O Recomeço
6 Capítulo Cinco
Setembro havia chegado, faltavam apenas alguns dias para o julgamento. Elizabeth sentia-se em uma espécie de labirinto sentimental, precisava analisar tudo duas vezes para ver se não havia esquecido de algo, não conseguia manter sua mente focada por meros cinco segundos em quase nada. Os dias no trabalho foram reduzidos para uma frequência de uma vez na semana, raramente dava satisfações sobre o que estava acontecendo; sua caixa postal estava completamente lotada, cerca de mil ligações só de Kimberly, seria um exagero se não fosse uma questão séria para ela.
Das poucas vezes que havia saído de casa, era só para pegar seu carro e ir na Caffè Benevolo II. Estava gostando dessa rotina solitária; não atendia telefonemas, não dava satisfações, não respondia mensagens. Não coexistia. Não era mais a Elizabeth, era só alguém respirando.
Filmes e livros começaram a ficar tão sem graça em sua visão ampla, ela não entendia o por que aquelas mocinhas sempre tinham finais felizes ou dramáticos demais, será que ninguém no mundo poderia apenas ter alguma interrogação? Começou a se questionar se a falta de alimento, noites de descanso e só cafés com creme e raspas de chocolates já estavam afetando a sua capacidade mental e lógica.
— Eu estou precisando falar com pessoas — ela disse, com a voz rouca.
No seu celular o número de emergência salvo era o de Jennifer. Elizabeth pensava que ela seria mais eficaz do que a polícia, ajudaria muito mais caso algum bandido tentasse matá-la ou qualquer outra coisa.
— Um bom motivo para me ligar às três da madrugada, Elizabeth? — Jennifer atendeu, com a voz alterada. — Sua filha da mãe, você some por dias e me liga como se nada tivesse ocorrido? Eu vou te matar.
— Calma, por favor — Elizabeth tentou conter sua risada. — Eu tenho os meus motivos, eu precisei me isolar por um tempo. Voltarei amanhã para a empresa, algo que eu precise saber?
— Meus hormônios estão à flor da pele, Elizabeth. A gravidez está me deixando louca. — Jennifer disse, ela estava realmente irritada. — Amanhã teremos aquela reunião mensal, bem... talvez tenha algo que queira saber.
— Algo? — Elizabeth disse, arregalando os olhos. — Certo, amo fofocas.
— Você não pode imaginar com quem a Bella está flertando? Faça suas apostas.
— Matteo? — Elizabeth comentou, um pouco pensativa.
— Com o John, mocinha.
— Como é? — Elizabeth resmungou, franzindo a testa.
— Isso mesmo. A propósito, ele pergunta muito de você.
— Eu preciso desligar, Jennifer. Nos vemos na Potere.
Elizabeth estava furiosa, ela não entendia exatamente o porquê daquilo. Sentiu vontade de quebrar a tela do celular ao encerrar a ligação. Apenas não imaginava a sua secretária flertando com John descaradamente em pleno horário de trabalho.
Cadê a ética no trabalho? Cadê a ética de John? Ela pensou diversas vezes isso enquanto revirava o seu corpo na cama. Pensou em ir até a casa dele para perguntar como ele estava flertando com a sua secretária. Logo a sua secretária.
Será que ele estava contando para ela as viagens que fez ao redor do mundo? Todas as diversas histórias engraçadas? Ela pensou, mas ficou com medo de parecer uma maníaca. Elizabeth não era nada dele, no máximo amiga, e pelos últimos dias os dois não estavam mais próximos. Ela afundou o rosto no travesseiro na esperança de afundar todas as lágrimas naquele local tão aconchegante, mas como já era de se esperar; aquilo não resolvera o seu problema que persistiu pelas longas horas no restante daquela madrugada penosa.
Aquela manhã seria difícil, mais uma reunião, significaria que teria que aguentar debates intermináveis sobre diversos assuntos que seriam pauta na Potere aquele mês. Elizabeth só queria um botão para deixar todos mudos, ou melhor, para pular aquele grande aborrecimento. Não conseguira olhar para Bella pelas próximas horas ao menos, e ela que não deixava de mostrar suas curvas aparentes naquela camiseta por dentro da saia de cintura alta, muito justa por sinal. Toda vez que passava perto de John fazia questão de esbarrar bem perto do seu braço.
Ah, como isso estava torturando Elizabeth.
— Algumas grifes vão fazer um lançamento babado, claro que eu consegui entrevista exclusiva — Charlie disse, completamente empolgado. Isso surpreendeu a todos.
Elizabeth massageava suas têmporas enquanto mantinha seus olhos fechados, balançava suas pernas freneticamente em um ritmo só. Parecia que estava tendo uma crise de raiva, não aguentava sentir o cheiro da sua própria secretária, ouvir a risada, notar as investidas que colocava sobre John. Ele nem ao menos pedia para ela parar. Por quê? Elizabeth só pensava nisso o tempo todo. Era uma tortura difícil de aguentar.
