O Que É Amar?
13 A fenda
Notas iniciais
Os pés de Silena escorregavam, e pareciam não tocar na neve a qual acobertara toda a extensão em que sua visão alcançava. Talvez os seus pés, de fato, não o apalpassem. Talvez a neve densa e esquálida a agarrasse nos calcanhares e a impulsionavam para frente. Porque ela não parava, ela não conseguia parar. Estava resfolegando, seus pulmões ardendo ao borbulhar lavas escaldantes em seu organismo. As gotas de seu suor escorriam geladas contra sua pele revestida do mais vivo calor. Vivo? Será que ela estava viva? Ela poderia não nascer, não depois do que ela fizera com os pais.
Silena sacudiu a cabeça com vigor inquebrável, a qual a mantinha desperta. Aquele alerta brusco, recalcitrando em seus ossos, intimidando cada molécula que a compunha a desfazerem-se, como pó. O medo a envolvia, um manto que rebatia em seus pequeninos e frágeis membros. Mas ela não podia estancar. Não podia. Ignorava o rancor que sua perna lhe açoitava, trazendo-lhe um alvoroço em seu peito e fazendo-a sentir o gosto metálico do sangue em sua boca. Não sabia que era capaz de correr assim. Uma vez já sonhara que estava acompanhando as águias, com suas asas desprendendo-se de suas costas, envolvendo as correntes de ar como se a libertassem de aros vibrantes de aço. Ela arrebatava a sequência de sons, odores embalados de líricas notas de uma melodia suave, um contorno de uma paisagem inexistente e sôfrega de esperanças concretas. Ela sentira paz, e uma imensidão cósmica da mais pura felicidade havia se abrigado em seu cerne. Foi como estar em uma caverna segura e cálida em meio a um deserto frívolo e arenoso. Tão frio, aquele deserto. Guardado em uma chama azulada que causava queimaduras em seu furacão de veias, efervescendo o seu sangue que corria em um frenesi atônito. Ela não tinha ficado com medo naquele momento, embaixo de seu subconsciente. Silena sentira uma energia tenaz a levar para frente, encontrar uma âncora para batalhar e achar um abrigo. Ela sentira coragem.
Mas fora apenas um sonho. E agora parecia que a outra camada do pesadelo a encontrou. E não conseguia agarrar a coragem, não conseguia a abraçar dentro de si. Porque ela estava apagada, submersa a uma convulsão de pensamentos que a arrastavam a confusão. Não, não eram suas palavras baixinhas que a perturbavam. Eram os sussurros de outra voz. A pequena não conseguia a distinguir, porém sabia que devia fugir dela. Não podia deixar que ela machucasse Annabeth. Não podia deixar que ela achasse Percy. Não podia deixar que seus pais tentassem salvá-la. Era o momento de ela os salvar. Ela tinha de afastar-se de sua mãe, afastar aquilo de sua mãe, os olhos fuzilantes os quais aderiam em sua nuca, aqueles que ela não conseguia encontrar, embora soubesse que estava constantemente presente.
Um relógio. Ela ouvia seus ponteiros, sentia-os em sua vértebra, reverberando com a pulsação constante. Mas os ponteiros não pareciam seguir seu curso natural, eles não pareciam se mover para frente. Eram agudos, severos, dolorosos. Seu estômago revirava-se, e uma sensação nauseante passou pela sua garganta, aquecendo-a com lascas fumegantes pontiagudas, enquanto lentamente ela compreendia. Eles se direcionavam para o passado. Sua vibração permanecia martelando em seu crânio, pressionando-o, enchendo-o de sons que não estariam tão ruidosos ou altos se tudo voltasse ao normal. Porém Silena sabia que era impossível. Não podia voltar, não agora. Teria de enfrentar aquilo, teria de suportar aquilo... mas como? Suas pernas pareciam tão cansadas... suas forças pareciam estar sendo sugadas por aquela mesma sensação de medo e terror que havia se instalado dela e que descobrira pela primeira vez quando ela não encontrara seu pai em certa manhã, dentro de um museu antigo em Roma, no mesmo dia em que comemoravam o aniversário dela. E no mesmo dia que sua mãe havia partido.
Ela não conseguiria salvá-la, conseguiria? Por que havia imaginado que poderia? Ela não era forte como os outros campistas mais velhos do acampamento, quem ela tanto admirara. Ela não era tão corajosa quanto seu pai, Percy, cujas histórias tanto eram sussurradas naquelas noites onde todos se reuniam ao redor da fogueira para ouvir. Ela ainda podia escutar, mais baixinho porém claro, rente ao seus ouvidos, junto com a respiração quente e aconchegante de seu pai. "Não acredite neles. Não foi tão heróico assim! Quando chegarmos em nosso chalé, vou te contar como realmente foi". Ela costumava rir em silêncio, escondendo seu rosto nos braços seguros dele, deixando-se esquecer de onde estava e apenas ouvindo a respiração calma e conhecida de seu pai, quem tanto amava, quem tanto confiava e quem tanto precisava. Era quando ela sentia aquele calorzinho terno que recobria todo seu corpo. Silena não conseguia lembrar como era ter esse calor. Seus membros estavam frios e enrijecidos, e seu sangue parecia ter se convertido instantaneamente nas águas congeladas do alto das nuvens. Onde Apolo a carregava quando seu pai não via, e ali ele procurava convencê-la de levá-la até sua escola um dia, para conhecer sua professora de história. Todas as perguntas que teimavam em queimar seus pensamentos se convergiram em apenas uma. Era Apolo quem estava fazendo aquilo com ela?
