O Recomeço
18 Capítulo Dezessete
A mesa estava farta de deliciosas comidas natalinas, o cheiro invadia todos os cômodos possíveis da casa, isso certamente alegrava o doce coração de Elizabeth que terminava de se arrumar em seu quarto. A tradição de usar vermelho e verde ainda permanecia mesmo depois de longos anos, era ridículo no fundo e ela entendia o quanto, mas por que não? Ela riu ao imaginar o retrato da família.
Apesar de estar tão comum aos olhos de seus familiares, o batom cor vinho fez toda diferença. Elizabeth estava realmente deslumbrante, o suéter vermelho com detalhes verdes lhe caía muito bem, John amaria ver como ela ficava linda com aquela roupa. Ele realmente amaria fazer parte de tudo aquilo e, está bem, Elizabeth pensou nisso algumas raras vezes, de todo modo, estava tudo ótimo. A noite seria incrível, era apenas limitar as provocações de Andrew.
Jennifer e Kimberly estavam fazendo uma falta insuportável naquele momento, mas agora elas tinham vidas mais interessantes, ela pensou. Elizabeth sacudiu sua cabeça na tentativa de afastar aqueles pensamentos irritantes. Era véspera de Natal e queria aproveitar com a sua família, como também queria aproveitar suas pequenas férias.
O cheiro era convidativo demais, ele estava guiando os instintos e corpo de Elizabeth pelos cômodos da casa. Era tão bom estar por ali com sua família, era realmente reconfortante para qualquer um. Os sons das risadas invadindo os acústicos, o cheiro delicioso, os rostos felizes, era tudo bom demais para apreciar.
— Eu estou pronta — Elizabeth disse, girando seu corpo e rindo ao ouvir sonoros assobios. — Muito obrigada, vocês são gentis demais — ela curvou seu corpo em reverência.
— Você está encantadora, bella — Giovanni disse, completamente apaixonado pela neta.
Ela sorriu para ele, sentindo todo amor que o seu avô tinha para lhe dar. — Quando vamos tirar a famosa foto da família Cipriano? Eu me arrumei para isso.
— Pode ser agora, vamos? — Carlo disse, ajustando a câmera sobre o tripé.
Elizabeth assentiu com a cabeça, rindo ao ver seus familiares tentando arrumar um lugar decente para a anual fotografia familiar. Certamente seus olhos deveriam estar brilhando com aquela cena, não era muito comum datas comemorativas que fossem capazes de fazerem todos usarem roupas vermelhas e verdes, era algo muito raro.
A casa estava completamente enfeitada com luzes e enfeites natalinos, Noéis estavam espalhados por todas as paredes, como também muitas meias com nomes. Ao centro da sala havia uma grande árvore de Natal recheada com presentes, a decoração estava linda, cheia de bolas vermelhas e douradas, no topo havia uma gigantesca estrela prateada. Tudo era excessivamente convidativo.
Elizabeth ficou ao lado de Giovanni e Carlo, isso era como um ciclo nas fotografias natalinas. Suas primas e primos ficaram um pouco atrás de suas tias e dos seus maridos, os cônjuges ficaram ao lado dos seus respectivos parceiros e parceiras, e as crianças sentaram sobre a frente em duas fileiras. A câmera estava captando a essência da felicidade do ambiente, algo que estava sendo embalado pelas músicas natalinas que apresentavam-se ao fundo. Risadas e sorrisos tomavam conta do local cada vez que a câmera disparava o delicioso som do flash, era realmente algo muito divertido para eles. Aparentemente, eles poderiam ficar horas e horas naquela brincadeira de fazerem caras e bocas, era a maneira de demonstrarem amor.
Uma mesa realmente farta, muito bem exposta. Elizabeth poderia ficar comendo aquelas comidas por horas, de fato, jamais cansaria de provar aqueles temperos deliciosos. Cada garfada era como ir até o paraíso e voltar para a terra em diversas vezes, bebericar do vinho suave também — aquilo certamente era suas doses de férias — não poderia estar mais contente.
