O Refúgio da Princesa

2 2. Abrigo temporário


Eram aproximadamente duas horas da manhã, e Anneliese permanecia naquele banco de praça, em um lugar totalmente deserto. O silêncio era quebrado apenas pelo suave murmúrio da neve caindo, transformando as ruas em um cenário etéreo. A cidade, mergulhada na escuridão noturna, parecia adormecida, com apenas alguns aventureiros corajosos retornando para casa.

A fina neve caía do céu, criando um tapete branco que encobria as ruas. Cada flocos de neve parecia dançar no ar antes de repousar, transformando o ambiente em um espetáculo. Anneliese, sentindo desconforto, tirou os sapatos, permitindo que seus pés descalços sentissem a textura da neve. Seu rosto, normalmente impenetrável, exibia uma expressão apática e distante, como se estivesse desconectada do mundo ao seu redor.

Seu povo era conhecido por sua resistência a temperaturas extremas, e Anneliese podia permanecer descalça sem sofrer com o frio. Seus olhos vazios vagavam sem rumo pelas ruas, passando pelos prédios cobertos de neve, enquanto a cidade silenciosa dormia. As lágrimas haviam cessado, mas uma sombra escura envolvia seu coração e mente, tornando a noite ainda mais sombria para ela.

Anneliese caminhava pelas ruas congeladas, onde a escuridão da madrugada era rompida apenas pelas luzes da rua. O esgotamento mental tornava-se cada vez mais evidente, uma fadiga que se manifestava mesmo em alguém de resistência excepcional como ela. Até que, em um canto isolado do bairro, parou diante de um prédio abandonado, suas janelas quebradas e paredes desgastadas já haviam visto tempos melhores.

O prédio, clandestino e condenado pela prefeitura, erguia-se no canto isolado do bairro. Originalmente destinado a oferecer uma acomodação moderna para todos os moradores, o edifício, no entanto, revelou-se uma promessa não cumprida. Construído de forma irregular, desafiando as normas de segurança, tornou-se uma estrutura não apta para a habitação.

Sua fachada decadente e suas janelas quebradas deveriam trazer uma nova imagem para o bairro, mas acabou sendo um monumento negligente. O prédio, ao contrário de sua proposta inicial, tornou-se um lugar traiçoeiro, onde cada piso e parede pareciam sussurrar que haviam perigos .

Anneliese hesitou antes de adentrar o silêncio gélido do lugar, onde sombras dançavam entre os escombros. No interior, as rachaduras nas paredes denunciavam a fragilidade da estrutura, mas naquele momento, qualquer abrigo serviria.

Desprovida de exigências naquele momento, avançou por um lance de escadas que mal se sustentava, alcançando o sétimo andar. Lá, na residência de número 32, havia um apartamento empoeirado e frio a aguardava.

O apartamento, outrora acolhedor, agora está desolado. As paredes exibem sinais de descuido, com papel de parede descolado e manchas de umidade. Os armários da cozinha estão danificados, com portas pendendo e prateleiras vazias. Os eletrodomésticos outrora brilhantes estão cobertos de poeira e teias de aranha. A cama desfeita e desgastada ocupa um canto, enquanto a iluminação, antes vibrante, está agora reduzida a lâmpadas queimadas.

A princesa avançou, seus passos ecoando na quietude do ambiente abandonado.

Por enquanto aquilo bastava.

Indiferente à poeira no ar, Anneliese realizou um simples truque, revivendo a cama ao envolver lençóis e travesseiros com um frescor há muito esquecido. A restauração transformou a cama, deixando-a com a aparência de recém-saída da loja.

Com os sapatos deixados aos pés da cama, a princesa se entregou ao aconchego do colchão macio, permitindo-se descansar em meio àquele cenário de decadência. Com a mente exausta, Anneliese entregou-se ao sono, aliviando temporariamente o peso de suas escolhas.

Naquela manhã, a cidade mergulhava em um caos congelante. O frio extremo durante a madrugada deixou algumas áreas na penumbra, congelando a água nos encanamentos. Ruas foram cobertas por uma espessa camada de neve, dificultando a mobilidade dos veículos. O expediente nas escolas e fábricas, em diversas regiões, foi suspenso, pois o transporte público ficou imóvel nos pontos de ônibus, e os trilhos dos trens e metrôs também congelaram.

Enquanto os cidadãos se adaptavam a esse cenário gélido, uma princesa despertava de seu sonho.

Ao se levantar, observou ao redor, recordando-se de tudo que aconteceu no dia anterior. A tristeza persistia em seu rosto, mesmo quando seus pés tocaram o chão empoeirado. Anneliese, imersa em um torpor, ficou sentada na cama por alguns minutos, até que sentiu o vento atravessar a fresta da janela quebrada.

Ela se dirigiu à janela e contemplou a visão da cidade do sétimo andar. A paisagem urbana estendia-se diante dela, vasta e imponente, especialmente sob o manto do inverno. Os prédios altos se destacavam contra o céu frio e claro, destacando uma grande metrópole. O branco manto que agora cobria telhados e ruas conferia uma nova cara ao cenário urbano, transformando-o em uma paisagem magnífica.

Anneliese estava completamente alheia às adversidades climáticas.

A princesa adorava o inverno; em sua dimensão, era extraordinário. Quando a estação gelada chegava, o ambiente se transformava em um espetáculo, mesmo que não cobrisse totalmente as ruas e telhados. A neve que caía do céu não era simplesmente branca; ela brilhava. Iniciando como branca, ao atingir a atmosfera de Elsydian, refletia uma essência que permeia o território elsydiano. Flocos de neve eram pequenos, cada um carregando um brilho sutil e padrões intrincados que dançavam no ar antes de tocar o solo, assemelhando-se a pequenos diamantes.

