O Recomeço
19 Capítulo Dezoito
A vida aos poucos se tornava mais fácil, muitos dias nublados e outros ensolarados, mas na maioria das vezes o sorriso insistia em aparecer nos lábios de Elizabeth, algo que acalmava o coração de todos em sua volta. Pensar sobre deixar a Potere nas mãos de outras pessoas não foi tão difícil. Por que não se desafiar algumas vezes na vida? O inteligente seria ser um pouco mais aventureira, arriscar-se ainda mais. Os poucos meses até a volta definitiva da Jennifer seriam para fazer Carlo entender todos os processos da revista, e o mais surpreendente para Elizabeth era que ele não havia achado aquilo complexo, mas sim desafiador e incrível. Tudo bem, estava tudo nos eixos até agora, isso poderia ser um sinal do universo? Ou tudo estava caminhando para o lado correto? Quem sabe. De fato, naqueles meses tudo havia sido pleno para a Potere.
As pessoas estavam se adaptando muito bem a nova rotina: Carlo já estava coexistindo com Verona, aos poucos Elizabeth se esquecia daquela rotina turbulenta, Jennifer ainda não havia voltado, mas já estava recebendo tudo por mensagem, o restante dos funcionários estavam amando a presença de Carlo no ambiente, ele alegrava qualquer um.
Elizabeth fazia planos para viajar pelo mundo, mas por onde começar? Era difícil com tantos destinos, lugares, culturas incríveis. Quantas descobertas se pode fazer em três anos? Esse fora o prazo que ela pediu para Carlo e Jennifer, ela precisava de três anos. Três anos para tirar férias de tudo, três anos para sair de Verona e conhecer um pouco mais de si mesma, não aquela Elizabeth que estava cansada e lotada de problemas.
Uma lista de países? Por que não? Ela pensou.
Elizabeth começou a anotar em seu pequeno bloco, todos os países que já sentira vontade de conhecer, todas as culturas que já leu sobre, e até mesmo aquelas que achava instigante.
Índia, Coreia do Sul, Canadá, França, Austrália, África do Sul, China, Irlanda, Brasil, Estados Unidos.
Ela não conteve a risada ao ver como aquela lista estava completamente aleatória, eram muitas culturas diferentes e muitos destinos. Levaria um bom tempo para desvendar todos os mistérios daqueles países, ou melhor, ao menos boa parte deles. O que ela tinha certeza que faria, era que gostaria de provar o sabor de todos os temperos que cada cultura poderia lhe proporcionar.
Pela primeira vez nos últimos tempos, Elizabeth estava realmente empolgada com tudo aquilo, ela estava realmente feliz com os destinos dos seus próximos anos. Afinal, seriam dias, meses, anos dedicados somente para ela e, claro, para o seu companheiro e fiel amigo, Ozzy; e aos poucos, mesmo sem perceber, ela não estava pensando em John. Talvez pela loucura de precisar planejar a sua viagem para a Índia fez com que os seus pensamentos não focassem nele.
Planejar sua viagem para a Índia havia sido um pouco exaustivo, ela não estava acostumava a fazer tudo em tão pouco tempo. Era difícil buscar medidas para levar Ozzy, ou conseguir hotéis que deixassem animais hospedados com seus donos, entretanto, Elizabeth conseguiu exatamente tudo em um prazo razoável. Estava tão entusiasmada com tudo que não teve tempo de ficar triste com a despedida ou de sentir agonia pela viagem longa de avião, conhecer a Índia era um grande sonho.
Os poucos dias que ficaria por lá, iria conhecer todos os lugares que poderia, registraria tudo através de suas lentes; poderia ter sido um costume, uma mania, um vício, de fato, ela estava com a sua câmera para todos os lugares. Algumas pessoas dizem que quando se termina um relacionamento, geralmente você leva algumas manias do seu antigo parceiro brevemente ou terminantemente, e isso deveria ter sido o vício que Elizabeth herdou de John.
Entre vídeos e fotos, tudo estava sendo arquivado por belos cliques. Desde roupas até danças, comidas e transporte, Elizabeth estava experimentando e vendo todos os lados possíveis que a Índia poderia lhe proporcionar, os seus olhos brilhavam em aprovação, o seu corpo estava êxtase com tantas descobertas. Ela não entendia como era possível se apaixonar tão rapidamente por um país, como também podia sentir que aquela viagem estava fazendo bem até mesmo para Ozzy, o bichano não estava dormindo tanto quanto o habitual.
