O RENASCER DA FLOR DE FERRO As Cinzas do Passado
22 Entre Fios e Sulcos
A transformação de Maurício foi silenciosa, mas profunda. O anúncio da gravidez de Rebekah, em vez de destruí-lo por completo, pareceu cristalizar sua dor em uma disciplina férrea. Ele trocou as garrafas de uísque pelas ferramentas de campo; o suor agora limpava o que o álcool apenas anestesiava. O único vício que restou foi o charuto, cuja fumaça azulada subia pelas varandas do castelo nas madrugadas solitárias.
Elena, por sua vez, florescia na ala sul. Heitor e Jasmine, reconhecendo seu talento e querendo mantê-la por perto para equilibrar o humor da casa, montaram para ela um ateliê. O espaço cheirava a lã fresca, linho e lavanda, tornando-se o refúgio de cores da fazenda.
O Ateliê da Ala Sul
Elena estava debruçada sobre uma mesa de corte, cercada por rolos de lã em tons de creme e azul pastel. Ela tecia as cobertas para o filho de Rebekah — um pedido de Jasmine que ela aceitou com uma mistura de profissionalismo e uma ponta de melancolia.
O som da porta se abrindo a fez levantar o olhar. Não era Heitor. Era Maurício, vestindo roupas de trabalho, com os braços sujos de terra e o semblante sereno, embora distante.
— Vim buscar as tiras de couro para os arreios que Heitor disse que você organizou — ele disse, mantendo-se à porta, respeitando o limite do ateliê dela.
— Estão ali, na prateleira de baixo — Elena apontou com a tesoura.
Maurício pegou o material e, antes de sair, seus olhos pousaram na pequena manta de tricô que ela estava terminando. Era macia, com detalhes em relevo que formavam pequenas folhas.
— Você tem mãos habilidosas, Elena — ele comentou, a voz sem o veneno de antes. — É irônico. Você está tecendo o conforto para o futuro de alguém que nem conhece.
— O trabalho não tem culpa das circunstâncias, Sr. Martinez — Elena respondeu, cruzando os braços. — E o senhor? Ocupar as mãos na terra tem ajudado a silenciar a mente?
Maurício deu um breve sorriso de canto, o primeiro que não carregava escárnio.
— A terra é honesta. Ela não promete nada que não possa cumprir. Se eu cuido dela, ela me responde. É mais simples do que lidar com pessoas.
— A simplicidade às vezes é apenas uma fuga — Elena rebateu, mas sem agressividade. — Mas fico feliz que tenha parado com a bebida. O senhor fica menos... insuportável quando está lúcido.
Maurício soltou uma risada curta, genuína. — E você fica menos defensiva quando não está tentando me dar um tapa. Acho que estamos progredindo.
A Trégua no Pomar
Alguns dias depois, Jasmine encontrou os dois conversando perto do depósito. Não era uma discussão. Maurício explicava a Elena sobre a resistência de certas fibras de algodão que ele pretendia plantar, e ela ouvia atentamente, sugerindo como aquilo afetaria a trama dos tecidos.
— Veja, Jasmine — sussurrou Heitor, aproximando-se da esposa. — Eles conseguem falar por mais de cinco minutos sem que ninguém saia gritando.
— Ela é a âncora dele agora, Heitor — Jasmine respondeu baixinho. — Maurício precisava de alguém que não o olhasse com pena, mas com desafio. Rebekah era o sonho dele; Elena é a realidade.
O Encomenda de Jasmine
Naquela noite, Jasmine entrou no ateliê com um pedido especial.
— Elena, o enxoval está ficando lindo. Mas eu queria que você fizesse algo especial... uma touca e um casaco de lã bem grossa. O inverno na Capital é rigoroso, e queremos que o bebê sinta o calor da nossa fazenda.
Elena assentiu, mas notou Maurício passando pelo corredor externo. Ele parou por um momento, olhando para as roupas de bebê espalhadas. Ele não entrou. Apenas tirou o charuto da boca, soltou a fumaça e seguiu para o castelo.
— Ele ainda sofre, não é? — Elena perguntou a Jasmine.
— Sofre — Jasmine suspirou. — Mas é um sofrimento diferente. Ele está aprendendo que o mundo continua girando, mesmo quando o nosso coração para. E você, Elena, tem sido a engrenagem que o faz caminhar, mesmo que ele não admita.
Elena voltou ao seu tear. Enquanto os fios se cruzavam, ela percebeu que sua vida na fazenda não era mais apenas um emprego. Ela estava tecendo, fio a fio, uma nova história — para o bebê que viria e, quem sabe, para o homem de gelo que finalmente começava a derreter sob o sol da verdade.
Fale com o autor