Aquele dia foi estranho. Muito. Um dia daqueles em que você sai com seu amigo, a namorada chata dele, e uma menina com galhadas na cabeça. Claro, tem os insetos gigantes. Havia também um Guardião.

Na verdade, ele não era um Guardião, mas sim um aprendiz.

Claro, um aprendiz é mais poderoso que qualquer mundano. Mesmo assim, ele não passava de um aprendiz. E um aprendiz nunca esquece do primeiro confronto, ou do primeiro selamento.

São experiencias marcantes.

Como a formatura ou a primeira vez que se é assaltado.

Aquele dia estranho, na verdade começou no dia anterior, com o pequeno e simpático Skipo.

Skipo era uma daquelas maravilhosas criaturas de fábula, invisíveis aos olhos mundanos.

Se fosse possível para um mundano enxergar um ser tão distinto quanto Skypo, o que veria; seria uma criaturazinha peculiar. Menor que um pinscher. Redondo que nem um tatu, com quatro minúsculas patas parecidas com as de uma ave. Embora só precisasse de duas para andar. As outras duas serviam para escalar.

Todo seu redondo e diminuto corpo, era coberto por pelos azuis e verdes, que brilhavam com o reflexo da luz. Dono de vividos olhos negros, suas curtas antenas já estavam tortas de tanto correr contra o vento.

Skypo desbravava as ruas corajosamente. Não era uma tarefa fácil. Era final de tarde. Horário em que os mundanos deixavam seus apertados escritórios e locais de trabalho para retornarem a seus ninhos. As ruas estavam cheias daquelas mortíferas maquinas de metal moveis, que expeliam gases nocivos e esmagavam pequenos seres como Skypo com suas patas rolantes de borracha.

As assim chamadas; calçadas, não eram menos perigosas. As gigantescas patas chatas dos transeuntes apressados chutavam o pobre Skypo vez ou outra. Os mundanos nunca conseguiam enxergar aqueles como Skypo justamente por causa dessa presa. Os pequeninos eram chutados e empurrados de um lado para o outro.

A pequena e dócil criatura não os culpava. Queriam voltar o mais rápido possível para as suas famílias. Skypo entendia isso, mas ainda assim, não gostava de sair para o mundo mundano. Preferia ficar na toca. Os mundanos podiam ser agressivos. Tinha noção do que os mundanos eram capazes de fazer com aquilo que não entendiam. Então, o que fariam com seres encantados como Skypo? Aprendeu desde cedo a evitá-los. Na verdade, nunca deixaria a toca se não fosse um pedido de sua amada senhora.

Precisava achá-lo. Ela pediu. Tinha que encontrar um mago para ajudar sua mestra. Não qualquer mago. Um Guardião. Um aprendiz de Guardião. Não qualquer aprendiz, ele tinha um nome. Mais que isso, Skypo recebeu uma discrição dele.

Como ele era mesmo? Skypo, como a maior parte dos encantados, não era bom com pensamentos a longo prazo. Depois do décimo quinto chute que recebeu, já havia esquecido o rosto de seu objetivo.

Como ele era?

Cabelos castanho, da cor da terra. Curto e aparado, com uma discreta elevação capilar na fronte. Olhos claros cor de amendoim, pele branca ligeiramente bronzeada.

Haviam tantos assim. Qual era a característica que tinha de rastrear? Sua mestra falou que ele cheirava a preguiça, mas de novo, haviam tantos assim.

Como encontra-lo? Seu nome, é claro. Tinha que focar no nome.

Sua mestra disse que nome procurar.

Nomes eram sagrados.

Um encantado como Skypo, facilmente conseguiria encontrar um mago se soubesse seu nome.

O nome ele lembrava.

Era...

Aristeu era um mago. Mais que um mago, um Guardião.

Um aprendiz de Guardião na verdade.

No futuro, cresceria para se tornar um protetor do equilíbrio entre o mundo místico e o mundo mundano.

Para realizar tal feito, contava com sua magia. A arte de alterar pequenas minucias da realidade através de feitiços e simpatias. O poder de um mago vinha da energia cósmica chamada Éter, o fluido universal que corria por todos os entes vivos e não vivos desta realidade. Tudo, absolutamente tudo tinha um pouco de Éter.