John seria um tolo caso não notasse o estado como Elizabeth estava. — Mudança de planos, nós iremos continuar essa reunião amanhã, eu lembrei agora que vocês precisam revisar as matérias que eu havia pedido ontem — ele disse, rindo quando todos começaram a resmungar. — Não se comportem como crianças. É para o site, então já sabem.
— Mas já, chefe? — Bella disse, com um tom provocador.
— Por favor, você pode agendar a reunião para amanhã? Obrigado — ele respondeu, olhando para Elizabeth.
John esperou que todos saíssem para fechar a porta. Suspirou profundamente ao ver o estado que Elizabeth estava, não gostava de vê-la daquele jeito, não a Elizabeth que ele conheceu, que ele encorajava todos os dias.
Talvez fosse disso que ela estivesse precisando, uma dose de coragem.
— Pode me falar o que está acontecendo com você?
— Desde quando está saindo com ela, Phillip?
John franziu a testa, não havia entendido. — Desculpe?
Fez-se um longo silêncio.
— Elizabeth, por favor. — John ajoelhou-se na frente de Elizabeth, virando a cadeira que ela estava para sua frente. — Me diz o que está havendo com você — ele piscou. — Os motivos que a levaram achar que eu estou saindo com a sua secretária? Você sabe que eu tenho ética. Eu jamais faria algo desse gênero, eu não estava flertando com ela.
— Eu estou fazendo papel de boba? — ela desviou o olhar. — Que merda, Phillip. Eu sou uma tola — seus olhos ficaram marejados. — Eu vim trabalhar de moletom.
Ele riu, dando de ombros. — Se me permite dizer, você está linda desse jeito — por um tempo John ficou pensativo. — Eu sei de um lugar incrível para te levar.
John levantou-se, arrastando Elizabeth pela empresa. Os passos que os dois estavam dando eram rápidos, não se importaram com os olhares em suas direções. As pessoas estavam pensando como aquele dia estava sendo discrepante: primeiro a dona da revista aparece vestida como se estivesse voltando de um treino, depois a reunião é cancelada com nem meia hora, minutos depois John e Elizabeth são vistos correndo pelos corredores até o elevador. A Potere estava enlouquecendo?
Com o ritmo que John estava conduzindo Elizabeth, não demorou muito para os dois estarem dentro do carro dele. Ela estava um pouco assustada com aquilo, não sabia para onde estava indo, só recebeu instruções de que era um lugar muito especial. Então isso significava que Elizabeth era especial para John, certo? Isso fez com que ela ficasse mais ansiosa para descobrir que tal lugar era aquele.
Eles não trocaram palavras durante o caminho todo, John nem se quer olhou para Elizabeth, a deixando cada vez mais apreensiva. Talvez aquelas palavras magoaram John, a infantilidade excessiva. Ela queria se desculpar, dizer que era uma tola, que nunca mais iria fazer algo daquele tipo. Mas, a sua boca estava travada, não conseguia proferir palavra alguma; resolveu apreciar cada minuto daquela pequena viagem, se assim Elizabeth poderia chamar, já que não sabia quanto tempo ficaria ali.
Haviam se passado quarenta minutos desde que eles entraram no carro, Elizabeth memorizou o caminho inteiro, sua memória era realmente muito boa. John havia entrado em uma espécie de estrada curta, não tinha movimentação alguma por lá, tudo parecia tão abandonado, e ao que era certo, só passavam carros uma vez na vida e outra na morte.
Elizabeth forçou sua visão para ver além do que conseguia, parecia um bosque, muito bonito aliás. Repleto de folhagem com um verde vívido que parecia ter sido pintada com um lápis recentemente. O cheiro já estava invadindo o carro, mas era um cheiro bom; um cheiro de sereno puro, aquilo trazia calma para qualquer ser humano.
— Que lugar é esse? — Elizabeth disse, sentindo a curiosidade invadir o seu interior.
— Você verá.
John pegou no banco de trás um tipo de livro verde musgo coral, tinha alguns detalhes em dourado, detalhes que lembravam a cor dos fios de Elizabeth. Não eram tão chamativos, eram delicados o suficiente para se tornarem lindos. Sua câmera também fora em sua outra mão, fez Elizabeth pensar que era mal de fotógrafo, mas claro que aquilo a fez rir verdadeiramente.
Andaram mata adentro, realmente estavam em um bosque. Elizabeth estava encantada em como aquele lugar era fascinante. Ela conseguia ouvir o canto dos pássaros ao fundo e ao mesmo tempo sentia o cheiro de serragem cortando suavemente o cheiro de neblina que se formava sob a luz do sol. Belas flores tomavam conta das árvores, envolvendo-se em seus troncos e galhos como se fossem um só. Os seus olhos brilhavam em aprovação, o clima estava tão fresco. O frescor tocava a sua pele fazendo-a suspirar que subirá as mangas do seu moletom para sentir aquele frescor em seus braços, esticando como se fosse capturar a luz do sol e guardá-la somente para si. Via borboletas voando enquanto ainda os pássaros cantarolavam lindamente. Seus passos foram se tornando cada vez mais suaves na medida em que as sensações de paz e liberdade foram tomando conta do seu corpo, sentia-se tão leve. Quanto tempo não sentia sua alma tão liberta, tão livre, tão entregue.
