertou o braço com a mão oposta, demasiado arrogante para apresentar derrota. Tentei mudar de assunto.
— B-Bem… Podemos, er… Confirmar o assunto com Reiko! Né, Reiko? – Inquiri, olhando para o pescador. O olhar suplicante que o mesmo me retornou logo me fez cair na realidade de que cometera um erro ainda mais grave que Akatsuki. Porque é que o estava fazendo rever aqueles momentos? Contudo, ele acenou afirmativamente.
— S-Sim, é verdade… Connor… Torturou ela… Eletrocutou-a e a-assim… Depois m-matou ela, e depois deu um tiro e… Ele esmagou as pernas dela, e arranc… arrancou os músculos. D… Depois eu tentei… Tentei pará-lo. E vocês chegaram. – Ele tremeu, lágrimas lhe surgindo no rosto de novo.
— Você é um IMBECIL? – Inquiriu Connor, irritado. – Por favor, não é assim que os AMIGOS SE DEFENDEM, anormal. ELES ESTAVAM COMEÇANDO A DUVIDAR DO QUÃO CULPADO EU ERA!
— Iss’é inútil. – Comentou Akatsuki – Porqu’é ca gente tá discutindo isso mesmo? Tem coisas mais importante para tratar.
— Oh, se quiserem, eu posso começar já a votação! – Comentou Monokuma, dando uma risadinha baixa. Aquele riso me deu um mau pressentimento.
— N-Não. Calma. Ainda temos de verificar mais coisas. – Afirmei, apesar de pouco seguro. Um monte de olhares caiu sobre mim, confusos. Cocei a cabeça nervosamente. – Quero dizer… Tem algo que… N-não bate certo…?
— O quê, Isao? – Inquiriu Kyoishi numa expressão curiosa. A verdade é que eu não tinha resposta para a sua pergunta. Eu simplesmente tinha aquele mau pressentimento constante e a sensação de que eu devia de impedir aquela votação de momento. Assim sendo, fiquei uns momentos encarando o garoto sem reação, mas Teemu logo interveio.
— Oh…! Eu compreendo, Isao. – Disse ele, com uma expressão interessada – Você quer dizer que as pernas dilaceradas não são a ÚNICA coisa que deveria ter sangrado caso fossem antes dela morrer, não é?
A verdade é que eu não fazia ideia do que ele estava falando, mas forcei a minha expressão de entendimento mais convincente possível e concordei com ele.
— E-Exato, Teemu! Explique para eles, já que foi você a ver o corpo! – Apenas esperei que o meu sorriso amarelo não fosse muito óbvio. Felizmente, Teemu pareceu não notar, ou pelo menos fingiu não ter notado.
— Para eletrocutar Yukimura, o assassino teve de furar os seus pulsos para inserir os fios elétricos nos braços dela. – Comentou Teemu – É MUITO improvável que não sangre, tendo em conta a zona que se trata. Contudo, tenho a certeza que ela não tinha nem UMA GOTA de sangue nos braços.
— Oh, mas isso significa… – Kyoishi mordeu o lábio inferior, compreensão aparecendo subitamente nos seus olhos. Também eu entendi o que isso significava.
— Que o Reiko, por alguma razão, acabou de nos mentir. – Afirmou Teemu, com segurança. – Ele acabou de nos dizer a ordem, e disse CLARAMENTE que a electrocução fez parte da tortura prévia!
— Ohhh! Takane se pergunta, será que sequer houve tortura? – Kobayashi deu uma risadinha cruel – Será todas as coisas que nós vimos não foram feitas depois de Seiko-chan falecer? ~
Subitamente, uma longa e confusa discussão começou. Todos nós falávamos ao mesmo tempo, se atropelando uns aos outros, completamente inseguros de si.
— Mas isso significa o quê?
— Reiko é o assassino?
— Ara ara, mas Connor-kun não confessou?
— Mas pra quê co Reiko ia mentir pra gente?