Aristeu era um daqueles rapazes metidos e confiantes. Poucos eram os desafios que ele não se achava apto a encarar (pena que não tinha essa empolgação toda para assistir as aulas. Era o que sua mãe dizia). Mas naquela noite, Aristeu estava fazendo frente a oponentes que sonhava nunca ter de fazer frente. Monstros tão cruéis e profanos, que só de pensar neles, os homens e mulheres mais determinados perdiam a paz de espirito e vontade de viver. Capazes de dobrar os valentes, sensibilizar os brutos e derrubar os inexoráveis.

Diante das pequenas feras, Aristeu lembrou de uma célebre frase de sua tia, que era também, a sua mestra.

“Quando chegar a hora do conflito, foque somente na vitória”.

Com esse ensinamento em mente, Aristeu se apresentou para o prélio.

— Um de cada vez — mandou, sem deixar transparecer que estava quase implorando para que a tortura acabasse.

— Refrigerante! — gritou a criança loira com uma fita rosa no cabelo.

— Eu quero — disse o amiguinho ao lado, seus olhos eram vorazes.

Aristeu odiava crianças. Odiava muito. Não entendia a razão das pessoas mimarem aqueles minúsculos diabinhos imprestáveis.

Naquela noite, ele era o tio do refrigerante. Aristeu pensava que a escola era o seu suplício. Reclamava dos professores o dos seus gordos trabalhos de casa. Um dia as lamúrias irritaram sua mãe.

— Não quer estudar? — disse já de paciência esgotada. — Vai trabalhar! — Fez algumas ligações, e conseguiu para seu filho um bico de garçom em uma casa de festa, especializada em festas infantis. Aquela bruxa mal amada, pensava Aristeu vestindo o coletinho preto de garçom.

Claro, sua mãe sabia da extensão de sua aversão ao trabalho com infantes. Tinha 16 anos, e, como quase todo o adolescente de 16 anos, detestava quase todos os mais jovens que ele. Menos sua irmã. Sua irmã era a exceção que provava a regra.

Enquanto Aristeu não levava o menor jeito, seu colega era bem diferente. Um jovem alto, mais alto que Ari, de cabelo raspado e olhos escuros. Tinha pele bem morena, uma fisionomia encorpada e um riso fácil. Era Álvaro. Álvaro, assim como Ari, era irmão mais velho. Só que havia uma diferença gritante entre os dois. Álvaro era o tipo de irmão que brincava, e Ari, era aquele que dava um tapinha nas costas e dizia “bom trabalho”.

Álvaro e Aristeu se tornaram melhores amigos no ensino médio. Álvaro era observador, atendo aos seus arredores. Foi o primeiro a notar o aluno novo. Um garoto esquisito e de estilo sombrio. Viu em primeira mão que todas as loucuras de Aristeu eram verdade, mas não se afastou, pelo contrário.

— Ser mago deve ser solitário — disse Álvaro.

— Sou mais que um mago — disse Aristeu. — Sou um Guardião.

Aristeu quebrou a lei mais sagrada do mundo da magia ao se revelar para Álvaro. Mas havia algo no rapaz que fazia ele criar uma confiança quase instantânea.

— E eu sou um mineiro.

— Um Guardião e um mundano não podem ser amigos.

— Quem disse?

— Vai se meter em perigo.

— Talvez. Quer ir ao cinema no domingo?

Foi Álvaro que se candidatou a trabalhar com Aristeu como garçom. Não foi difícil para sua mãe arrumar outra vaga. Aristeu desconfiava que a velha tenha usado de magia.

A casa de festa era um ambiente bem família. As paredes eram coloridas, pintadas de rosa e azul. Cheias de desenhos e adesivos de super-heróis para alegrar os meninos, e de Hello Kitty para agradar as meninas.

Muitas crianças se divertiam no escorregador verde que caia direto para uma piscina de bolinhas coloridas. Vermelhas, verdes, azuis, amarelas e todas as outras cores imagináveis. Parecia um irritante e infantil arco-íris.

As crianças corriam sem freio, brincavam, gritavam e importunavam seus pais. Os adultos se esforçavam para se divertir, tomando suas cervejas e conversando sobre suas vidas pessoais e profissionais entre si. Aristeu desejava ser o cara da cerveja e lidar com os adultos.

— Você poderia fingir que tá gostando — disse Álvaro passando com os salgadinhos. Uma tropa faminta de pequeninos furiosos o perseguia.

— Agora eu tenho que ser falso? — Aristeu estava com uma cara de “gostaria de estar em qualquer lugar, menos aqui (e na escola)”.

— A chefe vai contar para sua mãe.

Aristeu suspirou. Era melhor ser um garçom modelo, ou sua mãe implicaria com ele por toda a eternidade. E para uma maga de seu nível, isso era muito possível.