Por alguns segundos fechou os seus olhos para ver se estava sonhando ou se estava vivenciando aquilo. Era tudo real, ela realmente estava feliz daquela forma. Mesmo ignorando a existência de Andrew e da sua namorada, nada poderia estragar sua noite. Registrou o jantar como um vídeo caseiro, entre piadas e momentos emocionantes, estava tudo arquivado sobre a câmera da família e iria para fitas VHS, isso era uma tradição familiar.
Finalmente já era Natal, abraços apertados e muitos beijos encheram a sala de visitas com muito amor, palavras de carinho e conforto. As crianças corriam para a árvore na esperança de localizarem seus presentes, Giovanni resmungava explicando os valores natalinos e que não se resumia em presentes ou algo em troca. Está bem, Elizabeth ficou rindo ao ver a cena, mas apenas pelo fato que os olhos de seu avô estavam brilhando ao ver o lindo cachecol que acabara de ganhar. Ela então pegou a câmera e começou a criar diversas memórias daqueles momentos; os seus pequenos primos brincando com os brinquedos novos, o seu avô emocionado com o cachecol novo, a sua tia Luna revelando a incrível maleta de maquiagem que havia ganhado, sua prima abrindo os presentes que havia recebido para o seu filho que em breve nasceria, Carlo beijando apaixonadamente a sua esposa, Daniela exibindo um incrível sorriso pelos elogios que recebera pela deliciosa refeição natalina.
Por um breve momento Elizabeth pensou:
— Mal de fotógrafo, não é? Não podem ver uma boa paisagem sem conseguir apenas apreciar com os olhos.
— Nós apreciamos com as lentes, Dean.
De novo? De novo John estava vindo em sua mente? Você está apreciando a sua família Elizabeth, por que não faz isso apenas com os olhos? Ela começou a questionar-se. Por um momento ficou cabisbaixa. Quem ela estava querendo enganar? Seria ótimo John por ali, dividir aquele momento com ele iria ser incrível.
Era ótimo estar com sua família, mas ela precisava de um tempo longe de todo aquele barulho e risadas, principalmente agora que havia recebido uma lembrança tão forte. A casa da árvore não era um local muito ideal para estar, não depois do álbum de fotografias, porém era um lugar calmo para ela.
O corpo de Elizabeth vagou suavemente em torno de todo caminho, não teve precipitação alguma para chegar na casa da árvore. Em cada passo que dava podia sentir lágrimas irem umedecendo sua pele. As lembranças eram como fogos de artifício, estouraram rapidamente em sua mente, ela mal conseguia conter. As últimas horas foram um puro engano, talvez ouvir a voz de John na madrugada foi algo ruim para ela, sua mente não estava conseguindo compreender o que precisava fazer naquele exato momento.
— Eu estou atrapalhando? — Carlo disse, terminando de subir a escada.
Elizabeth sorriu, ajeitando seu corpo para o lado, deixando assim um espaço para ele. — Claro que não, entre na minha casa. Seja bem-vindo — ela desviou o olhar para que ele não notasse o modo como se encontrava.
— Não adianta disfarçar, eu conheço você desde que estava na barriga da sua mãe.
Ela deu de ombros, rolando os olhos. — Não sei do que está falando, padrinho.
— Você está chorando, Elizabeth.
— O Natal me deixa emocionada.
Ele franziu o cenho, rindo. — Você é péssima com mentiras. Posso adivinhar?
Ela assentiu com a cabeça. Por que não? Ela pensou. Já estava ali de todo modo.
— Como sua mãe sofria, você também chora da mesma forma. Posso afirmar que está sofrendo por alguém, você mexe o nariz suavemente — ele disse, olhando para o horizonte e forçando a visão. — E aos poucos o seu olhar fica perdido, é porque você está em acesso com as suas lembranças, essas que você teve com alguém. E eu posso chutar que essa pessoa se chama John, acertei?
Elizabeth estava impactada, ele realmente estava certo. Ele a conhecia mais do que poderia imaginar, e antes que pudesse dizer algo, apenas assentiu com a cabeça mais uma vez.
— Ele machucou você?
