O Rapto De Persefone
1 Regras
Notas iniciais
"Cara, o Dan nunca mais apareceu."
"Pois é."
"Haha, esse tá na coleira já. Mulé dele num curte que ele saia com a gente."
"Sair? Mas a gente tá dentro de casa! HAHA!"
Ela observou por algum tempo seus amigos conversarem. De uns tempos pra cá — desde que Dan começara a namorar — era basicamente de praxe que chegassem a esse assunto. O sumiço, a coleira, a mulher autoritária dele.
Sério. Sif estava totalmente de saco cheio. Deles, falando sem sequer ter perguntando uma palavra ao amigo que esteve sumido e dele, que insistia que estava apenas muito ocupado e mudava de assunto toda vez que ela perguntava sobre sua namorada.
"Ah, não tem o que dizer da Bel, eu gosto muito dela, sabe? E quase não tenho tempo pra ela durante a semana, aí fica difícil escolher, entende?"
Não. Ela não entendia.
Daniel não era exatamente um amigo de infância — se conheceram quando ela entrou na faculdade, mas com toda certeza, era assim que ela sentia a amizade deles. Como se sempre estivesse estado ali. E não estava mais.
"Rodrigo, para, cara. Você nem conhece a menina pra falar essas paradas." Persefone disse ao perceber o rumo da conversa dos amigos.
"Ah, Sif, não conheço mas nem é porque eu não quero. A mina se recusa a conhecer a gente e o Dan tipo... Ah, na moral mesmo... Essa garota deve ser MUITO escrota."
"Sei-lá, cara. O Dan tem muita culpa nisso também."
"A Sif tá certa. A gente deveria conversa é com o Dan, Rodrigo. Essa parada toda tá começando a me assustar, sei-lá." O terceiro ocupante do quarto disse sem tirar os olhos do jogo na tela. "Daqui a pouco ele fica noivo, já pensou?!"
Rodrigo fez um barulho qualquer com a boca pra dizer que isso era besteira. Mas Sif discordava totalmente — Noivo! O Dan, que era seu companheiro de cinema, de cerveja, de shows, de noites cheias de conversas filosóficas... Noivo. De uma garota que ela só conhecia pelas fotos postadas no facebook.
Isso era sério.
Ela precisava fazer alguma coisa. E rápido.
Mas o que fazer? Era a pergunta que lhe assombrava durante o expediente de segunda no estágio. Falou com Dan sobre o último livro que tinha lido, mas ele ainda não tinha visualizado a mensagem. Fazia mais de duas semanas que não se viam pessoalmente... Sif resolveu chamá-lo para almoçar na quinta. Tinha a impressão de que se falasse tudo pessoalmente, de repente ele ouviria.
"Então, partiu BK na quinta e depois assistir Pacific Rim? A gente mata a aula da tarde." Ela deixou para ele no facebook e, a noite, a resposta veio, por sms, mas veio. "Claro! Ótimo, mas eu nem vou na aula da manhã, te encontro direto no shopping, pode ser?"
Encontro marcado, ótimo. Mas o que dizer? Na quarta Sif se encontrava numa encruzilhada... Tinha marcado uma batalha, mas não sabia exatamente contra o que estava lutando. O que ela deveria dizer pra ele? Não pra terminar com a... "Bel" porque por mais que parte dela quisesse repetir as palavras do Rodrigo, ela sabia que não podia culpar a garota por tudo.
No final ela achou melhor simplesmente se abrir com ele. Sabia que talvez fosse demais e que talvez ele já tivesse muito com o que se preocupar mas ele tinha que saber, tinha que ver que ela se importava e que não ia aceitar ser simplesmente ejetada da vida dele.
Isso.
Saiu da aula da tarde e foi para o shopping com a mente feita. Ensaiando o discurso e pensando em possíveis resultados. Sentou-se numa mesa em frente ao McDonnalds, onde ele havia pedido para que ela esperasse.
"Olá."
Sif olhou para a pessoa que se sentava a sua frente. Cabelos loiros na altura dos ombros e olhos verdes escondidos atrás de óculos de armação preta. Sua pele era tão branca que causava um contraste considerável com sua própria pele morena. O sorriso dela trazia um quê de diversão mas Persefone não conseguia ver qual era a graça.