Uma dor causticante penetrou em seus ossos e em sua frágil mente, a pequena sentiu as lágrimas de seus olhos desbotarem as cores do inverno e sua consciência oscilar. Sentia ser puxada para uma atmosfera mais densa, que acentuava a dor que lhe pinicava o corpo, fazendo-o entorpecer. Ela não poderia parar de correr, não poderia! Mas estava tão cansada...
Tique...
As árvores começaram a se desacelerar, como se sua consciência estivesse sendo vagarosamente arremessada por um buraco negro, sua perspectiva tornava-se em um lapso de segundos lenta, estancando seus sentidos enquanto tentava fugir daquele que a perseguia, porém algo dentro dela sabia que não conseguiria, sabia que não havia um meio por onde escapar. Sabia que era tarde demais. O que a fez pensar que conseguiria? Era algo grande, avassalador. Contudo estava fragmentado. Sabia disso, de algum modo. Ele estava em pedaços, trechos perdidos. O que a estava seguindo-a, como uma densa sombra, embalando-a em uma cega angústia, era apenas uma parte do todo o qual pertencia anteriormente. Podia sentia o desespero daquilo enquanto movimentava-se a frente, a frustração de não ser capaz de manter-se unido, a sensação de horror por não poder encontrar-se nunca mais. Um sentimento de vingança. Um sentimento de fúria acesa que a cegava.
... taque,
Seus membros estavam pesados, e ela estava fraca. Seus pulmões comprimiam-se, resfolegava, um cansaço arrastando-a para baixo, obrigando-a a desmoronar, cair na neve com as mãozinhas tentando a suster para cima, suas pernas enterradas na neve, os joelhos sem forças. Ergueu a cabeça, seus cabelos descansando em seus ombros, a franja intercedendo sua visão. Silena observou seu redor, o vento faiscando em sua pele como lâminas geladas, e pedaços de gelo criando laços nos fios de seu cabelo, adornos os quais prendiam-se firmes no topo de sua cabeça, como uma coroa. A diferença era que ela não era uma princesa. O rei que a cuidaria poderia nunca existir em suas lembranças caso ela não agarrasse aquela espada e lutasse como uma guerreira que precisava se tornar. Os flocos de gelo eram leves. A pequena não se incomodava em tentar tirá-los, mesmo que ao derreter-se formavam uma trilha enregelada em direção a sua espinha dorsal.
Tique...
Então tudo parou. Tudo pareceu apenas um imóvel retrato. Ela engoliu dentro de si um soluço inevitável, de confusão, de assombro, de medo. Seus membros eram acorrentados no chão onde havia se fixado antes de tentar correr, correr, correr. Era uma criança. Como uma criança poderia lutar contra aquilo, seja o que fosse? Ela sentia-se impotente, debilitada com seus membros mortos pendendo de seu tronco, ainda debilmente tentando sustê-la.
Por um momento, ela deixou-se ceder.
... taque.
E se ela pudesse desaparecer? Para onde ela iria? Será que esqueceria seus pais e o acampamento? O que está lá fora? Onde é aquele lugar onde Apolo sempre a impede de conhecer? Aquele lugar além do sol, aquele lugar além das estrelas. Não precisava correr... precisava? Não iria esquecê-los, nunca iria. Ela não queria ir. Ela não queria descobrir o que estaria a esperando se ela não conseguisse. O que ela tinha de fazer? A pequena não sabia exatamente. E talvez não precisasse saber naquele momento.
Ela sabia apenas de uma coisa, que enchia-lhe a mente. Percy precisava dela, e ela não desistiria. Não, ela aguentaria firme. Por ele. Por aquele que sempre suportou tudo por ela, por aquele que a ensinou a enxergar o pôr-do-sol debaixo d’água quando ela tinha medo do escuro e temia ver o sol esconder-se antes da noite achegar-se nos céus.
Por que fugir? As lágrimas rasgaram a fechadura a qual a enjaulara, e arrancou um soluço da jaula escancarada que Silena com tanta diligência tentara manter vigiada em seu tórax. Ela perdeu o fôlego e desacelerou seus batimentos cardíacos, cerrando suas pálpebras, encontrando aquela escuridão familiar, seus olhos suplicantes por um significativo refúgio, tentando encontrar onde descansar. Mas seu coração não parecia querer diminuir o ritmo, pois ainda tateava seus batimentos na ponta de seus dedos – irrefreáveis, como se quisessem dizer algo à ela... algo que ela esforçava-se por não compreender.
Silena sentiu suas pernas cedendo a sua disposição cortante de parar. Sua força foi esvaindo-se, e o tempo com que puxava o ar para dentro de si pareceu prolongar-se pelo espaço. Talvez ela não respirasse mais. Porém, se ela não mais o fizesse, como ainda conseguiria ouvir aquele poema? Aquele poema que viera a sua mente, com sobriedade, com rispidez.