Engoliu o choro e foi servir os diabretes.

Com um sorriso.

Um sorriso bem falso.

Skypo continuava correndo. Não aguentava mais ser chutado por transeuntes apressados. Aristeu. O nome estava cada vez mais próximo. Aristeu. Tinha que virar à esquerda. Chute. Alguém o chutou, doeu, muito. Foi lançado para a rua. Um carro vinha, voltou correndo para a calçada.

Queria voltar para a toca, mas não podia falhar com a senhora. A senhora queria Aristeu. Então, Skypo daria Aristeu a ela.

Alguém pisou nele.

Mas ele se levanta e continua atrás do nome.

Não era um nome comum. Encontrou dezenas de Claudios, Tamires, Joãos e Marias.

Mas apenas um Aristeu.

Estava próximo.

Aristeu estava entediado. Continuava trabalhando, mas o tédio, sorrateiro, se aproximava e lhe acariciava suavemente. Tentando convencê-lo a largar tudo antes do final do expediente. Achou que estava pegando o jeito. Talvez trabalhar com os pirralhos não fosse tão ruim.

Estava apenas se enganando.

— Quero guaraná moço — era a aniversariante? Aristeu não sabia diferenciar. Para ele toda a criança era igual. Loirinha de olhos claros, usava um vestidinho azul com corações e duas trancinhas enfeitavam sua cabeça.

Serviu um copo para ela. Piscou, fechando os olhos por míseros segundos, quando os olhos se abriram, tinha mais vinte crianças fazendo fila, queriam pegar o refrigerante.

— Tio — em uníssono, erguiam seus copos.

Não aguentava mais, queria acabar com aquilo de uma vez. Fechou os olhos e se concentrou. Lembrou da última lição de sua mestra. Sobre invocar as forças do raio e do trovão. Se concentrou, respirou fundo, sentindo os silfos ao seu redor. Pequenas partículas elétricas começaram a estourar em suas mãos.

Tentou chamar o raio.

Uma descarga elétrica fulminante no disjuntor acabaria, literalmente, com a luz da festa, fora que, assustaria aquela pivetada toda.

— Raio — Sussurrou.

Nada aconteceu.

— É claro — disse Aristeu decepcionado.

Chamar o raio era uma tarefa difícil.

Não era um feitiço comum, mesmo Aristeu não sendo um aprendiz comum, era difícil para ele.

Lamentou a falha, serviu o refrigerante para as crianças, e passou o resto da festa pensando no que fazer com o dinheiro que ganharia.

Já era meia noite quando a maldita festa acabou.

— Trabalhou muito bem Álvaro — disse a patroa entregando o dinheiro.

— Obrigado dona Cleide.

Ela lançou para Ari um olhar com olhos descontentes.

— Aqui Ari — ela entregou o dinheiro.

— Obrigado.

Aristeu e Álvaro tiraram os coletes pretos na sala dos funcionários e deixaram no pequeno armário reservado aos trabalhadores nos fundos da casa.

— Toda essa tortura por meros 50 contos — Falou Aristeu emburrado enquanto saia. Vestiu um casaco preto.

— A gente vai fazer 150 esse mês — disse Álvaro animado. Não era difícil deixar Álvaro animado.

— 150 é dinheiro de pinga!

— Ah! Já entendi. Aristeu Monteiro, o todo poderoso mago, o aprendiz de Guardião, não sabe lidar com algumas crianças!

— Já te mandei a merda hoje?

— Algumas vezes.

— Considere que eu mandei mais uma.

Caminharam pela noite. A casa de festa ficava na Barão Torre, e o prédio de Álvaro ficava no final da Avenida Henrique Dumont.

O celular de Álvaro vibrou.

Aristeu bufou, seria a mãe dele ou...

— Alo, Luísa?

Tinha que ser.

A namorada de Álvaro, Luísa. Aristeu e Luísa tinham aquela clássica relação melhor amigo e namorada. Se odiavam com força. Ou melhor, Luísa odiava Aristeu, e Aristeu, um ser humano nem um pouco evoluído, devolvia com mais ódio.

— Por que você anda com aquele esquisito? – Perguntava Luísa quase todos os dias depois da aula.

— Aquele Aristeu, não gostei dele — disse ela quando Aristeu chegou na escola. Nem namorava com Álvaro naquela época.

— Você vai trabalhar de garçom? Aposto que isso é coisa do Aristeu. — Não estava totalmente errada dessa vez.

