O Rebelde

5 Algum Lugar em Iléia...


Notas iniciais
Queria agradecer de verdade a Miss Jackson e Thais2131, que deixaram comentários tão gentis na Fic, que estão acompanhando e que favoritou! Fico muito feliz mesmo! Obrigada a todos vocês que lêem, espero que gostem!

Minha cabeça dói, meu corpo protesta em sequer pensar em se mover. Estava deitada em alguma coisa dura, e eu podia sentir as molas do que parecia ser um colchão gasto em minhas costas doloridas. Uma luz fraca transpassava pelas minhas pálpebras, e o calor era suportável. Gemi um pouco e fui abrindo os olhos gradativa e lentamente, sentindo dor, medo e tristeza vindo a tona enquanto meus olhos começavam a se ajustar a luz e ganhar foco.

Sobre minha cabeça, um teto de telhas gastas e sujas repousa, ao redor, paredes de madeira e uma pequena janela com uma fina e suja cortina que ondula ao vento leve que entra pela janela.

Senti então alguém colocando em minha testa um pano molhado. Levei um susto.

–Desculpe, não quis te assustar- diz uma voz infantil. Viro a cabeça em sua direção e me deparo com o menino que vi na noite passada – ou na última da qual me lembro. Ele é mais magro do que me lembrava, os olhos maiores e cabelos desengrenhados e de aspecto mal tratado. Usa roupas mais largas do que o adequado e uma espécie de correte no pescoço, mas o pingente esta oculto sob a camiseta verde desbotada.

–Finalmente você acordou. Estávamos todos preocupados- disse ele, com um sorriso. Tentei me levantar, mas ele me deteve com apenas a mão em minha testa e um pouco de força. Eu estava realmente muito fraca.

–É melhor não- disse ele.

–Onde eu est...?

–Em um lugar seguro, princesa- disse ele, ainda passando cuidadosamente o pano úmido em minhas faces.

–Como você...?

–A notícia do seu desaparecimento se espalhou rápido, e pelas suas roupas, sabíamos que só podia ser da realeza. Além disso, todos em Iléia conhecem seu rosto.

Aquele menino me estava deixando intrigada. Ele, que era tão jovem e de aspecto tão inocente pensava como um adulto e se comunicava como um. Era intuitivo e logo me vi o observando escancaradamente.

–Quando se vive em um ambiente como esse, deve-se crescer rápido ou desaparecer, princesa.

Eu abri a boca para falar algumas vezes, mas nada saiu, a não ser mais uma pergunta.

–Onde eu...?

–Não posso dizer a você onde está, mas sei que muitas pessoas daqui não gostariam de saber que acolhemos você, então sua identidade tem que ser mantida em segredo.

Engoli o seco.

–Vocês são... Rebeldes?

Ele achou meu medo – ou minha comparação – engraçado e esboçou um pequeno sorriso enquanto me ajudava a sentar lentamente. Então entrou pela porta uma senhora de cabelos brancos, que fez cara feia para o garoto.

–Oliver! Já disse para não ficar aqui!- disse ela, se aproximando de mim.

–Desculpa, vovó Renê- diz ele, baixando os olhos. Ela o enxotou do quarto e logo se aproximou de mim. Tinha a pele bem clara e enrugada, mas os olhos vivos e inteligentes, de um azul fantástico. Ela levou a mão a minha testa.

–Sua febre passou... Que alívio.

–Onde eu estou?- pergunto, mas ela simplesmente se vira e abre um armário, procurando por alguma coisa. Ela pega um frasco e derrama seu líquido viscoso em uma colher, depois a coloca em uma caneca com água e mistura. O cheiro é horrível e torço o nariz. Então, ela se vira e coloca a caneca em minhas mãos.

–Eu não vou beber isso- digo.

–Deixe de ser mimada, menina. É remédio. Vai fazer a dor diminuir.

Fico um pouco envergonhada pelas palavras tão infantis, por isso, tento arrumar outro meio de escapar do ´remédio`.

–Com todo o respeito, eu não conheço a senhora nem sei onde estou, isso pode ser um tipo de droga, veneno ou...

–Criança, se quiséssemos mesmo que morresse nem a teríamos tirado da água. Agora beba.

As palavras dela eram duras, porém, me lembravam muito as de uma avó. Por isso, obedeci e bebi o líquido. O gosto era horrível e larguei a caneca – que por sorte era de plástico – e levei a mão a boca, tentando não vomitar ao engolir aquela coisa nojenta.

–Dramática...- comentou a senhora, mas sem maldade. Ela pegou a caneca do chão e, quando me endireitei, percebi que roupas dobradas estavam ao meu lado. Fiquei as observando até que ela me apressou.

–Quer ajuda?- perguntou ela. Então me dei conta de que estava com um roupão de hospital gasto, e logo me senti envergonhada ao perceber que alguém teve de me trocar e limpar. Devo ter ficado vermelha, pois a velha senhora disse:

–Não se preocupe. As enfermeiras estão acostumadas. O que uma tem, todas tem.

Ri, meio nervosa com o que ela me disse. Pelo o menos foram mulheres. Então, estendi a mão e desdobrei um tecido verde e pesado, revelando uma calça extremamente larga com uma tira para ser ajustada na cintura e não cair. Era para pessoas mais altas e maiores do que eu em todos os sentidos.

