O Regresso do Desespero
18 Desiring for Acceptance
Notas iniciais
A sala do julgamento parecia ficar cada vez maior à medida que, um a um, os nossos colegas iam falecendo, os retratos a preto e branco com um enorme “X” vermelho por cima substituindo o respetivo lugar. Olhei para o meu lado, onde antes estaria Kurama, para encontrar a sua fotografia. A sua expressão séria apenas contribuía mais para o pesado ambiente na sala, como se nos observasse e julgasse pelas nossas ações, esperando que não cometêssemos nenhum erro. Em breve, mais um retrato seria adicionado… Ou, se não conseguíssemos descobrir o assassino, mais nove.
– Vocês já sabem como que isso funciona. – Disse Monokuma, deitado de cabeça para baixo no seu pequeno trono, como se quisesse ver a cena de uma nova perspetiva – Podem começar, sim?
– Dessa vez, receio que isso não vá durar. – Começou Chiyeko, sem grandes delongas, com o seu tom irritado de sempre – O culpado é o Isao. Absolutamente TODAS as pistas apontam para ele.
– Essa é uma conclusão precipitada. – Interveio Eufrat rapidamente – Não creio que seja a melhor ideia fazermos isso assim. Temos de, detalhada e calmamente, analisar todas as pistas primeiro.
– É um saco a gente fazer essas coisa tudo, mas – Começou Akatsuki – Nã’ posso deixar de concordar. No primeiro julgamento lá nós culpámo o Reiko logo na hora e no final ele nã’ tinha feito nada.
Chiyeko cruzou os braços, frisando os lábios furiosamente, mas nada disse, limitando-se a acenar afirmativamente. Provavelmente ela já esperava essas coisas.
– Entãão, as coisas óbvias primeiro, para manter a tradição! – Começou Connor. Parecia um tanto entusiasmado demais para a situação, mas eu sabia que, no fundo, ele estava tremendo de medo (e de vontade de me culpar) – A forma como ela morreu!
– Ela levou com um tiro na nuca, né? – Confirmou Reiko, fazendo uma expressão pensativa. Parecia que estava gastando mais neurónios para alcançar essa conclusão do que devia – Não encontrámos mais nada no anfiteatro. A arma que estava aos pés do Isao foi DEFINITIVAMENTE a arma do crime.
– Uma pistola, não era? – Inquiriu Kobayashi, que parecia radiante com a situação em que estava – Uma arma tão explosiva! Melhor que esse assassinato, só mesmo um incêndio! Ahh, esse assassino é tãão kawaii!
– Ahem. – Interrompeu Kyoishi, levando a estilista a fazer um beicinho de desagrado – Voltando ao assunto… Essa arma só poderia ser pega na sala de tiro, no piso de baixo.
– E a única pessoa que poderia ter ido lá pegar a arma… É o Isao! – Jogou Chiyeko – Ele que ficou com a chave! “SHSL National Hero” uma bosta, mais depressa seria “SHSL National Killer”!
– E-Eu não fui lá pegar nada! Juro!
– Então deixe-me adivinhar. – Continuou Chiyeko – A chave misteriosamente desapareceu do seu quarto, foi?
É, eu estava me enterrando.
– Não… A chave… Continuava lá. Tenho também a certeza que ninguém podia entrar lá, eu trancava o quarto sempre antes de sair por segurança. – Disse. Eu sabia que isso não estava ajudando a me salvar, pelo contrário, mas senti que havia necessidade de dizê-lo.
– Talvez… Exista uma chave mestra. – Comentou Eufrat, com os braços cruzados – O culpado pode ter facilmente entrado na sala desse jeito.
– Hey hey hey! – Interrompeu Monokuma, que subitamente aparentava muito desagradado – Vocês pensam que eu sou um diretor assim TÃO despistado? A única chave mestra que existe para essa escola está COMIGO! Vocês, alunos, não têm acesso a ela!
Eufrat mordeu o lábio inferior, dando uma rápida olhada na minha direção, como que pedindo desculpas. Tentei sorrir-lhe para acalmá-la, mas não consegui. O meu coração batia cada vez mais depressa. Por esse andar… Mais nove pessoas morreriam hoje.
– Hey, podemos votar logo? – Perguntou Reiko, suspirando – Quero dizer… Já deu para entender que o Isao era a única pessoa que podia ter feito isso. Não é como se eu quisesse incriminá-lo, mas…
– Upupu. Me pergunto como seria a execução do SHSL National Hero! Upupupu. – Interviu Monokuma. Ele, aparentemente, estava se divertindo imenso nessa coisa de me incriminar, tanto que até ajudava na festa.
– N-Não!