Guerreira, pequena Silena
Cria de descendentes dos deuses,
Cria de uma grande esperança sem vida.
Sabes de pouco daquilo que realmente és, não é?
E tem medo do que logo será, sim!
O Tempo é algo mutável, de fato,
Entretanto, ele não gosta de ser alterado,
Assim como um mar não pode ser domado,
Ou o passado, mudado.
Você não é daqui, nunca o será
Posso tornar seu futuro em passado
E os segundos em séculos atrasados.
Você pode tentar, mas não sairá
Por que quem sabe onde estará?
Perdida, sozinha.
Perdida e cansada.
Apenas uma criança... uma criança.
Perdida em meus braços.
Seus olhos foram abertos com um sopro de seus pulmões subitamente cheios. E uma vez inundada com visão, aquela clara realidade a qual parecia estranhamente apagada, fez despertar juntamente com sua consciência um desejo irrefreável de nunca ter abandonado a escuridão de sua mente.
***
Ártemis estava sem seu arco. Ela nunca esquecia-se de vesti-lo, como uma redoma protetora. Porém, naquela noite, ela fitava a grande esfera pálida que refletia suas feições austeras, olhos perspicazes sempre alertas, pensamentos tenazes brotavam em seus circuitos nervosos nunca estagnados, e Apolo não precisava despender muito tempo para perceber aquilo que ela claramente escondia. Ele conseguia enxergá-la mais uma vez, e conseguia tocar naquele pequeno espaço que ela deixara em seu inconsciência para ele, como aqueles dias remotos quando batalhavam lado a lado. Ela sempre deixava sua retaguarda com ele. Era uma criança, mais uma vez. Cabelos longos, escuros como o tapete que envolvia os céus, os fios desorganizados com precisão percorriam sua coluna, seus ombros tensionados.
—Você está atrasado.
Apolo estancou, seus pés debilitados de ascender mais um passo. Sentia-se fraco, frágil como um fio rompido. Sabia o motivo, sabia a consequência da qual se tornara servo. Tentava esquecer, tentava fingir que aquilo nunca havia acontecido. Seus lábios tentaram formar palavras, porém eram sentenças silenciosas e miúdas, que jamais seriam sequer consideradas. Ártemis aquiesceu com a cabeça, com cautela, suspirando com um cansaço reprimido. Recompôs-se, porém, tão rápido quanto pareceu demonstrar seu desgaste mental.
—A criança não durará muito, Apolo. Ela está sofrendo.
O dourado dos olhos reluzentes da fonte de luz que salpicavam a noite pareceu desbotar-se. As estrelas piscaram, o sono interminável que acometia sobre sua estrutura sem permitir-se perturbar. Os cabelos com fios de ouro mesclaram-se ao vento, as curtas pontas balançando sob os domínios da correnteza gelada. O vento submetia um campo amplo, recoberto de plantas altas as quais equilibravam-se naturalmente ao redor dos dois irmãos.
—Eu sei. –seu sussurro era um eco surdo. Não conseguia lembrar-se do que ocorrera com ele alguns minutos atrás. Suas memórias estavam desorganizadas, como se a linha de sua existência houvera sido repentinamente transtornada. Cicatrizes de memórias pareciam aterrissar em seus pensamentos, tão confusos e irreais que faziam-no entorpecer. Sabia que algo estava errado. Toda a distorção do tempo estava ricocheteando nele, e não havia como parar.
—O que você irá fazer, Sr. Destino? Eu deveria tê-lo impedido enquanto podia. –bufou, virando seu pescoço para encará-lo, aprofundando-se em seu âmago como se procurasse uma identidade por trás de uma máscara. –O Tempo corrói aquele que tenta se divertir dele. Cronos não morreu, Apolo. Não em um todo. Ele está espalhado no passado, no presente, no futuro. Você, supostamente, era quem mais deveria compreender isso. Ele consegue sentir a criança tanto como sabe distinguir um gigante de um sátiro, e irá destruí-la rapidamente. E o que você pretendia? Sabia que isso iria acontecer.
Um zumbido ressoou, com o silêncio criando asas para rebater nos ouvidos dos irmãos algo que eles já sabiam. Apolo alterou o peso de seu corpo, de forma súbita sentia um fardo elevar-se em suas costas – um obstáculo grosseiro e torpe. Seu rosto virou-se, inclinando-se ligeiramente para o chão. Ele bufou com amargor, um gosto acre envolvendo sua garganta, sua pele ao redor de seu pescoço latejando.
—Não desse jeito.
Com um relance da íris prateada da deusa, Ártemis conseguiu enxergar uma saliente nostalgia em suas feições, aquelas linhas tão conhecidas que pareciam ter se tornado breves lembranças da infância. Infância? O que ela entendia sobre o significado por trás da cortina dessas letras? Ela nunca havia experimentado passar por uma. Seu semblante tornou-se sombrio, abrigando uma sombra tempestuosa a qual Apolo havia muito não presenciara.
