O Regresso do Desespero
7 Living Out the Despair to its Fullest
Notas iniciais
A sala onde entrámos era minimamente estranha. Um lugar gigantesco, o teto demasiado longe para ser visto, as paredes cobertas de painéis em tons escarlate. O chão, de madeira escura, só aumentava a tenebrosidade do lugar. No fundo, no topo de uma cadeira enorme, estava Monokuma, nos acenando ironicamente, como se nos estivesse chamando para um piquenique. No centro da sala, um círculo feito de 16 pódios tinha sido arranjado para a situação. Atrás de um dos pódios, estava uma placa com uma foto de Natasha. Estava com uma expressão séria, como se fosse uma fotografia para algum cartão de identificação ou algo do género. Estava a preto e branco e tinha uma enorme cruz vermelha no seu topo. O seu significado era um tanto óbvio.
– Por favor, caros alunos, posicionem-se atrás do pódio com o vosso nome! – Disse Monokuma animadamente – Ahh, eu estava esperando por esse momento! Que entusiasmo!
Atrás dos pódios havia um pequeno ecrã táctil com um nome. Encontrar o meu não foi difícil. Eu ficava ao lado esquerdo de Kurama, enquanto Chiyeko ficava do meu lado direito. O pódio onde ficaria Kayo manteve-se intocado.
– Deixem-me que eu vos relembre de como funciona o Julgamento Escolar! – Começou Monokuma, que inspirou fundo antes de começar – Vocês discutem descobrem o vilão votam no vilão caso acertarem o vilão é punido caso não acertarem vocês são todos punidos e o vilão sai livremente da escola fim. Entenderam tudo ou querem que eu desenhe?
– Takane apoia a ideia de um abrasador desenho! – A garota de roupas rosas esticou a mão ao alto, entusiasmada. Quando viu que ninguém fez menção de acompanhá-la, contudo, baixou a mão, aparentemente envergonhada. A verdade é que ela não tinha sido a única a compreender, pelo que o urso falara tão rápido que o pouco que eu entendera fora o “fim” no final. Mas de qualquer forma, eu já sabia das regras mesmo.
– Ainda bem! Agora, comecem a discussão! Como o vosso diretor, eu sugiro começarem pelas partes mais óbvias!
– Vejamos… As coisas mais óbvias… Ah, já sei! ~ – Chiyeko estalou os dedos, sorrindo com alegria. Subitamente, o seu sorriso desapareceu e ela apontou para Reiko com uma expressão de raiva – Que tal começarmos pelo fim? ELE É O VILÃO!
– E-EU NÃO MATEI NINGUÉÉÉM! – Protegeu-se Reiko, choroso. – D-De verdade!
– Ah, nem começa. – Resmungou a justiceira, cruzando os braços – Está claro que a sua porta tinha sangue da vítima!
– Na verdade… Iss’é impossível. – Comentou Akatsuki, que mexia no seu ID de estudante enquanto parecia verificar algumas coisas. – Aqui, ó. No Monokuma File. “O seu corpo foi encontrado molhado e sem quaisquer hemorragias, internas ou externas”.
– Em outras palavras… – Explicou Kurama – É impossível que aquele sangue seja da Natasha.
– Mas… MAS ELE NÃO DEIXA DE SER O CULPADO! Se ele não for, ENTÃO DEVE SER A TSUBOMI!
– Claro, querida. – E, com aquela única resposta, a empresária mudou de assunto – E que tal passarmos para algo que realmente interesse? Com certeza que o sangue não é de se ignorar, mas existem pormenores que são mais importantes para se discutir primeiro. Como por exemplo… Como exatamente que Natasha morreu.
– Ela tem razão. – Concordou Teemu – E acho que aquele taco de baseball que estava caído ali é bastante suspeito.
– Os ferimentos que ela tinha na nuca… Definitivamente apontavam para que ela tenha sido desacordada ao receber umas pancadas fortes naquela zona. – Acrescentou Koji, numa expressão séria que já tinha sido mostrada durante a investigação. Ele estava levando aquilo realmente a sério. – Não seria de se admirar que o taco tenha sido usado para esse fim.
– O Monokuma file diz que ela morreu por afogamento. – Disse eu, finalmente decidindo fazer-me ouvir ali. Fiquei um pouco embaraçado quando senti todos os olhares caírem sobre mim – E tendo em conta toda a cena do crime… Acho que é bem provável que ela tivesse sido jogada dentro do aquário e morreu ali dentro.
