O Que É Amar?

10 Especial: Pai.


Notas iniciais
Oi, filhotes! Eu voltei, voltei, voltei! 6 meses e 7 dias sem ler seus comentários, foi tão complicado... Sei que devem estar abalados pelo que fiz, principalmente depois de ter feito uma meta de não demorar, não é? A responsabilidade negligenciada pesa nos meus ombros, de verdade... mas tive de passar por algumas dificuldades, e, de fato, precisava de algo para me empurrar para frente. Mas temos de persistir, nunca desistir e tentei e tentei para estar aqui. Perseverar até o fim, é isso que temos de estar em mente. Sei que não gostamos de desculpas, mas sinto-me no encargo de dá-las a vocês. A última vez que postei, ainda estava de férias do meio do ano passado. Como sabem, depois, os estudos precisam receber a devida atenção (estudos em primeiro lugar, certo?), e tive prova geral no fim de ano que necessitou de mim e já como sou ansiosa para quaisquer provas, eu passava por alguns momentos persistentes na minha vida, como sempre. Depois, é claro que tinha tempo para vir, mas precisava de inspiração. E onde poderia agarrar a mão da inspiração? Não entendam equivocadamente, vocês foram de imensa força e suporte para mim, realmente! Quão grata sou por tê-los por perto, sempre me incentivando e ajudando, mandando mensagens carinhosas, favoritando, comentando, recomendando! Vocês são o ponto principal para que a estória não pereça, tenham isso em mente! Porém, eu DE FATO necessitava de inspiração. E ela veio no final do ano, enquanto argumentava com meu irmão sobre essa exata Fanfic, e posso finalmente colocar minhas ideias em sólidas palavras. Outro problema, no entanto, foram algumas adversidades pessoais, o que retardou minha vinda aqui... Mas acreditam que escrever me ajuda imensamente? Assim como o afeto de cada um de vocês! E aqui estou, novamente ativa, depois de sobreviver por mais uma parte de minha vida. Eu sei que vocês querem o próximo capítulo da Fanfic, porém ainda estou desenvolvendo-o, embora já tenha a ideia em mente, e como não quero demorar para vir novamente, eu fiz esse especial para vocês. Não é continuação, avisando, foi apenas uma forma de desculpas, e de gratidão que sinto inchar em meu peito, para cada um de vocês. Espero que gostem, espero mesmo! Aproveitem, e não esqueçam que nunca vou desistir da Fanfic. Aos agradecimentos: quero agradecer estonteantemente a cada um de vocês, leitores queridos. Vocês, cada um, possui um valor imensurável, mesmo que não compreendam, e agradeço a todos que não desistiram de mim, e que não deixaram de me estimular a vir. Obrigada, obrigada, obrigada! Obrigada a todos que recomendaram, a Andy Everdeen, novamente, pelas maravilhosas e, simplesmente, sensacionais palavras, essas palavras que me motivaram tanto, tanto, tanto, e fizeram lágrimas aparecerem em meus olhos. Muito obrigada a Blue, pela maravilhosa recomendação que trouxe um calor reconfortante dentro de mim, obrigada mesmo por tudo. Obrigada a Annabeth Ginevra Lovegood, muito obrigada pelo constante auxílio! Além de ser minha prima, me surpreendeu com essa recomendação de súbito (não me avisou que escreveria essas lindas palavras, huh?) e por sempre estar me apoiando pessoalmente, você é incrível. Quero dedicar esse especial a cada pessoa que comentou, favoritou, recomendou, e a todos que leem e por algum motivo não se mostram, saibam que tenho um apreço por cada um de vocês. Ótima leitura (como senti falta disso!), espero que gostem.

Em três versos, ele irá se compor

Manifestar-se-á com belo esplendor

Alguns serão calmos, outros pois não

Contudo, em todos, será uma serena canção

Em olhos singelos, um doce ardor queimará

Tocará no mais frio coração, e trovejará

1:3

–Percy, você realmente vai fazer o que eu penso que você vai fazer? –Grover perguntou apreensivo, a testa franzida em uma careta indefinida, com a mão direita ocupada ao agarrar a mamadeira da pequena filha do melhor amigo de apenas alguns meses. Ele pigarreou, tentando atrair a razão para si. –Não sei se é a melhor forma de alimentar Silena.

–É claro que é. –retrucou nervosamente o recém-papai. O tom de sua voz alteava-se, mesclando-se com um toque equivocado de indecisão. Estava titubeando? Não fazia ideia. A única verdade a qual o arrancava para a vida era a filha; ter de cuidá-la sem ter o menor conhecimento de como fazê-lo. Tinha de pô-la de ponta cabeça quando chorava? Quem sabe dessa maneira a gravidade a faria desviar-se de preocupação imediata e refrear a onda de angústia dissoluta? Não; não era a solução. Quando tentara fazer isso anos atrás com seu irmãozinho – filho da sua mãe, Sally, e do padrasto, Paul – ele fora arduamente repreendido; por Annabeth, é claro. Ela sempre o censurava. Lembrava-se da vez quando o fitara fixamente com aqueles singulares cinzas duros e austeros e comentara sobre seu cérebro haver sido derretido em uma calda densa de vestígios marítimos. Ele demorara para entender; mas agora observando a filha, ele entendia. Ela o contemplava com a cabeça levianamente inclinada para o lado, os lábios separados em uma abertura onde era possível visualizar a língua rosada encostando nos dentes de um branco puro, recém-formados, e o deslizava em uma curiosidade ainda indesvendável; a expressão era de desentendimento, com os olhos de intenso verde impressionantemente complexos e iridescentes, imitando uma explosão vertiginosa em uma espiral flutuante fincado em um mar infindável e desconhecido; ou, bem, o mar de sua pequena Silena, a qual ainda estava em deriva, em um pequeno barquinho, admirando-se com os únicos detalhes da vida em que ainda estava no início da jornada ampla.

–Por que você não me deixa fazer isso? –Júniper proclama-se, o tom insistente e indiscreto. Seus olhos estavam repousados no rosto delicado da pequena, de apenas alguns meses, com um brilho encantado contrastando-se contra sua pele esverdeada. Grover já sabe qual resposta Percy daria; já estivera muitas vezes na mente dele, de certa forma. Ele não afastaria sua filha de seu toque por um instante sequer.

E foi exatamente o que ele previu.

–Eu consigo. Eu sou o pai dela. Eu consigo –reiterou, obstinado, decidido a chegar ao fim daquela meta em vigor, aparentando querer convencer a si mesmo de sua capacidade. Não havia feito isso naquela semana? Júniper o auxiliaria de muitas formas ao cuidar da garota de menos de um ano de idade quando ele dificultava suas próprias tarefas, e Grover soprava sua flauta canções de ninar para ela, cujos olhos fixavam-se nele, a boca semiaberta em um fascínio espantoso, observando-o tocar. A criança balançava as mãozinhas gorduchas e pálidas em direção ao rosto do pai, indicando sua frustração de maneira nítida, enquanto o rostinho apenas demonstrava a faminta sede, com as pálpebras já trêmulas de exaustão, embora tenha apenas algumas horas quando despertou do seu sono. Ela andava dormindo por uma boa parte do inverno, bocejando com os olhos úmidos ainda impregnados da sublime sonolência tênue como os contornos delineados de uma pétala de flor. Ela costumava deitar-se em seu ombro, exercendo uma pressão leviana nas mãozinhas pequeninas ao agarrar-se em sua camiseta, e assim que cerrava os olhos ele era capaz de encantar-se com a harmonia dos suspiros da pequena sonhando, tão tranquila e serena, como se soubesse, com segurança, que estaria protegida. Porém, no momento, parecia um pequeno filhote de um frágil passarinho, clamando por alimento. Percy sentiu os dedos titubearem. E se ela engasgar-se? E se ele derrubasse o leite no narizinho dela? E se ela se afogasse no líquido? E se...? Sua mão fazia o leite balançar e sacolejar nas paredes de plástico da mamadeira, o que atraiam os olhinhos esverdeados da pequena, cintilando de desejo, encarando atenciosamente aquela bebida dos deuses.

Júniper grunhiu, agonizada com a paralisia de Percy. O filho de Poseidon, porém, automaticamente recuou um passo, no exato instante que a dríade aproximou-se dele com um instinto maternal apoderando-se dela. Grover baliu, preocupado, e depositou seus pés para trás, afastando-se alguns centímetros dos dois, enquanto, metodicamente mastigava o paninho azulado de Silena, utilizado para ela dormitar no colo de seu pai.

–Deixe-me fazê-lo! Você, visivelmente, não está preparado. –Júniper range os dentes, tentando manter o tom de voz cortês para não assustar a pequena, porém ela afinava em um agudo timbre quando alcançou o final da frase, e Percy relanceou o olhar para ela, envergonhado, porém, inabalável e impassível quanto a sua decisão. A dríade virou-se para Grover, trocando um olhar equilibrado de desespero e de um rogo suplicante. O namorado engoliu em seco, e os últimos pedaços retalhados do tecido de ninar da criança. –Grover, a criança está com fome.

“Por favor, não me ponha em mais essa!” pensava em vão, o suplício regido na tonalidade rouca de Júniper fê-lo ser arrastado indiretamente para a situação onde, evidentemente, gostaria de permanecer apenas examinando o decorrer do tempo e as nuvens duradouras em pacífica ordem. Porém, claro que não poderia! Tinha de agir como um maduro sátiro membro do Conselho dos Anciãos do Casco Fendido. Ele direcionou o olhar para o melhor amigo, estufando o peito em aparente destemor, e Júniper mordeu o lábio inferior, aguardando pacientemente, embora escapasse certa empolgação registrada por Percy, o qual virou-se levemente para o lado em um gesto possessivo, tentando esconder a pequena da dríade, temendo ser privado da responsabilidade imposta por ele mesmo.

–Percy. –iniciou o sátiro, erguendo o queixo barbudo, os chifres apontando para cima, onde o céu azul transitava em sua monotonia imutável. Ele vergou suas mãos, o frangalho do antigo pano limpo e imaculado de Silena amassado entre seus dedos, pendendo um fio de lã por entre a fenda do punho. –Alimente logo a sua filha, pelo Olimpo! Você já derrotou o titã Hipérion e você não consegue dar mamadeira para a sua filha inocente e inofensiva? Pelos cascos de Pã!

Júniper sobressaltou-se e encarou-o em incredulidade, um toque de repreensão como se não houvesse dito o que deveria, porém interpondo-se um doce e gentil olhar condescendente, embora fosse vaga em ocultar a sua temperança, refreando aquele apego à pequena. Ela sorriu caridosa para Percy, que amorosamente voltou-se ao rostinho da filha, cujos ternos olhos retribuíram sua atenção, mandando-lhe uma mensagem silenciosa... “Você não vai me dar meu leite?”.

Suas mãos ainda tremiam de relutância. Sua postura empertigou-se, criando uma perspectiva em Grover, embora sua cabeça ainda permanecesse encurvada sobre a pequena face encarando-o com profundidade, como se ambos estivessem flutuando em seu próprio mar extenso, indescritível, imperturbável. Talvez suas palavras tiveram efeito, afinal de contas. Quem diria? Contudo, no momento seguinte, ele rastejou seus calcanhares para diante deles, e ergueu o olhar, surpreendentemente marejados.

–Ela está me encarando com aquele olhar de novo! –anunciou, os cantos dos olhos acumulando-se gotas salgadas resplandecendo com os raios do sol atingindo sua expressão inquieta. Júniper, agitada, mudou o peso dos pés, suspirando desapontada. Grover inspecionou-a, unindo-se em sua tácita decepção. Percy era, de fato, um bravo e honrado herói. Porém, aparentemente, ainda tinha muito de aprender e compreender como lidar com pequenos seres como Silena.

Que olhar, Percy? –as palavras de Júniper saíram pesadas, quase ríspidas. A garotinha acobertava os dedos em sua boca, em um ato de protesto. Não posso ter meu leite, então? Por que vocês não me dão para eu ir logo dormir?, seus olhos pareciam interrogá-los. Ela raramente chorava, o que fazia uma engrandecedora sensação de gratidão dilatar-se no peito de Percy. O que teria feito, caso a pequena houvesse escorrido suas gotas pelas bochechas constantemente enrubescidas?

De qualquer forma, não podia deter-se por muito mais tempo. Por que evitava fazer o que devia e sentia-se impulsionado a fazer? Mesmo com a faminta expressão infantil da garota e os dedinhos buscando desengonçados o seu sustento? Estava terrivelmente assustado. Olhava sem saber o que fazer para os lados, um suor frívolo escorregando pela sua coluna e trazendo um arrepio o qual fez seus membros estremecerem. Os olhos penetrantes da garota concentravam-se nos dele, empáticos, mandando as palavras não pronunciadas “apenas deixe-me agarrar minha mamadeira, e você não precisa fazer mais nada, está bem?”.

–Está bem. –aquiesceu o pai, respondendo com a voz alta com uma leve derrota, fazendo com que Grover e Júniper trocassem um olhar incompreendido, mutualmente armazenando uma expectativa seca e abastada de incerteza. Percy, porém, vergou a mão e lentamente, com suave brandura, permitiu a pequena que bebesse o líquido que tão ardentemente clamara por. Assim que a garota começou a bebericar, com seus burburinhos ligeiros enquanto saciava com voracidade o leite, cuja quantidade desaparecia depressa, sumindo aos grandes goles vindos de uma pequena boquinha rosada. Percy sentiu-se iluminar os pensamentos, seus membros uma massa incorpórea, suas pernas enfraquecidas pela sensação que o bebê de alguns meses perpassava-o, como uma lâmina de dois gumes; ao mesmo tempo fortalecendo-o em suas decisões, e debilitando sua força em manter-se de pé. O leite escorregadio inclinado para a boca faminta de Silena borbulhava, bolhas estourando no ápice, e ele sentia o repuxão da pequena ao remoer o leitoso líquido pálido nas bochechas, enviando a Percy um sorrisinho enviesado ao observá-lo com carícia nos olhos genuínos da filha, um lícito sorriso destrinchando os amorfos sentimentos pesarosos de dentro dele.

O gorgolejo engasgado da pequenina trouxe-lhe de volta com um arranco febril de sua mente. Ela já havia acabado. Já?! Será que quando Percy era de seu tamanho ele era tão energético e sôfrego ao alimentar-se quanto sua filha? A pequenina pressionou os lábios juntos e soprou-os, soltando uma burburinho afogado com a boca molhada, como se houvesse engolido uma chispa juntamente com a última gota de leite, uma fagulha salientando-se nos olhos hipnotizantes da garota, encarando-o divertida, fazendo Percy soltar uma gargalhada relaxada, jovial, um riso pleno, sublime e tão puro como há tanto tempo não dava. Como se estivesse ali desde o início, Júniper repentinamente postava-se a sua frente, delicadamente retirando de suas mãos a mamadeira vazia, sem conter uma única gota remanescente. Percy não conseguia concentrar-se nos amigos, quem evidenciava fascinados, ensoberbecendo-se do ímpeto do semideus, o qual alcançara seu glorioso objetivo. Ele vidrava-se na garotinha, soluçando pelo consumo voraz do leite, ele limpando com seu dedão uma gota do líquido que escorria pelo canto dos frenéticos lábios da filha, onde a língua de Silena tentava absorver qualquer resquício perdido. Quando tossiu abruptamente, ele tentou acalmá-la, erguendo suas costinhas e balançando-se de maneira letárgica e leve, para não lhe causar mal-estar. Logo, ela conseguiu conter suas tosses, e voltou seus olhos para o pai, os grandes e umidificados olhos, aqueles olhos. Como se o perscrutassem, como se os estivesse lendo agindo de forma que ele parecia-lhes um livro aberto, como se o conhecesse mesmo sem antes de ter uma conversa decente com o próprio pai, com os sábios olhos de Annabeth Chase. Embora a tonalidade dos olhos e a baba derramando-se da boquinha dela ainda assemelhavam-se estonteantemente com ele. Obrigada, papai, mas na próxima vez, não demore tanto, está bem? Se tiver mais um pouco agora, eu também não vou reclamar..., diziam-lhe como o suspiro sem voz de seu pulmão, exalando odores da tarde acalorada do acampamento, os retinidos das espadas combatendo-se ao longe, murmúrios dos campistas sendo afastados pelo ciciar das folhas das árvores, por onde esgueirara-se, em um recanto pacífico das folhagens, próximo a árvore de Júniper, e do pinheiro de Thalia, ainda dentro da cobertura da barreira do acampamento. Contudo, de qualquer forma, a pequenina herdeira não aparentava demonstrar incômodo com a constante agitação do acampamento em ensolaradas tardes, onde os meio-sangues encontravam-se no auge para livrar-se da abafada sensação do picar dos raios solares em sua pele, enquanto praticavam suas atividades rotineiras. Silena abriu um abismo ao bocejar em um prolongado acesso de sonolência, piscando repetidamente ao encarar o pai mais uma vez, levando os punhos minúsculos em direção aos olhos, cerrando a pálpebra esquerda enquanto fitava as malhadas luzes dos raios solares picotando os troncos das árvores e as folhas amareladas.