Quem interrompeu a discussão, dessa vez, não foi uma das pessoas habituais. Virei-me na direção da voz. Era sempre uma surpresa quando ela decidia falar, especialmente nos julgamentos.
– E porquê? – Inquiriu Chiyeko num tom desconfiado.
– P-Porque K-Kimoto não… Faria tal coisa…! – Disse Ai, a voz trémula indicando a dificuldade que ela tinha para se expressar. O seu rosto estava absurdamente vermelho de vergonha e parecia inclusive não conseguir controlar a respiração. Os olhares que recebeu não ajudaram.
– Apenas porque ele aparentemente não faria tal coisa, não significa que ele não o fizesse. Nós não o conhecemos, afinal. – Comentou Connor, torcendo o nariz como que um pouco desagradado por contrariar a ativista, que decidira se esconder em baixo do pódio, completamente assustada. Senti vontade de ir lá e tentar acalmá-la mas, naquele momento, todos os segundos contavam.
– Então podemos votar? Takane quer ir queimar alguma coisaaa ~ – Falou Kobayashi, bocejando como se estivesse particularmente entediada.
– Ah? Já? Que chatos! – Monokuma forçou também um bocejo – Então, à vossa frente tem um paine…
– ESPEREM! – Interrompi, os olhares todos caíram em cima de mim, julgando-me completamente. Por momentos, a minha vontade era de fazer o mesmo que Ai e esconder-me debaixo do pódio – A-Ainda temos de verificar o resto das pistas! Só vimos uma delas, por enquanto!
– Ai que chatoo! – Reclamou KT, suspirando – Takane não tem paciência para isso! Heey, Isao-kuun, admita logo que foi você!
– Sim, Isao. – Concordou Reiko, franzindo a testa – Cara, já deu para ver que foi você…
– Na verdade, eu até concordo co’Isao. – Disse Akatsuki, para minha grande surpresa. Quando ela percebeu que eu estava olhando para ela numa expressão confusa e ao mesmo tempo grata, explicou-se – Nã’ pense qu’eu acho que nã’ foi você, porqu’eu acho. Mas iss’é uma coisa que influencia as nossas vidas todas. Se por acaso o assassino tivesse só encriminand’ele… A gente taria bem fodido.
– À parte do vocabulário repudiante, Akatsuki tem razão. – Concordou Eufrat – Temos de nos certificar que todas as pistas batem certo… Ou então corremos o risco de votar num falso assassino.
– Então, à parte de como conseguiu a arma… Deveríamos, provavelmente, de analisar como que ele prosseguiu com resto do planeamento do assassinato. – Disse Satoru. Ele parecia estar mais numa de observar os outros do que propriamente participar da discussão, soltando um comentário aqui e ali. Contudo, quando ele falava, era sempre certeiro.
– Isso é fácil. – Comentou Connor, sem grandes delongas – O Isa… Digo, o assassino botou a arma em baixo da mesa das comidas. Acho que até aí todos percebemos. Depois ele também manipulou os fios das luzes da festa.
– O assassino fez as luzes tudo se desligarem com o contato ca água do vosso truque, né? – Inquiriu Akatsuki, recebendo um aceno afirmativo de Connor de resposta. Automaticamente saltei para me defender.
– Eu… Não sabia do truque deles. Eu não poderia ter feito isso, porque teria de adivinhar que usariam água no final. – Comentei. Fez-se silêncio por um tempo, até que Reiko decidiu falar.
– E-Espera… Então significa que quem manipulou as luzes não foi você? Mas…!
– ISSO ESTÁ ERRADO! – Interrompeu Chiyeko, convicta em me incriminar – Quem sabe Connor ou Kyoishi não contaram para ele?
– Não, eu não contei nada para o Isao. E eu quase ia, na verdade, se não fosse Kyoishi me interrompendo. – Comentou Connor, subitamente parecendo perder a sua confiança completa – As únicas pessoas que sabiam disso eram… Eu, Kyoishi, Reiko e você, Chiyeko.
– Ora, ora. – Soltou Eufrat, com um sorriso um tanto vitorioso – As coisas parecem ter dado uma volta e tanto.
– Certamente. – Concordou Kyoishi, de braços cruzados numa expressão pensativa. – Acho que está na hora de verificarmos o mapa que eu fiz quando as luzes voltaram.

– Seria meio impossível ser o Kyoishi. – Comentou Akatsuki – Ele tava do outro lado do lugar onde a arma estava… Teria de ser mó ninja para sair do palco, pegar a arma, atirar na Kurama, jogar a arma para perto do Isao e voltar para o palco nesse tempo todo, ainda mais no completo escuro.