– As chances dela sobreviver eram menores do que 9000…! Espera. Não era bem assim que a citação ficava. – Connor cruzou os braços, pensativo. Evan repreendeu-o com irritação.
– Er, uma pessoa morreu aqui! Vamos parar de brincadeiras, por favor!
– Ele tem razão. A resposta nesse momento está nas estrelas, mas se nos permitirem, elas vão descer. – A conversa ilógica de Satoru não pareceu deixar Evan mais relaxado, muito pelo contrário. O loiro suspirou profundamente, murmurando algo como “assim não vamos chegar a lado algum”.
– De qualquer forma, eu gostava de trazer um ponto importante para a mesa. – Começou Tsubomi, numa expressão pesada – Eu tenho razões para acreditar que… O taco de baseball era da Natasha, e não do assassino.
– Por causa da lista, não é? – Perguntei. Ela pareceu sorrir com um certo orgulho, como se tivesse esperando que eu dissesse aquilo – Ontem a única pessoa a entrar na arrecadação foi a própria Natasha. E o taco veio de lá, definitivamente.
– Não é possível que tenham entrado anteontem, ou até mesmo ainda hoje depois da meia-noite, para pegar o bastão? – Foi a vez de Suzuki inquirir alguma coisa. Estava com os braços cruzados e parecia um tanto entediado com a conversa – Humpf, isso não prova nada.
– Podia até ser assim, mas… No bolso da Natasha havia uma rede. E essa rede era igual à que estava sendo usada para cobrir cada taco de baseball dentro da caixa. – Expliquei – Assim… Bom, deve ter sido ela a ir buscá-lo mesmo.
Ichiro suspirou e deu um sorriso. Não consegui perceber se ele estava troçando de mim ou não.
– Hah, afinal você tem de facto alguns miolos, Kimoto. Fascinante.
– Então… S’esse era o caso… Então podemos dizer ca Natasha queria mat…
– NEM. SEQUER. OUSE. – Cortou Chiyeko de forma tão abrupta que Akatsuki encarou-a com os olhos arregalados – Ela é a VÍTIMA nisso, não a assassina! Parem de desconfiar dela!
– Mas as evidências…
– AS EVIDÊNCIAS NÃO SERVEM DE NADA! Vocês não entendem como que ela estava, ela NÃO ia matar ninguém! – A morena parecia que ia saltar do pódio e começar a bater em todos os que a contrariassem de tão exaltada que estava. Um pouco mais do que o normal, na verdade. – Ela… Garota estúpida! Eu avisei-a para não fazer aquilo…
– H-Hey, Chiyeko… O que é que você disse? – Perguntou Connor, que parecia um tanto receoso de falar diretamente para a justiceira. Ela fitou-o com ferocidade e o cosplayer logo recuou um passo – D-Deixa para lá, deixa para lá!
– Na verdade… Takane também está interessada. – Quando Kobayashi olhou para a outra de forma curiosa, Chiyeko mordeu o lábio inferior nervosamente. Após algum tempo, ela finalmente falou.
– Eu… Eu falei com Natasha ontem. Pouco depois de recebermos aquele motivo nojento do Monokuma. – Explicou-se. Estava anormalmente sossegada e um tanto entristecida, como se tivesse desistido da sua atitude impulsiva e irritadiça. – Ela estava… Desesperada, acho que esse é o único termo que se encaixa direito nisso tudo.
– EU NÃO QUERO MORREEEERRR! – Berrou a loira, saindo da porta do seu quarto que dava para o corredor em pânico. A justiceira também tinha saído para o corredor, pelo que a vira tendo o pequeno surto. Ao vê-la agir daquela forma, chamou-a quase momentaneamente.
– Hey, Natasha! Se acalma mulher, onde que você vai?
– E-Eu… Preciso de sair daqui… ELES VÃO ME MATAR, ELES VÃO ME MATAR! – Explicou a astrofísica, tão abismada que não conseguia manter uma frase coerente. – AQUELA GENTE DA MÁFIA… ELES VÃO ME MATAR!
– Máfia? Como assim!? De que você está falando? – Talvez por interesse em saber mais sobre os desvaneios da garota, ou talvez só porque ela estava genuinamente preocupada, Chiyeko pousou a mão sobre o ombro da loira e tentou acalmá-la. Após algum tempo, Natasha finalmente falou.
– M-Meu pai… Ele teve problemas com a máfia americana, por isso que nos mudámos para o Japão… Eles pegaram fogo à nossa casa na Califórnia, mas não deve ter sido o suficiente! Agora eles me prenderam aqui nesse lugar e pelo vídeo que o Monokuma me mostrou… Raptaram os meus pais! ELES QUEREM NOS TORTURAR A TODOS! EU NÃO MEREÇO ISSO, EU SÓ QUERO VOLTAR PARA CASA!