–Não foi tão difícil, foi? –o sátiro deu-lhe uma batida nas costas, incentivando-o significativamente a endireitar as costas, alargando o sorriso preenchido de satisfação, enquanto uma sombra dançava em seus cabelos cacheados, conciliando com a atenção da garota cansada. –Olha só, a garota está até dormitando como os próprios filhos de Hipnos no Pavilhão!

Como se compreendesse o assunto da conversa ser ela mesma, seus olhinhos abriram-se, em um célere esforço para manter-se desperta, e fixaram-se no rosto de Grover, em seus chifres espiralados no topo de sua cabeça, até por fim, encaixar sua cabecinha no reconfortante ombro do pai, um pouco abaixo, na região da escápula, e assim que sustentou-a no corpo de Percy, ele sentiu seus pezinhos mover-se, suas pernas deslocando-se para encontrar uma posição adequada, e ele começou a embalá-la ao sono, que conseguia facilmente reconhecer em seu nariz macio e delicado em uma retraída expressão, seus olhos admitindo a volta daquele companheiro amistoso e íntimo, abraçando a bebê em sua graciosa forma miúda, acomodada nos braços simétricos do pai e aparentemente feitos sob medida para ajustá-la em uma reconfortante posição.

Grover circundava com seus braços a cintura de Júniper, a qual olhava sonhadora para o pequeno ser nos braços de Percy, a mamadeira frouxamente segurada pela ponta dos dedos da mão direita, pendendo no ar, estendidos na lateral do seu corpo enquanto com o nó da mão esquerda, apoiava o queixo. O sátiro prosseguia em seu argumento, sobrepondo os olhos para o alto, para as copas das árvores sacudindo-se em sua liberdade infinita, os bondosos galhos lançando peculiares pedaços de sombras frescas no corpinho da pequenina. O melhor amigo de Percy, imperceptivelmente, sacudia o paninho em frangalhos o qual digerira metade de seu bordado artisticamente entranhado.

–Às vezes eu temo em o que ela pode estar especulando em fazer comigo quando ela penetra em mim esses olhos... Se você consegue me entender. Talvez ela esteja pensando: ”olhe lá, mais uma vítima para minha futura armadilha de sátiros indefesos”, ou quem sabe “por que não rabiscar em seus belos e gloriosos chifres de sátiro o meu desenho favorito enquanto este dorme? Ele servirá como uma ótima folha de papel!”, ou talvez...

–Shhh. –Percy chiou baixinho, interrompendo-o com um ar jocoso direcionado a suas palavras. Seu rosto estava abaixado, o corpo curvado na miúda figura em seus braços, em que apenas o contorno era distinguível em meio a tantas camadas de tecido para protegê-la. Ele enviava sua minúscula atenção secundária para o velho amigo com a visão de canto pousada em seus traços congelados. Seu sorriso arrastou-se delicadamente para o lado ao sussurrar: -Ela caiu no sono.

***

Silena, com já três anos, caminhava pela casa da avó com os pés cobertos pelo sapatinho preto com um pensamento impreciso, sendo perseguida pelo tio de oito anos, o garoto de Sally e Paul, meio-irmão de seu pai nascido um pouco antes dela mesma. Ela não visitava sua avó frequentemente, embora ela, sempre que possível, ajustasse um passeio no chalé de Long Island. Na realidade, ela quase nunca pisara fora do acampamento. Entreouvira uma conversa de seu pai com Quíron sobre começar a introduzi-la ao mundo dos mortais conforme crescia. Pelo que aparentava, ela iria começar a viver no apartamento do pai, e logo seu lar definitivo quando não estivesse no acampamento, dali alguns meses, o que a entusiasmara ao mesmo tempo que um misto de temor, pânico e nervosismo inflava em seu estômago, como uma bolha fumegante prestes a explodir em um jato de um acético veneno para deteriorá-la. Ela não contara a seu pai o que auscultara pela porta entreaberta da Casa Grande, porém interrogava-se constantemente o que teriam para surpreendê-la naquela cidade a qual nunca visitara, de fato. Será que encontraria ninfas e sátiros saltitando pelas ruas em trajes de executivos como, às vezes, os filhos de Hermes se vestiam para o Halloween? Encontraria armazéns de armaduras por perto de onde seu pai morava antes de instalar-se no acampamento temporariamente, quando ela nascera?

Ulisses, era como o seu tio chamava-se. Ele segurava sua mão como se necessitasse guiá-la pela casa como um guarda-costas particular. O garoto a abraçava e fazia cócegas quando pensava que ela não o percebia. Tentava fazê-la rir com caretas enquanto comia, enquanto ela o fitava com os olhos verde-mar semicerrados. Ele também tentava carregá-la pelas salas, enquanto ela estudava-o com as sobrancelhas arqueadas, sem conseguir entendê-lo. Seu tio era constante quando o visitava. Porém, também podia ser insensato. Como às vezes onde, ao invés de treinar arco-flecha, ficava deitado no sofá lendo histórias em quadrinho com os quais ela não era capaz de ler. O que raios aquelas tinturas pretas estendendo-se pela folha significavam? Como o tio podia lê-lo com tamanha naturalidade?

Embora ainda o reconheça como o mais velho, e o respeitava como meio-irmão de seu pai, não compreendia como ele podia ser tão imaturo. Ele desenhava dinossauros em folhas de papéis. Silena ficava consternada com os rabiscos que apenas crianças são capazes de distinguir. Quando mostrara à ele o modelo que cuidadosamente riscara do dragão do acampamento, Peleu, quem salvaguarda o velocino de ouro no pinheiro de Thalia, e a quem Silena sempre observa dos montes no campo de morango, e relatara para ele sobre os detalhes do dragão quando as escamas roxas cintilavam ao sol, quando este descansava nas tardes claras enroscado na árvore de Thalia, resfolegando fumaças mornas, seu tio apenas franzira a testa e inclinara a cabeça, como se nunca houvesse visto um dragão antes, e achasse que ela estivesse apenas inventando um amigo imaginário. Ela não conseguia entender o porquê ele a chamava de ‘imaginação ativa’. Olha quem falava, se não era a criança que desenhava dinossauros como se um dia houvesse escalado suas enormes e grosseiras patas encouraçadas e voado de carona em um dos parentes da criatura, porém essa com gigantescas asas esqueléticas e dentes pontiagudos, um falso clone de um dragão; um dragão verdadeiro. Ora essa, como ele nunca vira uma Harpia de perto alguma vez? Ela pensara que todas elas limpavam a cidade nas frívolas noites, quando a lua repousava em sua imensidão escura, como no acampamento, porém apenas ao vislumbrar as calçadas da cidade podia examinar que elas eram ausentes naquele trecho da cidade.

Ela estava tão ansiosa a respeito da informação de mudar-se para lá dali algumas semanas, que estava distante enquanto o tio a colocava em seu colo e empenhava-se para fazê-la gargalhar enquanto fazia caricaturas com suas feições engraçadas. “Por que você não ri?”, ela o ouvia perguntar, com um soar ranzinza em seus olhos azuis como os de sua avó, Sally. Entretanto, como resposta, Silena torcia os lábios, olhando para seus cabelos arrumados, tão diferentes dos de seu pai perpetuamente bagunçados, inclinava-se no seu colo e mexia nos cachos do cabelo castanho, nitidamente mais claros do que os negros do seu pai, enrolando-os nos dedinhos enquanto o tio ria de sua compenetrada expressão, e gentilmente afastava a mãozinha para longe.

Enquanto os adultos, contudo, conversavam na sala, ela foi brandamente aconselhada para brincar com Ulisses nos fundos. Contudo, por que ela não poderia espionar apenas um pouco, encostar ligeiramente o ouvido na porta para ouvir a voz de seu pai, de sua avó e de Paul? Ao tempo que seu tio agachara-se debaixo da cama vasculhando entre a poeira para agarrar o bichinho de pelúcia que Silena, estrategicamente, arrastara para o fundo, em um conspiratório silêncio ela andou nas pontas dos pés até a sala. Conseguia vagamente discernir a voz do pai estendendo-se no corredor.

–Eu tenho medo de não conseguirmos disfarçar nosso odor dos monstros... quer dizer, mãe, você sabe como era quando eu era menor. E agora, com Silena ao meu lado...

–Vai dar tudo certo. –a voz de Paul interceptou-o, em um tom benigno para acalmá-lo. Porém, a hesitação que pairava no ar apenas trouxe a Silena uma tensão nos músculos, mesmo entendendo tão pouco do que diziam.

–Aliás, você não pode privá-la de conhecer o lado mortal da vida, Percy. Pode ser que seja difícil no começo, mas você vai encontrar uma maneira de mascará-los. Confio em você. –a voz mansa da avó trouxe-lhe carinho, e ela teve uma impulsionada vontade de correr para seus braços calorosos, onde ela lhe contava histórias inimagináveis de habitantes cujas vidas nunca haviam presenciado um ataque de um monstro ou ouvido falar do Olimpo nos tempos atuais, como se as esquecessem e abandonassem da mesma forma que crianças faziam ao escutar de suas mães quando pequenos sobre contos de fadas. Dizia até que existia algo que os separava da vida a qual Silena sobrevivia, algo chamado Névoa! Gostava desses contos de ninar. Porém, como se lesse sua mente, sua avó acrescentou. –Lembre-se o como vai ser bom para ela, o que aconteceria se ela continuasse a pensar que meus ‘contos mágicos’, como ela os adotou, da vida aqui, não são reais? Como ela lidaria com o mundo quando crescesse...?

Silena não conseguiu mais ouvir as palavras, pois a voz ciciante de Ulisses chamou-a, acusadoramente. Ele segurou seus pulsos, delicadamente embora ainda firme, e puxou-a para a cozinha, repreendendo-a de maneira responsável. O que ele estava tentando parecer? A mente de Silena enevoara-se com a frustração amuada. Ele ainda desenhava dinossauros aos oito anos, pelos raios de Zeus! E agora ele estava tentando impedi-la de descobrir mais sobre como seria aquela vida longe da fogueira de brasas empáticas do Anfiteatro, que constantemente adquiria uma cor diferente nas noites cantantes?

–Silena, você ouviu o que a mamãe disse, por que não vamos brincar com o Sr. Bófis, sim? –ele insistiu, apoiando a perna direita no chão e suspendendo as mãos no joelho esquerdo, tornando-se do nível da altura da pequena, que tornou a expressão taciturna, criando um muxoxo e um olhar sombrio contornando as linhas simplórias do tio. O Sr. Bófis era um ciclope de pelúcia que comprara da loja suspeita do acampamento, quando ela pedira permissão ao pai a fim de obtiver o presente para o tio. Percy desconfiara e avisara-a sobre se ela estava decidida se queria presenteá-lo com um item do acampamento, porém Silena estava resoluta em sua decisão. Ela descobrira mais tarde que os fios entranhados da pelúcia eram feitas de ninhos de epigeias, contudo estava perseverante em não deixar aquela informação escapar para os ouvidos de Júniper ou Grover.

–Não. –opôs-se a pequena, cruzando os braços sobre o peito em uma evidente recusa, um protesto firme e inflexível. Ulisses afrouxou o aperto no punho de Silena, analisando-a enquanto a pequena impunha passos para trás, tentando ouvir com atenciosa atenção o que os haviam claramente mandado para evitarem de interferir.

–Silena... –ele começou, porém estancou quando um silvo baixo estourou na parede ao seu lado e ele sobressaltou, encarando a parede a qual formara uma mínima rachadura na superfície de concreto. Ele ligeiramente espantou sua concentração de Silena e aproximou-se das tiras da parede, que ramificavam-se do ponto inicial onde destacava-se. Ele imaginava com ardor se havia um rato habitando por lá, contudo não era algo tão banal quanto aparentava. Ele sacudiu a cabeça e voltou-se para a garotinha, que tinha os punhos cerrados enquanto, de boca semiaberta, ouvia as vozes quase inaudíveis, incrédula.

–Talvez a Névoa pode ser potente o suficiente para encobri-la por enquanto... –ouviu Paul sugerir. Contudo, não demorou para seu pai retrucar.

–Talvez, mas ainda não sei ao certo se vai funcionar. E quando eu tiver de levá-la na escola? Como vou saber se ela estará segura lá como sempre esteve no acampamento? Ela não vai estar no ambiente em que está acostumada... –sua voz parecia aflita, uma afiada faca cortando o coraçãozinho da garota, que sentiu a pressão em seus próprios pulmões.

–Agora você sabe como eu me sentia... –sua avó alteou a voz, nem um pouco trêmulo, resistente e lutador, perseverante em convencê-lo da escolha certa. Mas qual seria essa escolha? Silena relutava em saber. Já não conseguia acompanhá-los. Estariam falando da Névoa dos contos de vovó? Escola? Seria uma espécie de acampamento menor? Será que lá haviam aulas de montar em pégasos, como havia no acampamento meio-sangue? Não conseguiu escutar o que sua avó falara em seguida, pois seu tio, obstinado, com expressão severa que não combinavam com as feições ainda infantis de garoto, fez um movimento para detê-la. O aperto nos pulmões aumentou, aquela aflição que sentira no seu pai. Estavam discutindo sobre ela, e ela não poderia saber a razão? Por quê? O que eles falavam? Ela queria entender.

–Silena, vamos lá, seu pai vai me matar se souber que a deixei ficar aqui. –ele resistiu, mas Silena meneou a cabeça em negação, confidente em permanecer no mesmo lugar. Não queria dar problemas ao tio, porém também queria desvendar sobre o que eles conversavam. Seu pai sempre lhe dizia tudo... e por que não lhe revelara seus planos a respeito dela mesma? A compressão intensificou-se, emparelhando sua respiração regular. Por que seu pai não falara com ela? Eles nunca escondiam nada um do outro...

–Não, papai... –a voz chorosa de Silena expressava sua confusão, estampada em seus membros retesados. Havia aquele mundo, aquele estranho mundo o qual vovó contava-lhe para dormir? Aquela Névoa, que ocultava sua realidade dos olhos indesejados... Mas não eram apenas contos? Como podia existir outra realidade senão a qual vivia? E o que era aquela escola que seu pai dizia que iria colocá-la? Será que ela fizera algo de errado para ele não a querer mais?

Ulisses tentou dar um passo para frente, em sua direção, a fim de acalentá-la, porém, subitamente, um jato de água jorra da rachadura na parede, um fluxo constante de água propagando-se para fora com força o suficiente para arremessar o tio de oito anos para o chão. Um rangido escapa por um cano contorcido que sobressaía-se da camada de tinta da parede como um ressaltado osso de uma perna quebrada. Silena sente o repuxão no estômago enternecendo-se, aquela aflição sumindo vagarosamente para, por fim, estancar, ao mesmo instante que o esguicho de água desvaneceu. Uma leveza acarretou sobre ela, da mesma maneira que os pássaros deviam sentir-se ao libertarem-se de uma gaiola, pensava ela.

A porta da sala foi escancarada e três pares de pés apressados escorregaram pelo piso úmido da cozinha. Percy conseguiu apanhar a mãe a tempo de ela não cair no chão do cômodo, acostando sua mão em suas costas, Paul apanhando o batente da porta antes de seus pés perderem o equilíbrio no encharcado piso. Silena virou-se, assustada, as bochechas enrubescidas de uma vergonha incontrolada. Percy imediatamente pousou seu olhar para ela, e intercalou-se até o encanamento explodido. Silena ouviu um arrulhar de roupas molhadas atritando-se e gotejando e voltou-se para o tio. Ulisses estava caído de costas, tentando sentar-se desajeitadamente, os cotovelos como apoio no chão, o rosto contorcido por alguma perturbação, e completamente ensopado. Silena em um gesto automático, ajoelhou-se e começou a balbuciar desculpas enroladas pela língua, tocando os fios do cabelo castanho do tio como se pudesse secá-los instantaneamente, e ele apenas incrustava seus fixos olhos azuis nos seus verde-mar, como se pudessem enxergar algo por trás de seu rosto culpado.

–Pequena? –era a voz de seu pai, pacífica, inatingível, seus passos tão mudos sem o chapinhar dos sapatos na água. Ele pousou sua mão de maneira bondosa no topo de sua cabeça, acariciando seus cabelos em movimentos tranquilizadores. Era evidente que ele sabia o que acontecera. Ela, porém, não conseguia mais compreender o que estava havendo consigo e a sua volta. Ela olhava para o tio, sem, de fato, estabilizar seu foco em seu rosto, fitando-a com curiosidade. –Você está bem?

