Outubro finalmente havia chegado, John poderia sorrir. Depois de um dia realmente puxado na Potere, teve motivos em dobro para chegar em casa, tomar um daqueles banhos bem longos e ler um de seus livros incríveis sobre fotografia. O silêncio nos cômodos trazia relaxamento aos seus músculos que estavam tensos pelo dia exaustivo que tivera no trabalho.

A campainha de sua casa tocou por três vezes, John ignorou naquele momento. Pensou que provavelmente poderia ser a sua vizinha querendo falar mais algumas vezes sobre o episódio da dor no tornozelo, ele não aguentaria. Novamente a campainha voltou a ser tocada.

— Que não seja a dona Sandra, eu imploro — ele sussurrou, a cada degrau que descia, ele implorava terminantemente.

John suspirou ao abrir a porta, erguendo as sobrancelhas em aprovação.

— O quê? Que isso? — ele estava confuso.

— Uma mulher, um barco de sushi, um ótimo vinho e incríveis taças. Não vai me convidar para entrar? — Elizabeth disse, sorrindo. — A propósito, você está lindo de óculos. Não sabia que precisava.

— São para leitura.

John deu espaço para Elizabeth entrar em sua casa, estava um pouco surpreso com aquela visita; talvez muito surpreso, na realidade. Não esperava Elizabeth em sua casa, não esperava ela segurando um barco de sushi. Ela estava tão linda. Ele apreciou aqueles lábios carnudos com batom vermelho, fora a única vez que a viu com algo tão forte, mas, de fato, estava muito bela.

— Como você descobriu onde eu moro? — ele questionou, enquanto arrumava a mesa de jantar.

Ela deu de ombros. — Digamos que eu dei um jeito, Phillip. Uma mulher nunca revela seus segredos.

Ele adorava o modo como ela conseguia ser misteriosa às vezes. Era muito instigante.

A casa de John era fascinante, muito diferente do que Elizabeth pudera imaginar, muito diferente das casas típicas da Itália; ali era a casa de um americano que havia viajado para diversos países do mundo. Em uma parede tinha somente um local reservado para fotografias de todos os lugares que John havia visitado anteriormente. Ele acreditava na essência natural das pessoas, dos lugares. Como também não gostava de muitos tratamentos na imagem, de coisas que deixassem as fotos pesadas.

— Sabem o que dizem sobre a luz natural... — ela murmurou para si mesma, rindo.

Ela adorou apreciar cada fotografia minimamente, exatamente tudo tinha sido capturado em sua beleza mais natural. Era a forma que John havia encontrado de levar memórias de todos aqueles países. Um pouco mais à frente havia um grande quadro com uma família, o que certamente era a dele. Elizabeth arregalou os olhos quando viu que ele tinha um irmão gêmeo, era exatamente igual, exceto as roupas e o modo como saíram na foto. Na fotografia também tinha uma bela moça no meio dos dois, ao fundo um casal, que sem dúvidas eram os pais dele. Todos tinham olhos azuis como os de John.

Elizabeth conseguiu notar o quanto ele era apegado ao seu pai. Um pequeno espaço havia fotos com toda a sua família, mas com o seu pai era diferente, eram várias; em todas as fases de sua vida, de quando era bebê até quando já estava um homem. Elizabeth não conteve o sorriso em seus lábios, como também não conteve o brilho em seus olhos. O afeto entre pai e filho lhe enchia de amor, e isso era mais uma coisa que acabara de descobrir sobre o homem que amava.

— A mesa já está pronta.

— Eu já vou — ela disse, terminando de analisar as últimas fotos na parede.

John tinha uma sensibilidade ainda maior do que ela poderia imaginar. O seu coração palpitava aceleradamente só de imaginar as diversas histórias que ele teria para contar sobre todas aquelas fotos e, claro que, ela certamente iria querer saber sobre tudo.

Elizabeth sentou-se sobre a cadeira de frente para John. — Você tem um irmão gêmeo? — ela perguntou, pegando o hashi e o ajeitou sobre os dedos. — Estou, de fato, muito chocada.