– Espera, calma. Como tem a certeza que foi a máfia que fez isso?
– Só pode ter sido! Você mesma disse que tinha de ser um grupo com grande poder económico! É a única opção...
Ela tremia, os olhos azuis fitando todos os cantos enquanto ela abraçava o próprio corpo, aterrorizada demais para sair de uma postura defensiva.
– Não acredito que isso seja verdade. – Comentou Chiyeko, num tom calmo. Ela sorriu e não largou a mão do ombro de Natasha, querendo transmitir-lhe aquela segurança durante o maior espaço de tempo possível – Se fosse realmente assim… Então porque é que eles nos prenderiam a todos nós também? Não faz sentido. Se fosse assim, eles só prenderiam você.
– M-Mas…
– Vamos, não chore. Eu tenho a certeza que vamos arranjar um jeito de sair daqui, sem matar ninguém. E se alguém tentar te tocar sequer um dedo… Eu te defendo.
– E se você n-não… Estiver perto?
– Eu duvido que isso aconteça. Mas aí é só você tentar se proteger da melhor forma possível…
– Me proteger…? – Ela ponderou a possibilidade por uns momentos. Depois, estalou os dedos, um tanto mais entusiasmada. Não estava propriamente calma, mas ao menos já deixara de tremer compulsivamente e uma sombra de sorriso surgiu nos seus lábios – Já sei! De certeza que eu consigo arranjar algo que me ajude! Obrigada, Chiyeko, você me ajudou imenso!
– O quê…? Espera, não vá pegar nada que possa ser perigoso…!
Mas Natasha não a ouvira mais. Ela já tinha ido embora, correndo na direção da arrecadação e deixando a justiceira ali sozinha. Ela ponderou segui-la e impedi-la, mas também a própria estava um pouco desconcertada com os acontecimentos recentes.
– Eu fui fraca. Devia tê-la impedido de ir pegar o taco… E assim isso não teria acontecido. – Ela cerrou os punhos – Humpf, o que me deu…? Só por causa daquele vídeo… Eu já baixei minhas defesas? Sinceramente! Estúpida, estúpida!
Não imaginei que ela tivesse aquele lado simpático e preocupado. Eu quis dizer alguma coisa para fazê-la se sentir melhor, mas acabei por me manter calado com receio de acabar ferindo ainda mais os seus sentimentos.
– Bom… Isso significa que ela não pegou o taco para matar, mas sim para se proteger? – Perguntou Teemu, para confirmar as coisas – Então…
– Ela pode ter enganado Chiyeko. – Cortou Akatsuki com segurança – Pode ter feito isso só pra conseguir a sua misericórdia e ter ela lh’apoiando durant’o julgamento, s’algo desse errado.
– Eu não acredito… Não acredito que ela alguma vez faria uma coisa dessas! – A voz de Evan, contudo, não demonstrava que ele tinha tanta fé nas suas palavras quanto queria parecer. Chiyeko, contudo, parecia demasiado imersa nos seus próprios pensamentos para de facto dizer alguma coisa.
– Além disso, notei uma coisa. Algo interessante. – A sua expressão séria não mudou nem por um segundo – Mas preciso d’entender uma coisa primeiro. Reiko, de onde veio aquele sangue?
– E-Eu já disse que não matei ninguém! – Defendeu-se o pescador quase que automaticamente. Akatsuki cruzou os braços, ainda exigindo a sua explicação. – Aquilo foi de ontem à tarde! Eu estava na sala comum com o Connor…
– Sim, é verdade. – Confirmou o cosplayer, levando o indicador aos lábios enquanto parecia tentar se recordar do que acontecera naquela altura – Não tinha muita gente ali porque o motivo nos abalou a todos... Então estava só eu, porque queria sair do meu quarto, e o Reiko, que precisava de limpar o aquário.
– Peraí. Significa que os dois sabiam como ENTRAR no aquário, não? – O olhar flamejante de Suzuki acompanhado do seu sorriso um tanto vitorioso não foi capaz de fazer Connor se retrair, mas o garoto chegou a de facto cerrar os punhos em descontentamento – Quero dizer, se Natasha morreu por ter sido jogada lá dentro… Então obviamente que a pessoa que fez isso tinha de saber COMO abrir o aquário.