– Certamente… E o assassino também atingiu Teemu no seu caminho. – Relembrou Eufrat – Teemu provavelmente esbarrou com ele e acabou sentindo a arma. O assassino deixou-o inconsciente para evitar pistas extras. Pelo menos foi o que eu entendi, pelo que escutei enquanto as luzes estavam desligadas…
– Isso também deixa o Reiko livre de suspeitas, não é? – Inquiri, observando o mapa que Kyoishi segurava para que todos vissem – Ele acabou em baixo da mesa das comidas. Não tinha forma dele atirar ou sequer se mover naquela posição.
– E-espera! – Chamou Connor – Não estou gostando de como isso está avançando! Quer dizer que eu sou um dos principais suspeitos!?
– Juntamente com Chiyeko, sim. – Afirmei. O ilusionista guardou o mapa após o termos analisado o suficiente. Connor rapidamente tentou se defender.
– E-EU SOMENTE CAÍ DO PALCO COM O ESCURO! NÃO FOI PORQUE EU FUI PEGAR A ARMA! – Contestou em plenos pulmões, o pânico espelhado no seu rosto – POR FAVOR, NÃO SOU O ASSASSINO! E-EU JURO!
Chiyeko, contudo, manteve-se calada. Quando esperávamos que ela dissesse alguma coisa, a justiceira limitou-se a manter os braços cruzados. A certa altura, ela soltou um sorriso.
– Excelente tentativa, Kimoto. Contudo… Não foi o suficiente.
– Q-Quê? – Soltei, sem entender o que ela estava querendo dizer. Chiyeko bateu com o punho no pódio.
– KIMOTO! VOCÊ É O ASSASSINO, E POR MUITO QUE TENTE PROVAR O CONTRÁRIO… – Apontou com o dedo para mim de forma ameaçadora – NÃO VAI CONSEGUIR!
– O que você está dizendo… Chiyeko? – Inquiriu Eufrat, numa expressão assustada e confusa.
– Que ele nos enganou com essa do “eu não sabia da existência do truque da água”! – Respondeu a outra num tom zangado, as artérias pulsando na sua testa – Ah é? Então você não sabia…? Me responda a isso, então: Você tem forma de provar que não ouviu o Connor nos contando sobre o truque, escondido?
– Hã? M-mas isso é…
– Uma suposição sem fundamento, não é? – Completou a justiceira imediatamente – Era isso que você ia dizer, não é? MAS NÃO! É claro que isso tem fundamento… Porque nós ainda temos uma prova definitiva contra você: A ARMA DO CRIME!
– Ohhh, Takane compreende! – Disse a designer, como que orgulhosa de si mesmo – Kimoto-kun estava nos distraindo esse tempo todo, para fazer Takane e os outros se esquecer que só ele poderia ter pego a arma! Que método Kawaii!
– Humpf. Todas as outras suas provas são situacionais, realmente. – Comentou Chiyeko – No fundo, qualquer um de nós poderia ter manipulado os fios. Qualquer um de nós, após ter pego a arma, poderia tê-la escondido em baixo da mesa. Todas essas coisas… Poderiam ter sido feitas por qualquer um de nós, que estivemos todos participando da organização da festa!
Ela deu uma risada vitoriosa.
– Mas ainda tem uma coisa que apenas um de nós poderia fazer… Que era TIRAR A ARMA DA SALA DE TIRO! E a única pessoa que poderia fazer tal coisa era você, Isao!
Aqueles argumentos… Eram praticamente imbatíveis. Naquele momento, todos esperavam a minha resposta, mas eu não tinha nenhuma. Por segundos, quase que até eu acreditei que tinha sido o assassino de Kurama. Mas era impossível… Eu nunca faria tal coisa, e sei perfeitamente que não o fiz. Certamente, havia alguma coisa… Algum pormenor que me estivesse escapando… Qualquer coisa mesmo!
Tentei pensar um pouco mais sobre a sala. Ninguém tinha entrado no meu quarto, isso era impossível – eu sempre trancava a minha porta antes de sair. Podia até falar isso, mas estaria me contradizendo, o que só me faria parecer ainda mais suspeito. Por outro lado, antes de sair da sala de Tiro, verifiquei se todas as armas estavam no lugar. Nem Kobayashi ou Chiyeko poderiam ter retirado alguma arma ANTES de eu ter estado lá, porque eu verifiquei. Ou seja… A arma fora retirada de lá antes de eu ter trancado a sala de tiro, mas depois de eu ter verificado a presença de todas as armas? Mas então…
“Verifiquei rapidamente se alguma das armas estava faltando e comecei a andar. Chiyeko, impaciente, me empurrou para a porta para me apressar, o que me fez cair de cara no chão.
