O Reencontro de Anjos
3 ♛ Cαpítulo III
Quando cheguei a casa joguei as compras sobre o sofá e sentei no mesmo, levei minhas mãos a cabeça e passei alguns minutos encarando o teto tentando reorganizar as idéias. Em apenas uma manhã tantas coisas haviam acontecido, eu tentei beijar uma garota que nunca vi na vida, recebi uma voadora, tudo isso sumia da minha mente tão rápido quanto reaparecia. Mas o que mais me incomodava era aquela música que não parava de tocar em minha cabeça.
Depois de tomar um banho e trocar de roupa decidi pesquisar na internet sobre a música, conseguia me lembrar de um trecho dela, como era mesmo?
“Mugen ni ikitai Mugen ni ikiraretara Subete kanau”
Sim, era isso mesmo. Mas foi nesse momento que comecei a ficar ainda mais incomodado. Simplesmente não aparecia nada, exatamente nada que levasse a uma música, era como se ela não existisse, mas como então aquela garota a estava ouvindo? Ela existia sim e eu iria descobrir tudo sobre ela.
Desci as escadas correndo com meu peito queimando de ansiedade, geralmente nada me provocava essa sensação e agora não conseguia explicar o porquê disso, mas mesmo assim, me vesti novamente com as mesmas roupas, luvas e gorro e saí de casa. Se nem a internet foi capaz de me ajudar a desvendar esse mistério só me restava buscar na maior loja de CDs da cidade que ficava no centro. De metrô não demorei muito a chegar lá, já eram 15 horas e logo ela iria fechar então me apressei. Falei com todos os funcionários cantarolei aquele trecho da música e tentei até reproduzir a melodia sem muito sucesso. Por fim consegui falar até com o dono da loja, era um senhor que no começo dizia conhecer todas as músicas e bandas possíveis, mas quando lhe perguntei nem mesmo ele soube me responder ou mesmo reconhecer a música, foi nesse momento que ouvi uma voz estranha atrás de mim.
- Desista, ninguém conhece essa música, é perda de tempo. — Falou Kanade.
Imediatamente me virei para ver quem era, e quando a reconheci foi como se tivesse levado um forte soco no estômago, meu ar foi roubado e meu coração batia tão forte que imaginei se todos a minha volta também não o escutavam.
- V...você é a garota de hoje, mais cedo. — Gaguejei sem conseguir ainda compreender a situação, havíamos nos encontrado de novo e agora ela falava comigo mesmo depois de eu ter tentado agarrá-la sem nem mesmo saber seu nome.
- Sim, você sai por ai tentando beijar qualquer garota distraída que encontra na rua? Seus hábitos são estranhos. — Ela tentou demonstrar irritação em sua fala, mas claramente não era boa em atuar, na verdade ela parecia mesmo curiosa.
- Realmente não, me desculpe por aquilo e...
- Não se explique, também não acho que aja explicação para isso, só tente se controlar, por favor. — Ela me interrompeu com tanta rispidez que cheguei a me assustar, mas antes de concluir a frase o tom de voz dela foi diminuindo como se faltasse certeza ou confiança no que falava.
- Sim, irei me controlar. Mas sobre a música, você a conhece?
- Conheço, mas creio que não possa te ajudar tanto.
- Mas você estava ouvindo-a mais cedo, qual o nome, compositor? Preciso saber.
- E posso saber o motivo de toda essa curiosidade?
- Bem... Na verdade nem eu sei, essa música me traz uma enorme sensação de nostalgia. Você pode me ajudar?
- Está bem, vamos conversar em outro lugar e te direi o que sei sobre ela.
- Ok, vamos.
A música saiu um pouco dos meus pensamentos e o que mais me interessava no momento era aquela garota que caminhava ao meu lado a uma lanchonete em um prédio ao lado. Ela não falou mais nada desde que saímos da loja de CDs e isso já estava me deixando um pouco nervoso. Mordia meu lábio inferior tentando afastar a tensão através da dor o que não adiantava muito, foi então que me lembrei de algo importante.
- Hm... Qual o seu nome?
Quando a perguntei ela sorriu levando uma das mãos até o rosto.
- Achei que nunca fosse perguntar, você é realmente estranho. Chamo-me Tachibana Kanade, prazer em conhecê-lo... É...
- Ah, sim. Chamo-me Yuzuru Otonashi, prazer em conhecê-la.