– M-mas o assassino não foi eu! Juro! – Voltou a dizer Reiko, suplicante – Aquele sangue foi de quando eu estava saindo do aquário após limpá-lo, eu bati com a cabeça numa ponta e… Bom, fiz uma pequena confusão e o Connor me ajudou a voltar para o quarto. Devemos ter manchado a maçaneta nessa altura!
– E cês não limparam? – Inquiriu Akatsuki por cima da voz de Suzuki que ia continuar a argumentar qualquer coisa contra o pescador. Reclamações foram ouvidas, mas a estrategista ignorou-as com naturalidade.
– Bom… Eu cuidei de limpar o aquário que ficou um pouco sujo depois de ajudar o Reiko. – Comentou Connor – Mas nem sequer olhei para a maçaneta, por isso não notei sangue algum…
– Então vamos imaginar o seguinte. – Akatsuki apontou para Reiko acusatoriamente – Natasha sai do seu quarto a meio da noite. Ela por algum motivo nota o sangue na porta de Reiko. O qu’ela faria?
– Ora, tendo em conta todas as situação em que nos encontramos, ela com certeza imaginaria que um assassinato teria ocorrido. Ou uma tentativa de assassinato. – Comentou Tsubomi, franzindo a testa com uma certa confusão – Então ela…
– S’ela tinha um taco de baseball pra se proteger, nã’ acham que talvez ela quisesse v’rificar tudo plos próprios olhos?
– Mas como que ela entraria no quarto? – Inquiriu Connor – Reiko com certeza que…
– Esqueceu de trancar a porta? El’é mó distraído. – Interrompeu Akatsuki novamente – Todo mundo sabe disso.
Os olhares caíram todos sobre o pescador, que parecia ter perdido toda a cor da sua face. Transpirava imenso e agarrava-se ao pódio onde estava como se a sua vida dependesse disso. No início, pareceu fingir que não era nada com ele, mas eventualmente confessou.
– S-SIM! ELA ENTROU NO MEU QUARTO! – Gritou, mais alto do que precisava. – Mas eu NÃO a matei! Eu só… Eu só… EU SÓ ME ASSUSTEI, É TUDO!
– Que brilhante forma de falar que você a matou! – Acusou Chiyeko, após recuperar um pouco do seu choque inicial – COM CERTEZA QUE ELA SÓ QUERIA VERIFICAR A SUA SEGURANÇA!
– Na verdade, isso pode nã ser verdade. – Corrigiu Akatsuki – Ela pode ter visto o sangue… E decidido que aquela era a sua oportunidade pra matar alguém.
– Não… Não foi isso. – Reiko defendeu, cabisbaixo. No seu olhar estava espelhado completamente o arrependimento que ele sentia, à medida que a sua energia parecia ser sugada por esse sentimento. – Ela entrou no quarto… E me acordou. “Reiko, você está bem? Consegue me ouvir?” foi o que ela perguntou… Eu acho. Eu sei que ela falou alguma coisa. M-mas eu a vi segurando o taco de baseball e nem raciocinei…
– …Então você lhe tirou o taco e a atingiu na nuca. – Completou Teemu, desagradado. O pescador acenou afirmativamente, parecendo se esforçar para conter as lágrimas que continuavam caindo dos seus olhos.
– M-mas… MAS EU SÓ FIZ ISSO! Eu levei-a para a sala comum e ia cuidar dela, m-mas… Alguém estava entrando… E eu entrei em pânico, se me encontrassem daquele jeito… Então fugi para o meu quarto de novo.
– Ah, sério? Que conveniente! – Resmungou Chiyeko – E aposto que você nem sabe qual é a pessoa que entrou na sala comum a essa hora, pois não?
– Na verdade… Eu tenho uma ideia. – Interrompi, pelo que recebi um olhar de nojo da garota ao ver que tinha sido contrariada. Ouvi um aplauso vindo de Satoru do outro lado, que aparentemente tinha apreciado a ideia de eu a ter deixado sem palavras. – Existe uma coisa naquele quarto que eu não estava entendendo até agora. Para entendê-la, eu teria de falar com uma pessoa em particular… Só que essa pessoa não saiu do quarto o tempo todo.
– Você está falando da Ai, certo? – Perguntou Evan, abraçando a sua bíblia – E os presentes que estavam na entrada da porta dela.
– Presentes? Takane adora presentes! O isqueiro favorito dela foi o presente de um garoto tão kawaii do seu atelier! ~ Ahhh, só de lembrar do calor do seu corpo… – A fashion designer ficou vermelha (e também ficou Connor) ao relembrar memórias aparentemente um tanto… Escaldantes. Preferi, mais uma vez, ignorar o que ela estava dizendo antes que eu perdesse o meu fio condutor.
