O RENASCER DA FLOR DE FERRO As Cinzas do Passado
30 O Eclipse do Passado
O ar na fazenda Nóbrega pesou instantaneamente quando a carruagem luxuosa da Capital estacionou diante do casarão. Rebekah desceu, ostentando um vestido de veludo azul-profundo e uma aura de superioridade que a cidade grande lhe conferira. Ela não vinha apenas para visitar os pais; vinha para recuperar o território que, em sua mente, ainda lhe pertencia.
Elena observava da varanda, as mãos apertando o avental. Ela sentiu aquele frio no estômago, a insegurança de quem sabe que está diante de um fantasma poderoso.
O encontro aconteceu no salão principal. Jasmine e Heitor tentavam manter a cordialidade, mas a tensão era palpável. Quando Maurício entrou na sala, Rebekah abriu um sorriso triunfante, esperando que ele corresse em sua direção. No entanto, ele caminhou direto para Elena, parando ao lado dela e pousando a mão firmemente em sua cintura.
— Rebekah — disse Maurício, com um aceno seco. — Não esperávamos sua visita tão cedo.
Rebekah ignorou o tom dele e fixou os olhos em Elena, que estava visivelmente desconfortável.
— Vejo que o "teatro" da Capital se tornou uma residência permanente — Rebekah começou, a voz destilando um veneno educado. — Diga-me, querida... Elena, não é? Como é a sensação de viver em uma casa onde cada móvel, cada flor e cada sombra ainda sussurram o meu nome? Não deve ser fácil tentar preencher um espaço que é, por natureza, vasto demais para você.
Elena engoliu em seco, mas antes que pudesse formular uma resposta, Maurício deu um passo à frente, protegendo-a com seu próprio corpo.
— Já chega, Rebekah — a voz de Maurício não era um grito; era um trovão baixo, carregado de uma autoridade que fez o salão silenciar.
— Ora, Maurício, estou apenas sendo realista — Rebekah riu, com um desdém cruel. — Ela é uma serva que aprendeu a costurar. Você é um Martinez. Esse deslize de percurso é compreensível dada a sua solidão, mas tratar uma... camponesa... como se ela fosse a senhora destas terras é um insulto à nossa história.
A Defesa do Leão
Maurício se aproximou de Rebekah, os olhos azuis faiscando como nunca.
— O único insulto aqui é a sua arrogância. Você fala de história, mas esquece que você abriu mão da sua no momento em que escolheu a segurança de um título na Capital. Elena não está preenchendo o seu lugar, Rebekah. Ela criou o dela. Um lugar que você nunca foi capaz de ocupar porque estava ocupada demais olhando para o próprio reflexo.
— Maurício, você não pode estar falando sério! — Rebekah recuou, chocada com a agressividade dele.
— Eu nunca falei tão sério em toda a minha vida. Elena é a mulher que cuidou das minhas feridas enquanto você as ignorava. Ela é a dona deste ateliê, desta ala e, em breve, deste sobrenome. Se você não consegue tratá-la com o respeito que a futura Sra. Martinez merece, então você não é bem-vinda nesta casa, seja você filha de quem for.
Ele se voltou para Elena, pegando a mão dela e beijando-a na frente de todos, com uma devoção que fez Rebekah perder o chão.
— Elena não é um "deslize". Ela é o meu norte. E eu não permitirei que ninguém — ouviu bem? — ninguém a diminua.
O Veredito
Rebekah olhou para Heitor e Jasmine, buscando apoio, mas encontrou apenas rostos severos. Ela percebeu, tarde demais, que não era mais a rainha daquela fazenda. Era apenas uma visita indesejada.
— Eu... eu vejo que mudei de ideia sobre passar a noite — Rebekah sibilou, pegando suas luvas. — Boa sorte com o seu "norte", Maurício. Espero que ele não te leve para o buraco.
Ela saiu em disparada para a carruagem. O silêncio que se seguiu foi quebrado pelo suspiro de alívio de Elena.
— Maurício... você não precisava ter sido tão duro — Elena sussurrou, embora seus olhos brilhassem de gratidão.
— Precisava, sim — ele respondeu, puxando-a para um abraço apertado, enterrando o rosto no cabelo ruivo dela. — Eu passei a vida inteira defendendo o passado. Está na hora de o mundo saber que eu mataria e morreria para defender o meu presente. Você é a minha única senhora, Elena. Que ela nunca mais se esqueça disso.
Elena sorriu, sentindo-se finalmente segura. A ameaça de Rebekah não era mais do que uma sombra passageira diante do sol que Maurício agora fazia brilhar apenas para ela.
Fale com o autor