Álvaro desligou o telefone depois de uma típica e patética conversa de apaixonado.

— Ela é sua namorada, ou a sua mãe? – Perguntou Aristeu, cheio de escarnio.

Álvaro deu de ombros e soltou um riso sem graça.

— Um pouco dos dois atualmente. — Falou Álvaro sem graça.

— Fala sério. Não sei como você atura essa menina.

— Da mesma forma que aturo você.

Uma risada irônica.

— Você devia se sentir privilegiado por eu te permitir andar comigo — disse Aristeu.

— Ela é legal Ari, só que você nunca deu uma chance. Nenhum dos dois deu chances para conhecerem um ao outro.

— E o culpado sou eu? — Perguntou indignado. — Ela me importuna desde que eu cheguei na escola.

— Você lembra da primeira coisa que você fez? No primeiro dia de aula?

— A felicidade do professor de Geografia?

— Não, você repetiu as últimas palavras do falecido pai dele, e fez ele chorar!

— Tenho quase certeza de que ele ficou feliz.

— Você fez aquilo só pra não termos um tempo de aula!

— Valeu a pena.

— Valeu mesmo? – Perguntou Álvaro com as mãos na cintura e batendo os pés. — Você ganhou fama de esquisito, não julgue ela por te achar um esquisito.

— Isso aí, culpe a vítima.

Álvaro desistiu daquele assunto. Era mais fácil tirar leite de pedra do que mudar alguma ideia de Aristeu.

— Você vai no cinema com a gente amanhã? — Perguntou mudando o assunto.

— Pra ficar segurando vela?

— Não... Por que estamos a meses marcando de ver esse filme.

— Sim, você ia ver esse filme com seu melhor amigo. Mas você começou a namorar e agora envolveu a Luísa nessa história. Ela nem gosta do filme.

— Ah cara, você tá ciúmes, é isso?

Aristeu revirou os olhos.

— Não se sinta assim Ari, tem Álvaro o bastante para os dois. — Envolveu o braço ao redor do ombro de Aristeu.

— Eu não vou amanhã. — Disse se desvencilhando. — Prefiro praticar.

— Praticar? É aquele rolê de chamar os raios?

Aristeu confirmou.

— Essa parada é muito bizarra.

— Mais bizarro do que tudo que você já me viu fazer?

— Não sei dizer cara. Esse negócio de magia me um calafrio. Dá medo, entende?

— Não, não entendo — realmente não entendia. Era compreensível Álvaro temer a magia depois de tudo que já viu Aristeu fazer, mas Aristeu, já nasceu nesse meio. Para ele a magia é tão natural quanto respirar. Então não entrava em sua cabeça o medo quase primordial sentido por Álvaro.

— Bem, não consigo imaginar você soltando raios por aí.

— Aí que nos diferenciamos — falou Aristeu, um sorriso crapuloso se desenhava no canto da boca. — eu consigo.

Skypo já não aguentava. Ser chutado por mundanos era mais cansativo do que imaginava. Quase teve vontade de usar alguma magia, talvez assim abrissem caminho. Mas mudou de ideia, o medo que sentia da recepção humana fazia estremecer.

Procurou o tal Aristeu o dia inteiro e a noite quase inteira.

Lamentou, quase derramando lagrimas de desapontamento. Se decepcionou consigo mesmo. Falhou com sua senhora, falhou.

Como voltaria? Como explicaria a sua bondosa mestra que fracassou no primeiro favor que ela lhe pediu? Em mais de 80 anos, aquele foi o primeiro pedido que sua senhora fez, e ele falhou, miseravelmente.

Espere.

Sentiu algo.

O nome estava cada vez mais próximo.

Correu, poucas pessoas estavam na rua a essa hora da noite, graças a Tupã.

Pelo visto os mundanos, em sua maioria, eram seres diurnos.

O nome estava próximo. Avistou dois humanos conversando. Correu até eles.

Estavam quase chegando na casa de Álvaro, não falavam mais de Luísa, mas sobre coisas inúteis e sem importância. Não que Luísa fosse importante.

Aristeu sentiu algo mexer no pé da calça. Se virou e viu uma pequena criatura azul e verde. Um encantado. Ferido e cansado. Aristeu se abaixou e pegou o pequenino em suas mãos. Ainda estava consciente, por pouco.

—O que foi? — Álvaro não enxergava a pequena entidade. — É um espírito?

— Não — Respondeu Ari. — É um encantado.

— Não to vendo nada — falou Álvaro.

— Claro que não.

Aristeu levanta com o pequenino em seus braços.

