O Rebelde

3 O Sonho de uma Noite de Verão


–O que se usa em um encontro no qual você vai cozinhar?- pergunto a Lily, que prende meus cabelos em um coque.

–Acho que uma roupa mais simples, como uma calça e uma blusa leves...- diz ela, e eu concordei. Podia ser. Vesti então um jeans preto com alguns brilhantes, uma blusa leve de seda preta com arabescos brancos e uma sapatilha branca. De maquiagem, somente usei base, rímel e sombra, afinal, me sentiria quase nua sem ela.

–Acha que está bom assim?- pergunto, na frente do espelho.

–Está linda- confirma Lily. Sorrio e me dirijo ao jardim, em uma área destinada a cafés e chás da tarde. Um local cercado de flores e árvores, com sombras e uma fonte. Pedi que as criadas arrumassem tudo o que fosse preciso para fazermos cupcackes, fairycakes e tudo que tivesse a palavra cake no final. Quando cheguei, Natan já estava lá, com avental e touca. Não pude conter o riso.

–Você está uma gracinha de touca- digo.

–Você ficará também, Katie.

Sorri e vesti o avental.

Foi uma bagunça deliciosa! Rimos e nos divertimos, e em determinado momento pedi que os fotógrafos — que pareciam se julgar escondidos — se retirassem. Fizemos muita bagunça e provamos as massas, coberturas e recheios antes mesmo de ficarem prontos. No final, tínhamos farinha nos cabelos, coberturas e confeitos nas roupas e sorrisos nos rostos. Ele realmente não tinha talentos culinários, mas sua presença alegre era o suficiente.

–Eu não esperava que a princesa cozinhasse- diz ele.

–E eu não esperava as suas gentis palavras no Jornal Oficial...

Ele estava perto de me conquistar; era um rapaz maravilhoso, assim como muitos outros. Não pensei que seria assim, tão fácil encontrar meu príncipe, pois Natan era, com certeza, meu preferido. Talvez pelo fato de que já houvéssemos tido mais tempo juntos... Ou pelo fato de ele realmente ser minha outra metade. Ele foi chegando perto, e um pouco mais... Eu estava encostada em uma bancada improvisada e ele vinha e vinha, mais perto. Prendi a respiração, mas quando nossos lábios iam se tocar, o alarme que dizia que nossos bolinhos estavam prontos soou quase conspiratoriamente. Foi um tanto constrangedor, e eu acho que digo por nós dois quando afirmo que levei alguns segundos para voltar a realidade. Peguei as luvas térmicas, mas antes que eu pudesse abrir o forno, Natan o fez. Ele me fitou com os olhos sorrindo.

–Pode se queimar, Alteza- disse, tirando os bolinhos do forno.

–Katie- corrigi.

Ele sorriu e eu desviei o olhar para nossa criação. Não pude conter o riso.

–Ficaram horríveis- disse, enquanto ríamos.

–Sim, mas o sabor está ótimo- lembrou ele, quando a crise passou. Então, tiramos todos da forma e os dispusemos na mesa; eram nove no total – na verdade, a receita dizia uma dúzia, porém, atacamos a massa antes de levá-los ao forno.

Começamos a confeitá-los.

–Qual sua cor preferida?- perguntei.

–Gosto de azul...- respondeu Natan, concentrado em fazer com que o chantilly escondesse o desastroso bolinho.

–Uhm...- comentei, e logo depois, cobri o bolinho com glacê branco perolado e, para melhorar, polvilhei açúcar azul por cima.

Sorri, satisfeita com a minha criação. Eu havia realmente disfarçado a feiúra do bolinho com pós e bases – maquiagem ajuda até nos casos mais infelizes.

Orgulhosa, segurei o bolinho com as duas mãos e me virei para ele, só para me deparar com um delicado bolinho com glacê rosa e pequenas pérolas de açúcar por cima.

Sorri.

–Ficou lindo- disse, olhando o cuidado que dedicou a sua delicada criação.

–Fico até constrangido- disse ele, um sorriso tímido.

–Este é pra você- disse, estendo o bolinho azul. Ele sorriu e me fitou.

–Gostei muito de hoje.

–Eu também- disse, sonhando com o impossível e em quando nos encontraríamos novamente.

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A semana se passou com mais e mais encontros; já sabia quais seriam os eliminados desta noite. Não queria magoar ninguém, e praticamente fiz um roteiro para cada um deles.

Decidi conversar em particular com cada um deles.

Dylan — ele aceitou bem, muito bem na verdade. Acho que ele já esperava.

Bruce – ele parecia me devorar com os olhos, e isso me assustava. Nem tive coragem de marcar um encontro com ele sem fotógrafos.

Chris – simplesmente não deu certo. Parecia não haver assunto entre nós, e ele me pareceu muito mais interessado nos poderes e status da minha família do que em mim.

Dimitre – ficou irritado, mas tentou se sair por cima, dizendo que desperdicei talvez a melhor oportunidade da minha vida, e exaltando que ele já havia se deitado com mulheres muito mais atraentes e interessantes do que eu.