— E-Eu n-não menti, e-eu só…
— Mas vocês são idiotas? – A voz de Connor foi a que nos calou a todos. No seu pódio, o mesmo encarava o chão sem qualquer expressão. Depois, soltou uma risada estridente e alta, como se risse da nossa cara – NOSSA, VOCÊS REALMENTE SÃO IDIOTAS! E PENSAR QUE SÓ COM O TESTEMUNHO DE UM GAROTO COM STRESS PÓS-TRAUMÁTICO VOCÊS JÁ FICARAM COMPLETAMENTE DESORIENTADOS! FANTÁSTICO, REIKO! VOCÊ É, DE FACTO, O MELHOR AMIGO QUE SE PODE TER!
— C-Connor! – Estando ao lado dele, e com lágrimas caindo do seu rosto de forma quase constante, Reiko deu um passo para trás, tentando se afastar do cosplayer.
— Eu deveria me manter calado, mas VOCÊS SÃO TÃÃÃO IMBECIIIS QUE DÁ PENA. – Connor riu mais uma vez, como se estivesse se divertindo com a cena. Contudo, eu conseguia ver qual era o sentimento que realmente se refletia nos seus olhos. Raiva, o seu olhar ardia com raiva. – Então, claro, vocês estão dispostos a ignorar minha confissão só porque ele está tão babaca que nem se consegue lembrar direito do que viu? FORÇA AÍ! Mas depois não digam que eu avisei.
Connor… Poderia estar falando a verdade? Ninguém conseguiu respondê-lo. Certamente, era ridículo ele estar confessando de tal forma, mas ele realmente estava já louco. Não, não podia ser. Havia algo DEFINITIVAMENTE errado com o que Reiko dissera, e Connor só nos estava despistando. Mas daí, não seria talvez esse o pensamento que o garoto queria que nós tivéssemos?
Do outro lado do círculo formado pelos pódios, Connor continuava se rindo de tal forma que as lágrimas lhe vinham aos olhos. Havia definitivamente algo de MUITO errado nisso tudo, mas… Eu não conseguia sequer pensar no assunto. Reiko, por outro lado, estava agora escondido atrás do pódio, chorando. Teemu, ao seu lado, não sabia bem o que fazer do assunto. Kyoishi e Akatsuki encaravam a cena com uma expressão tão confusa quanto a minha provavelmente estava. Até Kobayashi, que até então parecia estar se divertindo com o assunto, subitamente estava franzindo o cenho com uma feição séria.
— O que… Caralhos… J-Já nã sei o que pensar!
— Takane não entende! O que isso significa!? Nee, isso é só uma brincadeira?
— Agora, de facto… F-Fica impossível de votar nessas condições…
Seria possível que isso fosse tudo uma brincadeira para nos confundir? Realmente, Reiko estava num estado de trauma que deixa o seu testemunho pouco confiável. Pense, Isao, deve haver alguma pista! Pense em tudo o que aconteceu, na sua investigação…
— Reiko é o assassino. – Afirmei subitamente, seguro de mim mesmo. Senti todas as atenções caindo sobre mim. Reiko, que estava chorando até então atrás do pódio, se levantou.
— Ki… Kimoto…? – A sua voz suplicante me deu vontade de não continuar falando, contudo eu precisava… Precisava de chegar à verdade.
— VOCÊ ESTÁ LOUCO!? – Inquiriu Connor, batendo com o punho no pódio enraivecido. Com certeza, as verdadeiras cores do garoto estavam finalmente sendo mostradas – PENSA QUE ISSO É UMA BRINCADEIRA!? EU MATEI YUKIMURA! EU, COMPLETAMENTE EU!
— Nã cria falar isso não, mas Connor tem razão. – Concordou Akatsuki, parecendo ter ficado irritada com o facto de não estar percebendo nada – Cê tá louco, moço?
— Isao, nos explique o que aconteceu, por favor. – Kyoishi, por outro lado, parecia confiar em mim. Teemu e Kobayashi também. Reiko mantinha-se calado, me observando atentamente.
— EU explico o que aconteceu, sim? – Connor deu uma pequena risadinha, como que tentando esconder o seu ódio – Depois de vocês saírem todos correndo por causa do que quer que Akatsuki vos queria mostrar, eu chamei Yukimura para o laboratório, e pedi que ela trouxesse todas as armas necessárias. É claro, ela obedeceu aos meus pedidos.
O cosplayer abanou a cabeça negativamente, sorrindo como se tivesse vencido a guerra.