John não quis atrapalhar aquele momento, estava achando aquelas reações tão lindas aos olhos de qualquer ser humano. Apreciou por alguns segundos antes de começar a gravar, não conseguia acreditar que não estava fotografando, mas sim gravando; achou que seria a forma mais digna de se lembrar daquele momento tão excepcional e, de alguma forma, conseguia sentir o quanto Elizabeth estava calma, deixou que aquela serenidade durasse quantos minutos ou horas ela quisesse que durasse, até mesmo o dia inteiro.
Elizabeth encostou-se no tronco de uma árvore, manteve os olhos fechados enquanto em seus lábios havia um belo sorriso.
— Eu não quero estragar o momento — John disse, aproximando-se de Elizabeth —, mas eu fiz algo para você.
Elizabeth abriu seus olhos, mantendo o seu olhar sobre John. — O quê? Não é o meu aniversário ainda, Phill.
— Eu sei. Então quero que aceite como um pedido de desculpas — ele deu de ombros, sendo positivo com a situação.
— Desculpas? Você não fez absolutamente nada, eu que deveria...
John a interrompeu. — Eu não fiz? Desculpa, erro meu — ele entregou para Elizabeth o pequeno livro verde musgo coral com detalhes em dourado. — Espero que goste.
Elizabeth analisou aqueles detalhes tão lindos, pareciam pinturas medievais. Algo que ela apreciava muito, havia comentado com John sobre, como também sobre amar verde musgo coral. Não conseguiu acreditar que ele lembrou de todos aqueles pequenos detalhes que a fizeram sorrir. Abriu com todo cuidado, suavemente. Havia um papel transparente, muito fino e com uma textura que lembrava seda. As pontas dos seus dedos percorriam vagarosamente, ela queria sentir cada canto que poderia antes de virar a página. Havia uma dedicatória, John escrevera poucas palavras para Elizabeth, sua letra era linda.
Para a italiana mais bela que já vi, para a mulher mais linda que já apreciei.
Os olhos de Elizabeth ficaram marejados, era tarde demais. Ela não sabia o que encontraria por ali, mas já estava querendo chorar como uma criança. Sentia-se trêmula, suas pernas estavam cedendo, seu coração estava palpitando tão rapidamente que poderia ouvi-lo bater em seu peito.
Mentalizava o quanto precisava ficar calma para não demonstrar a forma como ele estava deixando-a, não naquele momento; tentava ignorar as mãos falhando entre o ato de apenas virar a página. John havia revelado as fotos da casa da árvore, estavam lindas. Ele, de fato, conseguira capturar a essência de Elizabeth, o verdadeiro sorriso dela, o brilho no olhar, a paixão que ela sentia por estar ali.
Não tinha como evitar, o coração de Elizabeth palpitava mais rápido a cada milésimo. Ela não conseguia conter suas lágrimas, não se importou com absolutamente nada, estava tão emocionada e feliz com tudo aquilo. Talvez fosse ter um ataque do coração ali mesmo.
— Você está bem? — ele murmurou.
— Phillip — ela disse, fungando ao aproximar-se de John. — Essa foi a coisa mais linda que você já fez por mim.
— A modelo ajudou muito, eu diria — ele riu, hipnotizado pelo calor nos olhos dela. — Por que está chorando?
— Eu estou viva, Phillip — ela sorriu. — Eu não estou só coexistindo no mundo, eu estou viva. Eu me sinto viva pela primeira vez em anos.
— Exatamente — ele concordou, sorrindo. — Você quer fazer algo com a sua sublime existência?
— Viver todos os dias, na verdade. — Ela disse, ficando na ponta dos pés. — Você consegue entender isso?
John conseguia sentir a sua respiração fundir-se com a de Elizabeth. Ele ficaria louco caso não tocasse aqueles lábios incrivelmente lindos naquele momento, ele precisava senti-los.
— Eu seria louco se não entendesse — ele murmurou.
Elizabeth inclinou-se para frente, estava na ponta dos pés para alcançar perfeitamente os lábios de John. Ele não evitou sorrir ao ver os olhos da mulher que amava irem se fechando antes que pudesse fechar os seus. Os seus lábios tocaram suavemente, era como estar no paraíso; aqueles lábios carnudos de Elizabeth eram o encaixe perfeito para ele, na realidade, ele já sabia disso antes de beijá-la. Ainda naquela tarde, John a beijou por diversas vezes, estava recuperando todo o tempo perdido desde o dia que a viu pela primeira vez. Seus lábios nunca estiveram tão contentes por beijar a mulher que tanto havia desejado por longos meses.
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