O Rastejar da Cobra
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Tô super decepcionada que eu perdi a capa da história que eu tinha pra ela :c
Eu não sou do tipo audaciosa, tenho receio de relações amorosas, mas quem não iria resistir a uma confissão na qual ele diz que eu estava deixando ele louco e com o coração acelerado? Isso sem contar os elogios.
Quando aceitei, todos me alertaram, as pessoas tinham medo dele, mas as palavras tão dóceis e gentis me fizeram ignorar o mundo.
Mesmo com um pé atrás para relacionamentos, e também para com ele, decidi dar crédito para suas palavras, aceitei entrar em um relacionamento e aos poucos me abrir para ele.
Como uma cobra, ele rastejou para dentro do meu coração lentamente, invadiu-o e me fez acreditar nele. Me fez sua.
No entanto, uma cobra sempre é silenciosa, esse animal sabe muito bem como pegar sua presa desprevenida. E foi isso que ele fez.
Depois de rastejar e se alojar em meu coração, sem que eu percebesse, ele começou a me bagunçar por completo.
— Você prometeu! — gritei irritada — Por que prometer algo sendo que você não vai cumprir!?
— Cala a boca, caralho! — gritou ele irritado — Não deu para ir, agora me deixa em paz, porra!
— Você sabia… — eu murmurei chorando de frustração — Sabia o quão importante era a sua presença no meu recital… — murmurei e saí da casa dele.
Eu passei meses falando para ele o quão animada eu estava para o recital, que uma das músicas que eu tocaria junto com meu grupo eu havia escolhido e achava que era nossa música.
Na hora de tocar ela eu havia colocado meus sentimentos nela.
Para quê? Para depois descobrir que ele não estava na plateia? Mesmo depois de dizer várias vezes durante meio ano o quão importante era ele ir?
E mesmo irritada demais com ele, quando ele apareceu na minha casa com um buquê de flores de chocolate e se agachou assim que me viu... Eu não consegui resistir.
O pedido de desculpas mais lindo que eu poderia imaginar.
E eu o desculpei.
Entretanto, essa não foi a última vez que ele cometeu erros, que me machucou, que depois me pediu desculpas, que depois fingimos que nada tinha abalado nosso relacionamento.
Na época eu não sabia que a forma como ele me tratava, aquela forma rude e depois me pedia desculpas eram parte de um relacionamento abusivo.
Eu não tinha noção de como uma cobra podia virar sua nova vítima de cabeça para baixo, a quebrar aos poucos e no fim a engolir sem dó.
Mas a cobra não chegou a me engolir, porque pessoas me ajudaram a sair de seu bote, de a mandar para longe.
Quando me refiro a ser engolida por uma cobra, quer dizer não acreditar quando as pessoas lhe oferecem ajuda, acreditar que a pessoa que está estragando seu relacionamento não está fazendo nada de errado.
Porém, eu acredito que nunca é tarde para abrir seus olhos e saber o que é um relacionamento de verdade, sem xingamentos destinados a você, sem ameaças, sem… se sentir um lixo quando o lixo não é você.
Acordar deslocada e querendo morrer tamanha a dor que sente com certeza não é a melhor coisa do mundo, mas eu passei por isso e sobrevivi.
Assim que acordei, me dei de cara com meus pais chorando e assim que perceberam que eu estava acordada trataram de limpar as lágrimas.
— Como está, filha? — perguntou minha mãe preocupada.
— Com dor. — murmurei com dificuldade — O que aconteceu? — perguntei sem lembrar de nada.
— Não se lembra? — questionou meu pai.
— Não… Cadê meu namorado?
— Querida… — minha mãe me chamou depois de um tempo que trocou olhares com meu pai — Você está assim por causa dele.
— O que isso quer dizer? — indaguei sem compreender.
— Eu não consigo falar… — comentou minha mãe começando a chorar e meu pai também não conseguiu evitar as lágrimas.
Foi então que flashs do que aconteceu invadiram minha mente grogue, me fazendo ter uma tremenda dor de cabeça.
— Nós discutimos de novo... — comecei — Por causa do ciúmes dele e porque depois disso eu não queria fazer sexo com ele para provar que ele estava errado… — fiz uma pausa para reunir coragem para dizer aquelas palavras — Ele me estuprou. — concluí.
— Ele não fez só isso. — a voz grossa do meu pai estava repleta de raiva, mesmo embargada pelo choro.
— Não. — concordei com ele — Ele quebrou meu braço e minha perna. — comentei me lembrando da dor dos ossos quebrando. Eu sabia que ele tinha feito mais coisas depois que pegou uma faca, mas eu não queria continuar falando daquilo — Como me encontraram?
— Os vizinhos ouviram seus gritos e chamaram a polícia na hora. — a mulher respondeu.
— Ele… — não terminei de falar.
— Sim, ele está preso, filha. — meu pai disse — Preso em flagrante.
E de repente um peso saiu do meu coração. Eu não ia mais ver ele.
Minhas amigas todas vieram me visitar e estavam visivelmente preocupadas comigo.
Depois de um tempo eu fui para casa e eu continuava a receber visitas das minhas amigas. Todavia, a cada visita minha mente começava a enlouquecer cada vez mais.
“Todos avisaram…”
“Eu sou uma idiota.”
“Veja esses olhares de pena para você… Que vergonha.”
“A culpa é sua.”
“É fácil, estou no décimo andar.”
“Por que me falta coragem? É só se jogar!”
“Mas você é um lixo mesmo, não consegue nem acabar com a própria vida.”
Lembro bem que na época que eu fiquei presa no hospital, eu pensava em muitas coisas assim, não era de propósito, mas a vontade de chorar acumulava e quando eu pensava que eu podia acabar com tudo e me encostava na janela… Eu simplesmente não conseguia, eu travava e desabava, eu voltava para a cama e terminava de chorar no travesseiro.
A cobra que rastejou até meu coração havia deixado um recado gravado naquele local escrito que iria viver para sempre em mim mesmo que morresse.
Cobras são monstros.
Lembro-me bem de que durante o caos que foi o dia em que parei no hospital, eu o chamei de monstro. O pior? Ele disse que eu podia chamá-lo assim, porque ele sabia de sua personalidade tóxica e que não era a primeira vez que o chamavam assim.
Ele já estava acostumado.
Quando se sai de um relacionamento como o que eu estive, você não sai ilesa, mesmo que saia assim que isso comece, você sabe que saiu com uma cicatriz, uma que às vezes, só você vê, porque as pessoas acreditam que você superou o que viveu, mas você sabe muito bem que não.
Mas eu saí com muito mais que uma cicatriz metafórica. Eu saí com cicatrizes de verdade e que me mostravam todos os dias que o que eu havia vivido era real.
Algo que eu considero curioso, é que não importa quanta raiva eu tenha em ver as cicatrizes em meu corpo (e que jamais irão sumir), é que depois que a raiva passa, elas me trazem paz. Porque elas me mostram que o vilão da história está na cadeia, está preso e longe de qualquer outra vítima.
Que a cobra jamais daria o bote novamente e morreria de fome.
Notas finais
É válido ressaltar que não é só um homem que pode ser abusivo em uma relação, e não são só relacionamentos amorosos que podem ser tóxicos!
Por favor, não deixem o medo dominar vocês, procurem ajuda quando necessário
É isto. Obrigada por lerem ♥
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