— Depois Atsuro chegou para me parar. Só que eu já tinha terminado o serviço e matado ela. Ele chegou bem a tempo de me ver criando um cenário de tortura falso para vos despistar, pelo que eu ia matá-lo para evitar testemunhas. Mas vocês chegaram e me impediram. FIM DA HISTÓRIA! Sério mesmo, se vocês ainda DUVIDAM DISSO, SÃO COMPLETOS IMBECIS!
Uma história sólida. De facto, isso parecia completamente possível, assumindo que Reiko estava demasiado confuso para conseguir relatar o que viu direito. Mas eu tinha percebido.
— Isso seria tudo muito legal, se não fosse pelo testemunho do Reiko.
— ELE ESTÁ LOUCO! VOCÊ NÃO PODE CONFIAR NELE! – Respondeu Connor imediatamente, batendo com o pé no chão.
— Mas não é a primeira vez que ele diz algo que não deve, pois não? – Inquiri. O cosplayer mordeu o lábio inferior irritado. A sua reação me dizia tudo. – Ele já disse algo que não devia antes.
“— Ele disse que… que era por nós. Que íamos morrer de qualquer jeito, então pelo menos ele poderia parar com o nosso sofrimento, m-mas… – Reiko nos encarou com uma expressão desesperada – E-Eu tentei convencê-lo a não fazer isso, mas ele não quis! E ele continuou insistindo que já tinha até pensado como iria matar, e que seria aqui, e que… E-Eu tentei pará-lo! Eu tentei! M-Mas ele disse que queria tentar… Experimentar… Tortura e… Eu cheguei a tempo de o ver apunhalando Yukimura, depois de ter feito todas aquelas coisas horríveis a ela…
— Você estragou tudo, foi o que você fez. – Cortou Connor, numa expressão sombria. – Ahhh, será que você não podia simplesmente manter a boca calada?”
— O primeiro testemunho do Reiko diz que o apunhalamento foi a última coisa a ser feita. – Afirmei, finalmente – Isso não está correto, não é verdade? Por muito trauma que ele tenha passado, não é estranho a história dele ir se adaptando lentamente à medida que fazemos descobertas?
— Oh, estou a ver. Na altura, não dei muita atenção, mas provavelmente você estava dizendo que ele estava se enterrando, não é verdade? – Teemu coçou a cabeça, franzindo o cenho – Daí o “você estragou tudo”. É verdade que ninguém ganha nada em ser um cúmplice, mas… Isso não impede que você seja um.
— I-ISSO NÃO MUDA NADA! MINHA VERSÃO AINDA PODE SER A CORRETA.
— Connor… Já chega. – Disse finalmente Reiko, pondo a mão no ombro do amigo. O cosplayer, assustado, olhou para o pescador, os olhos começando a lacrimejar.
— M-MAS…!
— Haah, eu realmente agradeço o que você fez por mim, mas eu… Eu não aguento mais isso, Connor. – Reiko se afastou do mesmo, encarando o pódio à sua frente. – Eu… Eu… Eu matei uma pessoa…
— M… ma… MAS ATSURO! – Connor já mal conseguia falar, as lágrimas e os soluços lhe dificultando a respiração – V… VOCÊ tem… De…
— O que você fez por mim foi algo que eu não esperava que alguma vez fizessem por mim, Connor. – O pescador tentou forçar um sorriso, mas não conseguiu. Assim sendo, limitou-se a continuar a olhar para o pódio à sua frente – Hahah, mas talvez isso seja melhor assim, não…? Afinal, já não tenho minha família… Minha irmã, Akira… Já não tenho lugar nenhum a onde regressar.
Connor, após limpar as lágrimas com as mangas do seu casaco amarelo do Pikachu e respirar um pouco, recuperou a sua compostura.
— VOCÊ É O ÚNICO QUE MERECE SAIR! – Berrou, como se falar mais alto fosse ajudar a convencer o amigo. – VOCÊ É O ÚNICO… QUE SOFREU…!
— Isso é… Eles estão falando dos vídeos, não é…? – Inquiriu Kyoishi, que observava a cena com uma expressão de pena.
