Passei um pouco de perfume quando estava pronto. Minha mãe me fez vestir a roupa azul que eu odiava, só para combinar com tudo. Não que fosse feia, era bonitinha, mas pinicava.
– Seus amigos vêm, Wes? — Perguntou meu pai, cortando pães de cachorro-quente.
– Disseram que sim. Marcos talvez se atrase.
– E seu amigo que parece com você?
– É Reflexo, mãe. E ele não vem.
– O quê? Por que não?
– Porque ele não pode. Tem outro compromisso.
– Que amigo bom.
– Carlos! Não fale assim do amigo do seu filho.
– Ué, eu disse que ele é bom.
Minha mãe lançou um olhar reprovador para meu pai. Ela sabia que eu reconhecia a ironia.
– Wes, ligue o rádio.
– Com que CD?
– O da Xuxa, ué.
– Xuxa? XUXA, mãe? Você sabe que a idade da Xuxa já foi.
– É isso ou Patati e Patatá.
Revirei os olhos e fui para a sala. Procurei algum CD que prestasse no porta-CDs e coloquei no rádio um dos sertanejos da mamãe.
– Wes, isso não é música para festa.
– Xuxa também não.
A campainha tocou.
– Vá atender seus amigos, Wes.
Eu fui ver quem estava chamando. Marcos tinha acabado de chegar, e felizmente tinha dado carona para Neto. É muito desagradável quando tem só duas crianças na festa. Eu dei as boas vindas e os mandei entrar.
Chegamos à sala de estar junto com mamãe, que tinha vindo com uma bandeja cheia de cachorros-quentes.
– Olá, meninos! Fiquem à vontade.
Eu fiquei conversando com meus amigos enquanto esperávamos os outros chegarem. Logo, estávamos inventando brincadeiras e correndo pela casa.
– Ah, Céus! – Gritou minha mãe, na frente da mesa. – O que houve com o bolo?
Eu fingi que não ouvi e continuei tentando alcançar Marcos no pega-pega, embora um sorriso tivesse atravessado minha face ao lembrar de como o L, o E e o Y estavam deliciosos.
Mais tarde, eu e os meninos estávamos no meu quarto. Eles exploravam o quarto, procurando os brinquedos e outras coisas de grande utilidade infantil. Eu os observava, respondia perguntas e às vezes mostrava coisas que eu achava muito importantes, como Nagato. Larissa, a única menina no quarto, me olhava de uma forma que me deixava nervoso. Estava mostrando alguns de meus jogos para o grupo quando eu vi um rosto na janela.

– Ele está aqui – murmurei, um pouco alto demais.

– Ele quem? – Perguntou Matheus, bem alto, olhando para onde eu olhava: a janela.
– Ninguém – eu disse, lembrando que Reflexo não queria ser visto. – Deixa pra lá.
– Meninos, venham cantar o parabéns. – Disse minha mãe.

– Parabéns pra você... – Eu odeio essa parte. – Nessa data querida... – E como eu odeio. – Muitas felicidades... – Ai, que droga. – Muitos anos de vidaaa... Eeeeeeeehhh!
Sim. Eu odeio muito.
Minha mãe não parava de me encarar com um sorriso forçado que dizia: “você comeu o bolo”. Francamente.
Assoprei a vela em formato de nove, desejando não ter que cantar parabéns de novo. Minha mãe começou a cortar o bolo e distribuir as coisas. Enquanto ela entregava as coisas para Neto, conversava com ele. Eu queria muito saber o assunto. Mas sei que mamãe me olhou de forma estranha depois.


Fui dormir bem feliz com a festa. Embora ela tenha momentos constrangedores, é bom reunir os amigos assim. Fiquei pensando muito em Larissa, e se ela tinha realmente a intenção de parecer... Interessada. Eu tive a impressão de que ela ficou a festa toda olhando pra mim. Mas acho que era mais por eu ser o aniversariante.

Mas pensei muito mais em Reflexo. Ele tinha visto eu e meus amigos no quarto. Fiquei pensando se ele ficaria chateado, se ele pensou alguma coisa ruim. Afinal, eu sempre disse que não tinha amigos, e no entanto, tinha convidado alguns para minha festa. E ele não havia ido. Acho que ele tinha medo de conhecer as pessoas. No entanto, havia me conhecido...
Bom, eu esperei muito que eu o encontrasse na manhã seguinte.