Foram apenas três semanas na Índia, apesar disso, foram três semanas incríveis. Em três semanas ela conseguiu alcançar a sua liberdade de Verona e da Potere, era exatamente isso que Elizabeth precisava para prosseguir com as suas viagens para os próximos países. Nada mais importava para ela naquele momento, não existia Verona, não existia Potere, não existia John, também não existiam aqueles outros medos que a acompanhavam constantemente todos os dias. Era triste ir embora daquele país que havia lhe dado a liberdade, a expressão, o controle da sua própria vida, mas como todo show precisa continuar e ela tem prazos, era hora de ir para a Coreia do Sul.
Estar na Coreia do Sul acabara sendo um pouco diferente para Elizabeth, precisava se adaptar rapidamente a situação climática. É possível virar um iceberg enquanto está andando pela rua? Era difícil entender coreano também, nesses momentos ela pensava o quanto gostaria de ser fluente no idioma ou de, ao menos, saber o básico. Porém, era engraçado o modo como ela tentava se comunicar com alguns coreanos quando eles não eram fluentes em inglês, provavelmente quem estava vendo a situação de fora não entendia absolutamente nada.
Dois meses na Coreia iria ser desafiador para Elizabeth, além da barreira do idioma em algumas situações, do frio intenso em algumas horas do dia, ela estava se desafiando a provar alguns pratos extremamente picantes, algo que até mesmo alguns coreanos não se arriscariam a provar. Por que não? São situações que vivemos uma vez na vida. Elizabeth resolveu ir em um dos restaurantes que tinha a comida mais picante de Seul, bom, segundo eles e a fama que o lugar tinha.
O garçom quase acenava negativamente com a cabeça enquanto servia a mesa de Elizabeth, talvez estivesse tentando avisá-la sobre a picância daquele prato.
— Obrigada, deve estar uma delícia — ela disse, sentia o cheiro da pimenta invadindo o ambiente, quase a fazendo tossir.
— Tenha um bom apetite, senhora — o garçom disse, retirando-se da mesa enquanto olhava para trás.
Elizabeth deu de ombros, rolando os olhos. A comida realmente estava bem apimentada pelo cheiro e a cor estava bem avermelhada, ela já podia sentir a sua pele ficar vermelha e não tinha colocado nenhuma parte daquela comida na boca. Elizabeth suspirou profundamente enquanto ajeitava o hashi sobre os dedos. Era normal sentir medo naquele momento?
— Vou mostrar para aquele garçom que eu aguento essa pimenta de nada — ela murmurou para si mesma, movia o hashi sobre a comida.
Está bem, Elizabeth estava com muito medo naquele momento, mas era unicamente pelo fato de, possivelmente, gritar no restaurante com tantas pessoas por perto.
Doses de coragem, Elizabeth. Você consegue, ela pensou.
Talvez de uma vez não iria ser tão ruim assim, ou iria? Sem muito tempo para pensar, Elizabeth colocou uma grande quantidade sobre a sua boca em uma única vez. Fechou os olhos para saborear toda aquela pimenta, todo aquele sabor coreano invadindo o seu paladar como um soco em seu maxilar. Era como estar mastigando e engolindo diversas chamas de uma vez só e, claro que, já podia sentir o seu interior queimando como se estivesse em um churrasco. Seria normal se o seu cérebro estivesse fritando? Isso era demais para Elizabeth.
Suas mãos estavam tremendo com tanta pimenta em seu organismo, era de água que Elizabeth estava precisando naquele momento. Era ótimo sentir aquele líquido descendo sobre a sua boca, por sua garganta e refrescando o seu interior, mas claro que não aliviou a sensação de queimação. Talvez Elizabeth tivesse atingido uma dose de coragem alta demais naquele momento, agora estava entendendo o porquê aquele garçom estava agindo daquela forma.
Elizabeth pagou caríssimo naquele prato, mas não havia conseguido terminar de comê-lo, preferiu algo mais leve para encerrar aquela noite, e prometeu para si mesma que ficaria um longo tempo longe de qualquer pimenta. Sem doses de coragem quando o assunto fosse pimenta.
Apesar da dificuldade com o idioma, ficar na Coreia acabou sendo incrível. Elizabeth provou outros pratos deliciosos, descobriu uma cultura nova, fez fotos sensacionais e Ozzy, por outro lado, acabou aproveitando aquela onda de frio para dormir tudo o que não dormiu na Índia. Ela precisaria se preparar para os próximos dias, o seu fuso horário mudaria completamente, iria para o Canadá.