— Até mais Álvaro.

— Qual seu nome? — Perguntou Aristeu para a bolota.

O pequenino não respondeu, estava cansado demais.

Chegou em casa, sua mãe estava viajando, então quem o recebeu foi sua irmã mais nova. Íris. Uma menina de cabelos e olhos da mesma cor que os de Aristeu. A cabeleira era cacheada, usava um vestidinho rosa com estampa de joaninhas.

— Você devia estar dormindo — falou Aristeu entrando em casa.

— Tava vendo dorama — respondeu prontamente.

— Você não é nova demais pra ver essas porcarias? — Falou Aristeu deixando Skypo sobre a mesa.

— Onde achou esse felpudo? — perguntou a irmã mais nova com olhos curiosos.

— Ele veio até mim. Está cansado demais, não consegue nem falar direito.

— Tadinho.

— Vou levar ele para meu quarto, deve se sentir melhor depois de uma noite bem dormida.

Skypo deixou o cansaço vencer antes de chegar na casa. A última coisa que viu foi uma porta de madeira pintada de branco.

Sonhou com a sua senhora. Tão bondosa, tão compreensiva, tão protetora. Seu nome era Yuda, a mestra de sua toca de felpudos. A mais de 80 anos cuidava de Skypo e de sua família. Os felpudos a amavam, ela os amava de volta. A senhora Yuda nunca pediu recompensas. Nunca exigiu adoração. Deixava os felpudos seguros e quentinhos, fazia isso por puro altruísmo, não recebia nada em retribuição.

— Senhora, nunca desejou nada? Nós ficaríamos felizes em retribuir toda a bondade que a senhora faz para nós.

— Oh meu amado Skypo, meu coração tem um desejo. Apenas um.

Skypo deu pequenos saltos. Extremamente buliçoso e animado, se aproximou para ouvir o desejo da senhora. Sentiu-se honrado, afinal, entre todos da toca, foi Skypo o escolhido para ouvir o anseio do coração da mestra.

— Diga amada senhora

Então a senhora contou.

Skypo ficou espantado com o desejo de sua mestra. Era no mínimo insano. Totalmente destituído de sentido ou realidade. Qualquer outro encantado que ouvisse, acharia um horror.

— Tem certeza, mestra? — Perguntou um assombrado Skypo.

— Sim, meu doce Skypo. Acha que sou louca? Teria a insanidade se apoderado de minha mente?

— Não amada senhora — Louca? Sua senhora? Jamais! — Eu posso lhe ajudar a realizar vossa ânsia?

— Me traga o Guardião. É um aprendiz na verdade.

— Qual nome do aprendiz?

— Seu nome é...

— Aristeu — falou despertando, sentia o calor do sol em sua pele.

Levou sua pata para a testa e fez sombra nos olhos.

Como pode dormir? Se permitiu ser derrubado, que vergonha.

Falhou na sua emenda sagrada?

Onde estava?

Olhou ao redor. Estava em um quarto pequeno. Paredes verdes e vermelhas, vários suportes de madeira, onde tomos de papel repousavam tranquilos. Alguns conservados e outros já com suas folhas amareladas. Estava em cima de um leito cheio de forros brancos e pretos. Muito confortável, mas não podia esquecer de sua missão. Tinha de encontrar Aristeu.

Não se alarmou. Sentia que o nome estava próximo. Estava a apenas alguns passos de distância. Saltou do leito direto para piso.

Pousou nas patas traseiras e dirigiu-se ao grande portal no canto do quarto. Correu pelo largo corredor. As paredes eram rústicas, com muitos quadros pendurados nela. Várias pessoas neles representados, se perguntou quem eram. Familiares do tal Aristeu? Chegou até uma câmara larga, as paredes eram iguais às do corredor, o chão era de madeira e no centro havia uma saliência na parede, onde ficava uma espécie de fogueira. Um foco de chamas, em frente a ele, finalmente, Aristeu. Mas o que era aquela fogueira? Não sabia que os mundanos tinham o hábito de acendê-las no centro de suas casas.

O rapaz, Aristeu estava sentado sobre as pernas em frente ao fogo. De olhos fechados, respirava fundo enquanto sentia o calor.

Se aproximou, mas o mago ergueu o dedo em sua direção, pedindo para que ficasse onde estava.

— Uma vez por dia, Aristeu tem que meditar em frente às chamas do fogo doméstico — falou uma criança se aproximando. — É um fetiche de meu irmão. Ele reza aos ancestrais em busca de iluminação e eficiência para seus feitiços.