—Não desse jeito?! O que você pensava que fosse acontecer? Que sua pequena diversão fosse esquivar-se ilesa das garras do poderio do próprio Tempo? Que Cronos ficaria sentado, observando e dormitando enquanto você mexia em seu próprio domínio, enquanto admirava a sua admirável perícia, degustando-se de seu esconde-esconde? Você sabe o quanto ele não gosta de ser perturbado, não sabe? E ele já foi perturbado o bastante. Como você esperava...
—Não esperava que fosse incompreendido e trancafiado no Tártaro! –interferiu com a voz desgastada, alteando o timbre de modo que o desespero retido dentro de seu âmago se desprendesse com uma facilidade palpável, seu rugido espalhando-se pela ventania fria que carregava o rancor em ondas distantes tecidas pela noite. Sem perceber, ele arremessou as palavras em direção à irmã, como se fossem finas navalhas embebedadas de ressentimento. –Não esperava que teria de abandoná-la a mercê da própria sorte! Não esperava, realmente, que fosse ter de confiar apenas em uma mente inocente de uma criança para lidar com tudo isso!
O ruído das folhas emparelhadas nos galhos das árvores, que abrigavam os gêmeos em seus braços, farfalhavam a música a qual fora construída para eles através dos momentos trançados juntos. Momentos encontrados em uma colmeia de sentimentos, aqueles imensuráveis e incapazes de identificar. Aquelas raízes fortes onde pisavam carregavam-nos em suas próprias lembranças, quando há tempos atrás encontraram-se naquele mesmo lugar, procurando esconder os rastros a fim de derrubar um titã juntos, compreendendo passos que apenas eles podem discernir. Mas já passaram-se tempos. E a atmosfera tornara-se densa e condensada, como se Cronos houvesse reaberto o próprio estômago para acomodá-los ali dentro, um espaço úmido e trôpego. O que não era possível, uma vez que havia se dissolvido em minúcias e disposto em partes irregulares do tempo. Ele não possuía solidez. Embora ainda exista algo dele. Sua consciência ainda vivia.
—Talvez você tenha de reaver suas decisões, irmão. –as feições da irmã não haviam sofrido um movimento perceptível e encontrava-se esculpida com traços rígidos, sua silhueta salientando sombras ao redor do terreno onde se postava, sombras sórdidas e desfocadas, como se ela não estivesse ali realmente e apenas visse a plana superfície de um oceano, espelhando os contornos de uma lua irradiando um sorriso incisivo e contraditório. Era como rever a última guerra a qual participaram juntos… e não havia durado apenas alguns dias? Porque a diferença era o período infinito que parecia estender-se no presente.
Afinal, o que era o tempo para ele? Presente, passado e futuro, faziam algum sentido em seu sistema divino que há tanto acostumara a controlar? Contudo ele não era o único a controlá-lo, não mais. Ele sentia isso, o rasgar em seu âmago ao tentar curvar a ordem temporal de acordo com seus desejos. Havia uma trave, e ele pensara que jamais encontraria essa trave novamente.
—Era a única maneira de reconciliar a estrutura paradoxal, Ártemis. Você sabe disso, também. –o tom reduzido e ríspido que emanou de sua garganta fez Apolo pigarrear sonoramente, refugiando o salpicar daquele dourado vívido de seus olhos em um recanto escondido de sua mente. Estava cansado. Estava desnorteado. Porém sabia que havia alguém, alguém bem pequeno e frágil, que estava determinada a não se quebrar, embora tivesse de lutar sozinha.
Ela não estava sozinha. Nunca estaria.
Fechou suas pálpebras e prendeu a respiração descompassada. Não importava-se pelo desconforto ao sentir seus pulmões comprimirem-se, aumentando a impressão de estarem afogando-se cuja agitação se instalou em seu tórax desde o primeiro momento que sentiu a estocada das ondas do tempo se condensando. Ele não sabia o significado da instabilidade do Tempo o qual compreendia cada lágrima que estruturava-se em fendas abertas, por algum descontrole de semideuses de linhas temporais distantes. Apolo resolvia essas disfunções. Mas, dessa vez, era diferente. E ele preferiria nunca ter descoberto a origem daquela cicatriz temporal. Desejava ardentemente que nunca houvesse descoberto o motivo da mancha no relógio do universo ter começado a aparecer.
A postura de Ártemis tornou-se pesada, seus punhos cerrados com uma pressão torrencial abrandaram sua força iminente que aguardava o comado de sua fonte. Seu suspiro alongou-se por segundos duradouros, repousados no manto da noite fresca, inebriando os ossos dos gêmeos. Apolo com lentidão tornou a abrir seus olhos marcados pelo desgaste psíquico submetido. Observou sua irmã menear milimetricamente a cabeça, vertendo-a para cima. Os seus olhos prateados voltaram-se para um lugar onde Apolo nunca poderia entrar, embora conseguisse manter-se na soleira da porta cujos entalhes eram profundos, aqueles antigos olhos revolvidos como em fogo, chamas de um luar derretido. Fitando as estrelas claras pintadas no céu, Ártemis cruzou os braços, as mãos envolvendo seus ombros, fazendo com que a testa do rapaz de cabelos mergulhados nos raios solares franzir. Ele nunca vira sua irmã em uma posição impotente, como estava naquele instante. Acompanhando seu olhar, paralisou-se na extensa constelação refletindo esperança em meio ao desespero onde encontravam-se. Tudo estava estranhamente tranquilo. A natureza parecia despida do conhecimento confuso dos acontecimentos em sua superfície, logo abaixo de seu domínio infinito.