O regular respigar das gotas do encanamento escorregando até o piso forrado por uma camada de centímetros de água marcavam as compassadas batidas de seu coração acelerado. Seus olhos preencheram-se de lágrimas ressentidas, e ela abruptamente tornou-se para o pai e envolveu suas pernas, abraçando-as com sua estatura baixa. Percy agachou-se, e apanhou seus braços, envolvendo-os calorosamente. Silena mantinha os olhos baixos, embaraçada e entorpecida. Os dedos de Percy pegaram seu queixo e delicadamente elevaram-no para que pudesse encontrar seu olhar. Ao contrário do que Silena pensara, ele não demonstrava fúria, decepção, tristeza ou desamparo. Ele estava repleto de preocupação, conforto e amor. Um complacente e imutável amor que conciliou-se no peito da pequena, e trouxe-lhe o alento que necessitava para apaziguar seu interior conturbado.

–Por favor, papai, não me abandone. Não me abandone, papai... –ela começou a despejar as lágrimas salgadas como o próprio jato particular. Percy surpreendeu-se, e por um momento, apenas envolveu-a com seus braços avolumando-se em seu corpinho e acobertando todos os frágeis membros fraquejados da filha, passando sua palma morna nas costas frias da criança, até senti-la estancar seu estremecimento. Afastando-a minimamente, concentrou-se em aprofundar-se na imensidão do mar da filha, cujas ondas despejavam gotas na face ruborizada e terna. Com seu dedão, ele secou-as, empurrando uma mecha de cabelo para trás de sua orelha, passando os dedos delicadamente pelos seus cabelos louros assentados nos ombros.

–Silena, querida. –ele sussurra-lhe, manso, paternal, aquecendo seu temor, dissipando suas dúvidas e conduzindo-a novamente para fora das trilhas perdidas da floresta em sua mente, onde parecera tê-la engolido. Seu olhar era firme e determinado, convicto e cuja intensidade a fazia saber da veracidade de suas palavras. –Eu nunca, nunca, nunca vou abandoná-la. Jamais. Você é minha preciosa filhinha, e eu nunca vou deixá-la. Está bem? Eu prometo.

A pequena fungou, tragando a macilenta sensação para um buraco dentro dela. Ela estendeu o dedinho mindinho e Percy, sorridente, entrelaçara seus dedos. Ele tocou-lhe o nariz com o seu, e o alívio espantosamente trouxe-lhe um descanso que seu exausto coração ainda congelado precisava. Ela, timidamente, remexeu os pezinhos na água imóvel sob a sola de seus sapatinhos, o qual permanecia seco como se ao invés de água, pisoteasse areia quente.

–E essa terrível escola? Você não vai me deixar lá, vai? –soou um tanto hesitante, e ouviu uma risada veemente atravessar a garganta do pai. Ela franziu seus lábios, pressionados um contra o outro. Isso era um sim, ou um não? Ela não conseguia definir. Ele tocou a ponta do narizinho com o dedo, leviano como o beijo da brisa da noite trotando em seu rosto.

–Não se preocupe, a escola pode parecer os Campos de Punição a princípio, mas ela não é nada disso. –ao ver o olhar abismado de Silena, e seu aperto em seus antebraços, uma pergunta já formulando-se em seus lábios, o medo pretendendo abocanhá-la com seus mil dentes, Percy acrescentou, enrodilhando seu rostinho nas suas mãos em concha. –Eu fiz minha promessa, pequena. Eu não vou abandoná-la, jamais. Sempre vou estar com você, não precisa temer o que você vai descobrir ao crescer, aos monstros que vai enfrentar, aos desafios que vai ter de aprender a sobreviver, ao que terá de estimular a controlar, e principalmente, no que você está prestes a conhecer, e não é, dessa vez, uma nova raça de caranguejo, está bem?

Silena anuiu, um calor abrigando-se naquele vestígio de gélida apreensão. Seu pai mandou-lhe um olhar agradecido, um enobrecedor sorriso que encheu sua mente de esperança e carinho. Lançando ao meio-irmão, por cima dos ombros da filha, um acalentado olhar que trouxe-lhe de volta a vida os movimentos dos membros momentaneamente paralisados. Percy pressionou suavemente suas mãozinhas e beijou-lhe as palmas.

–Ótimo, pequena Sabidinha. –um sorriso enviesado iluminou sua face, indicando com um olhar pretensioso sua mãe, que encontrava-se sustentada por Paul. Sua avó havia pegado uma toalha limpa para o filho, embora Silena não notara seu ligeiro sumiço, e assim que Ulisses aproximou-se o suficiente, Sally encobriu-o com a toalha e esfregou suas mãos em seus braços para esquentá-lo. –Por que não ajuda sua avó a limpar a cozinha? Eu posso consertar o encanamento com Paul.

Obediente, ela o fez como o pai pedira. Desculpou-se com sua avó, que apenas balançara a cabeça, dispensando o comentário desinteressada; acostumada, talvez, a tais eventos. Ficou ao lado de seu tio todo o tempo após ter auxiliado a avó a limpar o chão da cozinha e ao fio de água que escorregava pelo corredor parecido a uma trilha de lesma ao cintilar nos contornos do luar.

Ulisses não deixara-se abalar facilmente, e assim que obteve a oportunidade, examinou a sobrinha com intenso interesse, agarrando o ciclope de pelúcia que ela havia lhe dado com um dos braços. E, com um olhar azulado brilhando envidraçado, demonstrando um vigoroso cuidado ao inspecioná-la, enquanto a pequena recuava sua cabecinha, olhando-o inexpressiva com uma insegura linha curiosa no rosto. Ele fascinou-se, questionando:

–Quem você é, Silena?

Porém, ela não replicara por simplesmente não saber o que lhe oferecer como resposta. O que era? Por Poseidon, se seu avô tivesse todas as respostas para ela. Contudo, ele não tinha, e ela manteve-se calada, sem entender o que o seu tio indagava. O que ela era, ora... Lembrava-se de quando Rachel a modelou em um quadro de pintura, e, ao visualizar como ela a retratara, observou sua figura pequena flutuando em uma paisagem subaquática, tocando uma estrela-do-mar cravejada em uma rocha negra forrada de musgos e inconsequentemente adornada de corais. Silena havia apontado para a estrela-do-mar e abraçado forte o oráculo do acampamento, enquanto ela ria alegre. Rachel dissera à ela que chamara o quadro de ‘Silena-do-mar’; seria ela uma espécie rara de estrela-do-mar? Antes porém de dizer ao tio sua dedução, seu pai aproximara-se e assegurou que a cozinha estava novamente em condições favoráveis para perambular, e ela imediatamente fora com ele com a promessa do sanduíche azul de seu pai.

No último dia, entretanto, sua avó aproximara-se dela, com as mãos entrelaçadas atrás das costas. Silena estava com a malinha aos pés do sofá, enquanto aguardava o pai paciente, assistindo um desenho do tio na televisão. Sua atenção, porém, desviou-se e cravaram-se na avó quando ela assentara-se ao seu lado, piscando para o filho de oito anos que balançava os pés pairados no ar na alta poltrona de seu pai.

–Silena, eu quero lhe dar uma coisa antes de você ir. –murmurara a avó, enquanto a colocava em seu colo, ajeitando-a nas pernas que movimentavam-se em um balanço equilibrado onde a pequena acomodou-se, aprazível, enquanto encarava fixamente a avó. Estendendo uma das mãos ocultadas nas costas, ela lhe ofereceu uma embalagem de concha a qual escondia algo desconhecido em seu interior. As mãos de Silena apalpavam interessadas, tentando interpretar o que havia para a surpreender. Inclinando-se para frente, ela pousa um beijo na bochecha da avó ao agradecer-lhe com voz serena, sentindo os dedos pentear detalhadamente seus cabelos, crescendo dentro dela um sono que dessensibilizava seus sentidos.

Sem perceber antecipadamente, sente os dedos familiares, e o calor da respiração do pai ao repousar seus dedos em seu rostinho cambaleante ao recusar-se a adormecer. Suas pálpebras pesadas abriram-se com empenho, e os olhos dóceis do pai são a primeira visão que descansa a sua frente.

–Hora de ir, pequena. –ele sussurra baixinho, ao trilhar um caminho pelas suas bochechas com seu toque amistoso, e a garota assente, notando com eficácia a sua avó parar com as carícias em seu cabelo, sentindo agravada a sua privação. Silena estica os bracinhos em direção do pai, espantando com uma sacudida na cabeça a umidade dos olhos, de cansaço, embora não tenha estado inquieta naquela tarde. Percy apanha-a, agarrando-a e aninhando-a em seu peito, onde ela abraçou seu pescoço, olhando uma última vez para a avó ao lado de Paul, e o tio acenando para ela tranquilamente da poltrona. Ela retribuiu, levantando a mãozinha, abrindo e fechando os dedinhos.

No caminho para o apartamento de Percy, seu pai a transferiu para seus ombros, carregando-a com cuidado, as mãos afirmadas nas perninhas de Silena, que enrodilhava os braços na testa do pai, encostando sua cabecinha nos seus cabelos negros e bagunçados. Vendo a concha nas mãos da filha, demandou, afetivo.

–O que a vovó lhe deu, pequena? –ergueu os olhos, altivo, e Silena abaixou-os para fitar os verde-mar absorto nela. Ela endireitou-se, de forma delicada para não desestabilizar-se. Pegando a concha com as duas mãos, ela abriu-a com seus dedinhos frenéticos, deslizando a tampa azulada em segmentos para o lado, revelando docinhos de diversos formatos, sabores e odores, embora houvesse apenas um ponto em comum: todos eram azuis, de distintas tonalidades, porém azuis.

–Olha, papai. –ela, estarrecida em empolgação, abaixou a concha ao nível dos olhos do pai, e Percy, levantando as sobrancelhas, soltou uma breve e saudosa risada. Silena retirou momentaneamente os olhos brilhantes dos doces, e fixou-os nos de seu pai, a incompreensão visível.

–São os mesmos doces de que me lembro! –exclamou em um argumento pouco explicativo para Silena, que fechou a conchinha e remexeu nos fios do cabelo do pai, em admiração pelo que ganhara e pela reação do pai.

–A vovó também já deu um desses para você? –adivinhou, inalando a leve inspiração marítima dos cabelos do pai, ao esfregar seu rostinho no topo de sua cabeça. Percy fez um ruído de confirmação, meneando afirmativamente a cabeça.

–Muitas, e muitas vezes. Quando eu era menor...

–Como eu? –a cabecinha de Silena aprumou-se, os dentes expondo-se no seu sorriso empolgado.

–Sim, como você. –e com um pulo, fazendo Silena soltar uma risada aguda e firmar-se com mais afinco nos ombros do pai, encolhendo-se minimamente. Ele parou em frente a uma porta, talhada com cores discretas e pastosas, a madeira rebuscada e antiga. Silena, paulatinamente, observou os detalhes com ávidos olhos penetrantes, tentando desvendar onde a porta daria, exatamente como Percy recordava-se de como Annabeth o tinha feito na primeira vez que estivera ali. Ele sorriu, satisfeito, uma suave nostalgia acometendo-se sobre ele, e, mansamente, perguntou com carinho nos lábios e cautela na feição, escolhendo as palavras e pronunciando-as lentamente. –Você quer conhecer seu novo lar?

Like a river flows surely to the sea
Darling so it goes
Some things are meant to be
Take my hand, take my whole life, too
For i can't help falling in love with you

–Elvis Presley, "I can't help falling in love with you".

2:3

Aos cinco anos, Silena puxara-o para longe da fogueira do acampamento, conduzindo-o até a praia. Seus pequenos pés alimentando-se das passadas fugazes que batucavam na areia. Estava eufórica, levando-o à inclinação produzida pelo mar, e aconchegando-se no colo do pai, quando ambos sentaram-se naquele tapete familiar.

–O céu, faz tempo que o estudou pela última vez? –Silena havia perguntado, nos lábios surgindo um almiscarado sorriso que confrontou o pai. Ele conseguia lembrar-se da última vez que estancara das obrigações e olhara para cima, na noite? Ultimamente, ao menos, não era muito frequente.

–Eu não sei, pequena. –respondeu-lhe sinceramente, incorporando a visão a explosão do céu, os ruídos faiscando em seu ouvido, levados por uma corrente ausente; ruídos de insetos vagos, cantantes.

–Ora, talvez seja por isso que tem tantos pesadelos! –grasnou sua filha, como se o repreendesse de um grave engano, a voz um tanto magoada. Quando Percy remexeu-se, não compreendendo o que a filha queria que interpretasse, ela prosseguiu, em um insistente e cadente sibilo infantil. –Nós podemos ficar um tempo aqui? Sentados, olhando para o céu?

Ele retornou seu olhar para o céu embrumado, acobertado calorosamente pelo forro negro, pelo negrume abrandado, embebido em um degustador horizonte acima, sempre humilde, sempre constante e paciente, contemplando-os enquanto aguardava ser retribuído em seu afeto. As estrelas salpicavam a tela, rebuscada e ornamentada em prateados pontilhados, formando insinuados trajetos pelo mar embrulhado em esperanças arremessadas para cima, para o alto, para o confiante olhar no qual Percy podia sentir em seu rosto, enquanto fitava as estrelas, os pequenos pontos, os pequenos centros de energia, refugiando apenas para ele; para ele e para a filha. Por que não olhava mais para o céu? Por que, por tanto tempo, se contentara em mirar seus pés? Não era muito melhor, mais confortador, observar o que havia sobre sua cabeça, sempre contínuo e imutável, persistente em mandar o alento brando de sua luz esquálida para as folhas verdes, e para aquela areia inumerável, o mar inseparável de seu banho no luar, tingido de um suave e radiante espelho da lua. A quietude retinia em seu ouvido, um balbuciar dos mudos sussurros da noite tranquila que derramava-se sobre eles.

–Pai? –o soar de sua fala retumbou pelo seu ouvido com uma harmonia diligente, franca, bondosa, mansa como um vento aplainando ao seu redor, roçando seus cabelos e fustigando os fios dourados dos de sua pequena criança, tão delicados, tecido com benevolência pelos dedos finos e ágeis os quais trançaram com tanto cuidado os cabelos de sua filha, e os traços genuínos e gentis que tocavam-lhe sua visão com ternura. –As estrelas. Elas estão dizendo boa noite.

Percy abriu um largo sorriso complacente, coberto da mais doce e antiga cantiga de amor. Ele passou os dedos pelas louras madeixas, flutuantes em meio ao tocar da melodia das sinuosas e disciplinadas brisas. Contornou seu narizinho e deslizou seu tato pela sua bochecha com delicadeza.

–Sim, elas estão. –ele murmurou saudoso. Lentamente, deitou-se sobre as minuciosas partículas mornas da areia da beira do mar. Seus pés descalços sentiam o beijar das bordas das ondas rachadas, seus braços estendendo-se e esticando-se no solo arenoso e formigante, as águas regularmente, sem desviar de seu percurso, arrastando-se até a metade de sua panturrilha, trazendo-lhe um alento almejado, acariciando sua pele com seu toque macio e leve que apenas as águas carinhosas do infindável mar poderiam lhe oferecer. A pequena jazia a cabecinha em seu pescoço, o corpinho miúdo quase sem peso. Ela alargou a mão para cima, vislumbrando sua palminha minúscula diante do infinito céu extenso, gloriando-se em sua magnificência para os dois pares verde-mar saborearem. Percy pairou sua mão ao seu lado, a palma enorme e os dedos longos comparado aos dos da pequena, que entreolhou os dois com uma fascinação que apenas seus olhos cintilantes podiam expressar. –Tão distantes e tão próximas. Quer saber um segredo que elas me sussurram?

Silena assentiu entusiasmada, sobrevoando o olhar para cima, para onde os olhos do seu pai enveredavam em seu rostinho, examinando suas feições ternamente. Ele pôde nitidamente delinear a pressa com a qual sua paciência media-se, a curiosidade de cada palavra que saía dos lábios do pai, como se fossem conselhos sábios os quais jamais gostaria de esquecer, como se os quisesse conservar, armazenar, em seu frágil e abrangente coração, pronto para receber novas experiências. Percy olhou para cima, enevoando sua palma e levando a pequena mãozinha para o lado, onde, pelas frestas de seus dedos, abrigavam-se ao alto três unidas estrelas e seu brilho sutil.