– K-Kimoto!? – Chamou a garota, subitamente preocupada. Ela se aproximou de mim após um tempo, tentando ver se eu estava bem. Levantei-me um pouco zonzo. – Er… Desculpe. Não era suposto fazer isso. É que essa sala me dá enjoos. Você está bem?”
– Chiyeko… Quando nós descobrimos a sala de Tiro… Eu lembro que verifiquei se todas as armas estavam no lugar depois de sair. Mas enquanto eu saía, você me empurrou, não foi mesmo? – Falei finalmente, após uns minutos de silêncio. A garota me observou com uma sobrancelha erguida e braços cruzados, como se não entendesse a onde eu queria chegar – Você… Pegou a pistola enquanto eu me levantava, não foi?
– Nee, Kimoto-kun! – Interrompeu Takane, fazendo um beicinho irónico – Você está dizendo que foi Shizue que pegou a arma sem você notar? Nee, mas Takane ficou com ela depois de você ter saído! Shizue não tinha arma nenhuma com ela, Takane viu! ~
– A não ser que ela o tenha escondido na roupa? – Comentei. Chiyeko riu.
– E onde exatamente é que eu esconderia uma pistola? Não sei se notou, mas eu estou usando uma roupa de marinheira. E o meu casaco não tem bolsos grandes o suficiente para guardar uma pistola desse tamanho. – Enquanto ela falava, puxava os bolsos do seu casaco, mostrando-os do avesso para que tivéssemos noção do quão pequenos eles eram e também provava não haver bolsos extra na parte de dentro. Foi aí que eu entendi.
O que significava o seu título de “justiceira”.
– Mas você… É uma justiceira. Isso significa que você punia as pessoas que considera “más”, não é? – Fiz uma pequena pausa antes de continuar. Tinha de ter a certeza que usava as palavras certas. O meu objetivo não era convencê-la, era convencer os outros. – Duvido muito que uma justiceira não tivesse um lugar secreto para guardar uma arma de algum tipo. Aposto até que você anda sempre armada. E não precisa de ser uma pistola… Poderia ser uma faca? Uma adaga? De qualquer jeito… Tenho a certeza que você teria um jeito de guardá-la!
– Ohh, talvez em baixo da saia! – Comentou Connor, entusiasmado – Seria tão estilo anime! Suuuper legal!
– E-Eu não estou sempre armada nem nada que se pareça! Essas coisas são perigosas! – Reclamou a garota.
– Bom… Você, de facto, ficou um tanto irritada por eu ter de lhe revistar antes de entrar para a festa. – Comentou Eufrat. – Seria por isso? Porque não poderia levar a sua arma consigo para que eu não descobrisse?
– De qualquer forma, há um jeito fácil de verificar isso. É ir ao seu quarto ver se tem algo suspeito por lá, ou então… Verificar a sua roupa. – Comentei, com um sorriso. Tinha a certeza que a tinha pegado.
– E uma justiceira teria facilidade em deixar Teemu inconsciente, apesar dele ser bem maior e mais forte que ela. – Adicionou Kyoishi, olhando para o teto como se estivesse apenas falando para si mesmo. A justiceira bateu no pódio, irritada.
– ISSO SÃO PROVAS SITUACIONAIS! – Gritou, os olhos saltando de pessoa em pessoa em fúria. Isso apenas confirmava as minhas suspeitas. Sim, agora as coisas estavam começando a ficar melhor para mim…
– Oh. É verdade. – Subitamente, a justiceira acalmou-se, mantendo um sorriso absurdamente calmo e incaracterístico da mesma. – Então, me explique, Isao. Vamos assumir que fui eu então, sim? Vamos primeiro relembrar o que aconteceu ANTES das luzes se desligarem. Takane jogou álcool na minha cara. Eu fiquei com a visão bastante entorpecida, ainda tenho, na verdade. Então, Isao… Isso significa que eu não conseguia ver direito. Como que eu iria mirar na Kurama antes das luzes se apagarem com a visão naquele estado?
– Cê viu p’las pulseiras… – Comentou Akatsuki, como se fosse óbvio. Só que depois ela entendeu a onde que Chiyeko queria chegar, abrindo a boca num perfeito "o".
– Há! Exatamente, o assassino provavelmente viu pelas pulseiras, porque ele ainda teria de pegar a arma no escuro para depois encontrar Kurama novamente e atirar nela! Isso seria meio impossível sem qualquer tipo de orientação. Mas então… Para mim, aquelas pulseiras pareciam meras manchas, quase impossíveis de se ver. – Comentou ela, numa expressão vitoriosa – Acham mesmo que seria fácil para mim distinguir a pulseira de Kurama e ainda atirar direto na nuca dela? Humpf, sinceramente… Que ideia ridícula.