—Ela irá morrer, Apolo. Espero apenas que esteja preparado quando isso ocorrer.
—Não. Isso não acontecerá.
A resposta abrupta e imediata fez Ártemis voltar-se para o homem com o olhar, aquele homem cujas silhuetas pareciam envelhecidas e sua determinação fincada na firmeza de seus pés que costumava demonstrar-se evidente alguns dias atrás desaparecia-se rapidamente. Sua pequena estatura naquele instante obrigava-a elevar o olhar, porém sua fria e provocadora imagem mantinha-se intocada,encarando-o com prazer cheio de divertimento, interpretando suas palavras de modo desinteressado, suas palavras soando incrédulas.
—Você acredita na criança tanto assim? Confia que sua sabedoria ainda despojada e imaculada poderá resguardar-se?
Apolo não sustentou seu cortante modo de encará-lo por longo tempo. Desviando seu olhar, percebeu o que havia dito. Ele recompôs sua farta atitude, mantendo os ombros retos e abaixando o queixo o suficiente para fitá-la mais uma vez, nesse momento sem abalar-se ao revidar.
—Sim.
A moça, aparentando ser tão menor do que quem se mantinha inamovível atrás dela, girou o calcanhar e embraçou com a visão a figura que a analisava com expectativa. Ela perscrutou o irmão, examinando cada detalhe de seu modo de agir e vê-la. Seus passos foram silenciosos, sua atenção fugaz atravessou a concentração de Apolo e fê-lo recuar, enquanto Ártemis não hesita em passar por ele, sem mover os lábios. Ao acompanhá-la com sua visão assídua, notou com os músculos tensionados ela parar.
—Pois bem. – sua voz achegava-se em sua audição arduamente, viajando entre o vento ruidoso. Afastada ele conseguia visualizar as costas aprumadas de sua irmã e seu caminhar disciplinado. Assim que imóvel ficou, ele poderia imaginá-la apenas como uma criança perdida na noite. Sobre os ombros, ela cravou os prateados de seus olhos nos dourados desbotados dele. Uma filha da qual a noite adotou e embalou em seus braços. –A sorte foi lançada.
***
Tempo futuro — Olimpo.
O Olimpo estava vazio, oco. As lembranças que permeavam acalentadas na mente de Percy, por um instante, pareceu escurecer-se e esfriar. Toda a vida parecia amortecida, um tornado mudo revolvia a arquitetura e um redemoinho de caos implantava-se serenamente nos cantos do salão. O exterior do Olimpo parecia adormecido, um cemitério de eventos que poderiam nunca ter ocorrido se ele não houvesse feito parte de sua história. Seu interior estava abandonado, embora aparentava abrigar um resquício de uma vida sobrevivida em meio ao turbilhão de raios, tempestades, furacões que se focalizam no fogo lívido da grande sala, onde os deuses se reuniam. Percy, por um momento, duvidou se algum dia havia realmente visto seu pai sorrindo ternamente para ele de onde costumava sentar-se. O rapaz que havia crescido impôs suas pernas a empurrá-lo para frente, e o ardor eletrizante do ferimento em seu quadril fê-lo perder as forças, desabando em uma colcha de poeira.
Enquanto permitia sua consciência ser sugada para a escuridão dormente e aclamada ele lembrou-se de um sorriso singelo e um puro coração que batia em seus braços quando aconchegava uma pequena criança que tanto amara perto de si, sentindo seu cheiro de maresia vindo dos seus cabelos loiros herdados de quem ele prometera jamais esquecer. Papai, você vai chegar logo? Não vai me abandonar, vai? Vou sentir sua falta, muita — muita mesmo!
Sua respiração acelerou-se, seus pulmões vibrando com uma violenta tempestade abrasadora desdobrando-se em seu âmago, como se o bafo de um dragão houvesse resolvido esquentar ardilosamente o mar que carregava dentro de si. O filho de Poseidon não se importou pela dor recalcitrante que despertara em cada partícula de seu corpo. Porque sabia que havia alguém esperando por ele, e não deixaria que ela aguardasse por mais tempo. Ele precisava dela, assim como sabia que ela precisava dele — em algum lugar, um lugar onde certamente batalharia contra os céus para conseguir alcançar, sem se incomodar com a exaustão ou a perda de sangue que perturbava seu equilíbrio.
Percy enfureceu-se consigo mesmo, com sua fraqueza, por ter-se atrasado, por não entender o suficiente, por não poder proteger aqueles quem mais se importava, por não poder fazer com que tudo ficasse bem novamente naquele exato instante e pela sua fragilidade, imobilizando-o, fazendo com que seu temor arrancasse uma parte dele para a escuridão da incerteza. Para aquele círculo de assombrosas sombras, seu desejo de fechar os olhos e esconder a tristeza que se obrigava a engolir, porém que o desestruturava antes que pudesse interceder.
Ele não ia deixar que isso acontecesse.
