Notas iniciais
Obrigada por estar dando uma chance a isso...

Kali já me esperava, toda arrumada com o seu mais formoso vestido, arrumando o cabelo castanho um pouco curto a cada nova brisa que passava por ela. A chamei assim que me aproximei mais, e ela, em seu sorriso inocente veio alegrar ainda mais meu dia, me abraçando.

— Vamos, Senhor! Ele deve estar esperando! — Eufórica, correndo para um dos portais feitos por mim na pedra. A segui e fui calmamente pelos túneis. Aos poucos conseguia escutar o movimento de pessoas do outro lado. Respirei fundo, passando a mão no rosto e subindo aos cabelos. Senti o leve formigamento da pele, mas logo transformei-me em uma figura mais velha, quase idosa, sem meus chifres ou qualquer outra coisa incomum.

Kali me olhou e sorriu, oferecendo o braço para mim. Calmamente enlacei com o meu e passamos pelo outro portal. Um pouco de claridade inicial me fez fechar os olhos, mas consegui acostumar a visão, me surpreendendo com que vi.

Da última vez que saí, o vilarejo era muito menor. A notícia de terras férteis e calmas se espalhou rápido. Rápido demais…

— Senhor?

Kali me chamou e eu a olhei. Ela me perguntou se estava tudo bem e apenas concordei sorrindo. Não queria preocupa-la agora.

— Bem… onde ele mora?

Ela estava pronta para me contar quando uma outra voz a chamou, a fazendo olhar para ele. Um rapaz jovem, realmente bonito e de uma aura gentil. É… ela tinha encontrado o alguém certo.

Ele se aproximou mais, pedindo primeiramente licença antes de abraçar Kali. Tanto ele quando ela estava com o coração batendo em harmonia, rindo bobos. Amor adolescente era tão engraçado…

Descobri que o nome do moço é Dew — Duei, de forma mais exemplificada. Deixei eles irem passear pela vila enquanto eu faria o mesmo. Não queria atrapalhá-los. Isso era uma coisa que eu realmente não queria. A paixão é algo natural dos humanos. Eles têm a liberdade de amar, de sentir…

Um suspiro ali e aqui, mal notei que aos poucos, a cada esquina que passava, voltava a minha aparência original, antes de virmos para cá. Andava lento, olhando para as pessoa ali, nas suas vidas normais, nos seus risos simples, em famílias. Passava como um fantasma, tocando nos rostos infantis. Tenho ciúmes dessas pessoas, confesso. A vida alheia sempre parece ser melhor que a sua, não?

Ri baixo, ecoando como um pensamento distante, deixando um sentimento bom no coração de quem conseguiu me ouvir. Tal sentimento deveria ter algum efeito a mim também. Apesar de ser um ser tão… diferente, sinto que meu coração é igual aos dos humanos. E bem, eu não queria que isso fosse verdade.

Um pouco mais longe das pequenas casas, toquei em meu peito sobre o coração um tanto amargurado. Odiava quando isso voltava me embriagar de pensamentos ruins. Ora, ser assim me machucava também. Não é nada fácil fingir ser um ser impassível, de emoções e reações calmas. Não consigo ficar assim o tempo todo. Meu interior deseja ser livre. Viver como um pássaro de fogo, sem temer as facas e armas que estão prontas para atravessar minhas costas.

Um sorriso simples e grande surgiu em meu rosto. Olhei para trás para ter certeza que ninguém me seguirá, continuando a andar entre as árvores que logo disfarçavam a minha passagem. Os galhos pareciam querer me abraçar. As folhas me faziam carícias no rosto e as aves pareciam cantar um canto novo.

— Não consigo mentir pra vocês, não é…? — Murmurei para a natureza a minha volta, oferecendo o dedo ao nada. Não demorou nada para um bicho-folha pousa ali, pedindo discretamente um pedido a mim. Não negaria algo a eles. Nunca.

Assoprei assim que o aproximei do rosto, colorindo seu corpo em folhas arroxeadas, parecidas com folhas que nascem a cada novo dia. O inseto balançou suas asas em felicidade e saiu de meu dedo, seguindo sua pequena vida, espalhando sua nova cor ao mundo. As plantas aplaudiam a sua forma, me fazendo rir. Me sinto um artista da vida.

Agradeci a eles, rindo bobo com elas. Meu interior se sentia como um adolescente de muitos anos atrás — afinal, não sou tão novo quanto aparento. Tanto tempo de vida, mas.. ainda sou um ser tão burro! Meu deus!

Bati na cabeça e choraminguei com uma bela cara lascada. Gente do céu, olhem pra mim, o verdadeiro eu do meu mundo! Sou mais que um demônio. Sou humano, sou gente! Tenho vontade de correr por ai, rir ao vento o mais alto possível, amar livremente. Meu corpo sente vontade de descobrir. De se descobrir. Deuses, eu nem sei o que significa o que é se masturbar! Beijar, muito menos! Me restrinjo a isso por causa das minhas responsabilidades no vale.