— Então, já descobriu o meu segredo? Eu tenho, o nome dele é Joey — ele disse, rindo e bebericando um pouco do vinho.

— E aquela moça no meio de vocês na foto gigantesca da parede? Sua irmã?

— Sim. Aquela é a Catherine — ele disse, olhando para Elizabeth, que parecia um pouco chocada. — Essa coisa de gêmeos serem conectados é bobeira, sou mais ligado a minha irmã.

Elizabeth mastigou o sushi lentamente ao permanecer em contato visual com John.

— Nós crescemos em Newton, Massachusetts. Não é muito grande por lá, mas é uma cidade incrível, Elizabeth. Você iria adorar.

— Por quê? — ela questionou, sentindo-se curiosa para saber os motivos.

— Eu notei que você adora esses lugares calmos, que trazem algum tipo de segurança — ele deu de ombros. — Newton é isso para quem mora lá. É exatamente por isso que os meus pais resolveram criar os filhos por ali.

Ela bebericou um pouco do vinho. — Você sempre foi muito grudado no seu pai, Phill?

O brilho nos olhos de John era notável, o sorriso em seus lábios mais ainda. — Sem dúvidas. Acho que todo garoto tem disso em se espelhar no pai. Meu pai me ensinou a amar fotografias. Eu lembro quando ele me deu a minha primeira câmera, Dean — ele riu. — Câmera polaroid.

Elizabeth molhava os pequenos pedaços de salmão no molho shoyu e satisfazia-se. Da mesma forma, aproveitou para levar um pequeno pedaço até a boca de John, talvez ele não esperasse por aquilo.

— Só para você não ficar sem comer nada — ela disse, sorrindo ao vê-lo concordar. — E você ainda tem essa câmera?

Ele acenou positivamente com a cabeça. — Sim, eu tenho. Ganhei quando completei seis anos, desde aquela época descobri o meu amor pelas lentes — ele suspirou, arrumando o hashi entre os dedos. — Eu sempre soube o caminho que seguiria desde pequeno.

Ela suspirou profundamente, deixando o hashi sobre a mesa. — Depois quero ver a sua primeira câmera, as suas fotos. Eu te assustei por aparecer tão de repente?

— Uma bela surpresa, eu diria — ele disse, sorrindo para Elizabeth.

Eles continuaram conversando e rindo pelas próximas horas naquela noite enquanto bebericavam aquele delicioso vinho e comiam o barco de sushi ao molho shoyu, entre outras coisas mais. Elizabeth estava amando saber todas as aventuras que John havia passado para conseguir ótimas fotos na época do colégio, o seu senso de fotógrafo naquela época era um pouco crítico demais. Aos poucos, ela conseguiu notar as diversas fases que John teve em sua vida, de um garoto inocente que amava fotografias a um adolescente pouco problemático, até um homem maduro que amava viajar para todos os cantos do mundo e que trazia ótimas histórias em sua bagagem.

Depois de muito vinho e peixe, Elizabeth e John deitaram-se sobre o felpudo tapete da sala de visitas ao som de The Temptations, com o calor da lareira aquecendo as paredes frias cor azul turquesa.

— Eu adorei a nossa noite — ela disse, sorrindo enquanto olhava para o teto.

— Venha sempre que sentir vontade. Minha casa é a sua casa, italiana.

— Muito obrigada, americano. Inclusive, adorei o seu gosto musical.

— Agradeça ao meu pai. Graças ao Robert que sou assim — ele colocou o dedo sobre o queixo. — Você não dos chiados que os discos trazem?

— Antiquado, mas tentador — ela virou-se de barriga para o chão, olhando para John. — Estou gostando da cara que você faz ao ouvir esses chiados.

John riu, erguendo as sobrancelhas ao começar a tocar My Girl. Ele levantou-se do chão e estendeu a mão em direção a Elizabeth. — Será que a bela dama me consideraria essa dança?

Elizabeth riu envergonhada, mas pensou: por que não?

Ela levantou-se, pegando a mão de John no mesmo instante. — Me ensina a dançar?

