O Recomeço
16 Capítulo Quinze
Os dias se passaram dolosamente, para Elizabeth era difícil o ciclo interminável entre casa, Caffè Benevolo II e Potere, sempre a mesma coisa. Os dias pareciam iguais, mas a diferença era que a cada segundo tudo se tornava um pouco mais suportável de aguentar.
John não havia ligado ou deixado algo na caixa postal, não havia nem ao menos mandado uma mensagem para Elizabeth. Isso fez com que ela apagasse o número dele, fotos, músicas, mensagens, mas tudo aos poucos. Um processo lento, ela diria. Tudo bem, era doloroso demais ainda. Quem ela estava querendo enganar? Todos sabiam que ela estava sofrendo sem ele, todos mesmo, até incluindo os atendentes da Caffè Benevolo II. Por que estava sendo tão difícil superar? Ela não dependia de homens para viver, aliás, viveu muito bem todo aquele tempo. Mas, de fato, aquelas palavras que John havia pronunciado ainda estavam fazendo degeneração em sua perspetiva sobre os seus sentimentos.
Elizabeth sacudiu sua cabeça na esperança de afastar aqueles pensamentos. Queria fazê-los evaporarem como John evaporou da Itália, simples assim.
— Está bem, padrinho. Eu vou passar o Natal com vocês — ela disse, seu corpo estava completamente estendido sobre a poltrona de sua sala. — A Potere vai entrar em recesso de final de ano, então o senhor vai ter muito tempo para me aguentar.
Ela sorriu ao ouvir Carlo rir do outro lado da linha. — Não diga assim, minha filha. Estarei esperando você, agora preciso desligar. Amo você.
— Eu te amo mais.
Elizabeth deu um longo gole no décimo copo de café naquele dia. Aquele mês estava realmente cansativo na Potere, o trabalho estava sendo em triplo, Jennifer e John não estavam mais ali para ajudá-la com as tarefas, ao que parecia, ela não confiava em mais ninguém para isso. Era estranho, pois o seu mundo girava e sempre voltava para John Phillip. Será que isso era uma espécie de labirinto atemporal? Ou será que ela iria viver para sempre amando aquele homem? Ela pensou que poderia estar ficando um pouco obcecada por ele, ou talvez não havia aceitado o término definitivo ainda. Alguns dias em Vernazza seria incrível, Verona era farta de lembranças, uma dose muito caprichada pelo visto. Apesar dos dias que passou com John em Vernazza, ali era o sítio de sua família, passou boa parte da sua vida e tem diversas memórias incríveis.
Você é intocável ali, John Phillip. Ela pensou com um enorme sorriso nos lábios.
Tudo bem, mas enquanto ele continuava sendo tocável em seus pensamentos e lembranças, a vida real chamava por mais alguns momentos. O final compensaria todo aquele esforço, todas aquelas intermináveis horas de sufoco e grandes papeladas; nesses momentos Elizabeth apenas desejava ser uma funcionária da Potere, não a chefe, ou melhor, ela gostaria de estar viajando pelo mundo. Ela pensava o quanto deveria ser incrível conhecer tantos lugares sem preocupações, mas não conseguia entender o porquê daqueles pensamentos tão repentinos.
Os dias até as festas de final de ano passaram vagarosamente, era comum inclusive. Tudo tornava-se muito mais intenso justamente naquela época, era algo que estavam acostumados, mas ainda era difícil quando tudo estava somente sobre Elizabeth. Cafeína era como um combustível nos seus dias, algo que sabia muito bem que não era saudável, porém precisava naquele momento. Tantas papeladas e pautas para serem avaliadas, já queria um recesso de tudo aquilo. Precisava sentir o cheiro tão puro e intenso das maravilhosas comidas que suas tias faziam, o delicioso aroma dos vinhos, e o som tão puro das risadas dos seus parentes invadindo seus ouvidos e acalmando o seu coração. Isso era sua dose de calma.
Era real, Elizabeth estava mesmo descobrindo algo que nunca havia entendido ou percebido sobre si mesma; ela queria férias, queria distância de toda aquela loucura. Ficar longe seria perfeito.
— Finalmente! — ela murmurou para si mesma, sorrindo em alívio. Seu corpo relaxou sobre a cadeira em aprovação, era diferente estar livre de tudo aquilo agora.
Estava tão sublime que não conseguia dar-se conta do quão feliz estava transparecendo, talvez seria bom de certo modo. Depois de dias de pura tristeza e lamentações, era a primeira vez que Elizabeth estava sorrindo e esbanjando felicidade aos quatro cantos da Potere e de qualquer outro lugar. Sem humores ruins, sem feições ácidas, sem lamentações; apenas felicidade, apenas sorrisos. Ela queria correr para a sua família, queria sentir o delicioso ar puro de Vernazza. Dias de puro relaxamento, longe de toda aquela loucura de Verona seria excepcional. O que mais ela poderia querer naquele momento? Os seus pensamentos não estavam sobre John, talvez também tenha sido por culpa do trabalho. De fato, até Ozzy iria para Vernazza, dessa vez Elizabeth levaria o bichano junto para passar os dias com toda sua família, afinal, ele era tão da família quanto ela.