Seus braços içaram-no novamente a realidade, e ele agarrou sua espada ao buscar levantar-se, sentindo a pressão turbulenta da gravidade tentando-o incansavelmente a desistir. Não era apenas a pressão da física que o impedia de prosseguir, de avançar acima com o fervor o qual borbulhava e incinerava-o em cada inspiração, mas algo mais pairava naquela atmosfera frívola. Algo que sentia conhecer, embora não conseguisse distinguir qual sua fonte ou o porquê de poder pressenti-la. Como poderia entendê-la? Mesmo sentindo que poderia, seus pensamentos revolviam-se em uma névoa de caos e diziam-lhe o contrário.
Havia uma possibilidade. Uma esfera de oportunidades aberta por onde todos os motivos dos eventos que transcorriam poderiam ser justificados. Uma possibilidade pela qual ele persuadia-se a não acreditar, considerando-a como um ato de desespero. O tempo... Cronos. Não era possível. Não poderia apegar-se àquilo, não. Portanto, fixou-se naquilo em que tinha esperanças, e lembrou-se do motivo de nunca desistir. Alguém precisava dele, e ele não a abandonaria – não deixaria que nada os obrigassem a se perder, não mais uma vez.
Já havia experimento a dor de ser carregado pelo mar da angústia que o compelia a fugir. A escolher um caminho pelo qual poderia refazer os passos que um dia caminhara. Mas havia algo de errado com ele. Ele não queria reconstruir aqueles passos, ele não queria perder aquela dor vazia o qual o mantinha vivo para lutar. Porque ele sabia que havia algo pelo qual lutar. Percy sabia que depois de enfrentar o pesadelo que o transformava em um monstro submerso em um terreno inimigo, ele poderia encontrar aquela pequena mãozinha a qual faria com que toda a angústia uma vez sentida se esvaísse, ele sabia que nesse último dia poderia arrancar o pesadelo de dentro de seus ossos e vislumbrar os olhos verdejantes de sua pequena filha cujo ribombar do coração o lembrava dos grandes livros que ele escrevera e que alguém segurou sua mão para escrever, para aguentar firme, para no seu último suspiro apenas mostrar a ele que ainda há conhecimentos além de palavras lidas na história, mas palavras narradas por um riso genuíno de uma criança, ou o sino dos ventos de uma noite silenciosa e de uma lágrima contida.
Annabeth não o gostaria de vê-lo chorar. Então por que o fazia naquele momento? Por que continuava a pensar que poderia mudar algo pelo qual ele não conseguia compreender ou desenlaçar?
Sua espada suspendeu-se no ar por um instante, sustentando seu corpo quebrado, fazendo-o rir com um ríspido escárnio de seu esforço desgastado e apedrejado pela injusta carta de sua cegueira. E não fora ele quem sempre provocou sua própria falta de visão? Não é sempre ele quem permite as amargas brincadeiras do tempo desgastá-lo por completo? Não foi ele quem deixou que escorressem de seus dedos a remota sensibilidade de salvar algo importante para ele? E desde quando poderia pensar em fazê-lo, em ser capaz de conseguir? Ele não devia...
—Pare.
Seus músculos estavam doloridos e a fagulha de vivacidade pela qual estava agarrando-se apressadamente esmaeceu. O sussurro latejou pela sua mente, encontrando-o em um fio de inconsciência. Seus olhos hesitaram em abrir-se, cansados demais para obedecer a um comando de seu cérebro. Estava confuso, perturbado e anestesiado pelo medo e desespero. Como poderia enfrentar aquela dor? Aquela amortecedora dor capaz de refrear sua força ou vestígio de esperança? Ele prometeu que nunca a perderia. Não foi forte o suficiente para cumprir a promessa, foi? E agora estava afastando-se mais uma vez dela, quebrando mais uma vez a frágil e escorregadia linha pela qual parecia sempre perder a firmeza de seus dedos.
Silena. Talvez ele não conseguira ser o guerreiro que ela precisava.
E ela não foi a única com quem ele falhou. Silena não era a única quem ele perdeu. Naquele momento, o tempo pareceu se misturar e novamente viu em sua lembrança de Silena o rosto distante de Annabeth. Como pudera deixar que ela escapasse de seus braços tão facilmente?
Ele nunca estaria preparado. Mas ela escolheu por ele, por Silena. Ela escolheu proteger um milagre e o confiar a ele. Ela cuidou de Silena com sua vida, e a confiou a Percy para a guardar todos os dias.
Sua mente entorpeceu-se, e sua visão tornou-se um denso borrão que aquecia seus olhos. Não percebeu quando suas mãos começaram a tremer, seus dedos cobertos por uma camada fina de gelo superficial que insensibilizava seu tato. Apenas quando uma gota morna repousou no dorso de sua mão começou a notar as lágrimas rolando pela lateral de seu rosto, escorrendo pelo seu queixo. Percy se recordava, ele conseguia sentir a voz de sua Sabidinha ecoando em seus pensamentos, como uma trilha o indicando para onde ir. Era uma trilha esmaecida, mas ainda viva. O farfalhar do vento que colidia com sua audição misturava-se nas lembranças que sua mente o levava a imaginar. Não fora tudo em vão, foi? E agora ele tinha a oportunidade de provar que não, nada do que eles escolheram acabou ainda. Ou talvez, do que Annabeth decidira e escolhera por ele.