Ela se abaixou para perto de Skypo e começou a acariciar seu corpo peludo. Skypo gostou muito daquilo.

Aristeu se levantou.

— Qual o seu nome pequeno encantado?

— Sou Skypo, imagino que você seja o senhor Aristeu.

— Senhor Aristeu? — Aristeu abriu um riso lateral. — Gostei.

— Venho em nome da grande Yuda. Senhora da toca dos Ganis.

— Ganis? — Perguntou a menina.

— É assim que os felpudos chamam a si mesmos, Íris.

— Ela requisita a sua presença, ó Guardião.

— Ela precisa de ajuda? — Perguntou Ari, se abaixando sobre o joelho para olhar Skypo nos olhos.

— Como Guardião, você não pode negar ajuda — avisou Íris.

— Ela precisa do senhor. Minha senhora, é generosa, ela vai te recompensar.

— Gosto de recompensas

— Você não devia pedir recompensas — Ralhou Íris.

— Quem vai me dedurar?

— Eu?

— Compro uma boneca pra você se ficar quietinha.

Íris abriu um sorriso esperto.

— Tudo bem, fico quieta.

— Boa menina. Agora, só preciso das minhas garantias.

Aristeu foi até seu quarto e abriu a gaveta que ficava embaixo da estante. De lá tirou um pesado facão com a lâmina curva para frente, no corpo da arma, vários desenhos de runas mágicas. A energia etérea que fluía pela arma era incrível. Um presente de sua tia. Depois foi até o quarto de sua mãe e pegou um pequeno frasco de vidro branco da estante de coisas proibidas. Se ela perguntasse, diria que Íris quebrou.

Voltou para a sala.

Skypo quase borrou a pelugem quando viu os objetos.

— Então, sabe o que são essas coisas? — Perguntou Aristeu com um riso fácil na face.

— Sim — falou Skypo cheio de tremeliques. — Uma arma encantada. As relíquias sagradas dos guardiões, invisíveis para os mundanos assim como nós. Eu sei o que é.

— Minha arma encantada é um Kopis. Um grande facão grego usado para sacrifícios ritualísticos e para cortar carnes — explicou Aristeu. — Sabe o que é isso? — Perguntou mostrando o frasco.

— Um recipiente de selamento. Para aprisionar.

— Exato. Se a sua senhora estiver me enganando, vocês já eram.

— Não acredito que você ameaçaria uma coisinha tão fofa — reclamou Íris.

Skypo guiou o caminho. O felpudo pode ter demorado para encontrar Aristeu, mas conhecia o caminho para casa como a palma de sua pata. Era só uma questão de seguir o nome de sua mestra. Não era difícil. Só havia uma senhora Yuda. Era única em todos os sentidos. Pelo menos, era assim para Skypo. E para todos em sua toca.

Aristeu o seguia, via Skypo apressado a sua frente, mas se recusava a correr. Haviam pessoas passando pela rua a essa hora da manhã, não queria bancar o maluco. Skypo entrou em uma viela, Aristeu o seguiu. Caminhou pelo beco escuro, haviam muitas casas emaranhadas de obra incompleta e pedintes na calçada. Tentou resistir, mas não conseguiu. Jogou uma moeda para o mendigo com pus nos olhos. Ele provavelmente gastaria com pinga, mas Aristeu não julgava.

Algumas perguntas invadiram sua cabeça. Perguntas que talvez devessem ter sido feitas mais cedo. Como seria a tal senhora? Encantados eram imprevisíveis, nem sempre diziam verdades completas. As vezes enfeitavam os fatos para convencerem com sua narrativa. Talvez a tal Yuda fosse perigosa. E se fosse mais poderosa do que ele? Talvez seja impossível prendê-la no frasco. Poderia estar caindo em uma terrível armadilha?

Pensou em ligar para Íris e pedir para ela avisar sua tia, pensou também em voltar para casa.

Skypo lhe arrancou de suas elucubrações.

— Chegamos senhor Aristeu — falou ele.

Aristeu gostava de ser chamado de senhor.

Chegaram a um projeto de casa. Com certeza a obra tinha sido abandonada antes do fim, os tijolos que montavam toda a sua estrutura estavam expostos. O teto de telhas, com buracos que certamente causavam goteiras, na frente, recebendo possíveis convidados, uma porta de metal, pintada de verde, com uma janela de vidro trincada na parte de cima. Nela, estava riscado um símbolo que Aristeu não conhecia. Parecia um daqueles símbolos indígenas que mostravam em series antigas de mistério.

