A noite na fazenda Nóbrega era um abraço quente e perfumado com o cheiro de alecrim e terra molhada. O céu estava tão limpo que as estrelas pareciam lanternas penduradas sobre a enorme mesa de madeira disposta no quintal. Risadas, o tilintar de talheres e o som dos grilos compunham a trilha sonora daquela reunião familiar que transbordava vida.


​José Nóbrega, na cabeceira, servia generosas fatias de carne assada, enquanto Açucena garantia que o prato do pequeno Átila estivesse sempre cheio de legumes, para o leve protesto do menino.

​— Vovó, eu já comi três árvores de brócolis! — reclamou Átila, com o rosto sujo de molho, arrancando risadas de Heitor.

​— Coma mais uma, meu pequeno cavaleiro, ou não terá forças para vencer o seu tio Maurício na corrida amanhã — brincou Heitor, limpando o canto da boca do filho enquanto trocava um olhar cúmplice com Jasmine.

​Jasmine parecia radiante. A maternidade e a paz nas terras dos pais a tornaram uma mulher de uma beleza serena. Ela observava a interação entre a irmã mais nova e o cunhado com um sorriso de quem sabia de algo que ninguém mais ousava dizer.

​— Por falar em Maurício... — Heitor começou, recostando-se na cadeira com um olhar travesso para o irmão. — Eu recebi algumas visitas interessantes hoje no escritório. Parece que o festival da colheita deixou um rastro de corações partidos na vila.

​Maurício, que estava prestes a levar a taça de vinho à boca, parou no meio do caminho.

— Ah, não comece, Heitor.

​— Comece sim! — incentivou Rebekah, com os olhos brilhando de deboche. — Quero saber quem são as pobres coitadas que perderam o juízo a ponto de mandar propostas para este solteirão convicto.

​Heitor riu alto.

— Três propostas de casamento formais, Maurício. A filha do tabelião disse que nunca viu um homem "tão maduro e misterioso". E a sobrinha do ferreiro perguntou se você aceitaria uma dote em ferraduras, já que você passa tanto tempo nas cocheiras.

​— Maduro? — Rebekah soltou uma risada estridente, jogando o cabelo para trás. — Elas quiseram dizer "antigo", não é? Maurício já faz parte da mobília do castelo, Heitor. Ele não é um partido, é uma peça de museu. Deve estar cheio de pó por dentro!

​Maurício arqueou a sobrancelha, o sorriso cínico voltando ao rosto para mascarar o incômodo que o comentário dela causou no fundo de seu peito.

— Museu, Rebekah? Pois saiba que as peças de museu são as mais valiosas. Elas têm história, elegância... coisas que uma garotinha que ainda tem cheiro de maçã verde e cavalos não saberia apreciar.

​— Elegância? Você usa o mesmo casaco há anos! — rebateu ela, apontando com o garfo. — E quanto ao "mistério", todos sabemos que é apenas preguiça de conversar. Pobres moças... se elas soubessem que você ronca depois de duas taças de vinho, fugiriam para a província vizinha.

​— Eu não ronco! — Maurício exclamou, fingindo indignação, enquanto José e Açucena caíam na gargalhada.

​— Ronca sim, tio Mau-mau! — entregou o pequeno Átila, com a boca cheia. — Parece um porquinho!

​A mesa explodiu em risos. Maurício cobriu o rosto com a mão, sentindo o rosto esquentar, enquanto Rebekah saboreava a vitória com um olhar vitorioso, embora, por baixo da mesa, ela estivesse apertando o próprio vestido.

​— Viu só? — Rebekah continuou, implacável. — Se eu fosse você, Maurício, aceitava o dote das ferraduras. Pelo menos o cavalo não vai reclamar do barulho à noite.

​— Você é uma fera, Rebekah Nóbrega — Maurício murmurou, inclinando-se um pouco na direção dela. — Uma sorte para o mundo que você ainda não tenha pretendentes oficiais. Eu teria pena de qualquer homem que tentasse domar essa língua.

​— Eu não preciso ser domada, Martinez. E o homem que eu escolher certamente não será alguém que precise de bengala para atravessar o pátio — ela disparou, mas seus olhos castanhos brilharam com uma faísca que não era de raiva.

​Jasmine inclinou-se para o marido e sussurrou:

— Eles vão acabar se matando ou se beijando antes da sobremesa.

​Heitor observou os dois — a tensão vibrando entre as provocações, o jeito como Maurício não conseguia tirar os olhos de Rebekah quando ela não estava olhando, e a forma como ela se exibia apenas para ele.

​— Se for o beijo — Heitor sussurrou de volta —, espero que o seu pai não esteja com a espingarda por perto.

​A noite continuou sob a luz das estrelas, com o vinho correndo solto e as alfinetadas de Rebekah servindo como o tempero principal. No fundo, todos sentiam que aquela descontração era o prelúdio de algo muito mais profundo e perigoso, que estava florescendo ali mesmo, entre um deboche e outro.