Johnson – ele me pareceu distante, e eu o flagrei olhando escancaradamente para a criada que servia as bebidas da mesa; com certeza, não queria amantes pelo palácio, muito menos um marido que me deixasse com chifres antes mesmo de se tornar meu noivo!

Eliminei também Jason, Donny, Thommy, Wolf, Ralph e Felix. Segundo minhas contas, sobraram 25.

Me sentia um pouco mal de eliminar tanto logo após a segunda semana, mas eu tinha que continuar.Dentre os meus preferidos, estavam Liam, John e, logicamente, Natan. Também gosto muito de Bryan, pois sempre me faz rir.

Agora, cá estava eu, sentada no parapeito de minha suntuosa sacada – ato que certamente seria condenado pelos meus pais. Usava meus óculos, pois as lentes eram incômodas, então, sempre que não estava em público, ficava grata por poder usar meus confortáveis óculos. Estava lendo um livro muito, mas muito antigo mesmo. Um clássico imortal, O Sonho de uma Noite de Verão, de um autor cujo país hoje nem existe mais.

Ouço uma leve batida na porta, e entra em meu quarto Danny Leger. Ele era um irmão para mim, e éramos inseparáveis. Ele estivera fora durante alguns meses em um treinamento militar, e voltou antes do tempo. Corro para seus braços.

–Danny!- suspiro, o rosto em seu peito.

–Oi, Katie- diz ele, posicionando as mãos atrás de minhas costas enquanto nos dirigimos até o parapeito, onde ele se senta ao meu lado.

–Como foi a viagem?- digo, mas mudo de assunto ao perceber ser um terreno no qual ele não quer adentrar.

–Como vai a Seleção?- pergunta ele, os olhos azuis como os de Madame Lucy– ou tia, como eu a costumo chamar na vida pessoal – brilhando. Apesar de ter herdado os olhos dela, ele era muito mais parecido com tio Aspen. Era alto e forte como ele, a pele morena e cabelos desengrenhados e negros — muito embora, socialmente, ele controlasse os cachos.

–Ah, tudo bem, eu acho...- digo, contorcendo uma mecha de cabelo entre os dedos.

–Alguém já está em vantagem?

–Sim, na verdade...- respondi, tímida. Era estranho falar com um menino sobre meninos.

–Você deve estar cansado... Por que voltou antes do treinamento terminar? Achei que viria somente no final de abril...

–Sim, estou cansado mesmo – disse ele, sorrindo. Mas esse sorisso logo se desfez.

–Katherine... Eu voltei pois os ataques rebeldes ficam mais constantes, e precisam de mim para treinar novos soldados.

Percebendo meu medo, ele segura minhas mãos na altura de seu peito.

–Ei, ei... Eu não quis assustá-la. Vai ficar tudo bem, sempre fica tudo bem. Estamos no palácio com mais de 100 guardas. Não se preocupe...

Mordi o lábio — era isso que abalava meu pai.

–Tudo bem, acho melhor você descansar. A viagem foi longa.

– Tem razão. Vim só para dar o ar de minha graça e um beijo de boa noite- diz ele, beijando minha testa e saindo. Assim que o vejo sair do quarto, me viro bruscamente a procura de meu livro, que desaba do quarto andar e acerta algo com um som abafado e um gemido. Logo me inclino sobre o parapeito e descubro que acertou em cheio a cabeça de um dos selecionados, que não reconheço devido a distância e falta de luz.

–Desculpe!- grito.

–Imagine- grita a voz de Bryan. Ainda bem que é ele, que leva tudo na brincadeira.

–Vou levá-lo até você- gritou ele, entusiasmado, e, antes mesmo de obter uma resposta, já estava batendo em minha porta. Desesperada, tiro os óculos e os escondo debaixo dos lençóis.

–Alteza- diz ele assim que abro a porta, com uma reverência exagerada. Sorrio.

–Obrigada, meu senhor. Só espero que não o tenha machucado...- agradeço enquanto pego meu livro.

–Não, Senhorita. Mas admito que a leitura é pesada- diz ele, passando as mãos pelos cabelos e me fazendo soltar um risinho.

–Deve ser mesmo.

–Já soou o toque de recolher...- digo.

–É verdade... Boa noite, Katherine- diz ele, com ternura ao pronunciar meu nome. Hesitante, ele se aproxima de mim e é a primeira vez em que o sinto vulnerável – quando beija com delicadeza meu rosto. Quando se afasta, seus olhos procuram os meus em sinal de aprovação. Sorrio, o que o deixa extasiado.

–Boa noite, Bryan- digo, enquanto fecho a porta.

Naquela noite, sonhei que era Titânia, a Rainha das Fadas. Estava vestida com tecidos esvoaçantes e adornada de flores. Ao meu lado, estava Oberon, o Rei dos Elfos, meu marido. Mas ele não era Natan;

Nem Bryan, Liam... Nem mesmo era alguém que eu conhecia, mas alguém que eu amava. Não consegui distinguir seu rosto, mas quando ele tocou minhas mãos, soube que me amava de uma maneira tão real, tão bonita — e soube que eu jamais amaria alguém na vida, nem eu, nem ele.