O Reflexo do Verão
6 Faíscas no Escuro
O sol deu lugar a um manto de estrelas que parecia brilhar com mais intensidade naquela clareira isolada. O crepitar da lenha era o som dominante, intercalado pelas risadas de Conrad e Ariel, que pareciam estar em seu próprio mundo.
A fogueira lançava sombras dançantes nos rostos dos quatro jovens. Conrad, com um espeto de madeira na mão, tentava sem muito sucesso dourar marshmallows enquanto Ariel apoiava a cabeça em seu ombro, observando as chamas.
— Sabe o que é loucura? — Conrad começou, a voz ficando mais baixa e reflexiva. — Daqui a pouco o tempo vai passar e a gente vai estar rindo desse acampamento em uma mesa de bar na faculdade, sentindo falta desse silêncio.
— Ou vamos estar reclamando do frio e das provas — Ariel completou, rindo. — Mike, você está muito quieto. O que foi? O mestre da sobrevivência não gosta de marshmallows?
Michael, que estava sentado em um tronco caído do lado oposto ao fogo, deu um sorriso de canto. Ele estava brincando com um graveto, desenhando padrões abstratos na terra.
— Só estou aproveitando a paz. E cuidando para o Conrad não colocar fogo na floresta inteira.
— Engraçadinho — rebateu Conrad. — E você, Sarah? Está muito calada também. Arrependida de ter trocado seu quarto com ar-condicionado por isso aqui?
Sarah estava sentada no chão, abraçando os joelhos, perigosamente perto de Michael. A luz alaranjada do fogo destacava os contornos do seu rosto, dando-lhe um ar quase místico.
— Nem um pouco — ela respondeu, os olhos fixos nas brasas. — É bom ver que algumas coisas não mudam, mas é melhor ainda ver as que estão mudando.
Ela lançou um olhar rápido para Michael sob os cílios, e ele sentiu o impacto daquela frase. Para quebrar a tensão, Ariel sugeriu um jogo de perguntas, mas logo a conversa derivou para memórias de infância.
— Lembra quando o Michael tentou ensinar a Sarah a andar de skate e ela acabou caindo na fonte da casa dele? — Conrad gargalhou, lembrando da cena.
— Eu lembro que o Michael pulou na água logo atrás de mim, morrendo de medo que eu contasse para o meu pai — Sarah provocou, rindo baixo.
— Eu só não queria que o Ricardo me proibisse de ir lá por um mês — Michael se defendeu, embora a memória trouxesse um calor nostálgico que não vinha do fogo. — Eu sempre tive que cuidar de você, Sarah. Era o meu trabalho.
— Pois é, Michael... — Sarah murmurou, inclinando-se um pouco mais na direção dele, a voz quase sumindo no barulho do vento entre as árvores. — Mas eu não sou mais aquela menina que cai na fonte e precisa de resgate. Talvez agora você devesse se preocupar em se salvar.
Michael travou, o graveto em sua mão quebrando com um estalo seco. Conrad e Ariel estavam ocupados demais discutindo qual música deveriam tentar cantar juntos para perceberem o diálogo paralelo.
— Bom, o papo está ótimo, mas se a gente quer ver o nascer do sol na trilha amanhã, melhor irmos para as barracas — Conrad anunciou, levantando-se e puxando Ariel pela mão. — Boa sorte com os roncos da Sarah, Mike!
— Conrad! — Sarah jogou uma folha seca no irmão, rindo, mas seu coração disparou quando percebeu que o momento de ficarem a sós no espaço confinado da barraca havia chegado.
Michael se levantou, limpando a terra da bermuda.
— Vamos logo. O fogo já está baixando.
Eles caminharam em silêncio até a barraca menor. O zíper se abrindo pareceu um trovão no silêncio da noite. Michael entrou primeiro, ajeitando a lanterna no topo, criando uma iluminação suave e íntima lá dentro. Quando Sarah entrou e fechou o zíper atrás de si, o mundo lá fora deixou de existir. Agora, eram apenas os dois, o cheiro da terra e uma tensão que ameaçava explodir a qualquer segundo.
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