Notas iniciais
Escrito pela minha amiga

Hoje, daqui a umas horas, chegam as tão faladas Caçadoras de Artémis. Devo dizer que estou algo curiosa por ver como elas vão interagir com os rapazes da Colónia visto que têm regras tão restritas...

Levantei-me da minha grande boxe da Casa Grande e senti-me na cadeira de rodas que Quíron me oferecera, igual á dele.

Assim que me senti nela apareceram três ninfas que me transportaram para a mesa da Casa Grande, ondei tomei o pequeno-almoço com o meu irmão, o Dionísio e os sátiros mais importantes do conselho.

- Bom dia Katarina! — cumprimentou Dionísio — Vejo que te estás a ambientar a este sítio.

- Bom dia D! Este sítio é espetacular, tenho de admitir! Como é que não gostas deste sítio? — respondi sorrindo e dando-lhe um beijo em cada bochecha.

- Tenho que admitir que não é assim tão mau! A única coisa que eu não gosto muito são os heróis, mas há alguns que fogem à regra; até que as refeições não são muito más, apesar de não poder beber vinho; os sátiros são prestáveis; há sempre, quer dizer, quase sempre bom ambiente...

- E o teu castigo acaba dentro de cinco anos, não é verdade? — ri-me do seu lindo discurso.

- Apanhaste-me! — riu-se muito satisfeito — Mas tomemos o pequeno-almoço por agora e aproveitemos a boa companhia, querida Katarina! Poucas serão as ocasiões em que terei tão ilustre companhia!

- Muito obrigada, Dionísio! – agradeci — Comamos, então!

Os nossos pratos encheram-se de diferentes e deliciosas iguarias que me fizeram crescer água na boca: pudim flã, tostas mistas acabadas de fazer, bacon a ferver, omeletes de queijo e fiambre, sumo natural de laranja, saladas de fruta fresca... todos os tipos de comida de pequeno-almoço, sobremesas e bebidas mais deliciosas que possam imaginar.

Quando terminei a refeição dirigi-me para a minha boxe, tomei banho, penteei o meu cabelo e coloquei a t-shirt do campo.

Galopei pelo campo e desfrutei da brisa de verão que me batia na cara à medida que passeava pela floresta. Acabei por me sentar no Punho de Zeus, a relaxar e a desfrutar dos sons dos animais e do riacho a correr.

- Que fazes aqui? — perguntou-me uma voz já me bastante conhecida.

- A descansar. Não te vi ao pequeno-almoço, Quíron.

- Desculpa, tive que pedir às dríades e às ninfas para prepararem a Cabana 8. E depois tive de ir dar aulas. Sabes que já são onze e meia?

- São o quê? — perguntei bastante espantada — Devo ter adormecido!

- Tenho uma sugestão. Ainda és bastante rápida a correr, não és?

- Sim! Ainda detenho o recorde de todos os monstros! — admiti bastante orgulhosa. Já algum tempo que não me perguntavam sobre a minha velocidade e fico muito feliz que me relembrem disso.

- O que achas de treinares os campistas cerca de meia-hora em corrida, abdominais, flexões... O que achas?

Ponderei a oferta. É verdade que já não faço nada de especial à muito tempo e tenho muitas saudades de correr e ensinar estes campistas ia ser uma experiência nova!

- Acho que posso tentar!- sorri-lhe.

- Muito bem! Amanhã às dez, pode ser? Vou convidar alguns dos nossos campistas para tentarem, ok? — confirmou ele.

- Claro! — respondi, convicta.

- Agora temos de ir para a entrada. As Caçadoras de Artémis devem estar a chegar e se nós não estivermos lá pode haver confusão de primos.

- Confusão de primos? — perguntei, um pouco baralhada.

- Explico-te pelo caminho. Agora temos de ir!

* * *

Estávamos eu e o Quíron em frente à fachada do campo quando eu reparei, ao longe, num grupo de vultos prateados que se dirigia a nós. Olhei atentamente e reparei que todas tinham capuz, exceto uma rapariga punk que tinha uma tiara.

- A líder é a Thalia! — informou-me o meu irmão, parecendo orgulhoso — Ela é uma rapariga fantástica! Muito enérgica, divertida, forte... — ok, muito orgulhoso.

Dirigi a minha atenção para o grupo mas apercebi-me que elas já estavam em frente a nós, olhando pasmadas para mim e a líder lançando um caloroso sorriso ao meu irmão.

- Quíron! – ela correu para ele, abraçando-o — Como estás? Já estava com tantas saudades do Campo Grego!

- Thalia! — saudou-a ele — Comigo está tudo bem. O que queres dizer com o ‘Campo Grego’? Tens estado no Romano? — perguntou sem disfarçar a sua tristeza.