Agora era sua vez de fazer a escolha pelos dois. Sabia que devia confiar nela, naquele primeiro vislumbre do que ela queria deixar com ele.
Não foi sua culpa, Percy. Por que todas as vezes você quer ser responsável pelas brincadeiras do mundo? Você pode ser bem mais do que pensa. Sempre vi isso em você, meu Cabeça de Alga. Sempre. Eu nunca deixei de acreditar em você, e isso não mudou. Isso não vai mudar, não importa o quanto tentem nos separar, está bem? Eu acredito em você...
Ele estava perto. Sentia isso. Estava finalmente perto de encontrar sua Silena.
Assim Percy abriu seus olhos. Suas pupilas pesavam, todos os ossos de suas costas estavam rígidos, sua visão queimava enquanto sua consciência oscilava com lampejos da realidade e do seu fragmentado raciocínio exausto, o qual amortecia sua capacidade de agir e pensar, fazendo com que sua mente ardesse. Mas dessa vez, ele não deixou que a dor e o torpor dominassem quem ele era. Levantou-se, ignorando o farto sangue que escorria pela sua pele fantasmagoricamente, o ferimento latejando, sensibilizando seus sentidos e cuja intensidade do pulsar efervescente espalhava-se perante seu tórax.
Percy grunhiu enquanto arrastava sua enrijecida cicatriz e cortes ensanguentados para uma minúscula fissura de sua mente. A cicatriz daquilo que passara assim que recebeu Silena nos braços pela primeira vez. Escondeu os cortes de sua pele e as dores que o nocauteavam em um recôndito de seus pensamentos. Uma tira de seu cabelo irremediável em sua bagunça tocou-lhe a testa e fez escorregar em suas bochechas uma gota de suor. Seu cabelo estava pesado com a umidade que absorvia, vindo do ar carregado de eletricidade, da escura e densa neblina cheia de água salgada pela qual podia sentir vibrar em sua corrente sanguínea, e a ferida aberta em sua nuca, encharcando suas costas com a gélida e viçosa sensação de dedos esqueléticos arrancando-lhe toda a humanidade que ainda possuía.
Mas ele não era apenas humano. E sua parte divina aprendera a suportar aquilo que sua identidade mortal não conseguiria. A divindade que existia dentro dele o sustentava, dando-lhe coragem para controlar o que jamais poderia um dia aprender a dominar sozinho. Nada fazia sentido. Tudo acontecera rápido demais. Seus pensamentos rodopiavam, atordoando-o.
Foco, Percy.
Respirou fundo, bloqueando cada linha de pensamento que tentasse abalá-lo. Não poderia compreender o que deveria fazer sem aquela força que recebia de seu pai. De todos a quem ele amava. Onde Poseidon estava? Onde todos estavam? Sua audição era embalada por um constante ruído, suave e que vibrava em suas memórias, mas que não conseguia entender plenamente. Era um ruído abafado, um ruído nostálgico. Algo que o chamava.
Percy fechou os olhos, com força. Não queria continuar, mas sabia que devia aguentar firme. Então ele o fez.
Ele nunca ia desistir.
Endireitou-se, as forças invisíveis tentando o imobilizar. Com os olhos cerrados, ele avançou um passo e ignorou toda a dor que se alastrava pelos seus ossos e o arrebatava da realidade. Suas mãos agarraram avidamente a bainha da espada, e lutou contra ela para apoiá-lo. Seus olhos permaneciam fechados, porque sabia que devia deixá-los assim. Não entendia o motivo, mas sabia que deveria fazê-lo. Como todas as vezes que obedecera aquela voz... que tinha medo de um dia esquecer.
Ei, Percy. O que você acha de colocarmos o nome dela de Silena?
—Então você sempre soube que seria uma menina, não é mesmo? E você me escondeu até o último momento, Sabidinha. –Percy sussurrou ofegante, suas palavras falhando. Ele invocava uma antiga memória, e ela lhe levava o ânimo que seu próprio fôlego o privava. Ouvindo atentamente, ele se guiou através do espaço dos deuses, seguindo aquele suave ruído que se intensificava a cada passo trôpego. Seria uma risada? Não era parecida com qualquer outra. Ele tateava com a ponta dos pés o piso a sua frente, arrastando a outra perna ferida, suas mãos latejando pela pressão exercida no punho da espada. –Sabe, Annabeth... sempre quando estou com nossa Silena, sinto como se você estivesse aqui de novo. Ela é um pedacinho seu e vejo isso em cada pedacinho dela.
A ponta de Contracorrente causava um som cortante pelo chão, por causa do atrito que era forçado a ter com o passo mais apressado de Percy. À distância, ele podia ouvir o zumbido do vento fervilhando nos arredores do Olimpo, cada vez mais furioso, e em sua mente sons de batalha e das crianças que tivera de deixar para trás o atormentavam, mantendo-o alerta.