Se aproximou. O desenho expelia uma magia peculiar de proteção contra o mal olhado.

— Interessante.

Skypo entrou por um buraco na parede. Aristeu empurrou a porta.

Estava destrancada.

Por dentro, a casa tinha uma aparência deplorável. Não havia móveis, totalmente desprovida de sofás, poltronas, mesas ou cadeiras. Nem um banco sequer. Pela quantidade de poeira, a anos ninguém varria aquele piso de terra e cimento.

As janelas, todas, estavam empoeiradas como casas no deserto, quebradas por bolas de futebol perdidas, pedras de crianças travessas e pela falta de manutenção constante. Nenhuma iluminação, apenas a luz do sol, que entrava discreta pelos buracos no teto.

O que a casa não tinha em moveis, tinha em felpudos. Ganis de todas as cores e tamanhos espalhados pelo projeto de casa. Todos, absolutamente, todos encaravam Aristeu com um misto de medo e curiosidade.

— Ele é mundano?

— Ele pode nos ver.

— Olhe a arma dele.

Alguns eram grandes, tão grandes e redondos que cumpriam a função de sofá para os menores. Outros eram minúsculos, tão pequenos quanto Skypo, alguns, ainda menores. Se distraiam correndo atrás um do outro, e se encolhiam nervosos conforme Aristeu passava. Comiam insetos e sussurravam encarando a arma encantada.

Aristeu custou a abrir caminho pelos peludos sem chutar ou pisar neles.

— Por aqui senhor Aristeu.

Que tipo de felpudo seria Yuda?

O andar de Skypo terminou em um quarto no fim de um escuro corredor. Também não possuía móveis, ao invés disso, muitas revistas velhas, mais velhas que a mãe de Aristeu, se encontravam espalhadas pelo chão. Poderia facilmente sentar em uma pilha. Olhando pela janela quebrada, estava a criatura mais estranha que os jovens olhos de Aristeu já viram (Até o presente momento, ainda naquele dia, veria coisas muito piores).

Não era um felpudo. Aparentava ser uma menina. Embora com certeza, seja um ser mais antigo do que se poderia imaginar. Era dona de cabelos negros como carvão, que escorriam lisos pelas costas, caiam até a cintura. Os olhos eram grandes e expressivos, suas mãos eram muito maiores que o habitual. Só que o mais impressionante, eram as duas galhadas que cresciam de sua testa. Como as de um cervo. Suas canelas eram recheadas de pelos, e, possuía cascos no lugar dos pés. Cobria o torso com uma camisa meia manga cinza toda e encardida, que fedia como se não tivesse sido lavada a anos. Usava um largo short preto, com rasgos na perna esquerda, uma corrente enferrujada presa no bolso direito.

— Você não é um sátiro — foi o que Aristeu conseguiu dizer.

A exótica encantada olhou nos olhos de Aristeu, largou uma revista velha de lingerie dos anos 50 e ficou de frente para o mago.

— Estava preocupada com Skypo — falou ela, sua voz era baixa e coberta de rouquidão. Parecia estar sempre com sono. — Ainda bem que ele conseguiu trazer você, Aristeu.

— Como você me conhece? — Aquela era uma pergunta importante.

— Na verdade, conheci seu pai a muito tempo. Ele disse que se um dia precisasse, devia procurar você.

— Velho maldito.

A encantada deixou escapar alguns risinhos.

— Devo admitir que você me lembra muito ele.

Skypo correu até a menina e subiu pelo seu corpo até chegar em seu ombro.

—E o que você quer de mim?

— A ajuda de um Guardião é muito valorizada pelo meu povo.

— Aprendiz — Corrigiu Aristeu.

— A mais de 80 anos eu observo os mundanos vivendo suas vidas através das janelas dessa casa. Eu gostaria de passar um dia entre eles — falou em tom sonhador.

— Viver um dia entre os mundanos? É isso? — Era tão simples que chegava a ser ridículo.

— Sim, e gostaria que você fosse meu guia e guarda-costas.

— Não acho que seja possível — Aristeu aponta para a testa da menina. — Você tem galhadas. Isso assusta as pessoas.

— Eu posso me disfarçar — disse com um riso inocente. — consigo me fazer visível e ainda assim ocultá-las. Me ajude e serei generosa.

Agora Aristeu estava interessado.

— Quão generosa você seria?