Não, não, não. O que ela estava dizendo fazia sentido. Não tinha forma dela conseguir encontrar Kurama no meio daquela confusão, ainda mais com a visão naquele estado. O que significa que teria de ser eu o assassino, visto que Connor nunca teve acesso à sala de tiro. Será que eu estava errado esse tempo todo? Será que Chiyeko não era realmente a assassina? Poderia ser outra pessoa ali presente? Os meus olhos foram saltando de pessoa em pessoa, procurando uma ajuda, uma luz. Eufrat, Ai, o lugar vazio de Teemu, Reiko, Connor, Kyoishi, Akatsuki, Takane…
...Não. Eu estava certo, só estava vendo tudo do jeito errado.
– Ou então… Ou então o seu alvo nunca foi a Kurama, para começar. – Disse. A reação de Chiyeko fora o suficiente para eu perceber que estava certo.
– O quê!? – Grunhiu a justiceira – Não seja ridículo! O assassino obviamente pretendia matar a Kurama!
– A não ser que o assassino não conseguisse enxergar direito para distinguir a cor da pulseira de Kurama da cor da pulseira… De outra pessoa. – Acrescentei. Não sentia vontade de rir, vitorioso. Sentia apenas mágoa por saber que estava próximo de condenar mais um dos meus colegas a uma execução.
– Certamente… Kurama tinha uma pulseira de cor relativamente semelhante à de Kobayashi, não é verdade? – Eufrat, também, já tinha chegado à mesma conclusão que eu.
– Oh, é mesmo! – Soltou Connor, completamente surpreso. Talvez um pouco entusiasmado demais para a situação em que estávamos. – São dois rosas de tons diferentes, mas não deixam de ser rosa!
– Tendo em conta a posição onde o assassino teria de estar para retirar a arma de debaixo da mesa, ele estaria muito mais próximo de Kurama que de Kobayashi, assumindo que nenhuma delas se moveu durante o apagão. – Concluiu o ilusionista, ainda com um tom um tanto ausente.
– O que significa que o assassino provavelmente mal conseguia ver Takane de onde estava! – Acrescentou Reiko.
– Adiciona isso à visão mó ruim dele, e ele nem deve ter pensado duas vezes em atirar na Kurama, achando qu’ela era Takane. – Dessa vez fora Akatsuki quem falara. Chiyeko quase que arrancava o pódio do lugar onde estava, completamente fula.
– Ara ara, kawaii! Esse assassinato é digno de Shizue-chan, tão kawaii! Tentando matar Takane... O seu coração flamejante palpita mais fortemente por essa!
Chiyeko… Ela certamente era a assassina.
Durante a investigação do novo andar que tinha sido aberto, ela pegou uma pistola pouco depois de me ter empurrado, enquanto eu estava distraído com a cara no chão. Escondendo a arma num lugar secreto da sua roupa – talvez na saia, quem sabe – ela conseguiu sair e levar a arma consigo sem eu ou KT sequer desconfiarmos. Depois era só se aproveitar da festa obrigatória para cometer um assassinato na frente de todos e jogar as culpas em mim.
Ela comprometeu os fios das luzes de festa, sabendo que eu ajudara Ai e Eufrat a prepará-las momentos antes. Isso porque Connor lhe tinha dito que um dos truques envolveria uma “chuva” dentro do próprio anfiteatro, o que, no contato com os fios, levaria a um curto-circuito. Depois escondeu a pistola debaixo da mesa das comidas. Se ela fez isso escondida enquanto todos estavam ocupados com as preparações ou simplesmente a meio da noite, não tinha forma de saber. Contudo, certamente ela era capaz de fazer tal coisa. Também deve ter sugerido as pulseiras a Eufrat já com intenções de usá-las para o assassinato, apesar de ter fingido que fora mero acaso.
Durante a festa, alguns imprevistos aconteceram. Kobayashi entrou numa briga com a justiceira e acabou jogando álcool na cara dela. A sua visão ficou, por isso, afetada. Então, quando o apagão começou, não conseguiu perceber que a pulseira rosa-claro de Kurama não era a mesma que a pulseira rosa-choque da estilista, atirando por isso no alvo errado. Chiyeko então saiu do lugar onde estava, indo contra Teemu acidentalmente. O aventureiro sentiu a arma, pelo que ela teve de rapidamente deixá-lo inconsciente – tarefa que não era propriamente difícil para ela, visto que, sendo uma justiceira, já tivera de vencer pessoas numa luta em condições bem piores. Após isso, afastou-se de Teemu e jogou a arma para longe, que para sorte dela acabou aos meus pés. Todas as pistas nesse momento batiam certo.
