O jantar naquela noite tinha um peso diferente. Maurício não estava mais perdido em pensamentos; ele estava focado, com um brilho predatório nos olhos que fez Jasmine trocar um olhar apreensivo com Heitor. Rebekah, sentindo a mudança de maré, mantinha o sorriso desafiador, mas suas mãos apertavam o guardanapo sob a mesa.


​A sopa de abóbora fumegava nos pratos, e o som das cigarras lá fora parecia ditar o ritmo da tensão. Maurício limpou os lábios com calma e olhou diretamente para Heitor, embora suas palavras fossem destinadas a outra pessoa.

​— Sabe, Heitor... estive pensando sobre o inventário da nossa família hoje — começou Maurício, a voz suave como veludo. — Lembrei-me de que Jasmine trouxe algumas joias dos Martinez para cá, como herança. Peças raras, que pertenceram à nossa mãe e... a Katherine.

​O nome de Katherine fez o silêncio se instalar na mesa. Heitor franziu o cenho, confuso.

— Sim, algumas peças. Por que o interesse repentino nisso, Maurício?

​— É que eu me lembrei de uma em específico — continuou Maurício, desviando o olhar para Rebekah, que tomava um gole de vinho com uma calma fingida. — Um anjo de ouro com asas de diamante. Uma peça que Marcus mandou fazer sob medida. Eu jurava que ela estava guardada no cofre do castelo, mas Jasmine me disse que talvez estivesse por aqui, na fazenda.

​Rebekah engasgou levemente com o vinho, mas recuperou-se rápido, limpando o canto da boca.

— Um anjo? Que escolha mais dramática para uma joia — ela comentou, com um desdém forçado. — Parece algo que uma mulher sem imaginação usaria.

​— Pelo contrário, Rebekah — rebateu Maurício, inclinando-se para a frente. — É uma peça para uma mulher que sabe se esconder sob disfarces. O interessante é que eu vi esse anjo recentemente. Em um jardim escuro. Perto de uma boca que tinha gosto de... cerejas pretas.

​Jasmine arregalou os olhos, percebendo para onde a conversa estava indo. Açucena e José apenas observavam, sentindo que aquele não era um assunto para pais interferirem.

​— Cerejas pretas? — Rebekah riu, embora seu peito subisse e descesse com rapidez. — Você anda lendo romances baratos demais, Martinez. O sol da tarde na casa do tabelião deve ter cozinhado o resto do seu cérebro.

​— Talvez. Mas o curioso é que esse anjo desapareceu de novo — Maurício manteve o tom baixo, quase íntimo. — Eu adoraria vê-lo à luz do dia. Sabe, Rebekah, eu adoraria saber se a dona desse anjo tem a mesma coragem de me encarar agora que não está usando uma peruca loira e um vestido de seda prata.

​A mesa ficou gélida. Heitor olhou de Maurício para Rebekah, o entendimento começando a brilhar em seu rosto.

— Maurício, você está sugerindo que...

​— Eu não estou sugerindo nada, irmão — interrompeu Maurício, os olhos fixos nos de Rebekah. — Eu estou perguntando. Rebekah, onde está o anjo dos Martinez?

​Rebekah largou os talheres. O som do metal contra a cerâmica soou como um tiro. Ela sustentou o olhar dele, as pupilas dilatadas.

— E se eu soubesse onde ele está? O que você faria, Martinez? Chamaria o guarda para me prender por roubo? Ou confessaria diante da minha família que se deixou enganar por uma "garotinha que cheira a maçã verde"?

​— Eu confessaria que fui cego — admitiu Maurício, a voz vibrando com uma honestidade brutal. — Mas também confessaria que o beijo daquela impostora foi a única coisa real que senti em anos.

​Rebekah sentiu o rosto queimar. A provocação dele a atingira em cheio.

— Pois então continue cego — ela disparou, levantando-se da mesa com um ímpeto que quase derrubou sua cadeira. — Porque o anjo não pertence a você. E a mulher que o usou... ela não existe para homens que precisam de provas físicas para enxergar a verdade diante do nariz.

​— Onde você vai? — Heitor perguntou, mas Rebekah já estava se afastando.

​— Vou ver se encontro o "museu" — ela gritou de volta, sem olhar para trás. — Talvez ele precise de uma nova peça para a coleção de fracassos!

​Maurício não esperou. Ele se levantou logo em seguida, jogando o guardanapo sobre a mesa.

— Com licença. Acho que a caçada finalmente chegou ao fim.

​O Confronto no Corredor Escuro

​Ele a alcançou no corredor que levava aos quartos, segurando-a pelo braço e girando-a contra a parede de madeira. A luz de uma única arandela criava sombras dramáticas entre eles.

​— Chega de jogos, Rebekah — ele rosnou, prendendo-a com o corpo. — Eu sei que era você. O cheiro, o jeito que você se move... o gosto. Como eu pude ser tão idiota de não perceber que aquela loira tinha o seu fogo?

​Rebekah tentou empurrá-lo, mas suas mãos ficaram presas contra o peito dele.

— Você percebeu o que quis perceber, Maurício! Você queria uma dama misteriosa, uma estrangeira, qualquer coisa que não fosse a "menina" da fazenda. Você me subestima desde que eu tinha dez anos!

​— Eu nunca te subestimei — ele retrucou, aproximando o rosto. — Eu só tive medo. Medo de que, se eu admitisse o que sinto por você, eu me tornaria o monstro que o meu irmão quase foi. Mas no jardim... quando você me beijou... você não me deu escolha.

​— Eu te beijei para provar que você é um tolo — ela sussurrou, a voz falhando enquanto ele se aproximava mais. — Para provar que você correria atrás de qualquer brilho de prata.

​— Pois você provou. Eu sou um tolo — Maurício colou a testa na dela. — Agora me mostre o anjo, Rebekah. Me mostre que eu não estou ficando louco.

​Rebekah meteu a mão no decote do vestido e puxou uma corrente fina. Lá estava ele. O anjo de ouro com asas de diamante, brilhando contra a pele quente de seu peito.

— Aqui está o seu troféu, Martinez. Satisfeito?

​Maurício olhou para a joia e depois para os olhos desafiadores de Rebekah.

— Não — ele sussurrou. — Eu só estarei satisfeito quando você admitir que aquele beijo não foi para me enganar... mas porque você não aguentava mais me ver olhar para outras mulheres.

​Rebekah abriu a boca para protestar, mas Maurício não deu tempo. Ele a calou com um beijo que não tinha nada de mistério e tudo de posse, um beijo que confirmava que a caçada terminara, mas a verdadeira tempestade entre os Martinez e os Nóbrega estava apenas começando.