–Elas sussurram-me sobre você. Dizendo-me assim: olha aquela pequena e bela garotinha! Como gostaríamos de tocar-lhe esse narizinho sempre disposto a flagrar nossos aromas frescos e valiosos, especiais para ela! Como gostaríamos de pentear esses cabelos que voejam nos nossos ares noturnos, brincando com nossos parentes, as pequeninas fadas que acompanham-na ao correr, tão pequenas que ela não consegue as ver! Como gostaríamos de beijar-lhe a cabeça, essa que tão prontamente volta-se a nós e nos elogia com tantas e frondosas palavras! Como gostaríamos de dizer-lhe o quanto a apreciamos... –Percy falou baixinho, as letras estendendo-se sozinhas, gracejando para fora por vontade própria. Ele guiou a mãozinha da filha em direção a uma particular estrela reluzindo sua luz que atravessava a escuridão para acomodar-se nos olhinhos astutos da garota, aqueles verde-mar que tanto amava, aqueles verde-mar que ávidos passeavam pelo dueto da noite. As chamas que abrasavam o acampamento lançavam sua faixa de claridade no espaço onde deitavam-se. Porém, Silena parecia tê-lo esquecido, parecia compenetrada no timbre do pai, nas canções das ondas do mar, nos enfeites do céu. Tão naturalmente cândido que fazia-o imaginar o que fizera para tê-la consigo. Parecia uma enorme benção puramente incomensurável.

–Elas dizem mesmo, papai? Mesmo, mesmo? –a pequena fechou os dedinhos, tentando agarrar aquela incendiada estrela a sua frente. Estariam as estrelas, de fato, assistindo-a? Estaria aquela pequena luz, a qual parecia ter sido respingada desordenadamente em uma cena enegrecida, falando-lhe com suas vozinhas agudas e sensíveis? Silena confiava no pai, e o que ele dizia, certamente era verídico. De uma maneira, ou de outra.

–Mesmo, mesmo. –Percy confirmou, tão seguramente confiante, cuja veracidade de suas palavras persuadiu a pequena a tê-lo firmemente gravado em marcas elegantes em suas entranhas. Contudo, Silena não queria parar de ouvir sua voz, e escorregando sua língua nas palavras certeiras, ela pronunciou-se com a esperteza e a habilidade em manejar as letras a ponto de bordá-las em um tecido cuidadosamente alinhado.

–Você acredita que quem sussurra essas palavras é a mamãe?

Percy, por um instante, permaneceu calado, sem encontrar as devidas palavras para sintonizar com a resposta que já aguardava para ser transmitida. Ele encostou o queixo nos cabelos de Silena, sentindo o aroma da terra levemente úmida, dos galhos e folhas caídas das árvores envolvendo o acampamento, e principalmente, do saliente odor de jasmins e madressilvas, acrescentando-se aos das águas marítimas, todos misturando-se, dissolvendo-se em um só aroma que inundava os sentidos de Percy, transbordando e enobrecendo seu olfato, embriagando-o. Ela perambulava pelas florestas do acampamento, conhecendo caminhos e trilhas que, nem mesmo ele tinha consciência de sua existência. Sabia disso pois certa vez ela levara-o até uma clareira desconhecida, onde os troncos das árvores eram tão espessos, e galhos estendiam-se tão amistosos, que era possível escalá-los acima para as copas, de onde era capaz de perpetuar-se a visão de todo o acampamento, de onde era visto o tingir dos raios do sol colorindo as folhagens esverdeadas de alaranjadas, avermelhadas, rosadas, como se corassem diante da visão inesperada de Silena e seu pai. E dessa cena ele recordou-se quando o perfume de Silena revolveu seus sentidos, levando-o a uma pacífica alvorada nos silenciosos sussurros da noite.

–Os sussurros... –Percy restituiu a construção das palavras, reforçando as amarras dos membros esparsos das letras, ornamentadas com esmero. Um sorriso dócil escorregou pelos seus lábios, torto e desejoso de memórias insaciáveis, sedentas. Ele acariciou os cabelos da pequena. –Sim, pequena. Eu acredito que esses sussurros são ditos pela sua mãe.

Silena ficou por um momento em silêncio inalterado. E, repentinamente, pronunciou-se, a voz quase inaudível, meticulosamente modeladas e ponderadas, sussurrando sua fala que fora carregada pelo ar preponderante, abnegadamente, austero em sua determinação de aninhá-las nos ouvidos do pai.

–Você acha que pode enviar uma mensagem para ela? Apenas uma pequenina frase, para a mamãe? Será que você pode dizer que fui eu quem a mandou? –as perguntas exalavam uma adorável esperança, uma luz a qual aumentava, expandia-se, dilatava-se enquanto elas acocoravam-se e prendiam-se na mente de Percy. Uma brasa pareceu aquecer seu coração. Uma mensagem para a mãe... uma frase para Annabeth... de sua filha. Será que ela a ouviria? Será que ela estaria ouvindo?

–Sim, sim. –ele respondeu reticente, alteando a voz e esforçando-se para não aparentar estar incerto ou desconcertado, e sim destemido e valente como sempre empenhava-se em aparentar para a filha. –O que você gostaria de dizer-lhe, minha garota?

Os dedos de Silena espalhavam-se pelo ar, habitando entre seus dedos, como ramos de uma árvore, ou raízes de uma planta firmemente enraizada, as estrelas disseminadas pelo teto categórico de figuras dançando e rodando pelo espaço, como uma dança sincronizada, em seus pulsantes refúgios do brilho contínuo, amenizando a dor pungente do peito de Percy. Quando Silena falou, a voz era calma e despreocupada, vívidas, trazendo ao resquício de sofrimento amargurado da fenda ainda cicatrizando em seu cerne, uma fresca e abundante paz há muito perdida.

–Diga-lhe... diga-lhe que eu sinto sua falta.

3:3

Luzes na escuridão despertavam a pequenina a instantes regulares, cambalhotas de estrondosos ruídos faziam-na cambalear para fora da cama, e finas linhas inconceptas, definhadas, em um emaranhado de rabiscos incompreensíveis, obrigavam-na a levar suas mãozinhas aos olhos, e tampá-los como uma venda. Seu vestido longo arrastava-se ao chão enquanto tropeçava em seus dedos desajeitados enquanto dirigia-se a cama familiar e tão conhecida pelo seu tato, e pelo seu odor marítimo. Era como estar no mar, naquele mar pacífico e azul-esverdeado, cuja tonalidade encontrava sempre que abria os olhos do pai. O que o fez assim que saltou para cima da superfície altiva do colchão, após escalar os cobertores com agilidade instintiva.

–Papai, pa-pai. –ela sussurrava em um desespero angustiado, seus braços desamparados aconchegando-se no colo da silhueta enroscada debaixo das cobertas, e ela sacudiu-o, pressionando suas palmas suadas de temor e um terrível horror que tirou-lhe o fôlego dos pulmões contraídos assim que escutou mais um turbilhão de gritos ensurdecedores. Ela arremeteu-se para debaixo dos travesseiros, e transformou a coberta em uma manta apenas dela, forçando-o contra o agarro do pai, ouvindo-o resmungar baixinho, em um letárgico sono.

–Pai? Papai? –ela continuava a sussurrar, gaguejos incoerentes escapando de seus lábios trêmulos. Era a terceira noite, e embora seu pai a tenha acalentado em todas as outras, não imaginava que as garras da tal tempestade a qual seu pai a relatava que chamasse fosse afiar ainda mais suas presas para atirar-se contra ela. Ela encolheu-se, seus membros enfraquecidos pelo medo, pelo apavorado e frágil pânico. Como seus pesadelos a atormentavam. Estavam virando realidade. –Por que papai não acorda? –murmura ranzinza, franzindo o narizinho contorcido em destemor, e atingindo a coragem a qual era capaz de reunir, livrou os braços do tecido aquecido e trotou-os para a figura ao lado, dormitando enquanto sonhava, babando enquanto retraia-se de frio. Porém, sem despertar.

Silena apoiou as perninhas pequeninas em seu tronco, arrancando um grunhido lamurioso, e cravou seus dedos em seus ombros, trazendo-o para perto e pulando em seu encontro, seus joelhos enterrando-se inocentemente em seu estômago, sufocando-o e sobressaltando-o a ponto de fazê-lo sentar-se empertigado em uma posição hostil e aterrorizada. Ao enxergar sua filha observando-o em um toque de surpresa e curiosidade, ele fechou a boca escancarada e tentou puxar uma longa baforada de ar antes de recostar-se novamente nos travesseiros, rangendo os dentes ao trazer os braços para o corpinho da pequena, para ajeitá-la em seu tronco. Suas pálpebras cerraram-se cautelosamente mais uma vez, aparentemente sem perceber os rugidos furiosos vindos do exterior.

–Princesa, ora. –sua voz exalava uma rouca e fascinante paciência treinada durante seus anos com a criança. Ele tossiu em seco e silencioso tormento, franzindo a testa quando a garotinha sucumbiu novamente para seus braços, enrolando com vigorosa determinação o tecido ao redor de si. –Mais um pesadelo?

Silena encarou-o, desviando seus olhos da janela ao lado, a qual emitia bafos gélidos de suas frestas congeladas. Olhou-o fixamente em um espanto visível, aproximando seu rostinho do dormente de seu pai, impávida, embora paralisada por dentro; uma paralisia cuja eficiência espalhava-se aos poucos sobre os sentidos dela. Ela balançou a cabeça e balbuciou um protesto logo interrompido por um encarregado pacote de ira e fúria vindos das correntezas e descargas elétricas pulsantes vibrando em seu interior. A pequena afundou seus cotovelos no tórax do pai, ao tentar esconder-se em um melhor refúgio, fazendo um arquejo abafado estender-se no ar.

–Silena... Silena, querida, será que você poderia afrouxar um pouco o aperto, filhota? –ele implicou em uma súplica contagiante, a qual embriagou a garota com uma temerosa comiseração pelo pai ao compreender o que pedia. Ela desculpava-se reticente ao rolar para o lado e aterrissar em sua lateral do corpo, detectando um suspiro aliviado dos órgãos de seu pai. Contudo, ao voltar a focalizá-lo, sua cabeça tombava novamente para dentro do macio e suave travesseiro, apoderado do sono bucólico, e grudento.

A pequena irritou-se, porém aquela cólera logo foi estoicamente empurrada para o fundo de seu âmago ao sentir um tremor sob seus pés ao escutar mais um ronco profundo e desafiador, uma nítida ameaça para si mesma. Porém, ela não queria atendê-la. Queria apenas voltar a dormir. Mas não sabia como. E queria que seu protetor a salvasse. No entanto, ele estava ocupado construindo sua própria lagoa ressecada. Ela bufou, exasperada, um misto de comoção e ardor submergindo nela.

Olhando para os lados, e vislumbrando apenas a negra escuridão, limitando um demarcado espaço iluminado do aceso abajur deslocado ao lado, ela encouraçou-se em fixar seu pai. Os pingos socavam o telhado, estocadas bruscas tingindo o vidro das janelas, atingindo seus pensamentos. Ela estava com medo.

–Percy, acorda. –ela chamou-o, a voz delicada, apenas um risco no tumulto de fora, cujo caos invadia sua tranquila moradia, sua pacífica esperança. Ela encaixou as mãozinhas no rosto do pai, mexendo-o, investigando onde poderia ser o ponto fraco para largá-lo da inconsciência. Ela tentou abrir suas pálpebras; soprar em seu ouvido; obstruir suas narinas. Nada. E então, sentiu sua garganta embargada, e os trovões, ribombando, ressoando, raios e relâmpagos assustando-a, fizeram-na derrubar lágrimas gentis e submissas, aquelas que sustentaram-se nas bochechas do pai, escorregando pela sua bochecha. Silena cobriu o rosto, tentando ocultar o barulho e a luminosidade com o tecido, distanciando-se de seu pai com um agitado sentimento explodindo em seu peito. Ela era impotente. Tudo o que queria era ouvir a voz do pai, sentir seu toque aconchegante e acalorado enquanto ele contava-lhe uma estória para que pudesse esqueceu dos delatores trincados roncos.

Percy remexeu-se, inquieto. A gota a qual lançava-se para seu queixo foi interceptada pelo seu dedão. Ele sacudiu a cabeça, bocejou, esfregando os olhos e abaixando a cabeça para a barriga, porém sem encontrar o que buscava. Silena? Não fora ela que chamara-o? Tateou, apreensivo, ao seu redor, e encontrou um vulto salientado no espaço a sua direita. Ele deu um pulo ao achegar-se em seu ouvido o gutural eco do trovão, as luzes piscando borbulhantes na parede oposta a qual a janela descoberta da cortina postava-se. Um frio arranhava suas pernas e seus braços, subitamente sem o calor do cobertor ou da sua pequena criança. Uma tempestade? Era a terceira consecutiva. Em sua exaustão não devia ter notado. E onde sua filha havia ido? Não estava ela em seu colo há poucos segundos? E agora lá estava, encobrindo-se em uma isolada camada do tecido dos cobertores. Ele, sem entender, tentou vagamente puxá-la para si, porém ela estancava-se no colchão com uma veemente força. Ele sentou-se, tentando descobrir a sua filha, tentando ver seu rostinho no monte de tecido.

–Pequena? Você está aqui? –ele cutucou a montanha brandamente, e pôde senti-la retrair. O timbre entorpecido pela dormência acoplava-se rapidamente na vastidão do silêncio abrasador pairando acima dele. Ele deixava o sono tão ávido quanto apegava-se ao autocontrole compatível a seu desejo protetor para com a pequena filha de quatro anos. –Silena, não tema. Pode me dizer, por que você se esconde?

–Você não quer saber. –escutou o moreno, esforçando-se para dedicar-se a discernir sua vozinha amena a qual tanto amava em meio a chuva ruidosa e aristocrática. Sentando-se apressado, apoiou-se nos joelhos e diminuiu a distância do pequeno trapo enroscado no canto da beirada da cama. –Você não acordou quando tentei chamá-lo.

Percy encostou a testa na cabana improvisada da filha, o remorso sobressaindo-se nele. O remorso, e a frustração. Não, não havia. Quando sua pequena corria para seu quarto em noites como essas, sempre abrigava-se no abraço de seu pai. Lembrava-se vagarosamente de atender ao pedido da filha e retornar ao sonho cujas vívidas lembranças não recordava-se mais, porém não tivera a necessária decisão de despertar. Não importava, apenas que a pequenina teimosamente não o permitiria pegá-la em seus braços e enrodilhá-la com seu carinho – não nesses instantes. O que faria para acalmá-la? Um segundo trovão corroeu a casa, e a eletricidade estalou, aprofundando-se na densa escuridão.

–O que aconteceu? Você apagou as luzes? –escutou a voz delicada da filha, aguda de espanto, trêmula de hesitação. Conhecia sua garota, e sabia o quanto ela não gostava de permanecer no escuro. Ao menos, não por muito tempo. Talvez conseguisse conciliar-se com ela ao encontrar uma iluminação decente. Ele, fugazmente, escorregou da cama e apanhou a lanterna de uma das gavetas de seu criado-mudo. Acendeu seu faixo de luz, e apontou-o para a indicação onde a garota estava. O timbre da garota era marejado, gotejando pavor e ansiedade. –Papai, onde você está?

–Aqui. Estou aqui. –firmou suas mãos no topo do monte de cobertor e pôde sentir seu corpo afogar de uma tensão deslaçada. Ele sorriu minimamente, deitando a cabeça na extremidade do monte, deduzindo ser a cabecinha da filha. –E quanto a sua pergunta anterior, pequena. Não, eu não a apaguei. Acabou a energia. –apegando-se na borda do tecido, tentou levantá-lo, porém ainda sentiu a pressão da garota, negando-se a seu pedido, opondo-se a sua condição. Ele prendeu um suspiro de notável tortura. –Desculpa, filha. Sinto muito. O papai está cansado, você sabe? Não descansei muito bem ontem à noite. E tive um longo dia no trabalho hoje de manhã.

Silena, debaixo das cobertas, sentiu um nó entranhado no estômago. A chuva era reduzida a um fio ao pensar em como fê-lo ficar acordado com ela até o sol nascer na noite passada, quando a chuva, muito parecida com a qual despencava naquele momento, ainda serpenteava seu trajeto para a queda em declive, pedindo-lhe para cantar canções amparadas para guiá-la a dormir. Ela soltou seus dedos da coberta, e pôde senti-la erguer-se em uma lentidão ponderada, e os olhos esverdeados do pai fitando-a preocupados, naquele tom reconfortante como ela amava, visível pelo túnel de luz. Ela secou as lágrimas nas costas das mãos, e acometeu-se para os braços abertos do pai. A pequena Silena abraçou-o com força, mergulhando sua cabeça em sua cintura e chorando desenfreadamente.

–De-desculpa, papai. Eu... eu não que-queria ter feito aquilo. –sua voz parecia fraca, contudo Percy acariciou seus cabelos com compadecida e frenética ternura. Ele puxou as cobertas para perto, e acomodou-as nos ombros indefesos da filha, enquanto ela continuava. –Eu estou com medo... Tanto medo...