A sua estadia no Canadá seria muito pouca, afinal, ela não queria conviver muito tempo com a família do seu pai. Elizabeth não tinha muita intimidade com eles, aliás, ela não tinha nenhuma, não sabia absolutamente nada sobre eles. Como seriam os próximos dias? Seria uma semana difícil para ela. Eles nunca a procuraram, nunca mandaram uma carta, nunca telefonaram, e ela não entendia o porquê havia ido atrás naquela altura da vida. Mas tudo bem, agora era tarde demais para voltar atrás quando já estava hospedada no quarto que havia sido de seu pai. Talvez isso fosse uma forma de se conectar a ele, talvez seja necessário naquele momento, quem sabe?
— Você gostou do quarto? — a senhora disse, aparentava ser muito simpática com o coque que usava segurando os seus fios brancos como a neve, assim como ficava extremamente encantadora ao sorrir, marcando ainda mais suas linhas de expressão.
— Claro, Charlotte — Elizabeth disse, analisando cada canto possível do quarto. Sorriu ao olhar as fotos da época de faculdade do seu pai.
Charlotte aproximou-se de Elizabeth, tocando o braço da neta. — Você pode me chamar de avó.
— Que tal Charlie? — ela sorriu, afastando-se de sua avó. — Que horas o seu marido chega do serviço?
— Na realidade ele foi colher algumas amoras para fazer um bolo, tenho certeza que vai amar — Charlotte riu bem baixo, aquela risada encantou um pouco Elizabeth. — Todos amam os bolos do William. Querida, já está quase na hora do jantar, por que não toma um banho?
Elizabeth acenou positivamente com a cabeça, sorrindo forçadamente ao sentir o cansaço do seu corpo e ao imaginar as olheiras que o seu rosto estaria. — É tudo o que eu preciso.
Ela estava encantada por Charlotte? Ah, quanto tempo levaria para continuar resistindo aos encantos daquela doce senhora? Era a sua única avó viva, ela deveria estar a abraçando e dizendo o quanto desejou tudo aquilo, mas e todos os últimos anos? Onde eles ficariam? E todas as vezes que ela desejou ter o carinho dos seus avós paternos? Era coisas demais para pensar naquele momento, e antes que pudesse entender os seus sentimentos em relação aos seus avós, principalmente a sua avó, um banho faria toda diferença naquele momento.
O jantar realmente estava ótimo, Charlotte e William cozinhavam tão bem como ninguém; que Vernazza não tenham ouvidos, é claro. Apesar de tudo, Elizabeth não trocava muitas palavras com os dois, respondia acenando a cabeça com alguns sorrisos e algumas trocas de olhares, nada além disso. Estava sendo hostil? Provavelmente, ela não era daquela forma. Era uma adaptação com toda aquela situação, ainda era difícil para ela naquele momento.
— Você nos contou tão pouco sobre Verona, pequena Beth — William disse, sendo otimista.
— Pequena Beth? Eu acho que não sou a pequena Beth tem alguns anos — Elizabeth retrucou, sendo seca.
Ele franziu a testa, rindo. — Eu concordo, acho que você cresceu um pouco desde a última vez que a vi.
— Quando eu tinha dois anos? Eu acho que realmente cresci bastante, William.
Ele pigarreou, ajeitando o corpo sobre a cadeira. — Escute, Elizabeth...
— Escutar que vocês não se importaram com a única neta que tiveram? — Elizabeth disse, sendo sarcástica. — Hummm... — ela ruminou. — O quanto de desculpas vocês podem inventar por noite?
— Nós tentamos entrar em contato com a sua mãe, meu bem. Nós mandamos cartas, diversas vezes ligamos para o telefone que nós tínhamos na época — Charlotte disse, suspirando profundamente.
— Está querendo dizer que a minha mãe seria capaz de me separar de vocês?
— Não, eu não quis dizer isso. Eu só quis dizer que nós tentamos nos manter por perto, mas houve uma falha de comunicação — Charlotte levou a cadeira para perto de Elizabeth. — Depois da morte do seu pai, tudo o que eu e o seu avô queríamos era ficar perto de você, era ter a nossa neta o mais próximo possível. Afinal, você é um pedaço do nosso Nathan.
Fez-se silêncio por um longo tempo. Os olhos de Elizabeth estavam marejados, ela conseguia sentir sinceridade nas palavras de ambos, mas ainda continuava sendo doloroso para ela. Uma noite seria o suficiente para ela nutrir toda aquela conversa, entender tudo de uma forma mais madura. Se tudo era verdade, os próximos dias mostrariam tudo para ela.
— Eu só preciso pensar um pouco. Eu sei que a distância entre Itália e Canadá é grande, não é fácil — Elizabeth disse, suspirando enquanto secava as lágrimas que insistiam em umedecer o seu rosto.
Uma noite seria ideal para ela, apenas isso.
Doses de coragem, Elizabeth. Você vai precisar.
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