Soltei alguns grunhidos, perdendo completamente a minha pose. Minhas costas doíam, meu pescoço chegou a estralar com os movimentos repentinos. Estava mesmo precisando sair do vale. Imagine se alguém me visse desse jeito? As pessoas esperam e acreditam que sou um Senhor sem falhas, correto e culto. Mas não sou assim. Não sou! E eu queria mostrar isso a eles. Ainda sou o “Senhor”, mas de uma forma aberta, simples...

Olhei para o paredão de pedra que apareceu ao meu lado depois de um tempo caminhando. Vi que era alto, e bem, não consegui resistir! Depois disso tudo que passo, sem poder, pelo menos, cantar ao mundo minhas mágoas e felicidades, aquilo era bem mai que um convite para minha liberdade. Desculpe-me meus queridos antepassados, mas eu não nasci para ser um demônio maldito.

Aumentei o sorriso e deixei-me aflorar em meus sentimentos. A cauda se duplicou e não poupei meu pulo, agarrando as rochas com minhas garras. Dei um novo pulo, respirei o ar que me atingia em cheio. Isso me fazia me sentir vivo! Não sou um animal preso, e agora podem ter a certeza. Minhas portas se abriram agora, para mim mesmo.

Voltei a me agarrar e a rir. Meus saltos me faziam ir mais alto, levantando cada vez mais o meu espírito desbravador, curioso. A sensação que poderia tocar o céu vinha juntamente com a adrenalina de que poderia cair a qualquer momento por um erro meu, por mais pequeno que fosse.

Não demoraria nada para eu chegar ao topo. Ao topo do extasê, do sentimento de que agora, finalmente, poderia viver a vida que quero. Ao topo de minha alma. chegar até lá seria bem mais que apenas uma chegada. Era mais. Bem mais. E eu descobriria o que me falta.

° ° °

“Durante minha viagem, parei em uma pequena pousada a beira montanhas. Fui recebido com muito carinho pela dona do lugar. E bem, acredito que ela tentou me cantar quando perguntei em qual quarto ficaria. Rio só de lembrar! Não que ela não tenha beleza, poderia muito bem aproveitar da bela oportunidade que o destino me ofereceu, mas não. Meu coração sabia que aquilo não era o certo. Poderia sim tomá-la em meus braços e dar-lhe uma noite encantadora, mas algo me dizia… que algo maior vinha pela frente. Não sei o que é, mas…”

O rapaz foi atrapalhado por um som alto de um riso ligeiramente encantador — segundo ele mesmo. Fechou o recém diário iniciado que descansava sobre seu colo e o guardou dentro de sua pequena bolsa, se levantando para ver o que estava causando tanto movimento entre a árvores. Ele havia notado sim. A floresta parecia ter sua própria vida, com suas emoções eclodindo a cada novo passo do viajante.

“As árvores parecem me mostrar o caminho…” — Refletia em seus pensamentos, como se narrasse o caminho que trilhava. — “Não sei o que acontece, mas essa, com toda a certeza, é a mata mais estranha e mágica que já vi em minha vida.” — Completou. Pensava nisso para que mais tarde, as colocasse permanentemente no papel de seu diário. Claro, era sua tarefa!

Mordendo o lábio em ansiedade, voltou a pegar seu lápis caseiramente feito de carvão e envolto de peles, escreveu as frases que a poucos pensará. Olhava para os lados e adicionava detalhes as suas observações. Tinha certeza que um dia suas anotações valeriam a pena.

Sorrindo, segurando o caderno entre o peito, começando a correr por onde o galhos apontavam. O riso se tornava mais forte, assim como as ondas de vidas que o atingiam e faziam seu coração estremecer em expectativa. A mochila batia contra suas costas e alguns materiais causavam algumas dores nos locais em que estes se chocavam, mas o rapaz não estava nem um pouco preocupado com isso.

Mais alguns passo e então ele encontrou o paredão de pedra que fazia o som de quem fosse ecoar pelos vales a sua volta. Olhou para cima, sentindo os sentidos pararem de funcionar por um segundo enquanto seus olhos se encontravam com a figura que antes estava no topo, caindo numa velocidade muito mais lenta que se chamaria de normal. O sorriso parecia iluminar cada canto, e seus cabelos dançavam ao vento.

O rapaz não notou que todas as suas coisas haviam ido ao chão, tamanha sua admiração pela cena que presenciava. Algo que ele classificaria como sobrenatural, mas de uma forma que nunca imaginaria.

Atharis pousou delicadamente no chão, se sentindo leve, leve... Deu alguns giros em sua felicidade em liberdade, como se nada mais importasse, mas parou como um tiro quando notou a outra pessoa ali, entrando em choque.

“E simplesmente, aquela era a criatura a mais linda em que já vi.” — Pensou, inconscientemente o rapaz.