– Upupu… O tempo acabou! Por favor, votem no painel à vossa frente! Não se esqueçam que, se acertarem no assassino, ele será punido, mas se errarem, VOCÊS serão punidos! – Disse Monokuma, se deliciando com a situação que estava acontecendo. Seria possível que tudo aquilo que ele fazia era só para se divertir? Era isso que vidas de outras pessoas significavam para ele? – A minha barriguinha gorda mal pode esperar! Ohh, ohhh, por favor, se apressem!
Então, como das outras vezes escolhemos o rosto de Chiyeko no painel no nosso pódio. Quando a roda da fortuna apareceu, ela girou e girou por minutos que pareceram horas, a seta parando em Chiyeko após algumas voltas. Como sempre, uma música alegre e descontextualizada fez-se ouvir juntamente com a palavra “Vitória”.
– Yahoo! – Aplaudiu Monokuma alegremente – Estão certos, como é óbvio! Shizue Chiyeko foi a assassina da vez!
– E-Então você fez tudo isso só porque… Queria punir a KT pelo que ela era? – Inquiriu Reiko. A justiceira não lhe respondeu, limitando-se a encarar o chão.
– Eu… Suponho que sim. – Respondi, visto que a outra não o faria. – Não é, Chiyeko? Você só queria continuar o seu trabalho… como justiceira.
Ela continuou encarando o chão por um tempo, até que finalmente falou. A sua voz era tão baixa que mal se ouvia.
– Sim. – Disse ela. – Eu queria… punir Takane… Só queria seguir com o meu dever… Como justiceira…
– Upupu! – Monokuma riu, zombando da cara da justiceira abertamente – Mentir é feio, não é mesmo? Seja sincera, sua justiceira podre! Você simplesmente não aguentou a verdade, não é mesmo?
Semicerrando os punhos, a justiceira olhou para Monokuma com um olhar irritado. Contudo, ao contrário dos olhares furiosos que ela mandara até então… aquele rapidamente perdera a sua força.
– Eu…
– Oh, quer que eu explique? Não se preocupe, eu explico! – Dizia Monokuma, erguendo a pata como se estivesse se voluntariando. Contudo, a outra rapidamente o interrompeu.
– CALA A BOCA, SEU URSO IMBECIL. – Gritou ela – TUDO BEM, EU EXPLICO! MAS QUE PORRA! QUANTA MAIS HUMILHAÇÃO VOCÊ QUER QUE EU PASSE!?
O nosso “diretor” limitou-se a inclinar a cabeça e a rir baixinho, sem comentar nada. Após inspirar fundo, Chiyeko rapidamente decidiu falar.
– Então… Quando eu era muito mais nova, eu tinha um grande afeto pelos meus pais. Éramos uma família feliz, podemos assim dizer. Contudo… Meu pai, um dia, traiu a minha mãe. Ela ficou possessa de ódio. Eles começaram a brigar todos os dias. Em vez da minha mãe me fazer panquecas para o pequeno-almoço, eu tinha de me limitar a comer cereais e a fingir que não escutava nada. Em vez de ver meus programas de televisão favoritos com meu pai, ficava sozinha na sala, com o volume no máximo para abafar as tapas que a minha mãe dava nele.
Os olhos da garota ficaram vermelhos, pelo que ela teve de parar de falar por uns momentos enquanto engolia em seco, tentando forçar as lágrimas a não saírem.
– C-Certo dia… Minha mãe ficou louca. Não sei até hoje o que aconteceu, m-mas… Ela… P-pegou numa faca e… – As lágrimas, teimosas, começaram a cair. A justiceira continuava falando, contudo, a todo o custo. – Ela atacou o papai. Ela ria e ria, enquanto o meu pai delirava de dor até finalmente perder a vida. D-Depois ela foi para o meu quarto, a faca pingando sangue, e me pergunta… “Você ama a mamãe, não é? Vamos, querida, me abrace. Como os bons velhos tempos.” Até hoje não consigo esquecer essa visão… E-eu simplesmente paralisei. Não consegui sequer me mover, e ela ia se aproximando. “Shizue? O que se passa, amor?” ela perguntava. E eu continuava paralisada, encolhida na minha cama. “Shizue? Você não… ama a mamãe?”
«A certa hora, ela entendeu que eu não ia responder, então levantou a faca e… Tentou fazer o mesmo comigo do que fez com o meu pai. Fui atingida nas costas enquanto tentava finalmente fugir, mas ainda assim consegui sair do quarto. Eu… Eu não sabia o que fazer. Estava em pânico. Consegui pegar num vaso, e joguei-o na minha mãe… Que caiu e soltou a faca, surpresa. Ainda assim, ela tentava me atacar mais, então… Eu… Eu…
Chiyeko não acabou aquela frase. Limitou-se a encarar o chão durante um tempo, até voltar a falar.
