Notas iniciais
Realmente comecei a entupir a minha categoria de "histórias". Bem, a culpa não é minha! Tenho tanta idéias mas NENHUMA boa KKKKK
Aqui está mais uma tentativa, mas tenho quase certeza que floparei com ela também. Mas de qualquer forma, obrigado por dar uma chance s2

Poucos sabiam da lenda que existia ali. Era antiga, de fato. Apenas os mais sábios conseguiam se lembrar vagamente das histórias que seus pais contavam, no tempo que o mundo ainda era mágico, no tempo em que as pessoas ainda acreditavam no amor.

Entre as muitas contadas e esquecidas, apenas uma era verdadeira. Quem realmente presenciou o acontecimento era aqueles que viviam com o dono dessa história. Um rapaz tão simples, tão feliz... aparentemente feliz.

Mas de qualquer forma, tudo começa com uma pequena plantinha, tão indefesa... nascida num lugar estranho, sozinha... Assim como Atharis, que desde de cedo teve que aprender a fugir, a se esconder...

Atharis ainda era um garoto pequeno, nos tempos de infância quando… eles vieram. Com aquelas lanças pontudas e aquele fogo que aos poucos iam

"Mas mãe... eu não quero ir! Não fizemos nada de errado!'

E realmente não tinham feito, mas... a raça dele não era bem vinda e de acordo com as leis, ele não poderia existir. Ele era um erro.

Das poucas coisas que o garoto ainda lembra, uma delas foi de sua mãe deixando-o num barco e o empurrando até que a correnteza guiasse a estrutura de madeira. Mesmo com medo e triste por sua mãe ter ficado, ele ficou quietinho e deitado no barco escuro como ela pediu, antes dela ser transpassada por flechas e queimada pelo fogo que iluminava aquela noite.

° ° °

Ainda me pergunto o motivo de sonhar com aquilo. Já faz décadas... porque ainda insisto em lembrar?

Às vezes, enquanto me olho no espelho, fico imaginando o motivo daquelas pessoas quererem a morte de outras. O que elas ganham com isso? Simplesmente nada. Apenas um status de poder e ter a voz quando fala "Olhem! Fui eu que o matei!"...

Realmente... não entendo.

O lugar que vivo hoje é completamente pacífico. És um campo, grande por sinal, frutífero para todas as famílias que estão aqui. Todas elas vieram de países em guerra, muitas perseguidas, muitas procurando um lugar para chamar de lar. E eu as abriguei aqui onde eu fiquei. Onde pude me manter longe e seguro deles.

Aqui é um vale protegido por montanhas de um lado, e um abismo com uma queda d'água subterrânea do outro. Um lugar incrível, livre, onde eu poderia proteger aquelas pessoas como meus pais tentaram me proteger.

De qualquer forma, sou Atharis, um dos últimos — se não o último — demônios existentes nesse mundo vasto e gigante, protetor e cuidador das pessoas daqui. Muitos me chamam de senhor, como se eu fosse um rei ou algum nobre, mas tudo que faço é deixar com que a terra dê a eles o que eles precisam. Sou conhecido nos reinos vizinhos por ter assassinado o rei, sendo que quem realmente fez isso foi meu irmão aparentemente gêmeo, mas várias décadas mais velho que eu, hoje desaparecido.

Ao verem meu rosto em um desses reinos, fui constantemente caçado, não só por esse crime, mas muitos outros que meu irmão fez. Não o conhecia, mas sabia que ele existia. Minha mãe nunca me contava muito sobre ele, apenas dizia que não queria que o mesmo que aconteceu com ele se repetisse comigo. Não sabia o que era, mas apenas uma coisa que ela dizia que eu não esquecia.

“Nunca confie no Sol, Atharis.”

Não fazia sentido, mas ela dizia que um dia eu entenderia. E ela esperava que esse dia nunca chegasse. E eu também.

° ° °

— Senhor, essa é pra você!

Sorri para a pequena garota e aceitei a flor silvestre. Ela estava colhendo algumas para dar a sua mãe a pedido de seu pai que estava conosco, tirando um dia de folga em cuidar de uma parte fértil do vale, junto de outras pessoas voluntárias.

—Oh... Agradeço muito… — Mesmo tendo um jardim próprio, eu adorava ganhar aqueles pequenos presentes das crianças. Eram tão puras, simples… cheias de magia dentro de si mesmas. — Ela é linda… — Peguei a flor de cor amarelada, cheirando delicadamente. A garota deu um sorriso bangela, voltando animada para perto do pai com seu pequeno buquê colorido. Ambos acenaram para mim, e eu retribui com um mais leve, vendo-os ir embora. Isso era o que me motivava todos os dias, ver o sorriso daquelas pessoas. Sei o que passaram.

Suspirei baixo, ficando mais um tempo ajoelhado entre as plantas, observando o tempo passar um pouco. Meus cabelos, longos e ausentes de cores, balançava junto ao vento, às vezes se enroscando aos chifres curvados.

Olhei mais uma vez para a flor, soprando suas pétalas. Ela logo flutuou contra o vento, transando-se com os fios perto do chifres. Toquei para ter certeza que estava no lugar, sorrindo para mim mesmo. Às vezes… era bom ter esses… poderes.

