​O grande salão do palácio provincial estava transformado em um cenário de conto de fadas. Velas de cera de abelha iluminavam os lustres de cristal, e a música de uma orquestra completa preenchia o ar. O tema era "Noite dos Mistérios", e as máscaras ocultavam identidades, libertando desejos reprimidos.

​Maurício estava impecável em um terno de veludo preto, com uma máscara veneziana de prata que acentuava a frieza de seus olhos azuis. Ele cumprira seu dever. Dançara com a filha do tabelião, com a sobrinha do ferreiro e com mais três jovens que Heitor garantira serem "ótimos partidos". Ele sorria mecanicamente, trocava gentilezas vazias e sentia uma urgência crescente de escapar daquele formigueiro de segredos e ambições.

​Seus olhos, no entanto, vasculhavam o salão em busca de um vestido carmesim e uma cabeleira ruiva. Mas não havia sinal de Rebekah. Açucena garantira que a filha estava "indisposta" e ficara na fazenda. O coração de Maurício, que ele tentava convencer a si mesmo ser de gelo, apertou-se com a ausência dela.

​A Dama de Prata

​Foi quando a valsa mais lenta da noite começou que ele a viu.

​Ela estava parada perto de uma das colunas de mármore, parecendo uma estátua de gelo sob o luar que entrava pelas janelas altas. Usava um vestido de seda prata que parecia tecido com fios de lua, justo no busto e fluindo em ondas suaves até o chão. Seus cabelos loiros, da cor do mel claro, estavam presos em um penteado sofisticado, revelando a nuca e o contorno de suas costas. A máscara dela era uma obra-prima de filigrana de prata e pérolas, cobrindo todo o rosto, deixando apenas os lábios — carnudos e pintados de um vermelho sutil — visíveis.

​Ela não pertencia àquele salão; ela o dominava apenas com sua presença.

​Maurício, impulsionado por uma curiosidade que não sentia há anos, caminhou em sua direção. Ele ignorou os olhares das outras moças e parou diante da dama de prata.

​— Uma visão tão luminosa não deveria estar escondida nas sombras — ele disse, curvando-se em uma reverência polida. — Aceitaria esta valsa, milady?

​Ela não respondeu. Apenas inclinou a cabeça levemente e estendeu uma mão enluvada de cetim branco. O toque foi leve, mas Maurício sentiu uma eletricidade familiar, uma vibração que ele associou, por um segundo absurdo, ao cheiro de maçãs e terra molhada. Ele balançou a cabeça, afastando o pensamento; aquela loira etérea não tinha nada a ver com a fera ruiva da fazenda.

​A Dança do Silêncio e o Jardim das Sombras

​Eles começaram a deslizar pelo salão. Ela dançava com uma graça divina, seus movimentos perfeitamente sincronizados com os dele, mas sem emitir um único som. Enquanto os outros casais conversavam e riam, o silêncio entre eles era absoluto e carregado de uma tensão palpável.

​Maurício tentou iniciar uma conversa, mas ela apenas o guiava pela dança, os olhos atrás da máscara fixos nos dele com uma intensidade misteriosa. Ao final da valsa, em vez de retornar para o salão, ela manteve a mão na dele e o conduziu em direção às portas francesas que davam para o jardim.

​Curioso e intrigado, Maurício a seguiu.

​O jardim estava mergulhado na penumbra, perfumado pelo aroma de jasmins da noite. Ela o levou para o labirinto de buxinhos, parando no centro, sob a sombra de um chorão milenar.

​O Beijo Proibido e a Fuga

​Ela parou diante dele, a luz da lua filtrando-se pelas folhas e desenhando padrões de prata em seu vestido. Sem dizer uma única palavra, ela deu um passo à frente, diminuindo a distância entre eles. Antes que Maurício pudesse processar o que estava acontecendo, ela se inclinou, agarrou a gola de seu casaco e o puxou para baixo.

​Os lábios dela, quentes e macios, encontraram os dele em um beijo impetuoso, faminto e desesperado.

​Maurício ficou paralisado. O gosto de baunilha e um toque sutil de algo que lembrava... cerejas pretas... inundou seus sentidos. Ele sentiu o corpo dela pressionado contra o dele, a firmeza de seu busto sob a seda prata. Por um segundo, ele se entregou, as mãos subindo para tocar a cintura dela.

​Mas, antes que ele pudesse responder ao beijo com a mesma intensidade, ela se afastou bruscamente. O olhar dela atrás da máscara prata estava límpido, sem o medo que ele esperava de uma dama da província. Ela deu um sorriso enigmático e, sem olhar para trás, correu pelo jardim, sua silhueta prata desaparecendo entre os arbustos do labirinto.

​Maurício permaneceu ali, estático. A mão subiu instintivamente aos lábios, ainda sentindo o calor e o gosto daquele beijo proibido. Seu coração batia como um tambor no peito, e sua mente tentava, em vão, organizar o caos de emoções que o dominava. Quem era ela? Por que o beijara daquela forma? E por que, diabos, ele se sentia tão terrivelmente atraído por uma mulher que nunca dissera uma palavra?

​O Segredo sob a Máscara

​Enquanto Maurício se perdia em perguntas sem respostas no jardim, uma silhueta prata corria em direção à parte de trás da fazenda Nóbrega. Ao chegar perto do pomar, a figura parou, ofegante.

​Com mãos trêmulas, ela retirou a máscara prata.

​Cabelos ruivos, selvagens e inconfundíveis, desabaram sobre os ombros de Rebekah. Ela estava ofegante, com os lábios vermelhos borrados pelo beijo e um sorriso vitorioso no rosto. Ela usara uma peruca loira impecável, um vestido que Açucena mandara fazer para uma festa em outra província e a influência de Jasmine para garantir que ninguém questionasse sua presença ou sua indisposição.

​— "Gata de museu", não é? — ela sussurrou para si mesma, limpando o canto da boca com as costas da mão. — Pois saiba, Maurício Martinez, que a fera da fazenda tem mais segredos e mais fogo do que qualquer peça de museu ou qualquer dama de prata que você já sonhou.

​Rebekah olhou para a lua, sabendo que a guerra entre eles acabara de entrar em uma fase muito mais perigosa. Ela o beijara como Rebekah, e ele respondera como Maurício. O mistério no jardim fora apenas o prelúdio; o verdadeiro mistério estava apenas começando a queimar entre eles, sob a sombra dos Martinez.