Depois do pequeno diálogo chegamos à lanchonete, escolhemos alguma mesa vazia e nos sentamos à mesma. Olhamos no cardápio por alguns minutos, até optarmos os dois por uma simples xícara de café. A garota não me encarava, ficou olhando para o lado pela janela o tempo todo. De dentro era uma ótima paisagem, alguns casais passavam agarrados um no outro tentando afastar o frio, algumas crianças brincavam lançando bolas de neve uma na outra. Ela estava tão distraída que quando cutuquei a bochecha dela com um dedo indicador demorou alguns segundos para reagir e me olhar, claramente constrangida. O café havia chegado, mas nenhum de nós dois havia tocado neles, ao invés disso ela começou a mexer em sua bolsa, encarei-a até que de dentro da bolsa Kanade puxou um simples iPod e começou a falar enquanto desenrolava o fone de um jeito muito desastrado.
- Sabe, a música que está tão curioso por conhecer, o nome dela é Alchemy e o nome da banda que a interpreta é Girls Dead Monster.
- Mas como é possível? Eu não encontrei nenhuma informação sobre ela.
- Não me pergunte, essa é a única coisa que eu sei. Quando procurei nunca encontrei nenhuma pista de sua existência. Essa música apenas veio como uma faixa de demonstração é o que sei.
- Entendo. Então esse é um mistério sem solução para nós dois — ela assentiu com a cabeça.
Não pude negar minha frustração por não descobrir muito sobre aquela música, a sensação ao ouvi-la foi inexplicável, nostalgia, alegria e o mais importante: a atração. Era isso, a inegável atração que sentia pela garota a minha frente embalado pela música. Eu não me interessava por alguém assim desde o primário, e isso era ridículo era apenas a segunda vez que a via.
Levantei-me e em passos curtos me aproximei sentando ao seu lado, ela me encarou com um tom espantado em seu rosto e imediatamente levou a mão esquerda a ele cobrindo sua boca o que me fez checar se estava cheirando mal, ela se explicou.
- Sabe... Só por precaução, a primeira vez que chegou perto assim quase... — Enquanto ela falava seu rosto todo ficava avermelhado e ela voltava a olhar para janela ao lado antes mesmo de concluir seu pensamento.
-Oh... Sim, não era essa minha intenção desta vez, era só...
- Preciso ir, está ficando tarde meus pais estão me esperando para ajudar no preparo das comidas para a ceia de natal – Kanade me interrompeu e se levantou rapidamente.
- Tudo bem.
Acompanhei-a até a saída após pagar os cafés e já do lado de fora ficamos nos encarando por alguns minutos, não sabia o que falar e ela parecia saber menos ainda.
- Bem... Queria me desculpar por minha amiga hoje mais cedo, aquilo deve ter machucado.
- Sim machucou mesmo, na verdade até agora dói. Mas não se desculpe já que eu mereci aquilo — Dei um sorriso meio sem graça levando uma das minhas mãos a minha própria nuca.
Ela voltou a remexer em sua bolsa enquanto seus cabelos escorriam sobre seu rosto, seu tronco se inclinou um pouco para frente deixando por pouco tempo uma brecha entre seu corpo e casaco o que me deu a visão clara de uma parte da alça do sutiã dela, era rosa. Esgueirei-me um pouco para frente e percebi que o casaco escondia um volume nada mal por baixo de sua lingerie, achei mesmo que ela tinha menos de 14 anos? Mas, o que eu estava fazendo? Uma voadora novamente em minha cabeça seria algo totalmente merecido agora. A garota levantou o rosto e me encarou com a cabeça inclinada para o lado como um cachorro que não entende a ordem de seu dono.
- Hm...?
- Nada, não é nada — Me afastei bruscamente.
Tachibana finalmente puxou uma pequena agenda rosa bem simples da bolsa junto a uma caneta e começou a escrever alguma coisa. Após terminar destacou a folha e me entregou. Era um endereço.
- O q...?
- Minha casa. Não sei se tem algo melhor para fazer hoje, mas gostaria muito que passasse o natal comigo. Quero dizer, com minha família e amigos.
Pensei apenas por dez segundos. Sozinho em casa bebendo e comendo porcarias nada comparáveis a qualquer coisa que as famílias comem no natal.
- Eu irei.
- Fico feliz, estarei esperando.
E assim ambos tomamos o nosso caminho para casa. Estava animado, a quanto tempo não esperava tão ansiosamente pela noite de natal, pude perceber como eram bonitas as luzes piscando como de costume no natal, as pessoas sorriam á minha volta se preparavam e finalmente depois de tanto tempo eu também tinha meu motivo para sorrir nessa data.
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