— Não, ele não me machucou.
— Então, o que houve com vocês dois? — ele questionou, confuso.
— Eu gostaria de dizer o quanto John foi um canalha comigo. Gostaria de dizer que ele agiu errado, gostaria de xingá-lo, gostaria de odiá-lo — ela suspirou, tentando encontrar outras palavras —, mas ele foi ótimo comigo. Ele foi incrível, como eu posso esquecê-lo dessa forma?
— Por que não deu certo?
Ela deu de ombros, fungando baixinho. — Nós demos certo por um tempo, mas na primeira briga séria tudo desandou.
— Coisas incríveis ocorrem quando há amor verdadeiro em algo, você sabe disso. Mas, não pode parar a sua vida por ele.
Ela teve a sensação de estar sendo obrigada a se desprender do seu amor pelo John, sabia que aquilo era a coisa certa. Porém, não sabia como fazer.
— Eu só não sei como fazer, todo lugar que eu vou tem ele. Eu vou a cafeteria tem o John, eu vou a empresa tem ele, eu viajo e tem ele. Tudo tem pequenos pedaços dele — ela balançou as mãos, parecia estar tentando evitar contato.
— Talvez seja o universo pedindo para que você se desligue da Itália por um tempo, Elizabeth. Por que você não vai para outro país? — ele sorriu, olhando-a de relance.
— E a Potere? Eu não posso deixar tudo, padrinho. A minha vida está aqui.
— Não, a sua vida está onde quer que você esteja. E pelo o que eu sei, Jennifer voltará em breve, eu posso ajudá-la enquanto você tira férias de tudo.
Fez-se silêncio por um breve tempo. Por que era tão difícil largar a empresa? Foi naquele mesmo rumo de conversa que ela havia brigado com John, foi por causa da empresa que tudo havia terminado. Acabaria da mesma forma com o seu próprio padrinho também? Carlo era ótimo em administrar coisas, mas uma revista? Tudo bem, ele teria um tempo perfeito para aprender muitas coisas.
— Eu não sei. Eu posso pensar a respeito?
— É claro que pode — ele sorriu de modo convidativo para ela.
— Por quanto tempo essa proposta está de pé?
— Por quanto tempo você achar necessário pensar — ele aproximou-se de Elizabeth, beijando a testa dela suavemente, de modo carinhoso e protetor. Era realmente um pai para ela.
Era uma proposta tentadora, muito desafiadora. Talvez mais desafiadora para ele do que para ela, ambos saíram da sua zona de conforto. Quantos dias seriam necessários para isso exatamente? Ela não queria demorar muito para decidir. O máximo seria até o recesso das festas de final de ano acabar, seria o tempo ideal para pensar e ter uma decisão em mãos. Sair da Itália seria bom para ela, na realidade, seria perfeito naquele momento. Tudo o que ela precisaria fazer era não pisar no Japão, não havia erros para cometer. Mas, o que tanto a impedia? Não poderia ser Ozzy, afinal, ele iria junto. Talvez a promessa que fez a sua mãe de jamais abandonar a Potere, entretanto, Elizabeth não era mais uma garota de dezoito anos, ela estava com vinte e seis anos agora, estava descobrindo-se verdadeiramente e precisava sair daquele ambiente antes que enlouquecesse.
Uma lista de pontos positivos ajudaria naqueles momentos, negativos também. Elizabeth pegou um pequeno post-it e uma caneta na escrivaninha, achou que seria o ideal para anotar suas ideias.
Pontos positivos para viajar ao mundo
1. Conhecer novos lugares.
2. Pessoas novas na minha vida.
3. Provar comidas novas.
4. Viajar para países incríveis.
5. Desligar-se da Itália por um tempo, apesar de amar o meu país.
6. Esquecer John Phillip.
7. Ser feliz.
Pontos negativos para viajar ao mundo
1. Potere.
2. Potere.
3. Potere.
Elizabeth sabia qual resposta deveria dar para Carlo, não havia dúvidas a respeito disso. Estava muito explícito, isso definiria muitas coisas pelos próximos cinquenta anos.
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