Um soluço ruiu-se no decrépito som cortante da tempestade zumbindo nos arredores de sua casa em Manhattan. Silena intensificou o aperto cingido em seu quadril, e Percy sorriu compreensivo. Curvando-se, embalando-a contra seu corpo e levando-a até os travesseiros arremessados no colchão, ele enlaçou seus braços pelo seu corpo miúdo e beijou-lhe a testa molhada de suor, mesmo que a noite tenha tornado o ar gélido e crepitante.

–Está tudo bem. Tudo bem. Viu só? Estou aqui, você está aqui comigo. –Percy amorteceu a dor no peito de Silena, ao traçar bondosamente círculos com os dedos em suas costas. Os olhos etéreos da pequena fincaram-se nos dele, idênticos, reluzindo na luminosidade. Ela fungou, sentindo-se segura. Seu pai demonstrou a lanterna e fez a faixa dançar morbidamente na parede lisa a sua frente. –E temos uma luz. Isso não é ótimo, pequenina? Temos um ao outro, e um pequeno ajudante. Está tudo perfeitamente bem.

A criança assentiu, em parte titubeante, parcialmente em irrefutável afirmação, concordando empolgada. Caso seu pai o estivesse falando, isso significava que era verdade. Ele não mentia para ela. E ela saberia caso o fizesse. Percy enviesou o canto dos lábios em um triunfante sorriso verídico, em uma vitória sem combatentes. Um trovão próximo trouxe-lhes um eletrizante e empático repuxão na ponta do estômago, porém um transcendente riso de seu pai friccionou o medo de Silena até amassá-lo ao pó. Ela cobriu-se até o queixo com o cobertor, desolando-se para dentro do abrigo.

–Ora, por favor. –o riso estendido de seu pai aglomerou-se em uma harmoniosa conclamação. –Zeus não cansa de assustar pequenas crianças. Posso imaginá-lo escarnecendo dos medo genuínos no Olimpo! Ah, mas se eu pudesse... Quem pensava... Ele parecia um bebê quando roubaram seu raio mestre tantos anos atrás, mergulhando-se em prantos... –sua sentença não foi finalizada pois um raio converteu-se tão próximo de sua casa, que pôde auscultar sua colisão com o solo e o ouvido de ambos apitaram como se alertassem-no de medir suas palavras antes de proclamá-las em alto brando. Percy, porém, apenas olhou incrédulo e zangado para a janela onde aplainava o céu tenebroso no alto. Silena pressionava as palmas no ouvido, lágrimas marcando trilhas em seu caminho quando tentou, em vão, segurá-las.

Quando Percy abaixou sua visão para o rosto pálido da garota, ele assombrou-se e secou as gotas com seus dedos devotados, sua expressão jocosa transformando-se em uma culpada mesclando-se com pavor incontestável. Porém, lapsos de segundos após Silena ter distinguido tal feição, ele transmutou-a para uma sublime mansidão contagiante. As rugas formadas na testa da criança desfizeram-se, e um natural sorriso brando brotou de seus lábios antes crivados em agonia deliberada pela sua falta de cautela. Agora, ao prestar atenção aos silvos docilmente picotados pelas nuvens, adornando sua audição em belas molduras, ele podia ter a convicção de que, de qualquer forma, Zeus não poderia interferir. Ou ao menos, desejava acreditar nisso e passar a sua confiança para sua pequena.

–A questão é –o tom incrustado de uma franqueza abnegada comedindo sobre Silena como um apaziguador de seu temor, agora, há tempo ignorado, velou pelo seu contentamento. –eu também não me divertia muito com o espetáculo do Senhor dos Raios quando era menor.

A chuva parecia flutuar ao redor de Silena. A pequenina estava absolvida em sua voz consoladora, retumbando altiva em seus ouvidos devido ao seu pai inclinar-se perante ela e sussurrar com um tom enigmático, para assim rotear o funil de luz para o teto, fazendo-a observar as estrelas incandescentes que ele havia pendurado quando ela era menor e não conseguia dormir sozinha. Apenas para ela não temer a escuridão, e fita-las enquanto embalava em um sonho pacato, mudo. O brilho fulgurante dos empecilhos entalhados pelo seu avô Chase já perdia um pouco da ardência fervorosa dos primeiros meses perdurados acima de suas cabeças.

–E o que aconteceu? –a sua voz soou apagada, interessada intensamente na resposta de seu pai. Ela virou sua cabeça para olhá-lo detalhadamente, examinando-o como se tentasse desvendar o que seu pai escondia por trás de sua destemida coragem para combater os terríveis raios que a perturbavam. Tentando delinear uma maneira de enxergar os contornos das sombras como ele. Ela realmente queria, queria poder conhecer e compreender o que ele enfrentava, vislumbrar aquele céu sereno que ele comtemplava; aquele guerreiro sem armadura, aquele bravio sonhador firmemente enraizado em uma linha abstrata com ela, aquele herói sem disfarce, aquele impotente guerreiro feroz e sábio sem a assustadora feição inexpressiva de imprudência, aquele mestre enternecido sem rígidas ordens e sim uma bela, bela e doce voz, com uma forte ressonância ao mesmo tempo cuidadosa por um palpável temor de rachar o fio cálido que os unia. Como ele conseguia? O que ele fizera para vencer? Para vencer seus medos, suas assombrações? Ele parecia empunhar uma intrépida valentia cujas faíscas a faziam admirá-lo, uma fascinante mistura de respeito e uma reverência implacável.

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Percy deve ter percebido em seus olhos a engrandecedora centelha da simplória e arrematadora fascinação, aquele encanto que por vezes encontrava quando ela fitava-o em desconexa concentração, e ele retribuía-lhe o olhar e podia imaginar entoar arabescos refinados, em linhas delicadas e aristocráticas, em seus olhos estroboscópios como um redemoinho no meio do mar, formando um círculo hipnotizante que conhecia tão bem e fazia-o lembrar daquela a qual escapara de seu alcance.

–O que aconteceu, pequena? –ele aflorou um sorriso grandioso, e tocou-lhe o nariz com a ponta do dedo. Ele havia desanuviado seu pesadelo, como sempre fazia. E assim que escorregou seu toque pela suas bochechas, ela soltou um riso idílico e glorioso que impactou-se em seu encontro e fê-lo puxar a pequena para mais perto de si. Murmurando em seu ouvido e encarando a paisagem afora com um foco distante, como se nada daquela amorfa forma e complexa tenebrosidade a qual Silena via fosse realidade. –Eu soube que nada disso poderia me derrubar, porque eu poderia sempre me levantar caso um raio me atingisse.

Silena ficou por um instante aprumada em silenciosa ponderação. Uma calma apoderando-se dela, os pingos na janela em sincronia com os batimentos de seu coração novamente autocontrolado, em um domínio único e humildemente obediente as palavras do pai, que pareciam tê-lo libertado de uma escravidão de teias. Levantar-me... sim, levantar-me. Um relâmpago lançou seu ofuscante clarão no quarto, atirando vestígios de sombras no chão, o trovão rasgando espaço na fresta de seu peito. Porém, agora, ela não sobressaltara-se; já esperava por sua aparição. E, dessa vez, não sentiu a gélida mão agarrar seu coração e apertá-lo com demasiada força a nível de prender sua respiração em uma sufocada e sulfúrica sensação. Ela... levantar-se? Um formigamento atravessou seus braços quando girou seu corpinho e apalpou o rosto do pai, postando suas mãozinhas entre seu rosto, e encarando-o com um sobejado rubor saliente nas maçãs do rosto, seus lábios truncados abrindo-se em uma veracidade resplandecente.

–E eu também posso? Eu também posso levantar-me? –e após alguns segundos, seus ombros nivelaram aos poucos para baixo, sua intercalação embaraçando-se nas palavras, porém mantendo-se decidida de não ceder ao medo que ameaçava tomá-la novamente. –Você... você vai me ajudar?

–Definitivamente. –replicou o pai de prontidão, acostando sua mão nas pequeninas dela e as apanhando, embebedando-as dentro de sua palma. –Quer saber, Silena? Você é mais forte do que eu mesmo. Creio que conseguiria suportar o peso de todas essas nuvens nubladas, de todo esse céu tingido de opressão, o parquinho de diversão de seu tio-avô.

A pequenina balançou a cabeça, protestando em sinal de contradição, embora sua própria gargalhada abarrotada de inocência e sincera compaixão para com as distrações que, por ora, seu pai a arremetia a fim de espairecer sua mente das preocupações ignorantes, ínfimas e amargas que apoderavam-se de seu domínio próprio. Não, queria dizer-lhe, não, você é. Sou fraca e pequena, desengonçada e descoordenada. Não. Você é capaz de suportar toda a Terra e todo o Céu por mim, não é? Percy, como se houvesse lido em seus olhos a preponderante ponderação em sua consciência lânguida, sorriu paternalmente, meneando a cabeça e silenciando os mortos distorcidos em sua própria mudez, fatiando a luminosidade na parede, tentando permanecer desperto para a pequena que, atenciosamente, examinava seu rosto para assegurar de não ter ficado solitária mais uma vez. Começou, então, a fazer formas indiscerníveis obscuras diante da lanterna, formando as sombras na tela neutra de concreto.

–Percy? –Silena, nitidamente considerando a sonolência do pai, conclamou usando seu nome pelo qual de tempos cada vez mais meticulosos, chamava-o, ignorando a tradicional pronúncia que filhas alegam aos pais. Achava-se adequado, e talvez considerava-se suficientemente madura para manusear nomes de tal maneira. O moreno encurvou a cabeça, as sobrancelhas arqueadas em equívoco, encorajando-a a prosseguir. Ela empurrou um acre gosto armazenado na língua para dentro da garganta, e pigarreou antes de continuar. –Conte-me uma estória? Só umazinha. Umazinha e vou dormir, papai. Eu prometo.

Percy olhou pensativamente para a garota, meticulosamente calculando as probabilidades de sua palavra ser verídica e de que ela iria cumpri-la. No entanto, não havia como desviar-se daqueles grandes e esperançosos olhos marítimos tão conhecidos, pois eles o fitavam com tamanha privação de sono a qual evidente e insone realidade conhecia, de qualquer forma, que ela não viria a assentar-se até ele atender seu pedido; e, de maneira alguma poderia abster-se de seu dever de, clara e devidamente, representar seu papel como pai em sua própria história inacabada.

–Está bem, jellyfish. –o Filho de Poseidon lançou um gentil sorriso acalorado, mandando à ela um incentivo enternecedor, estimulando a ascensão da gloriosa determinação de pequena em sufocar o medo em uma claustrofóbica sala onde poderia separá-la de sua própria consciência. Acariciava seus cabelos com a ponta dos dedos, desenlaçando os nós ramificados em seus louros fios tramados com, ao parecer, linhas delicadas de um hábil tecelão dourado, alastrando-se pelas suas costas com tortuosas madeixas envolventes. Era tão liso e macio quanto lembrava-se, daquela que havia se escondido e aguardara o ponto final de seu procedimento linear alinhar-se. –Que estória você quer que eu lhe conte, pequena? A de quando sua mãe, Grover e eu ficamos presos no Cassino Lótus? A do parque aquático quando Ares nos enganou e quase acabamos sendo alvos de ser transmitidos ao vivo no Olimpo? A da Medusa? A dos cavalos carnívoros no Rancho Triplo G? A de quando sua mãe me surpreendeu pela primeira vez no Monte Santa Helena? Hm, já sei, àquela de quando visitei o palácio de meu pai pela primeira vez? Você adora essa, não?

Ela retorceu o lábio, erguendo uma das sobrancelhas em equivocada conspiração. Por fim, meneou negativamente a cabeça, as bochechas infladas de ar e os lábios trincados de decisão, ela dispensou as alternativa com um gesto pouco convincente no ar. As faces ruborizadas, e seu olhar esquivando-se para a janela em suspeitoso desconcerto.

–Não, não, não, não, não e não. Muito descuido, muita pressão, muita vingança, muitos dentes, muito frequente, e muitas explosões! Não acho que seria o ideal para o momento... –ela contorceu o nariz, em uma nítida e compenetrada insegurança. Percy sabia que ela relutava em desfazer as monocórdias que, uma vez, seu pequeno amigo no acampamento dissera-lhe quando ela relatara para a turma a qual pertencia no treino de arco e flecha a história que eles, a ver pelos seus rostos exaustos e limitados a demonstrar erudição, não suportavam ouvir mais uma vez. “Por que você não pede para ele contar-lhe alguma outra coisa?”, Silena constara as palavras do garoto para o pai quando chegara ao chalé à noite. Contar o que, mais? Ela já absorvera todos os eventos da vida do pai. A criança soou apreensiva quando ditou a frase que teimava em não sair de seus lábios. –Uma nova. Uma inventada, criada por você.

Percy aprumou-se, endireitando a coluna e fixando-se na parede a frente, uma confusa nuvem apinhando ao redor de sua cabeça, avolumando-se em sua mente como um enxame de vozes perdidas infiltrando-se em uma fresta aberta em sua cabeça. Uma nova estória... não devia ser tão difícil. Não era ele quem espionava em noites banhadas pelo luar Annabeth desperta no meio da escuridão sussurrando com voz aveludada para o bebê em seu útero, ainda crescendo, estórias fantasiosas cujos espectros ainda permanecem, ciciando para ele em abruptos anoiteceres quietos a qual movimentação era feita apenas pelas partículas permanentes de respiração que circulavam na órbita da janela? Sim, sim... O que poderia narrar para ela? Baixou a cabeça, observando a pequenina ilustrar imagens agravadas por sombras com o faixo de luz da lanterna. Um imperceptível sorriso triunfante surgiu em seus lábios, adornando sua face com uma radiante sensação empolgante, a qual fez seus dedos formigarem assim que encobriu a mão nas pequeninas dela e figurou aquáticas algas distorcidas na parede, dançando como as gotículas de chuva derramadas pelo céu.

Silena ergueu os olhos, a cabeça levianamente inclinada para o lado, tentando desvendar em suas linhas faciais o que sua mente transpunha em seu olhar cintilante, acobertando as expectativas da garotinha que logo tornou a ter sua atenção baseada nas sombras desconexas do pai.

–Em certa época do ano, na mais fria e enregelada era, quando a noite parecia nunca acabar, a eternidade dos burburinhos no fundo do mar, havia uma pequena luz que aumentava, aumentava de tamanho e magnificência conforme os anos se passavam. Porém, ela era tumultuada, empurrada e ricocheteada por correntes de águas bruscas, que a jogavam de um lado para o outro, até que por fim ela refugiou-se debaixo dos grãos de areia de um poço profundo, um profundo buraco provocado por uma desconhecida ação natural. –e assim, com o punho fechado, fechou um amplo espaço ao redor de um canto do quadro iluminado. As algas de Silena desfizeram-se, contudo, antes de ela desleixarem suas palmas no colo, Percy, sorrindo timidamente, segurou-as, e novamente as volveram para a posição anterior. Silena anuiu, transformando uma das mãos em um peixinho desproporcional e quase irreconhecível, olhando orgulhosamente para seu pai, o qual acrescentou com o timbre balanceado inundado de um baixo sino enigmático. –Aquela luz a qual resplandecia tão plena e grandiosamente, ficou enterrada em uma escuridão constante, e logo foi esquecida pelos seres marítimos cujos sentimentos foram apagados devido a mesma vela calorosa que os deixara... Porém, isso não significava que seria completamente esquecida. Uma pequena água-viva muito curiosa e desajeitada, acabara tropeçando em suas próprias perninhas esticadas, e quem poderia julgá-la? Aquelas longas pernas fluindo incessantemente nas águas, dispersando-se por todos os lados, provocando para a natureza notá-la e amarrá-la em um nó. Ela tropeçou nelas, exatamente como aquela vez quando Bessie entusiasmou-se quando tentou demonstrar-se para você no ar, em uma elegante apresentação formal no ar, e escorregou, caindo do aquário, lembra-se? –Percy inclinou-se para a filha, e ela gargalhou com uma fina e amável voz, recordando-se daquele ano, aparentemente longínquo, quando ela visitara o Olimpo pela primeira vez com seu pai e Thalia ao lado. Em sua visão restrita, o evento parecera ter ocorrido quando ao menos reconhecia a ordem de sua família, porém toda a névoa melancólica e corrosiva a haviam largado quando o Ofiotauro intercedera a reunião dos Olimpianos para atrair a sua atenciosa atenção. –A pequena água-viva despencou pelo buraco. Lentamente, como se escorregasse de um longo trajeto por entre um túnel de nuvens sólidas o suficiente para sustentá-la, e volumosas o bastante para acalentá-la com seu toque suave e delicado. O que ela, de fato, precisava. Estava sentindo-se solitária, introduzida em um pesadelo onde não conseguia libertar-se, porque ela tinha medo do escuro. E o escuro era tudo o que ela podia ver. –Silena agarrou sua manga, e torceu-a, imersa em suas palavras como se as visualizasse se decorrendo a sua frente. Percy modelava as sombras conforme relatava o trajeto da pequena protagonista, os olhos velados na estória, os relâmpagos perfurando sua participação, mandando-lhes vagos ritmos compassados para aplicar em meio a sua narração.