–É... Um pouco grande para mim...

–É o que temos, princesa. Creio que esteja acostumada a ter milhares de roupas de cetim feitas sob medida, mas aqui já aviso que esta será uma de suas três mudas. É melhor se acostumar.

Mordi a parte de dentro de minha bochecha. Será que eles esperavam mesmo que eu ficasse?

–Certo...-consegui dizer, passando para a segunda peça. Era uma blusa de um tecido branco e meio fino, mas não transparente, e era mais curta do que deveria. Tinha mangas que iam até metade dos antebraços e enrolada nela estava um sutien no mínimo esfarrapado. O peguei com as pontas dos dedos enquanto a velha senhora se retirava para que eu me trocasse.

Vesti a calça e a amarrei bem firme na cintura, mas mesmo assim suas pernas eram mais longas que as minhas. A blusa ficou na altura da cintura, bem onde a calça começava. Enrolada na blusa, achei também um estilo de faixa, que usei para tirar os cabelos do rosto. Então, entrei em uma pequena portinha e me deparei com um banheiro minúsculo, sem chuveiro, apenas uma privada e uma pia. No canto, bem escondido, um espelho comprido e estreito. Ao me deparar com a imagem, não pude deixar de chorar.

Eu, Katherine Schreave, que a menos de um dia estava na frente de um espelho com bordas de prata encrustado de pedras preciosas usando um lindo vestido dourado estilo sereia, em meu quarto, no palácio, agora estava na frente de um espelho com manchas de ferrugem, usando uma calça larga e uma blusa aos farrapos, pés descalços, braço enfaixado e rosto machucado; um corte na bochecha esquerda, outro que ia do pescoço ao maxilar e um galo na cabeça.

Levei a mão à boca e a mordi, tentando abafar o choro, mas em vão. Ele vinha como tão forte como os trovões em uma tempestade. Lembrei então das palavras daquela senhora:

´´É melhor se acostumar.``

Eu seria mantida aqui como revém?

Ligariam para o palácio e cobrariam resgate?

Morta eu não seria, afinal ela mesma deixou isso bem claro. De qualquer maneira, ficar aqui chorando não iria adiantar. Dei mais uma última olhada no espelho. Apesar de tudo, eu ainda era filha de Maxon Schreave e de America Singer- tinha traços deles que eram evidentes apesar de tudo, como os olhos e cabelos de papai e a determinação de mamãe. Eles não iriam querer que eu ficasse aqui choramingando. Eu iria atrás da verdade, e faria tudo o que estivesse ao meu alcance para voltar para a minha vida.

Saí do banheiro e fui para a porta pela qual ela havia entrado, mas quando a abri, fiquei ainda mais chocada; várias pessoas andando de lá para cá, mulheres lavando roupas; crianças brincando de subir em árvores ou pega-pega; homens guiando carroças ou pastoreando ovelhas; velhas bordando; tudo isso em harmonia. Nem perceberam minha presença – não que eu esperasse um convite de boas vindas ou coisa do tipo, mas...

Outra coisa que me espantou foi a pobreza. O chão era de terra e as casas de madeira bem simples – algumas até eram de tijolos, e só. Isso não parecia Iléia. Não podia ser. Como papai deixaria que pessoas vivessem assim?

Comecei a andar e acabei me juntando a multidão. Então, alguém agarrou meu braço e me puxou para um canto. Eu tentei me soltar, mas ele me segurou pelo local do tiro, e doeu muito. Então, quando chegamos a uma parte mais isolada, ele me virou bruscamente para si.

–O que é que você está pensando?- perguntou ele, mas não o reconheci.

–Está me machucando- disse, enquanto ele frouxava a mão e eu soltava meu braço, logo botando uma distância de alguns metros entre nós.

Depois, dei mais uma olhada nele. Devia ter cerca de vinte ou vinte e um anos, era uns oito ou nove centímetros mais alto do que eu e era... Lindo. Ele tinha os cabelos de um marrom escuro como o chocolate, a pele levemente bronzeada e os olhos cor de âmbar.

–O que estava na sua cabeça quando saiu assim?- perguntou ele.

–Perdão? Deveria ser mantida como prisioneira?- perguntei, levando a mão ao peito e com uma voz propositalmente irritada e dramática.

–Quem deixou você sair? Acha que aqui é como um de seus palácios, que pode sair assim e pronto?

–Qual o problema, afinal?

Ele chegou bem perto, e eu fui recuando até bater na parede de argila gelada de uma casa. Colocou a mão na parede, ao lado de meu pescoço, ficando com o rosto bem próximo do meu. Próximo demais. Eu em encolhi, mas não senti medo no sentido da palavra. Não achava que ele fosse me machucar ou me fazer mal – mesmo que pudesse.

–Você não têm ideia, da quantidade de pessoas aqui que fariam qualquer coisa para atingir a Monarquia usando você.

Ele foi se afastando lentamente enquanto eu me encolhia ainda mais. Eles eram sim um grupo de rebeldes. Tomando coragem, perguntei:

–Onde eu estou?

Ele se virou com um sorriso sarcástico, mas expressão séria.

–Em um lugar que seu título como princesa apenas a prejudica.