— Será um prazer, Dean — ele sussurrou.

As mãos de John foram exatamente na cintura de Elizabeth, ela por sua vez, deixou as suas mãos sobre os ombros dele. Seus corpos foram movimentando-se de um lado ao outro vagarosamente. Os olhos de Elizabeth brilhavam enquanto ela ria com tudo aquilo, estava sentindo-se tão bem por estar dançando ao som de uma música tão bela com o homem que estava lhe fazendo tão bem nos últimos tempos e que, de fato, era extremamente encantador. John estava apreciando a beleza daquela mulher, aqueles olhos verdes tornavam-se ainda mais belos na medida em que a felicidade começava a ser refletida no ambiente.

Seus corpos estavam movimentando-se conforme o ritmo da música iria mudando, de um lado ao outro, até Elizabeth encostar sua cabeça sobre o peitoral de John. Um sorriso nos lábios conseguia transmitir todos os sentimentos que ele estava sentindo naquele momento, estava no mais profundo dos seus sonhos. Suavemente, ainda com os corpos sendo envolvidos com o ritmo da música, beijou-a da maneira mais prolongada que poderia. Seus beijos poderiam ser resumidos em os melhores que ele já havia provado em sua vida. Jamais se cansaria.

Eles fizeram amor naquela noite pela primeira vez. Elizabeth havia sentido os toques de John a noite inteira, boa parte da manhã também. Eles não se cansaram de se sentirem daquela forma; era intenso, era incrível do modo como eles faziam. Todas as horas estressantes no trabalho pareciam ter desaparecido da mente de ambos, como todas as preocupações exaustivas demasiadas. Eles não sabiam a que nível de relacionamento estavam, mas atualmente aquilo estava sendo bom para eles, era algo muito saudável. Eles faziam bem um para o outro. Elizabeth tinha suas doses de coragem, John tinha suas doses de calma. Era perfeito na visão deles.

— Nós podemos passar na Caffè Benevolo II e depois na livraria antes de irmos para a Potere? — ela disse, sorrindo para John.

— Você sabe o que especialistas dizem sobre vícios em cafeína? — ele olhou para Elizabeth por cima do ombro na cozinha. — Eu não posso acreditar que você vai se desfazer das minhas maravilhosas panquecas americanas.

O cheiro realmente era muito convidativo para Elizabeth, ela não poderia evitar de provar. Teria que abrir mão do seu vício, ao menos por hoje.

Elizabeth sentou-se sobre a cadeira na mesa da cozinha, olhando para John com um olhar investigativo. — Interessante... você é fotógrafo, redator, dança bem — ela olhou para as panquecas, estavam com uma cor incrível e formato lindo. — E cozinha bem? Qual o seu defeito, Phillip?

John sentou-se ao lado de Elizabeth. — Eu sou tudo isso mesmo.

— Hummm... — ela ruminou. — Você é convencido, entendi agora — Elizabeth revirou os olhos.

Ele deu de ombros, rindo. — Eu só tenho uma ótima autoestima, acho que as pessoas deveriam ter também.

Ela sabia que ele estava certo, apenas assentiu com a cabeça. As panquecas estavam maravilhosas, assim como o café, ele era um chefe incrível e ela já queria provar as suas outras especialidades. À noite havia sido extremamente agradável para Elizabeth, pela primeira vez em anos, ela não só coexistiu com alguém em um ambiente, ela fez algo verdadeiramente. O amor que eles fizeram foi totalmente real para ela, não foi traumático. John tinha sido maravilhoso com Elizabeth em tudo, ela queria repetir isso diversas vezes, com toda certeza. Não era só mais isso que ela precisava, não era só mais doses de coragem que John estava lhe proporcionando, ele estava lhe dando doses de amor e companheirismo voluntariamente e involuntariamente.

Sua cabeça estava formando uma lista de todas as coisas que John estava proporcionando à sua vida. Ela prometeu a si mesma que deveria anotar quando chegar em casa, pois isso estaria começando a inspirá-la para algo à mais. Elizabeth só precisava entender o que isso significava para ela.