Depois desse tempo, levantei e bati a roupa, tirando algumas folhas da calça e mexendo os dedos, fazendo as flores amassadas voltarem a sua forma “perfeita”. Peguei mais algumas das flores e fui às soltando aos céus enquanto voltava para casa, deixando cada uma seguir uma direção, se despedaçando aos poucos, pétalas por pétalas. Assim, elas poderiam florescer em outros lugares, livres dessa cadeia natural. Talvez algumas poderiam virar fadas, mas não sei se elas vão voltar…

Ri baixinho, deixando a última, uma rosinha, voar. Essa brilhou e transformou-se, cantando apenas para mim em pensamento antes de sumir entre as montanhas. Tão lindas, mas tão traiçoeiras… Se mentirem ou me enganarem , derreterão antes mesmo de completar tal façanha, se tornando novamente uma flor e morrendo no mesmo momento. Nem tudo que é belo é realmente belo. São nas mais lindas rosas que se encontram os mais dolorosos espinhos…

° ° °

— Precisam de mais alguma coisa, Lu?

Soltei a pergunta na calmaria enquanto segurava um dos cestos de frutas colhidas recentemente. As deixei na frente da porta da senhorita Luzic, já de idade mas de ótimo coração.

— Oh, não, não querido. Obrigada por me ajudar… — Riu na sua voz já envelhecida, tampando a boca banquela com os dedos enrrugados. — Meu Deus, Senhorio! Você continua tão jovem como quando nos conhecemos… — Observou com seus olhos cansados. — Já faz tanto tempo… Ai, se eu fosse tão jovem igual aquele tempo…! — Sonhadora que só, fazendo-me rir.

— Senhorita Lu, por favor! Fico completamente sem graça assim! — Um tanto constrangido sim, mas rindo tão verdadeiramente quanto ela. Realmente, quando ela chegou aqui, era uma duquesa nobre, de beleza imensurável, mas que havia fugido junto a outros duques e pessoas pobres para viver a vida que eles desejassem viver. Luzic veio até mim e pediu para que eu os abrigasse, e claro, aceitei em meu mundo escondido. Ela logo de cara pediu para que nos casássemos, mas recusei. Não podia — e não posso — sucumbir ao desejos humano. Nas raras vezes que o meu pior lado tomou poder, tive a péssima experiência de experimentar o prazer carnal. Não consigo me lembrar com quem ou quando isso aconteceu, mas sei que fiz isso. E espero que eu não tenha feito nada rui-

— Senhor Atharis?

Pisquei, voltando a mim depois do chamado de Luzic, um tanto perdido.

— Oh… me desculpe Lu, eu me distraí um pouco comigo mesmo… — Sorri de leve, me curvando um pouco em reverência. — Mas preciso ir, senhorita. — Sorri mais uma vez para ela, que repetiu a ação e entrou em sua casa, indo preparar suas queridas tortas de maçã e frutas. Fui-me embora também, passando pelas largas ruas do nosso vilarejo, acenando para os que estavam trabalhando e observando ao longe as crianças aprendendo com o professor. Aos poucos minha casa ia se tornando cada vez maior, com cada vez mais gente, com cada vez mais vida...

° ° °

— Senhor?

Acordei aos poucos, um pouco confuso e atordoado. “O-o que…?” — disse, ainda se sentando no gramado fofo, tirando as folhas do corpo.

Assim que olhei para a jovem garota, que logo se sentou do meu lado depois de pedir permissão e algumas desculpas.

— O que foi, Kali? — perguntei ainda na minha voz sonolenta, passando a mão no rosto. Ela era uma das jovens que nasceram e cresceram dentro dos meu limites territoriais, mas ela especialmente, cresceu sobre a proteção das minhas asas, criando em nós um pequeno vínculo familiar.

Sem jeitinho, mexendo na saia, um tanto avermelhada e olhando o lado, a garota disse:

— Acho que estou apaixonada, Senhor..

Ri de leve. Podia notar que era mesmo verdade. Ela estava mesmo nervosa com o assunto. Não era fácil contar ao seu representante de “pai” que estava com esse tipo de sentimento.

— É? E quem é, pequena? — Calmo, levando as mãos nos cabelos dela e fazendo uma pequena trança neles. Eram da cor da terra, mas tão macios como algodão.

Kali logo avermelhou mais, escondendo o rosto. Quase não escutei o que ela disse, mas entendi, ficando um pouco mais sério, parando com a realização nos cabelos. Agora entendi o motivo dela estar tão nervosa.

— … Sabe bem que não se deve sair dos limites, Kali. — Meu tom saiu até um pouco mais frio. Quem entra, só poderia sair se tivesse uma permissão minha. Fora isso, é completamente perigoso. Eles podem muito bem estar esperando por uma mínima falha minha para atacarem.

— Sim Senhor! Me desculpe mesmo! E-eu juro que não contei nada pra ele!

Grunhi um tanto irritado, mas respirei fundo, suspirando por fim. Uma chance. Talvez uma só. Não queira estragar o primeiro amor de uma garota, mas também não queria machucá-la com falsas esperanças.

— Tá, ok… Eu confio em você. — Disse baixo depois de um tempo, podendo ver o brilho voltar aos olhos daquela pequena garota. — Mas... preciso conhecer ele primeiro. — Claro, não aceitaria qualquer um para ela. Eu prometi aos seus pais — entre muitos outros, já mortos — que cuidaria da garota — assim como muitas crianças dali.

Kali me abraçou com força, rindo boba. Me senti mais leve com aquele abraço, deixando um sorriso dançar tímido em meu rosto, acarinhando suas costas.

— Amanhã! Vamos vê-lo amanhã! — Disse ela, já toda ansiosa, dando um beijo na minha bochecha.

— Sim, vamos vê-lo amanhã… — Ri baixo, concordando com a cabeça antes de me afastar e levantar, oferecendo a mão a ela para irmos embora.

Notas finais
Obrigada outra vez :3