— Sou capaz de realizar pequenos desejos – explicou fazendo suas mãos brilharem, mexeu os dedos e fez pequeninas estrelas rosas, inteiramente feitas de luz e pó caírem sobre o chão como pequenas gotas de chuva. —Nada muito chamativo — sorriu inocente para o aprendiz de Guardião — depende do que você pedir, posso realizar pequenos sonho.

Aristeu não se impressionou com aquela demonstração de magia, para ele, o místico era cotidiano e banal. Porém as palavras ditas por aquela menina encantada fizeram seus olhos brilharem. Aristeu não era santo, nunca foi e nunca seria, se tornaria um Guardião e lutaria contra forças do mal, mas isso não fazia dele um exemplo de bom garoto. Por isso a palavra “desejo” chamou tanto sua atenção.

Uma ideia maliciosa aos poucos se construía na sua mente.

— Você consegue influenciar emoções? — Perguntou com um meio sorriso nascendo discreto em sua face.

— Consigo — respondeu cheia de sinceridade inocente no olhar. — Está apaixonado, jovem aprendiz? Quer atrair uma moça para os seus encantos?

— Justo o contrário, — respondeu de prontidão. — pode acabar com o amor entre duas pessoas?

O sorriso sincero de Yuda esmoreceu. Arqueou a sobrancelha e pendeu o pescoço para o lado. Várias interrogações metafóricas flutuavam ao seu redor.

— Acabar com o amor? — confusão. — Que pedido triste.

Aristeu deu de ombros. Não seria nem um pouco triste para ele.

— To sabendo — Falou simples. — Consegue?

— Se eu ver o rosto das duas pessoas, me aproximar e sentir a intensidade dos sentimentos, sim, eu poderia fazê-los sumir.

— Só um minuto.

Aristeu pegou o celular no bolso, buscou em sua lista de contatos, e encontrou rápido o nome que buscava. ligou para o amigo, Álvaro.

— Alo, camarada, liguei para avisar que mudei de ideia — disse sem ensaios ou cerimonias. — Vamos ver o filme. Isso mesmo. Vou levar uma menina comigo.

Desligou sem esperar respostas.

— Vou te levar para o mais sagrado dos rituais mundanos. — Disse para a encantada. — A ida ao cinema.

O olhar de Yuda se iluminou, repleto de empolgação, inocência e ansiedade. A vontade que tinha de deixar aquela casa, mesmo que por uma mísera tarde, era verdadeira. Em 80 anos, nunca ficou tão animada quanto agora.

— Agora temos dois problemas para resolver — Falou Aristeu.

— Que problemas?

—Suas galhadas — apontou para cima. — e suas canelas. — Apontou para baixo.

— Já disse, isso é fácil— Yuda apertou o indicador e o polegar contra os lábios e assobiou, o som era um chamado para os vários felpudos que esperavam na sala. Os pequenos já sabiam o que fazer, fizeram força e, seus pelos começaram brilhar, uma energia colorida deixou seus corpos e se envolveu ao redor da sua senhora. A galhada começou a ficar translucida, até que aos poucos, desapareceu de vez. Os pelos em sua canela, e seus cascos passaram pelo mesmo processo. Pouco a pouco a imagem se transfigurou, pareciam até as pernas de uma menina normal.

Aristeu reconheceu aquele feitiço. Sabia que era uma ilusão muito trabalhosa de se realizar.

— Disfarce e beleza — falou impressionado. — Magia de glamour. Interessante, muito interessante.

— Assim posso me fazer visível para os mundanos — até sua voz estava diferente. Sem toda a rouquidão, era como a voz de uma adolescente comum — sem que eles vejam minhas galhadas.

— Ou seus cascos.

— Ou meus cascos.

— Não são todos que conseguem lançar uma ilusão tão bem-feita.

Ela acaricia Skypo em seu ombro.

— São os ganis.

— O que tem os felpudos?

— É assim que vocês os chamam? Bem, felpudos são ótimos catalisadores de energia etérea. É mais fácil fazer feitiços complicados com a energia deles. E tem muitos aqui. Então um feitiço que demoraria horas para ser feito, graças a eles, eu faço em minutos.

Aristeu apontou para Skypo, que ainda não tinha deixado os ombros de sua senhora.

— Vai levar ele?

— Claro que meu doce Skypo virá comigo.

Aristeu não se importava.

— É bom que ele se mantenha invisível.

— Eu não desejaria outra coisa – falou o felpudo.

Tendo feito todos os preparativos, os três atravessaram a porta de metal verde e deixaram a casa. Aristeu tinha a impressão de que estava esquecendo de alguma coisa.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.