A transformação de Maurício foi silenciosa, mas profunda. O anúncio da gravidez de Rebekah, em vez de destruí-lo por completo, pareceu cristalizar sua dor em uma disciplina férrea. Ele trocou as garrafas de uísque pelas ferramentas de campo; o suor agora limpava o que o álcool apenas anestesiava. O único vício que restou foi o charuto, cuja fumaça azulada subia pelas varandas do castelo nas madrugadas solitárias.

​Elena, por sua vez, florescia na ala sul. Heitor e Jasmine, reconhecendo seu talento e querendo mantê-la por perto para equilibrar o humor da casa, montaram para ela um ateliê. O espaço cheirava a lã fresca, linho e lavanda, tornando-se o refúgio de cores da fazenda.


​O Ateliê da Ala Sul

​Elena estava debruçada sobre uma mesa de corte, cercada por rolos de lã em tons de creme e azul pastel. Ela tecia as cobertas para o filho de Rebekah — um pedido de Jasmine que ela aceitou com uma mistura de profissionalismo e uma ponta de melancolia.

​O som da porta se abrindo a fez levantar o olhar. Não era Heitor. Era Maurício, vestindo roupas de trabalho, com os braços sujos de terra e o semblante sereno, embora distante.

​— Vim buscar as tiras de couro para os arreios que Heitor disse que você organizou — ele disse, mantendo-se à porta, respeitando o limite do ateliê dela.

​— Estão ali, na prateleira de baixo — Elena apontou com a tesoura.

​Maurício pegou o material e, antes de sair, seus olhos pousaram na pequena manta de tricô que ela estava terminando. Era macia, com detalhes em relevo que formavam pequenas folhas.

​— Você tem mãos habilidosas, Elena — ele comentou, a voz sem o veneno de antes. — É irônico. Você está tecendo o conforto para o futuro de alguém que nem conhece.

​— O trabalho não tem culpa das circunstâncias, Sr. Martinez — Elena respondeu, cruzando os braços. — E o senhor? Ocupar as mãos na terra tem ajudado a silenciar a mente?

​Maurício deu um breve sorriso de canto, o primeiro que não carregava escárnio.

— A terra é honesta. Ela não promete nada que não possa cumprir. Se eu cuido dela, ela me responde. É mais simples do que lidar com pessoas.

​— A simplicidade às vezes é apenas uma fuga — Elena rebateu, mas sem agressividade. — Mas fico feliz que tenha parado com a bebida. O senhor fica menos... insuportável quando está lúcido.

​Maurício soltou uma risada curta, genuína. — E você fica menos defensiva quando não está tentando me dar um tapa. Acho que estamos progredindo.

​A Trégua no Pomar

​Alguns dias depois, Jasmine encontrou os dois conversando perto do depósito. Não era uma discussão. Maurício explicava a Elena sobre a resistência de certas fibras de algodão que ele pretendia plantar, e ela ouvia atentamente, sugerindo como aquilo afetaria a trama dos tecidos.

​— Veja, Jasmine — sussurrou Heitor, aproximando-se da esposa. — Eles conseguem falar por mais de cinco minutos sem que ninguém saia gritando.

​— Ela é a âncora dele agora, Heitor — Jasmine respondeu baixinho. — Maurício precisava de alguém que não o olhasse com pena, mas com desafio. Rebekah era o sonho dele; Elena é a realidade.

​O Encomenda de Jasmine

​Naquela noite, Jasmine entrou no ateliê com um pedido especial.

​— Elena, o enxoval está ficando lindo. Mas eu queria que você fizesse algo especial... uma touca e um casaco de lã bem grossa. O inverno na Capital é rigoroso, e queremos que o bebê sinta o calor da nossa fazenda.

​Elena assentiu, mas notou Maurício passando pelo corredor externo. Ele parou por um momento, olhando para as roupas de bebê espalhadas. Ele não entrou. Apenas tirou o charuto da boca, soltou a fumaça e seguiu para o castelo.

​— Ele ainda sofre, não é? — Elena perguntou a Jasmine.

​— Sofre — Jasmine suspirou. — Mas é um sofrimento diferente. Ele está aprendendo que o mundo continua girando, mesmo quando o nosso coração para. E você, Elena, tem sido a engrenagem que o faz caminhar, mesmo que ele não admita.

​Elena voltou ao seu tear. Enquanto os fios se cruzavam, ela percebeu que sua vida na fazenda não era mais apenas um emprego. Ela estava tecendo, fio a fio, uma nova história — para o bebê que viria e, quem sabe, para o homem de gelo que finalmente começava a derreter sob o sol da verdade.