- Claro que não! Esta é a minha casa! — respondeu prontamente — Eu estive no Romano há cerca de dois dias para informar o meu irmão que eu vinha para cá e convidá-lo para a Caça à Bandeira em nossa honra! — disse apontando para o seu grupo que lançava sorrisos e olhares desafiadores.

- Fico feliz por isso! Ah, pois é! Thalia, esta é a minha irmã Katarina. Katarina, esta é a tenente das Caçadoras, Thalia.

- Muito prazer! — pronunciei-me pela primeira vez desde que ela chegara. Virei-me para o meu irmão — Se não precisares mais de mim vou avisar os ‘conseleurs’ das cabanas que as Caçadoras já chegaram.

- Por acaso podias encaminhá-las para a cabana 8 e depois convocar, já com ela, a reunião? Vai ser esta tarde, sem falta — pois, eu faltei às últimas que ele marcou e desde aí que ele me tem controlado mais e certificado que sou informada de qualquer data que possa ser considerada importante.

- Não me importo nada — respondei-lhe — Vem, Thalia, vamos para a cabana 8.

Ela chamou as outras raparigas e deu-lhes uma ordem que as fez ficar numa formação antiga, em cinco filas com cerca de seis Caçadoras em cada.

Passámos pela arena porque Thalia queria ver se o Percy, o Nico e a Annabeth estavam lá, mas eles não estavam lá e eu disse-lhe que deviam estar na floresta, a passear com a Rita e a Sofia.

- Então, quem são a Rita e a Sofia? — perguntou ela.

- Pelo que eu já percebi, as tuas primas mais recentes. A Rita é meia-irmã do Percy e a Sofia do Nico.

- Elas as duas são filhas dos Três Grandes? Fico feliz pelo meu pai não estar pelo meio desta vez — disse ela, reprimindo o riso.

Ficámos em silêncio quando nos deparámos com uma grande cabana azul escura, com desenhos prateados e dourados com alguns arcos e flechas onde deveriam estar os canteiros. Na sua porta de madeira pintada de prateado encontrava-se um grande oito que nunca nos permitiria enganar quanto ao sítio em que estávamos.

- Ok! Meninas, entrem e ponham-se à vontade, ok? Eu vou à reunião e encontramo-nos daqui a cerca de uma hora perto do riacho. Até já e não tentem matar os rapazes da Colónia!

Assim que abandonámos a cabana a tensão diminuiu e Thalia pareceu tornar-se mais jovem e divertida: contou algumas piadas, a sua história, as partidas que pregara vezes e vezes sem conta ao Percy, as discussões...

- E tu? És a tão fantástica irmã com quem o Quíron diz que sou parecida?- perguntou sem conseguindo disfarçar a curiosidade patente na sua voz.

- Fantástica irmã? Eu? — perguntei entre risos -Eu sou a que se transformou num centauro e que sempre lhe tornou a vida num inferno!

- Mas depois cresceste e foste uma heroína — disse ela.

Parei em frente a um grande edifício onde Quíron dissera que os ‘conseleurs’ se iam reunir. Abri a grande porta de madeira e vislumbrei o interior marmóreo e brilhante, repleto de pequenos tronos em volta de uma grande mesa de mármore branco que enchia o centro da sala.

Olhei para os rostos familiares que me lançavam pequenos sorrisos e olhavam de relance para a minha acompanhante punk de olhos azuis elétricos, à sua semelhança.

Quíron levantou-se do seu trono de madeira (o maior de todos os tronos e o único que não era em mármore), e anunciou que Thalia e as Caçadoras se juntariam à Caça à Bandeira de amanhã e prosseguiu para assuntos de menor relevância sobre as cabanas e os campistas.

- Bom, se já está tudo concluído gostaria de dar esta sessão por encerrada...

- Espera, Quíron! — interrompeu a líder das Caçadoras — Gostaria de fazer uma pequena sugestão para o jogo de amanhã! — sorriu desafiadoramente para Percy — Talvez as Caçadoras pudessem ter a ajuda das campistas, tendo-as na sua equipa...

- Isso é ridículo! — gritaram Percy e Nico ao mesmo tempo.

- Por acaso — pronunciei-me pela primeira vez naquela reunião — é uma ideia muito boa! O campo tem muitos rapazes, ao contrário de raparigas. Quíron, tens uma proposta muito boa nas tuas mãos! — concluí, sorrindo ligeiramente para Thalia que estava radiante com o que eu dissera.

- Quíron, isto é ridículo! — disseram os gémeos irritados — Rapazes contra Caçadoras e as raparigas do campo?! A sério?! — continuou Travis — E se fizermos das cabanas?