–E o que aconteceu, papai? –ela encolheu seus ombrinhos de estrutura concisa, os lábios tremendo, precedendo uma expectativa indesvendável, apavorada.

–Aconteceu, Silena, que ela viu aquela luz. Aquele pequenina, e frágil, luz. –Percy sorriu inundado do terno amor emplumado em seu coração. Ele tocou a ponta de seu nariz ao pequenino de Silena, e ela piscou com um onírico e sutil acalento. –Aquela luz piscou para ela, e a levou a uma esperança que ela pensava não existir. Ficou ali, naquele canto recluso, engatinhando para aquele desconhecido círculo que ofuscava sua vista, e ao mesmo tempo, apaziguava a pedra afiada cuja presença quase tornara-se uma parte de si. A gélida sensação a qual encobria-a nunca cedera, e ela nunca havia sentido tão leve paz dentro do coração pulsando novamente em seu peito. Doía ver aquela luz, principalmente quando apanhou-a com as mãozinhas finas e sensíveis, contudo era uma dor que cessava aos poucos, gradualmente. E a água viva, antes quando convivia com o temor, foi descascando-se até encontrar aquela coragem que há muito havia tirado dela.

–Mas, papai... –interrompeu a vozinha propagando-se em meio a um rasgo nos céus, inquirindo uma antítese em meio ao regular, enquanto seu pai concentrava-se em criar uma sombra do próprio ser marítimo com ambas as mãos. –Ela não podia ficar com a luz.

–Por que não? -Percy franziu a testa, sobressaltando-se, linhas salientando-se em seu rosto surpreso quando expressou sua incompreensão. Silena pegou sua mão da frente da lanterna e a estendeu, estufando as bochechas e soprando a palma com serenidade, jazendo a sua com suavidade na mão do pai, notando a enorme diferença a qual contrastava-se em sua dimensão. Seus dedos mal alcançavam a altura dos de seu pai, e ela tentou traçar uma palavra nelas.

–A escuridão pode tomá-la dela! Não é sempre assim? Prometeu roubou o fogo de Zeus, Athena Parthenos foi roubada dos gregos! Até mesmo Zeus deixou-se ser enganado mais de uma vez, com seu raio mestre. Você já me contou sobre essa história inúmeras vezes, não? Como ele ficou desesperado para encontrar o brinquedinho... –duas sequências imediatas de uma descarta elétrica estremeceu a estrutura da casa, e Silena engoliu uma grande rocha de gosma na garganta, com um sabor de desgosto, desconfiança e pavor. Porém, continuou, a voz enfraquecida, embranquecida de temor. Embora ainda restasse uma esperança de valentia. –E a tia Thalia me levou uma vez para sua caçada... –Percy enrugou o nariz, não sabia dessa, não havia feito a filha de Zeus prometer a ele que nunca a levaria à lugares perigosos e hostis? Sua feição igualou-se a qual Silena fazia quando advertia-o de seu descontentamento, e Silena, notando rapidamente o desapreço pela informação, acrescento alteando a voz em exaspero. –Não fique bravo, não fique zangado com ela, papai! Eu que insisti, e ela concordou... mas eu prometo que ela não me deixou soltar de sua mão mesmo quando eu queria ver as borboletas feitas de gelo plainando nos galhos de inverno! –ela percebeu o semblante do pai abrandar as rugas de desaprovação, e substituí-las pelo interesse voraz. Ela soltou um suspiro mínimo que foi encoberto por um trovão rodeando a casa, e prosseguiu. –Naquela vez, na caçada... eu vi um lobo feito do coração das chamas do verão. Sim, Percy, eram tão intensas que tornavam-se brancas como a própria neve! Eu puxei a tia Thalia para segui-lo e fiz ela perder sua primeira presa, mas como disse, ela recusava-se a desprender de mim, e seu aperto em minha mão não afrouxava por um instante! Então, Percy, o lobo parou em uma clareira e o tio Al esmagou o frio e apoderou-se do lobo. E ele sumiu em suas mãos, virando cinzas. E depois disse algo como: ‘olha, quem eu encontrei, minhas garotas prediletas! Como vão, docinhos?’ E a tia Thalia atirou uma flecha nele, e eles começaram a discutir, mas quando eu tentei encontrar o lobo mais uma vez, ele não estava lá... Tio Apolo roubou-o assim como poderão roubar a luzinha da água-viva! –Silena arfou, tentando recompor oxigênio em seu pulmão retraído da pressa desgastante da pequena. Ela arquejou quando ouviu a risada crescente de seu pai; não aquela repleta de monocórdia a qual costumava dar, porém uma significativamente marcante, despertando nela um arrepio do enlevo que há muito não sentia, muito menos naquela sombria noite. Ergueu o olhar, e viu o júbilo no sorriso esparso em seu rosto, ele despenteou os cabelos desajeitados de Silena, bagunçando-os em um emaranhado de fios dispersados em amplas direções.

–Esperta como a mãe, huh? Às vezes, pequena, surpreendo-me com a sua inteligência. –ele batucou em seu nariz, afetuosa, fracamente, sua feição propondo presunção diante da filha, porém não arrogante como afiadas navalhas recortando quaisquer resquícios de mansidão, e sim uma branda e inocente presunção, salpicada de cautela. E baixinho, sussurrando quase em tom inaudível, proclamou. –Porém, minha filha, lembra-se de como o desaparecimento do raio terminou?

Os olhos de Silena brilharam de excitação por poder ter a oportunidade de integrar-se nos eventos, remexendo-se em seus braços, murmurou em aprazível e pura resposta agitada, tropeçando nas letras cuidadosamente colocadas.

–Você o resgatou! Sim, sim. –ela expunha seus dentes brancos em uma empolgada demonstração contagiante que roçou em Percy, traçando aquele fulgurante calor que constantemente sua filha lhe oferecia em troca de, apenas, seu carinhos naturalmente concedido.

–Sim, Silena. E eu não vou deixar com que arrebatam a luz de nossa pequena protagonista, sim? Principalmente por ser uma genuína e bela pequenina água viva. –Silena anuiu, amenizando a tensão que se a dilacerava, e a dispunha de seus membros. Percy pode notar como se todo o seu corpo descarregasse de uma grandiosa carga opressora, aliviando-se enormemente. Novamente, ajeitou sua posição e recomeçou a contar, as mãos modelando as sombras de acordo com seu almejo. –Onde estávamos? Sim, a água viva encontrou a luz perdida, e encantou-se por sua radiante forma de dizer olá. Ela guardou-a consigo, e retornou a superfície do buraco pelo qual caíra, àquela superfície contornada de apenas obscuras formas ranzinzas, que contorciam-se e resmungavam a sua aproximação com a iluminação. Elas desviavam o caminho, fechando as pálpebras, apregoando maldições e fazendo a inocente água viva sentir-se desnorteada. De qualquer maneira, nunca sentira-se parte da comoção da Cidade Baixa, a cidade onde habitavam apenas seres intolerantes aos raios de luz. Nunca sentira-se abrigada com alento em seu lar improvisado, pois tamanha era sua negra vista que perdia-se em amontoados de vozes estridentes chamando-a para o desespero. E era como se sentia em todos os seus dias! Até aquele momento, é claro. Naquele instante, soube, sem necessitar relutar, o que, de fato, queria. Ela queria imergir, ver o que os olhos de estrangeiros pelos quais perambulavam, em raras ocasiões, pelo seu canto do mar, viam. Eles diziam de uma resplandecente bola de fogo denominada sol, e ela queria descobrir o propósito daquele sol. Nunca havia ouvido algo a respeito, apenas em seus sonhos acordados. Será que ele era hostil? Será que ele ameaçava a todos que se aproximavam dele? Será que iria devorá-la em sua primeira aparição para ele? Ou será que apenas bocejaria diante de sua desprovida forma de se expressar? Ao menos sabia, pois nunca havia se encontrado face a face com alguém antes!

A bolha de pensamentos de Percy foi estourada assim que o timbre de Silena estilhaçou sua superfície, entranhando em sua estória como se quisesse fazer parte dela; mas não já pertencia? Ela perfurou sua mente com suas interferências, gaguejando oposições.

–O sol? Apolo nunca faria isso! Não a feriria. Quer dizer... ele não é, de forma alguma, intimidador. Pelo menos, na maior parte do tempo... Digo, ele já me deixou dirigir sua carruagem! E ele não se importou por eu a tê-la colidido com o Coliseu...

Percy espantou suas sonhadoras imagens da água viva, e suplantou-as por espanto vívido e palpável. Ele encarou Silena com as sobrancelhas levantadas, incompreensível, nitidamente exigindo explicações as quais a pequena simulou não perceber. Ela enrubescia de modo ligeiro, quase vago, imperceptível. Contudo, seu pai a entendia e interpretava todas as suas reações e pensamentos. Compreendia a filha mais do que pensava. Ou, no entanto, era o que imaginava.

–Quantas experiências eu ainda não estou sabendo? Thalia a levou a caçada, Apolo a deixou dirigir a sua carruagem... Digo, ele sabe quantos anos minha pequena tem? Ou será que já esqueceu a contagem depois de milênios sobrevivendo? Por que não conheço isso tudo? –Percy balbuciava, titubeando como a sua pequena Sabidinha. Seus pensamentos estavam voltados em um centro de divergências, imaginando quanto já perdera. Será que estava tão apático concernente a vida de sua filha quanto aparentava? Não, não podia ser.

–Você trabalha muito ultimamente, Percy. Às vezes eu só quero me divertir. –a vozinha o arrancou do estufado cobertor que o restringia. Sim, de fato, andava distanciando-se. Ele rangeu os dentes, inexpressivo, porém conflitando-se em seu interior. Como isso acontecera? Ah, sim, aquele sonho. Aquele sonho onde Silena postava-se ao lado de Annabeth com uma semelhança estupenda que o fazia abrigar em seu íntimo um temor irracional. Um temor de perder a pequenina também. E, talvez, temia sucumbir ao medo que se apoderara dele daquela vez quando descobrira qual destino sua Sabidinha havia recebido. Porém, inconscientemente, ausentara-se por um tempo demasiado que não podia abandonar. E se isso estendesse-se por mais alguns anos? Será que reconheceria quando sua pequena criança crescesse de súbito?

Não, Percy não podia continuar entorpecido em sua própria anestesia cuja inércia empreitava-se para dentro dele cada vez mais fortalecida. Era difícil, talvez nunca superasse que àquela a quem amava não estava do seu lado, embora continuasse em suas memórias mais nostálgicas, mais poderosas. Mas podia cuidar para que elas fossem encouraçadas e protegidas pela filha, não podia? Ela era uma pequena Annabeth, cada dia mais parecida com a mãe. E isso trazia-lhe uma pontada aguda no peito; não dolorosa, porém heráldica, de uma cálida e intensa paz, dissipando seus tormentos transpondo seu dever.

Tinha de esforçar-se mais. Tinha de empenhar-me para sua fortaleza não ruir, e sua persistência não ceder. Ele observou a filhinha de quatro anos com os ombros retraídos, passando a palma no faixo de luminosidade, imergindo o quarto na densa escuridão e trazendo o calor e o diligente fervor da luz novamente. Pela primeira vez em algum tempo, percebeu que quase quebrara, rachara, a promessa envidraçada que fizera para sua Annie quando ela partira. ‘Cuidarei dela, não a abandonarei. Não a abandonarei. Nunca’.

–Silena? –chamou-a, e ela respingou uma resposta parca e fraquejada. –Você acha que não mais estou próximo o bastante de você para participar de sua vida?

–Eu entendo que você tem muitos deveres, Percy. –ela respondeu depois de longos segundos lamentavelmente torturantes para o pai. Ele podia tatear a melancolia, e o pesar, que ela tentava esconder na voz. Por que não percebera antes? A própria luz da água viva estava esmorecendo? Não, não podia permitir. Ele iria segurar os Céus e o Mundo para carregar Silena em segurança para si, para reavivar aquela confiança que ela tinha nele e parecia, agora, pálida e desbotada. E logo em seguida, em reticente tonalidade. –Contudo a água viva podia obter alguns de seus sonhos acordados de vez em quando.

Ele balançou a cabeça, sentindo o seu cerne deteriorar-se ao ouvir de sua filha aquela frase. Ele queria que ela o ajudasse a compreender, e ele gostaria de alcançar seus doces pensamentos com maior frequência. Queria aproximar-se mais dela, queria lapidar seus enganos, tornar-se melhor para poder reconfortar sua filha, ascendê-la e vê-la crescer ao seu lado. E não perceber, um dia, que ela havia escorregado de seus dedos. Ele sacudiu a cabeça uma segunda vez. Não, não, não. Ele curvou-se sobre a filha e trouxe-lhe para perto de seu coração, acorrentando-a com delicadeza nos seus braços firmemente atados em seu corpinho miúdo e frágil, aquela criança que era parte dele, aquela pequena figura que o ancorava no que era realmente importante em sua vida.

–Papai? –perguntou a garota, indecisa a prosseguir. Seu tom meticuloso indicava medir as palavras com franqueza, e hesitação. Percy sorriu jovialmente, e disparando os pensamentos frívolos para uma sala truncada, impulsionou-se para trás, impelindo-se sobre o colchão com a pequena agarrada em seu corpo. Ela segurava a lanterna frouxamente, e o único meio de luminosidade quase deslizara para o chão sólido, caso Silena não houvesse investido contra ela e a apanhado antes de ser possível dissipar sua única via de orientação em meio a escuridão. Porém, Percy envolvera-a a enrolara-a para dentro de seu abraço mais uma vez e a encobriu de beijos no topo de sua cabeça, fazendo cócegas em sua barriga que fê-la se retorcer e gargalhar em submissa discórdia.

–É o ataque da alga do mar! Não, corra! Ela está te enlaçando, cuidado! –gritou Percy com a lépida tonalidade brincalhona que Silena tanto sentira falta, aquela sombreada e abrasante fonte de refúgio, onde dissipava-se suas preocupações e suas cóleras como se soprasse uma fraca chama de fogo.

–Pai! –retrucava, indignada, porém impossibilitada de demonstrar a árdua e impetuosa intensidade de sua sobriedade, pois suas risadas incontroláveis não toleravam sérias e duras expressões. –Não, papai!

Assim que conseguiu se deslaçar do ávido afeto do filho de Poseidon, ela fitou-o e notou os traços divertidos em seu rosto. Incapaz de deter-se, ela pulou em direção de seu pai, acometendo-se sobre ele e arremessando-o para o fim do colchão. Seus braços ainda estavam cravados no pescoço do pai quando ele colidiu as costas com o chão, e ela escutou um breve grunhido cavernoso destrinchar de sua garganta. Ela, lentamente, afastou o rosto enterrado no ombro do pai, apreensiva. A lanterna rolara de sua mão e havia aterrissado há poucos metros a sua direita, contudo estava concentrada na expressão do pai, preocupada em tê-lo injuriado. Ela examinou suas feições, um tanto contorcidas, e tentou fechar suas narinas para despertá-lo por falta de ar, assim que ele não atendeu a seus chamados insistentes.

–Pai? –um pânico iniciou seu transcurso pelo seu estômago quando seus planos torceram-se em vão. Porém, assim que tentou esticar-se para a lanterna, a mão de seu pai envolveu seus pulsos, e arrastou-a novamente para si, enquanto compelia seu corpo para o lado, ocultando-se debaixo da cama. Silena tentou erguer a cabeça, porém seu pai amorteceu a colisão com a parte superior da cama com sua mão, e ela afundou fugazmente para seu peito, seus olhos como fendas de comiseração e remorso. Contudo, Percy não aparentava importar com o impacto, latejando sua pele, alastrando-se pelo seu antebraço. Seu olhar estava fixo, sério e endurecido, nas janelas ainda empalidecidas regularmente pelo soar do trovão. Questionou no mínimo tom quebrantado pelo qual conseguia atingir. –O que aconteceu? Percy? Você viu algum monstro?

