– Isso é uma câmera fotográfica?
– Sim – disse Reflexo. — Eu achei na rua. É a coisa mais valiosa que tenho.
– Ela é boa?
– Não muito... Dá para tirar algumas fotos...
– Nós podemos testar?
Reflexo começou tirando algumas fotos de Nagato. Ele era um filhote extremamente preguiçoso.
– Já reparou que ele é nosso inverso?
– Como assim? — Perguntei, completamente confuso.
– Nós temos cabelos amarelos e olhos cinzas. Ele tem pêlo cinza e olhos amarelos.
– Nossa – eu disse. Não era o tipo de coisa que eu repararia.
Depois que Reflexo cansou de tirar fotos do gato, eu virei cobaia.
Reflexo me obrigou a trocar de roupa trocentas vezes e fazer poses. As fotos ficaram legais, admito. A câmera realmente não era nenhuma profissional, mas era boazinha.
Depois, ele pediu para que eu tirasse fotos dele. Eu não era nenhum fotógrafo, mas ficou razoavelmente bom.
Na hora do almoço, Reflexo foi embora.

Foram várias semanas em que Reflexo me visitava diariamente e brincávamos a manhã inteira. Às vezes, eu tinha que sair com os meus pais, então não dava. Inventávamos brincadeiras novas, jogávamos meus jogos de tabuleiro e de cartas. As minhas manhãs eram a melhor parte do dia.
Reflexo adorava tirar fotos minhas. Depois de algum tempo, começamos a sair do quarto e ficar pelo jardim. Sempre em silêncio, pois tínhamos medo de que meus pais descobrissem. Tínhamos medo do que eles diriam. Mesmo assim, eu sempre comentava com meus pais sobre o meu amigo, que eles acreditavam ser na escola.
Meus pais chegaram a saber de detalhes, como a aparência de Reflexo. Eu disse que todos na escola o chamavam de Reflexo, e que não sabia o nome dele de verdade. Fazia de tudo para disfarçar. Mas meus pais começaram a notar uma coisa estranha, e não era o fato de eu ter um amigo (garoto) muito próximo.
Essa desconfiança começou na véspera meu aniversário.
– Wes – disse minha mãe, durante o jantar. — Eu quero que você chame os seus amigos para vir amanhã.
– O que você vai fazer amanhã? — Perguntei, animado, pois não esperava que ela fosse fazer alguma coisa especial.
– Eu e o seu pai conversamos e decidimos fazer uma coisinha.
– Tudo bem, mas que coisinha?

– Você vai ver amanhã – disse minha mãe, com um tom que dizia para não insistir. — Chame o seu amigo que parece com você, queremos conhecê-lo.
– Claro.

– Eu não vou.

– O quê? Reflexo, é meu aniversário! Como você pode não vir na festa de aniversário do melhor amigo?
– Eu não tenho roupa pra isso, Wes. Você sabe disso.
– Mas eu te empres... — Estava prestes a completar a frase, quando lembrei que meus pais compraram todas as minhas roupas. Eles a conhecem. — Ah... Eu posso falar com meus pais. Eles podem dar um jeito.
– Nada disso. Não posso pedir nada a seus pais, eu nem os conheço.
– Você não vai pedir, Reflexo, eu vou.
– Mesmo assim. Vai pedir pra mim. É sério, Wes, não faço questão disso.
– Mas você nunca foi em uma festa.
– E daí?
– Reflexo, por favor.
Reflexo desviou o olhar para a janela. Não adiantaria tentar convencê-lo.
– Tudo bem, tudo bem. Não deixe de aparecer amanhã. E depois de amanhã, vamos fazer nossa própria pequena festa com o que sobrar.
Reflexo sorriu.

Segundo as ordens de minha mãe, disse aos meus amigos da escola que suas mães deveriam levá-los às sete e buscá-los às nove. Eu não sabia o que minha mãe ia fazer, por isso foi difícil quando eles perguntaram. Eu não soube o que dizer.
Marcos era um garoto grande de cabelos cacheados. Neto era menor, tinha cabelos pretos e lisos cortados no estilo indígena. Paulo tinha cabelo curtinho, castanho, e era bem magro. Matheus tinha o cabelo jogado para o lado, muito engraçado.
No dia seguinte, fiquei triste por Reflexo só ter ficado alguns minutos. Logo no começo da manhã, ele foi embora quando meus pais me chamaram para ajudar. Eu só peguei uma parte da preparação. Eu fiquei ajudando minha mãe a enrolar brigadeiros. O restante das coisas só chegou depois que eu fui para a escola.
Quando eu cheguei, estava tudo praticamente pronto. A mesa de dentro estava forrada com uma toalha azul e cheia de doces e balas enroladas. Atrás, um TNT azul com fotos minhas – o que me fez lembrar de Reflexo – cercado por um arco de bolas azuis e marrons. No meio da mesa havia um espaço circular.
– O que achou? — Perguntou minha mãe, vindo da cozinha com uma toalha de prato que usava para enxugar as mãos.
– Está lindo! — Eu disse. — Cadê o papai?
– Foi buscar o bolo.
– Bolo chegando – disse ele, entrando em casa. O bolo era decorado nas mesmas cores da festa. E tinha o meu nome – sim, Wesley – escrito com letras marrons de pasta americano. Meu pai colocou sobre a mesa.
– Wesley? Mãe, Wes. Wes!
– Seu nome não é Wes, seu apelido é Wes. — Minha mãe pegou a vela embalada que estava entre as coisas na mesa e balançou para mim. A vela era um sete azul. — Mude de roupa e cuide disso.
Fui para meu quarto e mudei de roupa. Depois, fui para a sala, e olhei para o nome Wesley sobre o bolo.
– Isso não pode ficar assim.