– Bom… Ai. Você poderia… Nos ajudar aqui com isso? O que é que você sabe sobre os presentes?
Quando eu olhei, não vi ninguém no pódio onde a albina deveria estar. Após ficar algum tempo sem entender, acabei por perceber que ela estava, de facto, presente, mas encolhida e escondida de tal forma que mal dava para notá-la.
– Ai… Querida, não tenha medo. – Começou Tsubomi, num tom calmo. Como ela ficava diretamente ao lado da ativista, era provavelmente uma das pessoas com mais facilidade para chamá-la – Não se preocupe. Só precisamos da sua ajuda por um momento, sim?
A cabeça dela surgiu no topo do pódio enquanto ela espreitava. Dava para perceber que a sua face estava escarlate, e ao notar os olhares todos caídos sobre ela, voltou a esconder-se. Após uns momentos (e algumas expressões aparentemente encorajadoras de Tsubomi), a garota surgiu novamente, preferindo não olhar para ninguém e encarar o chão.
– Diga-nos, Ai – Começou Tsubomi, num tom calmo o suficiente para não assustar novamente a garota, como se esta se tratasse de um gato selvagem que fugiria à mínima sensação de perigo – Você sabe o que é que aqueles presentes faziam na frente da sua porta?
A nervosa ativista acenou afirmativamente de leve. Após perceber que era suposto ela se explicar, finalmente abriu a boca e falou num tom trémulo e assustado.
– E-Eu… Eu fiz aq-queles presentes anteontem. – Afirmou, quase num sussurro. – E-eu ia entreg-gá-los para todos… Essa noite.
As minhas suspeitas estavam corretas, para variar um pouco. Isso me aliviou um pouco, mas ao mesmo tempo me deixou um tanto tenso, porque eu já esperava o que viria a seguir e não ia gostar nada disso.
– Só que, quando você foi distribuí-los, você encontrou a Natasha, certo? – Perguntei, tentando manter o meu tom mais doce possível, do mesmo jeito que Tsubomi fizera. Dera resultado, porque a ativista não se escondeu e até chegou a me olhar durante dois milésimos de segundo, o que parecia um progresso.
– S-Sim… E-E ela estava realmente… I-Inconsciente, n-não m-m-m-m… m-morta. D-Desculpem, n-não sou muito útil...! – A moça soluçou, mas Tsubomi logo interveio.
– Pelo contrário, o seu testemunho foi extremamente importante. Isso confirma a versão de Reiko da história, pelo menos por enquanto.
– E, já agora, a probabilidade de um mais um ser igual a dois é, de uma forma aproximadamente específica, zero. – Disse Satoru, com uma expressão séria. Após ver algumas pessoas o encarando sem entender o que ele dissera, Koji decidiu traduzir.
– O que ele quer dizer é que não é possível que Ai e Reiko estejam trabalhando em conjunto em prol desse assassinato. – Explicou, rolando os olhos – Como é que eu entendi isso? Não perguntem, de verdade. Mas foi isso que ele disse.
Satoru fez menção de entregar uma rosa que tinha feito aparecer atrás da orelha do paparazzo para ele, só que Koji recusou-a.
– Ele tem razão! – Interveio Monokuma, que ficara calado durante algum tempo – Não tem forma de haver cúmplices nesses crimes, porque os cúmplices não ganhariam nada com isso. Ou seja, o assassino trabalhou completamente sozinho! Dois beijos na recalcada que achava que havia gente trabalhando a pares!
– Bom, passando à frente. O que você fez quando viu a Natasha, Ai? – Perguntei novamente à moça. Não esperava que essa pergunta a fizesse chorar, pelo que logo me apressei a tentar acalmá-la – C-Calma, com certeza que você fez o seu melhor! Eu acredito em você, então me diga, o que aconteceu?
– E-Eu… – Ela soluçou furiosamente, limpando as lágrimas com as costas da mão e aproveitando e escondendo um pouco a cara com o braço – Eu fui… À enfermaria p-pegar um kit de primeiros socorros…
– …Oh. – Murmurou Connor, nervoso – Mas a fechadura… Eu tinha quebrado ela sem querer. Por causa disso, o armário às vezes encravava e se recusava a abrir.
– S-Sim… E e-eu durei muito t-t-tempo, então quando cheguei, ela já estava…! – Ela caiu nas lágrimas novamente, não conseguindo acabar a frase.