Na floresta de Elsydian, em vez de simplesmente perderem suas folhas, as árvores as transformavam em pequenas lanternas etéreas que iluminavam a noite. A luz da lua em Elsydian, especialmente intensa durante o inverno, lançava um brilho prateado que revelava criaturas que despertavam apenas nesta estação.

Apesar das diferenças, Anneliese achou a cidade bonita, e diante da vista, a princesa permitiu-se dar um leve sorriso.

Aquele seria seu lar temporário. Não parecia tão ruim.

A princesa não percebeu o ambiente sujo e abandonado até que se deparou com um espelho manchado e quebrado.

Seu cabelo, outrora brilhante e liso, agora encontrava-se emaranhado e desalinhado. A tiara em sua cabeça pendia na sua cabeça, com suas extremidades enroscadas em alguns fios rebeldes. Olhos inchados e uma pele pálida e ressecada compunham a imagem refletida naquele espelho manchado.

A energia expelida no dia anterior, tingida de um verde escuro, manifestava-se toda vez que o estado de espírito da princesa estava em conflito, deixando rastros de destruição pela cidade e marcando seu próprio semblante. Na última vez que isso aconteceu, a pele de seu rosto ficou descascando por dois dias, e só se recuperou, porque sua avó havia arranjado para ela diversas loções para o rosto.

Se fosse para ficar ali, pelo menos deveria arrumar o cabelo. Pensando em como resolveria sua situação, olhou em volta procurando pelo menos uma escova de cabelo, mas não tinha nada; o lugar estava tão abandonado que não havia esse tipo de objeto, e se houvesse, já havia sido retirado dali. Até que a luz do diamante de sua pulseira refletiu.

Aquela pulseira era uma verdadeira obra-prima, comparável a uma jóia deslumbrante e refinada. Possuía um design elegante, com uma moldura de segmento duplo, onde dois fios de espessura média se encontravam, formando um nó cravejado de diamantes no centro. Era considerada uma das melhores criações de Elsydian, muito famosa. No entanto, poucas pessoas conhecem seu verdadeiro valor, que ia além de sua aparência requintada.

Anneliese suspirou, sentindo a dor da saudade olhar para aquele objeto; a fazia lembrar de seu pai. As lembranças dos dias em que seu pai a treinava. Ele a ensinava de forma rude e estressada, mas o método era eficaz, já que com meses de prática Anneliese lutava com precisão e já tinha um amplo conhecimento sobre como lidar com a burocracia do reino.

Anneliese se viu impotente e preocupada com o que poderia ter acontecido com Ernest. Se culpava por não estar lá para proteger seu povo e seu lar. Ela era a princesa de Elsydian, uma futura rainha, mas estava longe de suas responsabilidades e incapaz de ajudar..

Seus pensamentos a fazem questionar se estava à altura de ser a líder que seu povo precisava. Sentia-se inquieta, como se estivesse perdendo em um mar de dúvidas.

Por fim, Anneliese deixou os pensamentos de lado, pois não queria ter uma recaída e deixar a intensidade emocional a envolver. Anneliese fechou os olhos, respirou fundo e passou a vasculhar algo que a ajudasse a pentear o cabelo.

Ao retirar a tiara e deixá-la de lado, a princesa começou a passar os próprios dedos pelos fios, vendo que estavam quebradiços e secos, e alguns fios caiam no chão, deixando-a um pouco desconfortável. Logo, ela fez uma trança para disfarçar o estado horrível do seu cabelo.

Resolvendo um dos problemas, Anneliese passou a se sentir incomodada por estar usando a mesma roupa do dia anterior. Ainda havia vestígios de sujeira na saia, que dificilmente sairiam. Além disso, Anneliese sabia que precisava trocar de roupa, já que seu vestido chamava muito a atenção.

Havia um armário decadente suspenso na parede, mas ainda continha algumas roupas. Ao abrir a porta, um forte cheiro de mofo atingiu, mas isso nunca foi um problema para a princesa. Com um leve balanço de mãos, Anneliese começou a pronunciar um feitiço em direção às prateleiras empoeiradas, onde algumas roupas e objetos estavam guardados.

À medida que ela movimentava as mãos, um brilho prateado emanava, e a poeira começava a se dispersar, revelando o brilho original das prateleiras de madeira. A poeira se desprendia das roupas, flutuando no ar antes de desaparecer completamente. Anneliese examinava cada peça com cuidado, separando as que poderiam lhe servir. Não haviam muitas roupas, mas ela conseguiu um conjunto que parecia ser de uma mulher.

Os trajes estavam um pouco fora do que a princesa gostava ou estava acostumada. No entanto, diante da situação atual, com um truque simples, Anneliese vestiu o modesto conjunto. Com seu suéter desgastado, jeans simples e sapatos baixos, Anneliese parecia uma adolescente comum e humilde da Terra.

Ao vasculhar em busca de roupas, Anneliese encontrou uma pequena caixa cuidadosamente posicionada sob os tecidos. Ao abri-la, revelou-se um conjunto de papéis dobrados e três rolos de papéis multicoloridos, cada um marcado com números e adornado com a imagem de uma rainha.

“O que é isso?” pensou Anneliese, examinando cada detalhe. Enquanto segurava os papéis coloridos.

Anneliese adorava cores e percebeu que o dono anterior deixou essa caixa dentro daquele armário, mas nunca mais veio buscá-la. E, por mais que a princesa desconheça aquele objeto, sabe que era valioso por estar bem guardado.

Colocando de volta, Anneliese fechou os armários e saiu do apartamento. Pois precisava explorar o lugar que viveria a partir daquele dia.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.