Percy sabia o quanto ela ansiava para vê-lo combater com um diante dela, e lançou uma advertência pelo olhar, vidrados de verde-mar, intercalando-se para os reluzentes de Silena e a janela vazia. Ele assentiu, irrequieto, contudo a pequena apenas desvencilhou-se de cima de seu pai, pousando ao seu lado, deitada de cabeça para cima e visualizando o vidro embaçado da janela invertida. Porém, assim como seu pai a conhecia bem o suficiente para desvendar a maior parte dos invólucros de seus sentimentos, ela o conhecia desenfreadamente mais.

–Você não encontrou nenhum monstro de verdade, não é? –perguntou alteando a voz, e o sorriso tímido, débil, deleitoso e esperançoso denunciou a resposta não pronunciada. Ele impeliu a mão para o bolso dos pijamas, e retirou a caneta Contracorrente de seu interior. Confluindo o braço para cima, destampou a caneta e ela alongou-se em sua espada. Com dedos trêmulos, ele empurrou a ponta para debaixo da cadeira de três pernas que permanecia ali por meses e já fora encarcerado com entulhos e objetos esquecidos. Silena tentava compreender seu pai, realmente tentava. Porém, às vezes, ponderava a respeito da impossibilidade de decifrar os intentos de seu pai. Ele permanecia imutável, com inexpressiva feição. E enquanto torcia os lábios em consternação, não conseguiu evitar arfar assim que ergueu o olhar e pousou-os no que seu pai, tranquilamente, extraía do enfurecido acúmulo de utensílios inúteis. Ela não compreendia como, ou por quê, seu pai objetivamente trovejava para conseguir algo, como algo.

Porém, muitas vezes, o melhor era ao menos esforçar-se para entender. Apenas deixar com que suas inatingíveis imprudências imparciais furtivamente se esgueirasse em meio a ele e a surpreendessem em intempestiva admiração, como sempre acontecia. Era o impasse que ele criara. E ela não recusava-se diante de sua alternativa de reconciliação.

–Pensei que você estivesse sentindo falta do Grover. –Percy desdobrou as palavras ao mesmo tempo que puxava uma pequena figura descuidada para fora do beco de escombros. Percy contemplou os olhos fervendo com faíscas reluzentes de fascínio de Silena quando vislumbrou o que perdera há tempos atrás. A pequena lembrava-se quando recorrera ao pai, porém, esse, não fora de muito amparo. Imaginara que nunca fosse encontrá-lo, contudo, seu pai rompera o desalento que quase apoderava-se nas noites ríspidas de inverno em seu coração cândido, quando não podia abraçar a pelúcia que Júniper tecera para ela. O mini sátiro, versificando o melhor amigo bode de Percy, retratando-o em uma versão menor, espelhava-se com as cores antes vívidas esmorecendo de desgaste, os botões já manchados, um dos chifres rasgados e pendendo instável na lateral da cabeça já com alguns fios desfeitos, desmanchados, porém ainda cravados seguramente consistentes em seu corpinho macio, composto por aveludadas tramas com os próprios manuseios oferecidos na natureza onde Júniper vagueava, entrançando delicados detalhes no rosto, aquela pelúcia que se tornaria seu companheiro constante, a partir do instante que surgiu a sua vista em seu aniversário de um ano de idade, após terem desvendado seu obstinado deleite em puxar, resoluta, a barba do próprio sátiro inocente, quando o via e insistia de modo fervoroso e suplicante em ir para seus braços temerosos. Era ainda clara, distinta, a voz de seu pai quando ele lhe relatara com um timbre balanceado de jocosa tirania quando Júniper decidira suspender o sofrimento do sátiro em substituir o careço que ela tinha por um bichinho de pelúcia para suprimir o irreprimível carinho da afeição permeada no homem-bode. Quando ela tinha apenas alguns meses, Percy constituíra um sarcástico sorriso quando encontrara o velho amigo barbeado, e, juntamente com a dríade, gargalhara histericamente quando Silena, melancolicamente, com os olhos chorosos já úmidos, entristecera-se e deslizava as mãozinhas gorduchas de meses desesperadamente no maxilar do companheiro como se pudesse renovar a barba escura e fazê-las brotar mais uma vez em seu queixo. Silena sentira tanta falta do mini Grover. E assim que Percy trouxera a pelúcia a seu alcance, ela esticou seus bracinhos e agarrou-o sem oscilar, pressionando-o contra si como uma armadura perdida em meio a uma batalha. No entanto, assim que vergou sua visão para cima e visualizou a expressão de seu pai inchado de gozo mesclando-se com satisfação e divertimento, ela empertigou-se o quanto podia no espaço estreito e comprimido, tentando aderir uma postura similar como o pai, costas rígidas, feições diligentes, e balançou a cabeça minimamente, embora não fosse capaz de ocultar o sorriso que transpassava seu rosto com rejubilo.

–Desde quando você sabe onde o mini Grover está? –perguntou, estava com uma sensação fluindo em suas veias, de amena mansidão, disparando pelo seu coração, fazendo-o ribombar com mais pressa, e tornando suas batidas controladas, sob sua própria equanimidade. Não preocupava-se com a tempestade lá fora, embora os trovões levassem pequenas pontadas de calafrios em seu estômago. –Eu estou tentando achá-lo faz meses.

–Eu nunca soube. –seu pai retrucou, o horrível peso em seus ombros reduzindo-se a fiapos que logo desmancharam-se, desembrulhando o amargor produzido em sua garganta. Aquele medo de perdê-la, aquela pesarosa desesperança de ter estado a ponto de abster-se de seu maior dever até então incumbido à ele, de ter estado com a ponta dos calcanhares oscilando para o penhasco e a superfície sólida onde poderia estar seguro. Silena olhou-o com infeccionada desconfiança situando-se ao redor das pálpebras, e no contorno das sobrancelhas. Percy acrescentou, com a voz alteando-se em pequenas escalas, como linhas finas de fogo intensificando-se e embrandecendo para, por fim, tornar-se em uma convicta persuasão. –Creio que Tique está ao meu lado hoje.

–Hoje? Creio que Tique sempre esteve ao seu lado. –Silena rebateu, dando uma ligeira risada amistosa, a parca barreira formada entre os dois escorrendo como líquido escorregadio, vaporizando-se, fileiras perfiladas rapidamente esvaindo-se para sobrepor-se o reencontrado benevolente compaixão antes túrbido, mutável.

Percy sorriu complacente para a filha, tentando esconder o que retalhava-se inconsequente em seu tórax, compactando seus pulmões, enevoando sua mente atordoada por um lapso de segundos antes de voltar a enternecer sua atenção para a pequena que o encarava com uma expectativa palpável ardendo em sua feição. Talvez, pequena, mas quando eu mais precisei dela, ela cessou de sua adorável presença, e desdenhou de minha inconveniência em lidar com isso. Mas não é sempre assim, Silena? Uma inalterável constante sempre motivando-o a achegar-se na doce e pretensiosa esperança, para arrancá-la de você abrupta, inesperada e inevitavelmente. Porém, assim que tais pensamentos abrigaram sua mente como presunçosos habitantes desagradáveis, ele imediatamente espantou-os com uma terrível fúria que toldou sua visão. Abrandando-se apenas com os imprevisíveis braços reconfortantes de Silena, que embora não dizia uma única palavra depois de um silêncio acentuado, podia ouvir o ruído miúdo do fungar de seu nariz. Assim que verteu o olhar canteiro, pôde ser capaz de ver na parca iluminação desbotada, os raios pálidos clareando o marejado dos verde-marítimos antes de ela cerrá-los com força e afundar sua cabecinha nos ombros do pai.

O filho de Poseidon gentilmente circundou-a, aconchegando-a no frio chão. Por que continuava a ter tais mórbidos pensamentos os quais não chegariam a qualquer lugar? Embora tentasse encontrar um atalho, um rastro, uma curva agravada naquele desconcertante labirinto isento de cor ou vida, oblíquo, inclinado inconsistentemente para íngremes montes em estações diversas de sua vida, sabia que iria falhar. Sabia desde o começo. E por que não falharia? Havia tantas promessas ainda não terminadas; promessas que nunca iriam ser finalizadas.

Mas... por que não? Porém, havia aquele entrada, aquela porta, aquele vestígio de luz e tenaz energia ativa que captava sua visão. Como fora tão cego até aquele instante? Tão indisposta, indeciso, inseguro? A exacerbada apatia tê-lo apoderado? Havia, sim, a vivaz sagacidade que percorria os infindáveis cursos do labirinto sem saída. Aquela figura correndo, aquela silhueta cantando, aquele contorno dançando em meio a paredes insossas, opacas, derrubando baldes de tinturas e levando-o a disparar para frente para encontrar o esverdeado irromper no cinza fosco, e criar um rastro para orientá-lo. Havia, sim, aquela risada que trazia tranquilidade e serenidade em meio a uma muda balbúrdia de vozes ocas. Havia, também, aqueles passos agitados e em desacordo com seu próprio ritmo, que o fazia esvoaçar para frente, um impulso carregando-o onde nunca alcançaria. Ora, e aqueles dedinhos pintando as paredes e lhe oferecendo canções esquecidas de uma melodia mansa, pura, deslumbrante. E antes que pudesse sacolejar o exaspero de si, aquela pequena, embora grandiosa ao mesmo tempo, voz já extorquiu de dentro do seu âmago o desalento e tristeza. E encontrara o caminho de volta. O caminho que andava em círculos ao procurar sozinho.

Contudo ele não estava sozinho. Quem disse que Tique desprezou-me naquele dia? Ela abençoou-me com a mais bela das bênçãos. Minha pequena criança inseparável, minha pequena e valiosa filha. Minha filha! Um desprotegido pedaço de mim cuidadosamente posta sob meus cuidados. Percy, Percy... Cabeça de Alga! Não se esqueça, ela não vai ser a pequenina criança para sempre... Por enquanto, porém, ela não precisava crescer tão rápido assim! Para que a pressa? Embora ela pareça tão amadurecida...

Ele não negligenciaria àquilo que foi lhe concedido por nenhuma circunstância adversa a qual aparecesse em sua vida. E muito menos seria imprudente a ponto de quase perder-se no labirinto novamente. Não, não... Ele estava conectado à ela, e ela estava ligada à ele. Percy acariciou suavemente o cabelo bagunçado da filha, o risco de luz esquálida lançando fios nos cabelos loiros da garota. Àquela sua pérola cristalina ele protegeria com sua própria vida. E nunca iria negar isso. Jamais.

–Realizei alguma sombra do sonho almejado da água-viva? Minha alga-viva? –sua voz não era mais que um murmúrio no negrume, porém Silena não tinha mais o medo que sobrepujava sua coragem. Ela podia ver claramente o seu pai em sua mente, suas linhas na feição salientando-se em um marcante indício comprovado de sua fadiga e exaustão pela longa vida que tivera, ressaltadas de experiências evidentes. A criança levantou a cabeça da clavícula do pai, virando-a ligeiramente para o lado e permitindo deslizar um sorriso torto e radiante de seus lábios. Uma lágrima escorreu suntuosamente pela sua bochecha, e ela inclinou-se para repousar na têmpora do pai um beijo agradecido inundado da mais terna e singela compaixão.

–Você atou todos os despedaçados sonhos, papai. –soou com uma incerta tonalidade de tímida benevolência, uma harmonia retinindo na sua virtuosa palavra. Percy sentiu algo repuxar-se dentro de si, algo que dilatava-se, semeava-se na terra fértil de seu coração. Aquele afeto resplandecente trouxe a luz que a planta de seu coração necessitava para flamejar em um acesso de crescimento, após quase secar-se e definhar no terreno já amarelado e estorricado. Como pôde deixar de cultivá-la? Cerrando as pálpebras com sutileza, como se quisesse congelar o tempo naquele exato instante, ele pensou, com nostalgia vinda de aparentemente lugar nenhum e todos os cantos “Obrigado, filha. Isso é ótimo, Silena... Isso é ótimo”.

Porém, antes de pronunciar uma letra, Silena remexeu-se, inquieta, em seus braços, e ele cedeu a sua força branda, afrouxando o aperto para que ela arrastasse-se para cima, com fugazes movimentos para sair de debaixo da cama. Ele examinou-a com interesse, curiosamente despreocupado, embora estivesse excessivamente desentendido. Ele tenta levantar-se com os cotovelos, contudo colide a cabeça na parte abaixo da cama, esquecendo-se por um milésimo de segundos onde encontrava-se. Ele roçou seus dedos no topo da cabeça, sentindo uma inconveniente inchaço proeminente. Silena não estanca com o barulho do choque do impacto, mesmo que por outro lado, advirta despercebidamente.

–Cuidado com a cabeça!

Percy torce o nariz, ignorando a pungente pontada pulsante, e segue a pequena para fora da cama, com cuidado, medindo meticulosa e atentamente para não chocar a cabeça com mais algum empecilho. Antes, porém, de rastejar todo o corpo para fora de sob os estrados da cama, uma escuridão se incendeia no quarto, e apenas o relampejar do trovão voejou uma esquálida luz fantasmagórica para envelopar o quarto. Ele visualizou e silhueta encolhida de sua criança, e velozmente impulsionou o corpo para fora, dirigindo-se até ela.

Silena estava agachada, os braços retraídos no estômago, os ombros tensionados, os olhos vedados, fechadas apertadas, pois seu coraçãozinho ameaçava guturalmente soar uma sombria canção que a assombrava, apavorava-a, e ela não queria exibir isso ao pai, uma espessa escuridão resvalava em sua pele. Por que a lanterna tinha de perder seu brilho que trazia paz até ela? Quando estava envolvida pelos braços do pai, ela a havia visto pestanejar, bruxulear acima de si, e embora tenha feito o possível para achegar-se à ela, assim que alcançou-a, a iluminação já havia esmorecido por completo, integrando-se completamente elanguescido. Por que não conseguia acendê-la novamente? Ela já havia esvaído sua última centelha de luz, não restava mais nada.

Lentamente começou a tatear ao redor, contudo um trovão retumbou e ela levou as mãozinhas em direção ao ouvido, tampando-o dos estrondosos rugidos violentos mandados pelo seu tio-avô perturbado. Ela sente uma respiração escorregar pela sua nuca, e subitamente esquivou-se para o lado, choramingando com as mãos tremendo desesperadamente.

–Não, afaste-se de mim, horrível Nix! Não me coma, eu tenho uma péssima carne! Além do mais, você não se satisfaria comigo! –a pequena berrou, tentando atingir a lâmina da mãe no calcanhar, porém recordando-se que estava com pijamas, descalça e que havia retirado sua tornozeleira antes de dormir, ou seja, desarmada, indefesa, desvalida. Silena mordeu o lábio inferior, os ventos gritando estridentes ao ricochetear a janela. Passos ritmados aproximaram-se dela de maneira suave e letárgica. Porém, a voz rouca e ríspida que esperava ouvir foi implodida e amontoada por outra, aquela que pacificou as batidas resfolegantes de seu coração palpitando nos ouvidos. Aquela voz calma que fez suas pernas bambearem de alívio. Que retirou-a do seu pavoroso pesadelo desabrigado de pacíficos ventos ou encorajadores sussurros leves e tênues.

–Shhh. Sou eu, minha pequena. Está tudo muito bem. Estou aqui, na sua frente. Não sou Nix, aquela velhota não vai atormentá-la enquanto você estiver comigo. Não se preocupe, eu vou protegê-la, okay? –a mansidão de seu timbre fez seus pés flutuarem sozinhos, disparando para frente e apegando-se ao calor impassível familiar de seu pai, ao natural aroma marítimo genuíno, que tocava sua pele com a amena segurança, a calmaria que as mesmas ondas do mar lhe traziam, alentando-a. Percy inclinou-se e enrolou-a em seu colo, a pequena criança agarrando-se em seu corpo com fincada determinação. Outro trovão estremece o ar e ele a sente retrair-se, fungando ruidosamente. Afinal, é apenas uma criança. Sim, é minha criança. Ele acaricia suas costas, e orientando-se pela dedução e pelos relampejos claros dos raios. Seus joelhos esbarram-se na cama e ele ajeita-se debaixo dos cobertores, com Silena abraçada a ele, seus braços a cercando como um refúgio feito sob medida apenas para ela.

–Papai? –chama-o, a voz chorosa e embargada, embora ele pudesse notar com uma percepção nítida sua tentativa de simular um desinteresse, indiferença, que não estava lá. Pelo contrário, ela transbordava emoções pegajosas que aderiam a sua cordas vocais.

–Sim, Silena? –na escuridão densa, nada era distinguível. Seus olhos pareciam caliginosos, como se obscuras membranas pesadas e indomáveis houvessem descido ante suas pálpebras e a cegado. Portanto, ela manteve os olhos fechados, tentando esquecer todas as pérfidas estórias que seu amigo, Adam, o filho de Hefesto, contava para ela na fogueira, quando esperava seu pai de uma das reuniões que fazia com Quíron esporadicamente, quando a noite parecia engolir com suas sombras tingidas de um ofuscado negrume intenso todo o limite de onde a chama não conseguia abranger. Ferozes espíritos planando ao redor, eidolons, aguardando sua vítima para... Silena engoliu em seco, não era uma de suas estórias favoritas, embora Adam sempre entretinha-se ao contar à ela. Ela balança a cabecinha, expulsando suas lembranças para a correnteza de ar fria e vertiginosa da chuva.