– Ela já estava morta. – Completou Suzuki pesadamente – Isso explica os presentes e o kit que encontrámos no chão. O choque deve ter feito Ai deixá-los cair e ela não se importou em juntá-los, tendo em conta a situação.
– Eu não entendo uma coisa, e isso é raro. – Comentou Kurama, não escondendo o seu orgulho por ser considerada uma SHSL Genius. – Ela demorou algum tempo, certo. Mas esse tempo todo… Seria o suficiente para o culpado chegar à sala comum, esvaziar o tanque pela metade, jogar Natasha lá dentro, encher o resto do tanque, esperar que ela morra por falta de ar e ainda quebrar o aquário esse tempo todo?
– Como assim… Esvaziar o tanque pela metade? – Perguntou Teemu, confuso – Tem alguma coisa que me está passando ao lado…?
– Ah, é a forma como se limpa o tanque. Acho que Kurama assumiu que o assassino usou esse método para por a Natasha dentro do tanque. Basicamente, você prime um botão num painel escondido em baixo do aquário para esvaziá-lo pela metade, para que os peixes não fiquem sem água. Depois você entra, e quando acabar sai, fecha a porta e clica no botão de novo para encher o tanque novamente. – Expliquei, tentando ser o mais breve possível – É claro, Natasha pode ter sido jogada lá dentro e depois fechada ali, ficando presa até que eventualmente morresse.
– Isso considerando que não há nenhum outro método de mudar o nível da água do aquário que o monokuma tenha contado apenas ao assassino, então sim. É claro que foi esse o método utilizado. E demora algum tempo, uns 10 minutos para fazer todo o processo no mínimo. Ter de esperar que Natasha morra para depois partir o tanque… Isso duraria algum tempo, na minha opinião. – O que Kurama dizia era frio, como se ela estivesse falando de como passar um nível específico de um jogo em vez de um assassinato que ocorreu, mas não deixava de ser verdade. Dessa vez, e pela primeira vez desde que a conhecera, fora Ai que decidira falar por vontade própria.
– E-Eu… Que parti o aquário. – Murmurou ela, nervosa – Quando voltei ela e-estava no aquário e-e-e eu tentei… Eu tentei… Eu tentei s-salvá-la, mas durei demasiado tempo…
E dessa vez, a garota começou a chorar e se escondeu atrás do pódio de vez. Suzuki soltou um grunhido irritado.
– Certo, e agora? Confiamos nessa ativista, e qualquer um de nós pode ser o culpado. Desconfiamos dela, e ela provavelmente seria a culpada. – Disse ele. Era verdade, de certa forma. Se Ai fosse a culpada, ela estaria obviamente mentindo para esconder os seus feitos. Se ela não fosse a culpada, então qualquer pessoa poderia tê-lo feito.
– Mas não temos realmente motivo para desconfiar dela, certo? – Perguntou Tsubomi, num tom decisivo – Além dela não saber como que o aquário funciona, ela é uma moça e não me parece muito forte. Não acredito que ela fosse capaz de levar o corpo de Natasha sozinha até dentro do aquário.
– Seguindo essa lógica, qualquer garota deveria ser desconsiderada da lista de suspeitos. – Comentou Chiyeko – E também qualquer garoto que não saiba como manusear o aquário…
– Isso deixaria Reiko, Kimoto e Connor como possíveis suspeitos. – Comentou Kurama imediatamente. – Apenas eu, Natasha, Reiko e Kimoto estavam lá quando Monokuma explicou como usar o aquário. E Connor viu Reiko limpando, por isso ele saberia como usá-lo. Não há mais ninguém que possa ter feito isso.
– Espera, isso está errado! – Contrapus imediatamente. Como que eu poderia ter sido tão burro? Havia uma pista que eu tinha assumido como certa e que, na verdade, não podia estar mais errada. Algo que explicava claramente quem seria o culpado. Kurama me encarou de uma forma inexpressiva, esperando os meus argumentos.
– Na verdade… Tem mais alguém. E, agora que penso nisso, em nenhuma das versões que possam ser contadas dessa história as ações dessa pessoa fazem sentido. – Comentei, engolindo em seco. – Evan.
– E-Eu? – O loiro pareceu chocado, me encarando com uma expressão confusa – O que tem eu?
– Você mesmo o disse naquele dia.
“Ele esteve aqui, não foi? – Perguntou, com uma expressão preocupada – Estava ouvindo a conversa do meu quarto.”
– Se você estava ouvindo a conversa do seu quarto… Então era porque ele não estava insonorizado, como os outros. – Expliquei. Por alguma razão, a sensação de estar próximo da verdade fazia o meu coração bater muito rápido.