Foi aí que eu me lembrei: Todas os nossos colegas que apareceram naquele vídeo estavam fazendo algo de bizarramente macabro – como o espetáculo bizarro de Kyoishi ou Evan criando uma rebelião à sua frente – mas não Reiko. Ele, por sua vez, tinha apenas o papel de vítima, sendo torturado pelo próprio Connor.
— E-Então… Esse mino dos disfarces tudo aí era só um cúmplice. – Concluiu Akatsuki. Contudo, Connor abanou negativamente a cabeça.
— Não, tudo aconteceu exatamente como Reiko disse, até à parte em que ele chegou ao laboratório. – Explicou-se, mordendo o lábio inferior – Só que, em vez de me encontrar torturando Seiko ou a matando... Ele me encontrou esperando por ele.
— Você o convenceu a matá-la, não foi? – A pergunta de Teemu era retórica, mas mesmo assim Connor confirmou-o acenando afirmativamente com a cabeça. – E tudo isso para você tomar com as culpas…
— N-Não correu tão bem quanto eu pensava que correria. – Disse Connor, pondo as mãos nos bolsos do casaco e não olhando diretamente para ninguém presente – Bom, tive um tempo muito reduzido para executar o plano, por causa de Akatsuki decidir sair correndo pelos corredores chamando todo o mundo. Ainda assim, eu quase conseguiria disfarçar tudo…
“São os detalhes do disfarce que o tornam mais credível, mais bonito, mais chamativo“ fora o que ele me dissera quando lhe perguntara pelo porquê da tortura. Agora entendia perfeitamente: aquela tortura era o “disfarce” de Connor. Era aquela coisa que nos desviava da verdade, fazendo-nos pensar que teria sido ele. Com o choque da situação, ninguém quis pensar muito no assunto.
— M-mas… VOCÊS PERCEBEM, NÃO PERCEBEM? – O cosplayer subitamente começou a nos chamar a atenção, levando a mão ao coração. – ATSURO É INOCENTE, GENTE! NÓS NÃO PODEMOS DEIXÁ-LO MORRER! ELE NÃO MERECE ISSO, ELE MERECE VIVER! NÓS É QUE SOMOS OS RUINS DA HISTÓRIA, POR ISSO POR FAVOR…
Ele soltou um soluço, mas não chorou de novo.
— Salvem… Meu amigo…
— X –
— Pai, não podemos ficar aqui? – Inquiriu Connor, deitado no sofá enquanto jogava algo numa consola portátil. Desligando o jogo, encarou o homem que puxava as malas atrás de si – Eu gosto desse lugar.
— O pai já terminou o negócio que tinha a fazer com uns empresários aqui, Connor. – Explicou-se o homem, procurando as chaves – Durou algum tempo, mas finalmente consegui fechar o contrato…
— Porque é que eu tenho de te seguir para todo o lado, pai? – Inquiriu o rapaz, suspirando pesadamente. – Podemos POR FAVOR tentar ficar mais do que 2 meses em uma cidade? Quero fazer amigos.
— Filho, não é culpa minha. O trabalho do pai é duro. Eufrat Tsubomi é exigente, se eu a desiludir, com certeza ficarei sem emprego para o resto da vida. – Finalmente encontrou as chaves e abriu a porta, acenando de forma a mandar o filho sair.
— E aquele dinheiro que você desviou da empresa dela?
— Shh, filho, não se fala dessas coisas em voz alta. Eu precisei disso para pagar uma dívida. Logo reponho, agora vamos, saia.
— Tenho saudades da mamãe. – Disse finalmente, suspirando.
— A mamãe não está mais aqui. – Explicou o pai pacientemente – Mas já combinámos não falar mais dela. Por favor, saia, vai ficar aí no sofá o dia todo?
Connor se levantou, encarando a sala em que estava. Aquela havia sido a sua quarta casa naquele ano. Mais uma vez, ele tinha de mudar de cidade. De se adaptar a um novo clima, de conhecer novos amigos. De novo. Felizmente para ele, os jogos e anime não iam embora. Sim, pelo menos nisso ele conseguia um certo consolo…
—--
“Não aguento mais” Pensou ele, após a polícia aparecer em casa e levar o seu pai. É claro que iam descobrir a fraude do seu pai. É claro que ele ia acabar sendo perseguido por isso. Agora, o homem estaria destinado a meses e meses de tribunais, investigações e tormentos sem fim. E Connor tinha a sua reputação que ele tão dificilmente conseguira de cosplayer manchada só pelo nome do pai. As notícias sobre o golpe do homem passavam constantemente na televisão.