Ela pigarreou, contudo sua voz ainda ressoando frágil em seus ouvidos ao quando questionou para Percy algo que fê-lo surpreender-se.

–O que aconteceu com a água-viva?

Percy levantou a cabeça, apoiando-a na parede ao ponderar com disforme atenção. A água-viva? Ele pontuou um sorriso faceiro no canto dos lábios, as sobrancelhas unidas em compenetrada concentração. A respiração úmida da chuva batucava lá fora, nocauteando com suas fervorosas garras o vidro embaçado. A pequena em seu colo enchia seus pulmões rapidamente, em vapores raros e breves, que entravam e saíam com tenacidade, como se estivessem impacientes para receber golfadas frescas de um ar o qual chegava abafado até sua circulação. Conseguia sentir as batidas de seu coração, dando longos trancos no seu compasso irregular, e Percy admitiu a responsabilidade de acalmá-lo. Onde a estória havia parado? Ah, sim.

–Logo após que a água-viva conservou a pequena luz consigo, e descobriu o que, realmente, queria, ela propulsionou-se para cima, para canais de rochas, por turbulentas correntezas, e perigosamente para cima. Ela queria encontrar-se com aquele sol, talvez essa pequena luz fosse uma partícula de vida que ele perdera. Como poderia saber? Mas estava rigidamente determinada a prosseguir. A escolha que fizera viria a desencadear uma nova e incalculável curva em sua vida. E isso ela logo pôde compreender quando, em um súbito clarão –uma ramificação do próximo raio foi possível ser visto na janela, e seus rastros percorreram o quarto por um instante, e Percy visualizou os olhinhos fechados de Silena, embora os seus membros e dedinhos enraizados em sua camiseta estavam alarmados e aflitos o suficiente para perceber que ainda não adormecera. –o mar foi ficando mais claro. As águas começaram a se tornar de um límpido e azul-esverdeado brilho, parecia mais vivo, mais presente, e ela sentia que houvesse acabado de encontrar o que foi retirado dela há muito tempo. Toda àqueles sussurros amortecendo o picada na visão, a qual ardia pela incidência da luz pela primeira vez quando tudo o que havia visto desde que encontrara-se consciente fora escuridão. Todos os risos de seres distintos correndo pelo plácido horizonte infindável, agora contornado por belas e estonteantes cores, explodindo em seus olhos, degustando de seus sentidos. Algas estendendo-se para cima, os diversos e incontáveis habitantes de onde ela vivia, habitantes que ela desconhecia, que ela podia contemplar, assim como acima, aquele encoberto domo raspando sua cabeça. Conforme ela subia, subia e subia, a pequena bolota de luz em suas longos braços suavizava seu brilho, os novos tentáculos de claridade vinda do céu ia infiltrando-se e misturando-se com a já existente em seu encontro. A água-viva podia ver o quanto a pedra de luz divertia-se nas faixas de suas companheiras as quais esgueiravam-se pelas gotículas incontáveis de umidade permanentes no mar. Você consegue contá-las, Silena? As gotas, os pingos, a quantidade de luz tingindo a água?

Percy cutucou a cintura dela, e conseguiu derramar uma reticente risada de dentro dela. Sentiu a cabecinha dela menear, de um lado para o outro, em negativa afirmação. Porém, com isso, ela afastou seu rosto do peito do pai, e abriu os olhos que, embora não enxergasse nada com discernimento, ainda captava fios de luzes pairando ao redor.

–E o sol, Percy? O que a água-viva achou do sol? –a brandura em suas palavras trouxe ao coração do pai um suspiro transpondo qualquer névoa desenhada de pesar e dispersando o aglomerado de tensão de seus músculos, divagando no negrume e, aparentemente, chamejando uma branca e fraca iluminação no centro do quarto, pois ele podia ver os traços interrogativos da pequena com uma impressionante clareza.

–Ah, sim. O sol. Ela ainda não alcançara a superfície para vê-lo com total exaltação, porém, os braços estendidos dele, aqueles que rompiam a escuridão de sua vista, ela encantada observava ávida, como se precisasse bebê-la para saciar a sede de conhecê-la. E os corais, e as algas dançando ao seu redor, as criaturas de grande porte, aquelas minúsculas, todas pareciam parabenizá-la, sorrir-lhe e conduzir boas-vindas para o novo lar permeado de esperança a qual havia tempo não pressentia. E por um longo tempo, continuou propelindo-se para cima, para onde a superfície espelhada vagarosamente aproximava-se com sua convidativa camada cristalizada onde separava o sol dela. Podia ver o reflexo das águas dançando harmoniosamente nas rochas, enquanto passava ao seu lado. Podia sentir o penetrante frio escorrendo para fora de seu gelatinoso corpo, e a morna água cobrindo-a com seus dedos gentis. A luzinha em seus braços piscava, ininterrupta, como se soubesse estar perto de onde viera. A água-viva estava realizada, engrandecida, gratificada. O que mais poderia pedir? Aquela pequena luzinha já a havia sustentado, e a estava encaminhando pela trilha que sempre sonhara acordada em passar, navegar, em escorregar por entre as suaves linhas de água desdobrando-se em seu auxílio...

–Como Blackjack quando me leva no ar nas noites de verão? –intercedeu a pequena, suas palavras interpondo-se na narração de Percy. O pai assentiu a cabeça, esquecendo-se por um instante que ela não podia vê-lo. Portanto, logo em seguida, soltou uma solidária risada e esfregou suas costas com a palma da mão.

–Exatamente. Como Blackjack quando a leva para passear nas noites de verão. Porém ao invés de ventos, as correntezas carregavam a água-viva, para cima e para baixo, contudo constantemente intercalando-a para o alto. Sempre para o alto. Até que a camada que a separava do sol estivesse a apenas alguns centímetros de sua cabeça, e ela prontamente emergiu como uma bolha explodindo e respingando gotas para os cantos de onde localizara-se. Estava em uma imensidão esverdeada, uma brisa fresca falando em baixas vozes sobre a notoriedade do dia, e ao olhar para cima, entretanto ela não encontrou aquela bola fulgurante de luz amarelada. O sol. Onde estava? Virou-se e virou-se até encontrá-lo. E adivinha onde ele havia se escondido?

–Por entre as montanhas, esperando para surpreendê-la com um susto! –anunciou a pequenina, e Percy arqueou as sobrancelhas em curiosidade, porém sem contestar, ele confirmou.

–Sim, é claro. Por entre as montanhas. Já era fim de tarde, e o sol tornava-se amarelo resplandecente meio alaranjado, insinuando-se na paisagem colorida de cores vistosas cujas belas minúcias estouravam pela visão faminta da água-viva; o azul-anil, o alaranjado florescente, o rosa ligeiro, o arroxeado transparente, todos dissolvendo-se e misturando-se, combinando-se em únicas cores cobrindo sua mente, e acrescentando sua tranquilidade em seu sonho cumprido. Ela encantou-se, e hipnotizada ficou fitando-o por um instante demasiado longe, para por fim, levantar da submersão da água a bolinha de luz que a levara até ali, a pequena constante em seu braço, a qual desmanchou-se de imediato, vaporizando-se como a neve ao derreter, e derramando-se pelo mar como uma chuva almiscarada, caindo gotas como enfeitiçadas, humildes, pendendo no ar com carinho, como se o céu ainda quisesse tê-las com eles, crianças em forma de pingos, rindo e saltando apenas para a pequena água-viva. Mas ela não tinha medo desse mar desfeito em dissolutas águas misteriosas; como o céu fazia aquilo?, ela pensava; ela apenas assistia enquanto tudo era limpo novamente, e o ar refrescante, purificando o que antes deturpava-se, tornando o ar límpido para novas esperanças, e novos sonhos...

Percy escuta o bocejo sonolento e bucólico da pequenina, que esfregou os olhos com o nó dos dedos, sentindo o cansaço adornar sua mente como o badalar de um relógio ou o bater contínuo das asas de um beija-flor. Sua voz sai distorcida em sonoro e desarmônico níveis de seu timbre vibrante.

–E o que a pelota de luz era, papai? –ela acomoda-se desajeitadamente perto do pai, e Percy proporcionou um espaço para ela aninhar-se, aconchegando-se apaziguada, com uma maré de calmaria reinando em sua fala, e em suas mãozinhas suavizando-se do aperto no ombro dele. Ela bocejou mais uma vez, e enquanto o fazia, com a boca escancarada, ela pronunciou baixinho, cochichando em seu ouvido. –O sol cuidou da água-viva?

Percy temia afugentar aquele lírico sono praticamente inconquistável, portanto estava murmurando as palavras com tamanha delicadeza que poderia encaixar-se em uma hesitação em rachá-las, como se fossem quebráveis vidros translúcidos, tentando o máximo não desagregar a sonolência da filha.

–A pelota de luz, querida, era uma fugitiva lágrima bondosa caída do canto dos olhos do sol. –ele remexeu na franja de Silena, cuidadosamente escorregando a ponta de seus dedos pela sua testa, onde podia sentir as rugas de preocupação esvaindo-se de sua pele, trocadas pela pacífica expressão de uma criança sem necessitar estar constantemente alerta, atenta a prováveis ameaças, as quais podiam retirá-la dele a qualquer instante, ou ele dela, súbito quanto, há tantos anos atrás, havia sido quando desvendara o que realmente era. Santo Poseidon, fazia tanto tempo quando fora atacado pela primeira vez por aquele Minotauro cujo chifre conservava até nos tempos atuais? –Enquanto ao sol, ele cuidou da água-viva mandando seu calor e sua luz para toda a jornada que ela transcorreu. E quando a chuva vinha, as nuvens cinzentas recobrindo-o, ela compreendia que depois da tempestade, vinha, sempre, a recompensa de paz daquele mesmo sol... o arco-íris.

Ele aguardava a vozinha aguda da pequena, porém ela não veio. Ele pensou, naquela ausência de claridade, que a garota já devia ter adormecido. E assim, suspirou exausto. A tempestade abrandara, e os raios eram mais sucintos e em extensos períodos de tempo. Seus olhos latejavam, ardendo como se estivessem inflamados. Porém, não se incomodava. Havia feito a maior prioridade, realizado sua obrigação, o que devia e queria ter feito. Não devia ter deixado com que a opaca e pálida neblina estimulasse a cegueira de seu coração, cujas correntes pareciam amordaçá-lo, e reprimi-lo, de uma maneira pavorosamente discreta, onde apenas percebeu naquele momento, quando a melancolia da pequena era tão estertorante que arranhara suas entranhas e contorcera seus sentidos, e o fizera novamente distinguir o que estava fazendo.

–Sinto muito, Silena. Será que você me perdoa? Sou um pai tão destreinado, inexperiente... não sei como posso adequar-me para ser perfeito para você. –ele sussurrara com uma excruciante pressão em seu estômago, fazendo revirá-lo em seus temores mais sombrios, soturnos, tecendo uma viscosa teia ao seu redor como se fosse a própria Aracne embalando-o para truncá-lo mais tarde. Porém, o que resgatou-o das finas linhas bem tramadas, fora quem imaginara, convincente, de não tê-lo escutado. De fato, ela sempre conseguia salvá-lo de si mesmo. Sempre.

–Eu não quero um pai perfeito, Percy. Eu quero apenas você. Você é meu papai que sempre quis. –escorregou sua cabecinha para dentro do braço do pai, e permaneceu ali, acrescentando timidamente, em um sutil encanto. –Sua estória acalmou meu coração. Está o ouvindo? Ele não está mais batendo dolorosamente. Ele está tranquilo, como você me faz ficar. Tranquila...

Logo soube que a pequena Silena, definitivamente, havia sido tragada no sono. Sua respiração rítmica, serena e imperturbável denunciava-a, assim como as mãozinhas frouxas, e ligeiramente abertas. Ele tateou até encontrar o mini Grover, mascarado pelos bracinhos da garota, envolvendo-o como se o protegesse de qualquer mal que poderia nocauteá-lo bruscamente. Percy trouxe a cabecinha da filha para seus lábios e pousou um beijo em sua testa, fechando os olhos na escuridão não mais assustadora, talvez, um tanto acolhedora.

–Eu te amo, pequena. Sim, eu nunca mais vou lhe deixar fugir de mim mais uma vez. Eu te amo, Silena, tanto... –porém, tais palavras ainda pareciam escassas, fracas, para expressar o que bradava seu interior, com um vivaz retumbar, compassado com as batidas de seu coração rapidamente assentado. Percy, enquanto tentava encontrar a passagem para seus sonhos, podia ouvir a harmonia das gotas limitando-se a suaves pancadas no batente da janela.

Ele encontrara aquela estrela, nadando no céu pesado, amenizando a fúria e ira dos raios, tornando-os singelos e cálidos, até por fim driblar as nuvens, montada em um Pégaso negro tão conhecido, impelindo-se para o alto, conduzida por uma silhueta familiar, uma sombra resplandecente, bela, como uma sósia mais velha da pequena, que saudava-o com nostalgia. Ele queria segui-las, sem deparar-se com o fim, sem incerto compreender, porém ainda mantinha-se ancorado na margem do mar, com o horizonte congelado, acalentado, e formando-se um arco-íris acima das ondas esverdeadas, a névoa dissipando-se cordialmente, um dócil vento arrastando-o para o teto azul, atemporal em sua brancura flexível, uma nuvem mansamente escorregava pelos céus...

E assim Percy sonhou.

Interpretação da ‘profecia’:

Três momentos foram-lhes revelados

Da benevolência e amável narração espero terem gostado

Com esperança, permito-me engrandecer um chamado

De que, por favor, tenham se deleitado

Ao menos por um instante, imagino se a brisa curvada sussurra-me a verdade

A respeito de sua infinita bondade

E, com muito apreço e caridade, peço-lhes meu sincero perdão,

De minhas entranhas, suplico que o aceitem com compaixão!

Pois, de modo algum, tive o mero pensamento de os abandonarem.

Embora o tenha feito, interina, com crueldade, dando os pesares passagem a me devorarem

No entanto os problemas fizeram-me adiar,

O que prometera, frustrar.

E como estendi muito minhas palavras,

Peço-lhes uma última vez minhas insinuadas falas,

Desculpe-me, e obrigada.

–Reyna Potter.

Notas finais
Uma curiosidade sobre o capítulo: eu não tenho muitas experiências felizes com crianças (não sei como me portar com elas, uma vez um garotinho estendeu-me um desenho e fiquei encarando-o sorrindo bobamente como se perguntasse ‘e agora? O que eu faço?’, e ele desistiu e foi para outra pessoa. Eu simplesmente tenho medo de decepcioná-las!), além disso, eu definitivamente não sei carregar um bebê (Céus, eles pesam mais do que eu pensava! A última vez que segurei a filhinha da amiga da minha mãe, eu fui alvo de risadas porque a criança ficava apenas deitada na minha perna me fitando como se exigisse que eu fizesse aulas de maternidade), portanto eu fiz um interrogatório com meus pais, à noite, quando eles tentavam dormir... eu invadi a cama deles e fiz eles ficarem acordados até madrugada (isso durou mais de um dia)! Espero ter exposto minhas lições corretamente. Fiz um capítulo longo pois tive um período relativamente longo desde que atualizei a fanfic... Quero agradecer por todas as opiniões sobre o tamanho do capítulo que me ofereceram nos comentários, sei que alguns não queriam algo tão longo dessa maneira, porém eu o fiz para matarem a saudade. Será que consegui? O que vocês me dizem? E minha “profecia”? Não sou nenhuma filha de Apolo, porém tento o melhor... Vocês podem vir nos comentários me dizer o que acharam? Para conversar comigo mais uma vez e, definitivamente, expurgar toda a saudade que sentiram de mim (isto é, vocês sentiram, não? *bochechas coradas*)? Novamente quero agradecer a todos. Estou desenvolvendo o próximo capítulo, e espero não demorar tanto e não desapontar vocês. Aliás, me perdoem se o Percy não está parecido tanto quanto ele realmente é, meu irmão me repreendeu dizendo que ele não é alguém de “muitas falas” porém eu vim com a desculpa que ele amadureceu após ter completado trinta e poucos anos, haha. Espero que não tenha estragado muita coisa. Obrigada por tudo, mais uma vez. “Nunca parem de ter esperança em todos os desejos justos de seu coração.” –Presidente Dieter F. Uchtdorf.