– D-de qualquer forma… Depois disso, fui levada a um orfanato. Obviamente que eu não era o tipo de criança mais aconselhada para estar com os outros, por isso os psicólogos isolaram-me. Contudo… Foi nesse dia que eu conheci… Ela.
«Era uma garota mais velha que, aparentemente, também tinha alguns problemas. Ela vivia sempre sozinha, sentada num canto com o gato dela, de aspeto ainda mais frágil que eu. Naquela altura, senti algum interesse em falar com ela… E foi assim que conheci aquela que seria a minha melhor amiga da época, Asami. Ela era… Muito simpática e compreensiva. Só que, quando soube da minha história, ela não reagiu da forma que eu esperava. Em vez de me consolar, ela disse… Que eu tinha uma missão. Não me esqueço das suas palavras. "Já que você, Shizue, já provou dessa dor — digo, de deixar uma pessoa a mercê da morte e depois disso tê-la vingado... Você é uma espécie de mediadora agora. Você pode salvar mais gente, pode impedir que alguém se machuque de novo. Você tem preparo, você tem um motivo pelo que lutar".
«Eu… Eu não sabia bem como reagir. Na altura, não liguei muito, mas Asami continuou puxando assunto. E ela dizia isso de um jeito tão… doce. Tão apelativo. A certa altura, comecei a acreditar no que ela falava. E isso só piorou quando, um dia, salvei o gato dela de uns garotos que o tinham pego e o machucavam – à custa da vida de um deles. Fui taxada de perigosa a partir desse dia, as chances de eu ser adotada sumindo por completo. Porém… Por alguma razão, eu senti que tinha feito a ação certa. E Asami concordava. Talvez… Talvez fosse aquela a razão para eu viver?
«Após algum tempo, Asami fez 18 anos e saiu do orfanato. Seguiu-se então um período de completa solidão. Ela era minha única amiga. Apesar de trocarmos cartas, eu passava os dias sem mais companhia. Os meus psicólogos limitavam-se a julgar-me, a dizer que eu tinha de mudar. Mas Asami não, ela me compreendia. Eu sentia tanto a falta dela… Até que, eventualmente, a vida dela estabilizou e eu fui adotada por ela. E assim comecei a fazer justiça, com a sua ajuda. Foi assim que eu ganhei o meu título, e a minha razão de viver.
Fez-se uma pausa enquanto todos observavam a garota, cada um com uma expressão diferente. Alguns olhavam-na com pena. Outros com admiração. Eu, pessoalmente, estava mais como que perplexo por uma história tão complexa da parte da justiceira. E, de certa forma… Consegui compreender o lado dela. Chiyeko semicerrou o punho, irritada.
– MAS AÍ EU DECIDI ENTRAR NESSA MALDITA ESCOLA! – Berrou ela, completamente fora de si – COMO QUE EU VOU AJUDAR OS OUTROS, COMO QUE EU VOU LIMPAR O MUNDO DAS PESSOAS PODRES QUE ANDAM POR AÍ, SALVAR OS INDEFESOS, OS FRACOS, OS POBRES? ESSAS PESSOAS PRECISAM DE AJUDA! E EU NÃO POSSO FAZER NADA AQUI, PORQUE DECIDI QUE MEUS ESTUDOS ERAM MAIS IMPORTANTES!
Começou a soluçar, mordendo o lábio inferior como se quisesse parar. Contudo, não conseguia. As lágrimas caíam continuamente pelo seu rosto.
– E-Eu… Eu vim aqui, e descobri que a pessoa que eu mais confiava… Era uma psicopata, uma louca. E depois, com aquele filme… E-Eu… Vi a minha m-mãe adotiva… Asami… Matando… Uma garotinha…
– C-Chiyeko… – Tentei falar, só que Monokuma me interrompeu.
– Upupupu! Chiyeko viu a pessoa que lhe deu um motivo para viver… Matando alguém! Fazendo exatamente o oposto do que lhe tinha dito! – Soltou Monokuma. A sua voz estava sombria, o olho vermelho com uma forma estranha brilhando. – Upupu… Mas que desesperante, não é? Todos os seus valores foram uma mentira esse tempo todo. Upupu! Não existe ninguém para você defender, Shizue-chan! Todas as pessoas são podres, todos vão tentar se aproveitar dos mais fracos. E o pior é que até os mais fracos… Assim que tiverem a chance, vão fazer o mesmo!
