O céu sobre a Fazenda Nóbrega não poderia estar mais radiante. O aroma de maçãs maduras e jasmim flutuava no ar, misturando-se ao cheiro de terra fresca e festa. O chalé que Maurício construíra estava finalmente pronto, decorado com ramos de oliveira e flores do campo — as favoritas de Elena.

​Não era um casamento de porcelana da Capital; era um casamento de ferro, lã e verdade.


​No Quarto da Noiva

​Jasmine terminava de prender o véu de Elena. O vestido não era de seda importada, mas de um linho finíssimo, com detalhes em renda que a própria Elena tecera nas noites de insônia.

​— Você está deslumbrante, Elena — Jasmine sussurrou, emocionada. — Maurício não vai conseguir respirar quando te vir.

​Elena olhou para o bracelete de prata em seu pulso, o presente de Maurício.

— Eu só quero que ele veja a mulher que eu sou, Jasmine. Sem fantasmas entre nós.

​— Os fantasmas foram exorcizados naquele dia em que ele a defendeu — Jasmine sorriu. — Hoje, você não é apenas a noiva dele. Você é a alma desta fazenda.

​O Altar sob a Macieira

​Maurício esperava diante do padre, sob a grande macieira onde tudo começou e onde tudo, finalmente, se transformava. Ele vestia um terno cinza-chumbo, o cachecol azul que Elena lhe dera guardado como um amuleto no bolso interno.

​Heitor aproximou-se do irmão, ajustando a flor na lapela dele.

— Nervoso, Martinez? Nunca te vi suar nem diante de um touro bravo.

​Maurício soltou uma risada curta, os olhos fixos no início do tapete de pétalas.

— É um medo diferente, Heitor. É o medo de ser feliz demais. Eu passei tanto tempo no escuro que a luz dela às vezes me cega.

​— Pois se acostume com o brilho — Heitor deu um tapa no ombro do irmão. — Ela está chegando.

​A música começou. Elena surgiu ao lado de José, que a conduzia com um orgulho que transbordava. Quando os olhares de Maurício e Elena se cruzaram, o mundo ao redor emudeceu.

​Os Votos

​O padre proferiu as palavras sagradas, mas o momento em que os convidados prenderam a respiração foi durante os votos pessoais.

​Maurício segurou as mãos de Elena. Suas mãos, antes gélidas e calejadas pela amargura, agora estavam quentes.

— Elena... Eu vivi muito tempo em um castelo de sombras, acreditando que o amor era uma condenação. Você entrou na minha vida não com delicadeza, mas com a força de uma tempestade que limpou o meu céu. Você me deu um tapa quando eu precisei acordar e me deu a sua mão quando eu decidi caminhar. Eu prometo ser o seu protetor, o seu sócio e o seu maior admirador. Este bracelete é o símbolo da minha linhagem, mas você é o símbolo da minha vida.

​Elena sentiu as lágrimas escorrerem, mas sua voz não falhou.

— Maurício, eu não prometo ser a sua sombra, nem a sua memória. Eu prometo ser a sua realidade. Prometo tecer o nosso futuro com a mesma paciência com que teço a minha lã. Eu não amo o Duque, eu amo o homem que trabalha a terra e que aprendeu a sorrir de novo. O meu "sim" não é um contrato; é a minha alma escolhendo a sua, todos os dias, até que a terra nos receba de volta.

​— Eu os declaro marido e mulher — anunciou o padre. — Pode beijar a noiva.

​Maurício não hesitou. Ele a puxou pela cintura, um beijo que carregava toda a paixão represada e a promessa de um novo começo. Os convidados explodiram em aplausos, e Heitor assobiou alto, fazendo Jasmine rir.

​O Banquete e a Celebração

​A festa foi longa. Mesas fartas sob as árvores, vinho da melhor safra e música que fazia até os criados dançarem. Durante o brinde, Heitor levantou a taça.

​— À nova Sra. Martinez! — gritou Heitor. — Que ela continue tendo a mão pesada para os erros do meu irmão e o coração leve para as nossas festas!

​Maurício riu, abraçando Elena por trás enquanto observavam a alegria da família.

— Você ouviu o meu irmão, Sra. Martinez? — ele sussurrou no ouvido dela. — Ele acha que você manda em mim.

​Elena virou a cabeça e lhe deu um selinho rápido.

— Ele não acha, Maurício. Ele tem certeza. E agora, vamos dançar? Ou o "urso rabugento" ainda tem vergonha de mostrar seus passos?

​— Para você, minha senhora... eu dançaria até sobre as brasas.

​Eles entraram no meio do círculo de dança, dois corações que encontraram a paz no lugar mais improvável: nos braços um do outro, onde o passado era apenas uma história contada ao pé do fogo, e o futuro era um campo fértil esperando para ser plantado.