– Quebrar um aquário daquele tamanho deve ter feito um baita barulho. – Concordou Akatsuki – Seria impossível cê não ter acordado com isso, mas cê nunca comentou sobre isso durante a discussão inteira.
– Além do mais, se estava ouvindo aquela conversa, também você sabia como manusear o aquário. – Acrescentou Kurama, que finalmente compreendera até onde eu queria chegar.
– Q-Quando eu encontrei Nat-tasha… Eu d-dei um pequeno grito… – Sussurrou Ai, trémula. Aquelas palavras pareciam ter custado mais para ela falar do que tudo o que dissera até ao momento, pelo que mal foram ouvidas por todos os presentes.
– Isso significa que ele com certeza deve ter acordado a essa hora! – É claro, Koji era dotado de uma audição capaz de a escutar mesmo quando eles estavam praticamente em cantos opostos da sala – Então…
– Evan entrou na sala, mas Ai já tinha saído. – Complementou Tsubomi.
–E ele viu Natasha desacordada. – Connor levou a mão à boca, impressionado com o que estava pensando.
– Eu não sei porque é que ele não usou o taco, mas… Ele deve ter visto tudo isso como uma oportunidade para escapar. – Reiko, por outro lado, parecia desiludido. Como se tivesse de falar em voz alta para acreditar no que dizia.
– Então ele foi até ao botão… E premiu-o, esvaziando o tanque pela metade. – Teemu estava com uma expressão semelhante à de Reiko, um tanto hesitante nas suas palavras.
– Ele não parece muito forte, mas… Com certeza que era capaz de carregar a Natasha para lá dentro. – Afirmou Suzuki com segurança, ao contrário dos outros.
– Depois disso, era só encher o aquário de novo. – Afirmou Chiyeko.
– E desaparecer da sala, como um pequeno truque de mágica. Mas é claro, mágica não funciona quando não temos público, então essa comparação é simplesmente ridícula. – Satoru parecia também sério, apesar do seu discurso um tanto vago.
– E depois, no dia seguinte, ele só precisava de fingir surpresa junto de Takane e todos os outros quando encontrou o corpo! – Kobayashi bateu palmas, aparentemente entusiasmada por ter compreendido alguma coisa. – Ara, ara… Talvez ele nem precisasse de fingir surpresa, porque Evan com certeza não esperava que o aquário estivesse todo em pedacinhos!
– E-Eu… PAREM, POR FAVOR! – O garoto levou a mão à cabeça, meneando-a com brusquidão negativamente. – E-Eu não… EU NÃO QUERIA…
– Acho que todos já estão decididos! – Disse Monokuma, interrompendo o evangelista com entusiasmo – Por favor, votem na pessoa que acreditam ser o assassino utilizando o ecrã táctil à vossa frente!
Apesar dos incessantes chamados desesperados de Evan, todos logo ficaram calados e votaram, ignorando-o. Eu também o fiz, relutante, escolhendo o rosto do garoto no meio de todos os outros. Após algum tempo, uma espécie de roda da fortuna apareceu num ecrã gigantesco atrás de Monokuma, cada espaço com uma das nossas caras. Ela girou, girou, e girou, até que finalmente parou, a seta apontando para o rosto de Evan. A palavra a letras garrafais vermelhas apareceu, preenchendo toda a tela. “Vitória”. Vitória do quê, exatamente? Estávamos jogando um dos nossos colegas de turma para a morte.
– Yahooo, está certíssimo! – Aplaudiu Monokuma – Evan Moonglade assassinou Natasha Hayashi!
– E-eu… Eu…
– Porque é que você fez isso, Evan? – Perguntou Teemu, um tanto preocupado. – E porque é que escolheu logo jogá-la no aquário?
– E-Eu vi o taco. Eu até o peguei e pensei em matá-la desse jeito, só que… Eu não conseguia. Fizesse o que fizesse, eu não conseguia fazer um ato tão violento assim. E-Então… Eu escolhi a forma mais fácil para mim. – Murmurou Evan, completamente cabisbaixo, a derrota claramente espelhada no seu rosto.
– E… Porquê? – Inquiriu Chiyeko. Não parecia triste nem tampouco perturbada. Na verdade, parecia bastante feliz por ver o culpado pego. – Porque é que você faria tal barbaridade?