– A minha motivação para viver… O meu dever… Sempre foi uma mentira. Ahh, esse mundo é podre. – Dizia Chiyeko, a expressão dela completamente vazia. A justiceira… Estava experienciando um desespero ainda pior do que algum de nós até alguma vez vivera. E eu me sentia completamente incapaz de fazer alguma coisa para ajudá-la. – Ahh, o que fazer, o que fazer? Certamente… A única solução é acabar com a humanidade. Sim, é por isso que não me fazia diferença se eu matava Kurama ou KT. No final, eu não quero saber de nenhum de vocês. Afinal, também vocês são humanos. Também vocês, eventualmente, destruirão a vida de outra pessoa com vossos desejos egoístas. Todas as pessoas… Deveriam morrer. Todas, todas, todas, todas, todas.
– Ch-Chiyeko!? – Chamou Reiko, assustado – E-Ela está completamente…
– Ela tá ficando louca! – Disse Akatsuki, abrindo os olhos e recuando um passo, como se a outra tivesse uma doença contagiosa.
Eu fiquei sem reação. De uma moça irritadiça com um tempero explosivo, passou para alguém sentimental para uma completa sociopata em apenas alguns momentos. Olhei para Monokuma, que comia mel com calma. Ele… Estava planeando isso desde o início?
– Não, Shizue. Isso não é verdade. – Disse Kyoishi. Dessa vez, não parecia estar falando para o alto, encarando a outra direto nos olhos e usando o seu primeiro nome em vez do último, como que para conseguir chegar ao seu coração. – O que você fez… Teve valor sim. Não importa do que as consequências tenham sido.
– Mas que coisa… Ridícula de se dizer. – Comentou a justiceira, ainda mantendo a sua expressão vazia. – Como que pode ter valor, se eu ajudei apenas a que pessoas como Takane e Asami continuassem vivas por aí?
– O valor… Está nas suas intenções. Você sempre quis salvar o mundo, certo? – Inquriu o ilusionista, fazendo um sorriso breve – Hey, você fez de tudo para isso. Você pode ter errado algumas vezes, mas… Isso é porque você é humana. Você não é uma deusa para fazer tudo de forma perfeita. E tenho a certeza que, algures por aí… Alguém ficou feliz pela sua ajuda. Alguém que merecia a sua ajuda.
– E-Eu…
– Como que você seria a Super High School Level Vigilante se não tivesse feito algo de bom? Tenho a certeza… A certeza absoluta que você é uma pessoa excelente. Nenhuma das suas ações foi com malícia. – Kyoishi estendeu a mão – Hey, Shizue. Se alguma vez… Numa outra vida, talvez, tivermos a chance de nos conhecer de novo… Espero que sejamos bons amigos.
Lágrimas caíram do rosto da garota, que deu a mão ao ilusionista e, pela primeira vez em muito tempo…
…Sorriu. Um sorriso genuíno, não um de vitória ou de sarcasmo. Um sorriso de felicidade, como que de uma criança.
– O-Obrigada… E-Eu… Fui uma pessoa horrível e… – Limpou as lágrimas, inspirando fundo – Mesmo assim, você me ajudou. Você me deu… Uma última esperança...
– Hey, já chega! Está na hora da execução, estou farto dessa porcaria de “esperança” – Interrompeu Monokuma, completamente irritado – Vejamos se você continua com esse sentimento quando sentir essa execução especialmente preparada para a Super High School Level Vigilante!
GAME OVER.
Shizue Chiyeko foi identificada como culpada. Começando execução…
Supergirl's Powers Activate! To the Rescue!
Shizue foi puxada para uma espécie de rua, onde a lua cheia – falsa, obviamente – brilhava. A garota olhou para os lados, completamente confusa, claramente sem conseguir identificar o lugar onde estava. Rapidamente, alguns monokumas passaram por ela, correndo para o outro lado. Olhando ao fundo, a justiceira encontrou uma criancinha caída no chão, sendo espancada pelos monokumas com bastões.
Após hesitar por uns momentos, ela correu até eles, chutando os Monokumas rapidamente para longe e pegando na criança pela mão. Rapidamente apareceram outros Monokumas da rua, pronta a pegá-las. Sem nem olhar na cara da criança, puxou-a para dentro da porta de uma das casas, fechando a porta e inspirando fundo, pensando que estava em segurança. Contudo, quando olhou para a cara da criança, viu apenas o rosto do monokuma – ela era, também, um robô. A criança-monokuma ria, segurando um isqueiro e ligando-o, jogando-o ao chão.
O fogo começou a tomar conta do cômodo onde estavam. Eventualmente, Chiyeko começou a tossir, caindo para o chão inconsciente por falta de oxigénio e sendo tomada pelas chamas.
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