O ciclo das intermináveis malas não prolongou muito naquela tarde, Elizabeth não queria demorar muito para ir à Vernazza, era uma viagem longa até o sítio de sua família, ela iria sozinha com Ozzy. Preparou uma pequena garrafa com um pouco de suco natural, prometeu a si mesma que ficaria longe de café durante um bom período, não estava fazendo bem aquela quantidade exorbitante dos últimos dias.
Para ela era estranho estar viajando sozinha, fisicamente sozinha sem nenhuma outra pessoa; Jennifer e Mike estariam com gêmeos, as famílias de ambos iriam se reunir na casa do casal. Elizabeth pensou que seria muitas pessoas para os dois se preocuparem, ela não iria querer ser mais uma, por um outro lado, Harry e Kimberly iriam para Londres, só havia restado Ozzy para lhe fazer companhia nas duras horas na estrada. Uma companhia um pouco peculiar, ele estava em sua caixa de transporte muito confortável e, ao contrário de estar acordado, dormia o tempo todo. Era real, Elizabeth estava sozinha mais uma vez naquela estrada fria e escura. O final compensaria, ela pensou.
— Você é um péssimo companheiro de viagem, Ozzy Cipriano. Um péssimo filho! — ela resmungou, ligando o rádio do carro.
Sorriu abertamente ao começar tocar Girls Just Want to Have Fun da Cyndi Lauper. Aquela música certamente a deixaria animada, aos poucos foi conseguindo sentir o seu corpo ficar levemente solto ao ritmo que a música fora ganhado a cada segundo que passava. Era mágico como com o passar dos dias Elizabeth estava se soltando, ganhando vida e fazendo coisas que antes não conseguia fazer, uma sensação de liberdade melhor dizendo. Algumas vezes já não se reconhecia, mas quem se importava com isso? Ela estava descobrindo-se como uma adolescente aos quinze anos de idade, em pouco tempo teria vinte e sete anos. Bom, estava começando a passar por um processo que não teve chance de passar quando mais nova.
Estava aproveitando a sua nova fase, realmente estava deliciando-se com tudo aquilo enquanto dançava graciosamente sobre o banco, ria por não conseguir acreditar que estava fazendo aquilo de fato. Elizabeth Dean Cipriano estava parecendo uma adolescente viajando pela primeira vez sem a supervisão dos pais, era incrível. Sem responsabilidades, sem preocupações, apenas uma grande leveza.
Franziu a testa para tentar recuperar a respiração e o seu foco, talvez com a altura da sua risada acabara acordado o pequeno Ozzy, que a olhava um pouco confuso com toda aquela situação. Elizabeth deu de ombros, voltando com a sua atenção toda para a estrada. Desviou o olhar rapidamente para Ozzy, rindo baixinho e acenando negativamente com a cabeça.
— Sabe, Ozzy... — ela disse, endireitando-se sobre o banco. — Fazia tanto tempo que eu não ria dessa forma sozinha, eu acho que anos. Deixe-me ver... hummm... — ela ruminou, pensativa. — Muito antes da minha mãe falecer, você acredita?
Fez-se silêncio por um breve tempo.
— Bom, de todo modo, eu estou rindo verdadeiramente nesse momento. Amanhã é véspera de Natal, você pode acreditar que essa data traz algum milagre ou coisa parecida, não é? — ela deu de ombros. — Quando eu era pequena, eu acreditava que sim. Pode ser que o meu milagre tenha sido rir dessa forma depois de anos, quem sabe? Eu estou feliz, Ozzy. O que é muito curioso, mas é muito interessante.
Elizabeth apenas sorriu suavemente, deixando a música invadir o carro por completo. Ozzy, por sua vez, encostou novamente a cabeça sobre a caixa de transporte, fechou os olhos e voltou a dormir, e a viagem prosseguiu dessa forma. Muito plácida. Ela realmente havia sido honesta, pela primeira vez em anos estava rindo verdadeiramente em algo, e isso era surpreendente para si mesma.
Quando era mais nova acreditava em milagres natalinos, costumava pedir muitas coisas ao sr. Noel, achava que seus desejos iriam se realizar por ser Natal; bom, pareceria que a mulher de vinte e seis anos havia se rendido aos encantos natalinos. Entre outros acasos, Elizabeth não via a hora de estar com a sua família, viajar tão de noite assim era uma certa loucura, mas para ver eles rapidamente, ela faria de tudo.
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