- Acalmem-se todos, por favor! — disse Quíron sem elevar muito a voz, mantendo-se imponente e poderosa — Vamos a votos! Quem vota na ideia de Travis? — cerca de oito braços se levantaram — E na de Thalia? — eu levantei o braço à semelhança de Thalia, as raparigas encarregues das suas cabanas e alguns rapazes, quase todos das cabanas menores, que aparentavam estar muito animadas com a ideia — Então está decidido. Amanhã teremos uma Caça à Bandeira de rapazes contra raparigas.

Vi Percy e Nico a levantarem-se e a dirigirem-se para Thalia, bastante irritados, parecendo a ponto de a matar.

Fui-me embora enquanto ouvia as queixas e reclamações do Cérebro de Algas, a Cara de Pinha a rir-se, triunfante, provocando-os ainda mais, e o Caveirinha Júnior a dizer o quão chata e idiota a prima era, com calão e algumas palavras cuspidas em Grego Antigo pelo meio.

Quando abri as portas de madeira reparei que o sol se começava a pôr. Lembrei-me vagamente das palavras de Quíron de que aquele edifício era à prova de tempo e quem ficava lá, além de ser vigiado pelos deuses, congelava no tempo mortal e uma hora lá dentro podia transformar-se em seis horas cá fora. Pensei e apercebi-me que era quase hora de jantar e, como não me apetecia ficar na companhia de toda aquela gente, decidi ir para a minha box modificada, comer e dormir lá.

A minha box estava a ser iluminada pelos últimos raios do sol do dia, parecendo um pequeno paraíso ao fim de um dia tão longo. O toucador, o rádio, o telefone cujo único número era o do quarto do meu irmão, as flores multicolores, a minha cama gigante... e a miúda que vira hoje durante a reunião?!

- Olá, Katarina! — disse a sua voz, assemelhando-se ao céu e ao inferno — Como está?

- Olá. Eu estou bem, e vós... você? A que se deve a sua visita inesperada? — perguntei, tentando não usar a linguagem antiga do tempo dos meus pais, que ela tentara utilizar sem grande sucesso.

- Também estou, princesa — a minha alcunha dada pelos meus pais... – Eu queria avisá-la que os seus pais não estão mortos como vós julgais. Pense bem se o seu pai iria prevalecer preso no Submundo, ou a sua mãe adormecida? Julgueis mesmo que eles estão derrotados?

Eu não queria acreditar nela (e a linguagem antiga dava-me arrepios vindo de alguém tão jovem como ela). Teria ela razão? Será que os meus pais se recusavam a descansar eternamente no Mundo Inferior e procuravam voltar a escapar para o nosso mundo?

- Não sei se posso acreditar em vós — respondi-lhe um pouco irritada pelas suas Insinuações e a maneira como ela me observava num misto de curiosidade e espanto, como se estivesse a ver uma borboleta que se decide perante abandonar ou permanecer no seu casulo.

- Essa, princesa, é uma resposta simples. O vosso pai e a vossa mãe confiaram em mim esta mensagem. Pode verificar — disse à medida que afastava a camisola das costas, onde se via uma tatuagem grande, como o que os lacaios dos meus pais possuíam.

Perante o choque e a perplexibilidade espelhadas no meu rosto, a filha de Perséfone sorria, como se só agora eu me tivesse apercebido de algo demasiado óbvio.

- Esse símbolo... onde... onde o arranjastes... — gaguejei.

- Princesa, eu tenho-o desde há muitos anos! Sabe, eu era a rapariga que vagueava pelo seu palácio, o que chamam agora de oráculo de Delfos, sabeis? O antigo espírito de Delfos, o que a rapariga ruiva aceitou, a Rachel, eu era a sua irmã gémea e nós partilhávamos as visões. Em abandonei o cargo, mas o facto de ser filha de Perséfone fez com que Hades me desse protecção e me concedesse a vida eterna.

- Vós sois a Ashley que eu conheci? Isso significa que vós tereis cerca de três mil anos, ou talvez mais! — cogitei eu.

- Sim, princesa! Amanhã será a Caça à Bandeira e talvez os filhos de Hades, o Nico e a sua idiota irmã, Sofia, consigam libertar energia suficiente com uma ajuda minha!

- Mas porque me contais isto tudo, Ashley?

- Porque vós ireis ajudar-me a salvar os seus pais, não ireis? — sorriu maldosamente para mim.

O que haveria de fazer? Salvar os deuses e o resto do campo, sendo a querida irmã do Quíron ou lutar para enguer os meus pais e vingar-me de quem os separou de mim?

Notas finais
Comentem por favor
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.