– ELE TINHA A MINHA MÃE! – Apontou o evangelista para o urso – Desde que eu era criança que eu vivi sem pai. A única pessoa que eu tinha era a minha mãe… Que caiu nas drogas após uma severa depressão. Eu lutei imenso para que ela ficasse curada, mas ela simplesmente deixou de querer saber de mim. Eu passei a ser um evangelista. Trazer a mensagem de Deus para os outros trazia uma paz interior para mim que eu não consigo descrever. Até que, há alguns meses, a minha mãe voltou… E ela tinha se reabilitado.
Lágrimas começaram a cair dos olhos de esverdeados do garoto enquanto ele falava.
– Isso aconteceu muito rápido. Eu recebi o convite para Hope’s Peak alguns dias depois. Estávamos vivendo juntos novamente, como uma família. Eu estava cada vez mais próximo de alcançar o meu objetivo de vida… Felicidade. Felicidade de verdade. MAS DEPOIS EU FICO PRESO NESSE LUGAR. – Ele bateu com o pé no chão, numa frustração que eu nunca teria sequer imaginado no evangelista. Parecia possesso. – SEM POSSIBILIDADE DE ESCAPATÓRIA. NO MEIO DE INFIÉIS. E TENDO DE MATAR ALGUÉM PARA FUGIR. E, AINDA POR CIMA, ESSE URSO CUJA EXISTÊNCIA NÃO FAZ NEM SENTIDO DECIDE RAPTAR A MINHA MÃE E ME AMEAÇA QUE VAI DROGÁ-LA NOVAMENTE! ELA. IA. RECUPERAR. O VÍCIO QUE DESTRUIU A MINHA INFÂNCIA.
A respiração dele estava ofegante enquanto ele jogava a bíblia ao chão e a pisava, estragando a sua capa e folhas por completo.
– DEUS NÃO ME RESPONDEU. COMO SE ELE TIVESSE ME ABANDONADO. QUE MERDA DE DEUS É ESSE? NO MOMENTO MAIS DESESPERANTE DA PORRA DA MINHA VIDA, ELE DECIDE SUMIR!?
– Vou te dar uma novidade, queridinho: Deus não existe. Sua vida nunca teve sentido para começar! – Monokuma deu uma gargalhada cruel, como se estivesse assistindo a uma comédia particularmente engraçada. – Bom, de qualquer forma, chega de conversas chatas, ninguém te pediu para contar a história da sua vida mesmo. Hora da punição! ~~
– E-Espera… Por favor… Alguém me perdoe… Alguém… Me salve! Por favor, eu preciso de viver! Eu ainda não alcancei meu objetivo! POR FAVOR! – Evan chamava para todos, mas sempre que ele encarava alguém, essa pessoa simplesmente virava a cara. Uma corrente apareceu vinda de trás e agarrou no evangelista pelo pescoço.
Vimo-lo sendo puxado para longe, e percebemos que estava na hora… Hora da punição.
The Miracles of Evan Moonglade
Ultima vez que eu peço para você clicar, sério.
Evan foi puxado até a uma cadeira, onde as correntes o soltaram. Quando ele olhou para os lados, notou que estava na verdade no centro de uma enorme mesa de banquete, onde vários monokumas pareciam estar rezando antes de tocar na comida. Confuso, o loiro olha para os ursos até que eles subitamente apontam para ele e começam a pegar em pedras vindas de debaixo da mesa. “HEREGE” “VILÃO!” “BLASFEMO!” gritavam os monokumas à medida que continuavam a jogar mais e mais pedras para o evangelista, que se levantou e começou a tentar recuar, as pedras o atingindo continuamente. Subitamente, no lugar do chão, ele estava sobre uma superfície líquida.
Os monokumas que o apedrejavam haviam propositadamente guiado Evan para uma espécie de poço cheio de água, e quando ele notou, já era tarde demais. Caiu no poço redondo e logo uma tampa gigantesca caiu do teto, fechando Evan lá dentro, de baixo da água. Então, o poço – que se demonstrou como sendo na verdade um cálice gigante – começou a subir, mostrando Evan no seu interior no meio da água através nas suas paredes de vidro. Lentamente, a água foi mudando de cor para um avermelhado à medida que o garoto se debatia para tentar escapar. A certa altura, os tons da água já estavam tão fortes que não se conseguia mais entender o que se passava no seu interior. Após algum tempo, a tampa foi retirada do topo do cálice, puxada por diversas cordas. Os alunos puderam sentir o cheiro característico do vinho, à medida que um crucifixo era puxado para fora do líquido.
E, preso ao crucifixo, estava Evan. Monokuma, usando um vestido preto como se estivesse de luto, veio chorar aos seus pés com ironia.
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