Não, ele não podia continuar com o nome do pai. Iria para ser tratado como o filho daquele que tentou enganar os Tsubomi. Ele tinha de mudar de nome… Talvez o nome da mãe servisse. Assim já não tinha de explicar que tinha meia descendência japonesa, também.
Sim, Connor Fukusaku era um excelente nome. Talvez assim conseguisse um amigo.
— X –
— P-Por favor… Vocês entendem, não é? – Inquiriu o rapaz, choramingando – Que ele que merece sobreviver?
— Cê tá louco? A gente nã se vai matar todos por ele! – Reclamou Akatsuki, com uma expressão indignada.
— Ohh? Takane não compreende… Connor-kun não quer viver, é isso? Ara, ara… Pessoas normais são tão estranhas!
— Vocês NÃO ENTENDEM! É A ÚNICA OPÇÃO CORRETA! É A ÚNICA COISA QUE PODEMOS FAZER DE BOM AQUI! – O rapaz pôs as mãos na cabeça, soluçando incontrolavelmente.
— Connor… Olhe para o Reiko. – Disse eu, sem saber bem o que responder. – Ele… Ele também não quer que a gente morra por ele.
— N-NÃO É VER…
— EU JÁ DISSE, CONNOR! – Reclamou o pescador, cansado de não ser ouvido – Eu… Eu não me importo mais. De verdade. Por favor, apenas… Apenas me deixe ir. Acabar essa vida horrível.
— M-Mas…
— Bom, que comece a votação! – Interrompeu Monokuma, rindo baixinho – Upupu, quem será que vai ser o assassino dessa vez? É tão totalmente-nada-óbvio que até eu tenho dúvidas!
Após a votação, a roda da fortuna parou em Reiko. Como esperado, era a pessoa certa.
— Ahh… É engraçado. – Reiko suspirou, abraçando-se a si mesmo como que procurando conforto – Eu queria isso, mas… Agora tenho medo.
— Atsuro… Eu… EU VOU VENCER O MONOKUMA! TODOS VAMOS! POR VOCÊ! PROMETO! – Choramingou Connor, o olhar flamejando
— Hey, você sabia? Meu nome verdadeiro… É Arti Setiwan. – Afirmou ele, uma sombra de um sorriso aparecendo na sua expressão triste – Eu… Mudei de nome quando vim cá para o Japão. Desculpe não ter dito mais cedo.
Ele não era japonês? Apesar de querer fazer algumas perguntas sobre o assunto, soube que não era a hora para tal. Assim sendo, todas as minhas dúvidas deveriam de ficar por responder.
— Yahooo! Sem mais delongas, que comece a execução! Ohh, essa é a minha parte favorita! Tenho tanta pena que seja a última… – Enquanto falava num tom anormalmente alegre, Monokuma carregou no botão que estava na sua frente.
GAME OVER.
Arti Setiwan foi identificado como culpado. Começando execução…
An Overseas Carnival!
O silêncio caía sobre o barco falso em que o garoto fora jogado. Ondas de papel rodavam à volta do mesmo, enquanto ele olhava de um lado para o outro em confusão. “O que é isso”, estava ele provavelmente se perguntando. Assim se manteve por uns momentos enquanto esperava que aquilo a que levaria a sua morte começasse, mas nada aconteceu. Em vez disso, o barco mantinha-se abanando de um lado para o outro, lentamente, como que navegando.
Subitamente, uma versão peixe do monokuma gigante saltou do “mar”, tentando atingir Reiko. Logo outro apareceu, e outro, e outro. De repente, Reiko estava coberto em peixes robôs bizarros, que lhe mordiam as pernas, os braços, o tronco, a cara. Reiko ficou escondido por baixo de todos eles, e quando saíram, a única coisa que sobrava era os restos de um corpo sem cabeça, sangue escorrendo até à ponta do barco e caindo no mar.
E, com esse último ato horripilante, deu-se finalmente a última execução.
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