"Isabelle?"
"É. E você é a famosa Persefone, certo? Achei que estava mais do que na hora da gente conversar."
"O...kay? Era só, sei-lá... Me chamar? Você... Foi você... O Dan sabe que você está aqui? QUE EU estou aqui?"
Persefone estava mais surpresa que irritada. Isabelle mudara seu ar divertido para um mais sério, quase desdenhoso.
"Não, ele não sabe. Escuta, eu quero que você pare com isso. Pare de correr atrás dele, ele não te quer e nunca te quis. Você só atrapalha a nossa relação. Só trás mais problemas pra ele."
Sif não sabia o que dizer. Talvez a garota fosse mesmo MUITO escrota. Sua expressão era seriedade completa. Como se estivesse dizendo algo completamente comum, que fizesse sentido. Persefone levou seu rabo de cavalo para frente, acariciando seus cabelos negros. Suspirou.
"Acho que isso é algo que o Daniel deveria decidir por si mesmo, não acha? Eu não quero ele pra mim, eu não sinto nenhum tipo de atração sexual ou romântica por ele, já ouviu falar de amizade? Se tem alguém roubando algo aqui esse alguém é você. Ele era meu amigo muito antes de sonhar em ser seu namorado."
Sif se endireitou na cadeira. Se inclinou um pouco para frente e fez um gesto para que a outra não interrompesse. O que não ajudou muito já que Isabelle estava quase soltando fumaça pelos ouvidos.
"Amizade entre homem e mulher? Dan sempre me disse que vocês são só amigos, mas eu seu bem ver quando uma mulher está interessada. Aposto que você não consegue lidar como fato de que depois de todos esses anos ele não escolheu você..."
"Mas o que... Nossa, cara. Nossa... Você é maluca. O Dan nunca te falou que..." Sif suspirou, percebeu que estava indo pelo caminho errado. Resolveu mudar a estratégia ou, bom, criar uma. "Olha, não precisa ser assim. A gente não precisa se ver como inimigas, como se estivéssemos disputando alguma coisa. Você tem o que você quer, o amor do Dan. E eu tenho o que eu quero, a amizade dele. Mas você não tem deixado ele sair comigo, com os nossos amigos... Nunca. Não precisar ser 8 ou 80. A gente não precisa viver em mundos separados, sabe?"
"Nós vivemos em mundos separados, Persefone. E se o Dan ainda quisesse viver nesse mundo de vocês... Ele não estaria comigo. É simples assim." Isabelle disse emanando confiança.
"É mesmo? Simples assim? E você tem que enganar ele me mandar sumir da vida dele porque é super tranquilo e simples?"
"Eu não gosto de você."
"Você não me conhece."
"Eu não preciso."
"...Eu também não preciso te conhecer, mas se isso fosse necessário pra poder ter meu amigo de volta eu faria. De coração aberto."
Isabelle só a fuzilava com o olhar. A morena continuou.
"Me diz, me diz que com certeza absoluta o Dan não sente minha falta, falta dos amigos dele. DIZ! Diz que isso não deixa ele distante as vezes. Diz pra mim que ele não precisa de amigos e só precisa de você..."
E isso pareceu fazer a loira vacilar. Haviam lágrimas em seus olhos. De raiva? Frustração? Sif não sabia, mas a parte dela que não estava muito ocupada odiando cada pedacinho da namorada de seu amigo sentiu um pouco de pena.
"Você faria isso?" A resposta veio junto com uma lágrima que caiu sem querer e Isabelle não deixou percorrer seu rosto.
"Isso?"
"Isso, você poderia... Conseguiria tentar... " Seu olhar se desviou para uma mesa qualquer.
"A gente pode se conhecer. Eu posso ouvir seu lado da história e você o meu. A gente pode se entender..." Sif riu. "Ou tentar."
Isabelle riu. E Persefone pensou que talvez essa fosse mesmo a melhor maneira de resolver tudo isso.
"Tudo bem. Mas haverão regras."
Bom, ninguém disse que seria fácil, certo?
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