—Você sabe... –repentinamente, seu pé afundou em um solo ligeiramente diferente do salão principal do Olimpo, em um terreno ligeiramente mais baixo. Perplexo pela mudança, ele se deteve. Sentiu uma brisa mansamente acariciar sua nuca e percebeu o ar mais fino em sua respiração, fazendo-o sentir seus ossos mais leves, seu corpo menos quebrado. –Uau. Tenho impressão de que cheguei em algum lugar. –ele avançou com cautela, até que uma sensação morna e presente o fez parar. A sua direita, havia um facho de luz que procurava um meio de entrar em sua visão. Estava na hora de abrir seus olhos? Ele deixou um breve sorriso mover seus lábios. –Como eu ia dizendo, Annie, muitas vezes eu ainda posso te sentir ao meu lado.
Com os olhos abertos, uma luz viva o envolveu com um caloroso sopro. Percy assombrou-se. Não estava mais no Olimpo. Ou estava, embora o lugar em que pisava e se assomava em todas as direções não se assemelhava a nada onde já estivera. Pelo canto de seus olhos, notou que não havia porta atrás de si. Aparentemente, estava nos extremos de um espaço amplo e desconhecido, com uma iluminação branda e forte o suficiente para acomodar sua visão sem extorqui-la, oferecendo clareza o bastante para notar cada detalhe do piso esculpido a seus pés. As dimensões daquele lugar não pareciam ter fim e nem começo, ao mesmo tempo que davam uma impressão acolhedora de um abrigo. Havia um caminho que o direcionava, ladeado por cristais translúcidos que formavam uma pequena barreira que refletia uma luz sutil e bela. Por além da discreta barragem de cristais, havia um infinito oceano espelhado. Percy sentia a pulsação da água borbulhando dentro de si, cada partícula de seu corpo ansiando por uma cura que trouxesse alívio a toda dor que Percy batalhava para reter.
Mas chega um tempo em que tudo o que se precisa fazer é parar de reprimir aquilo que sente, mas não consegue explicar.
Contracorrente escorregou de seus dedos, seus joelhos firmando-se nos intricados símbolos e história marcadas no solo. Percy contornou os cristais, que reluziram com a aproximação de seu toque, e com a ponta de seus dedos ele alcançou a superfície límpida da água, e seu frescor o atingiu. Delicadas ondulações rodearam seu tato, e tudo o que ele conseguiu fazer foi sorrir. A dor amenizava e suas feridas cicatrizavam enquanto ele vislumbrava aquele pequeno pedaço de um espaço divino renovar o que estava destruído. Seu dom divino o reconstituía.
Como ele chegara até ali?
Apesar das muitas perguntas que se formulavam em sua mente, ele sabia que não obteria uma resposta com tanta rapidez. Por isso, decidiu não se questionar, mas apenas seguir em frente. Com uma força há muito não experimentada, Percy apanhou uma Contracorrente derrubada e em uma ágil manobra guardou sua cimitarra, escondendo-a perto o suficiente de si, embora desvinculando-se do intento de sacá-la tão cedo, com uma leve sensação descarregando-se de dentro de si por poder não a usar. Tornando-se para o lado, ele fitou aqueles limpos cristais, a luz advinda do fundo do oceano e a serena superfície da água movendo-se pacificamente.
—Obrigado.
Não sabia quem estaria o ouvindo. Mas sabia que sempre havia alguém ali, escutando.
A trilha alterava seu brilho conforme prosseguia. Porém, não demorou para atingir o limite, onde os cristais vertiam-se em direção à água, em uma inclinação que continuava além das profundezas do oceano. Percy estancou. Um ponto de luz ao fundo parecia brincar com sua visão. Sua intensidade crescia e esvanecia, logo para se fixar em sua mente. Percy piscou, atônito. Já ouvira falar que não podia ficar muito tempo encarando o sol, mas como o sol poderia estar debaixo da água?
Ao abrir seus olhos novamente, descobriu muito mais do que as cores em pastel daquele lugar. Faixas de luzes criavam um enrodilhado de fios em seu campo visual, entrelaçando-se, flutuando ao longo da atmosfera. Ele ergueu o olhar e observou, surpreso, a dança incansável dos fios de luz, juntando-se e espalhando-se, indo em rumos distintos e outros unidos, enrodilhando-se em suas pernas. Percy girou, encontrando uma forma circular tremeluzir em sua cor e luminosidade. Ele sentia que aquele trecho de luz era diferente. Sua cor reluzia em um tom dourado e cinzento. Franzindo o cenho, percebeu um terno calor aproximar-se assim como o ponto da singular luz.
Antes que pudesse compreender o significado do que sobreviera em seus sentidos, Percy perdeu o equilíbrio.
A água o engoliu como um velho amigo saudoso. A peculiar luz avançou e atravessou seu peito, enchendo-lhe de coragem e conforto. Era a sensação que tinha quando chegava em seu lar com Annabeth. Tornando-se para suas costas, enxergou a imensidão das profundezas daquele oceano. Podia ver uma abertura em um aglomerado de rochas, de onde a fonte de toda aquela luz emergia, escapando pela correnteza que nunca permanecia parada, apesar de sua superfície equilibrada.
Foi assim que encontrou a caverna. Ao sair das águas que o ajudavam a se empurrar para o solo rochoso e irregular, ele teve a impressão de ser bem menor do que realmente era. Assim como todo o espaço de onde viera, a caverna era mais larga do que imaginara, elevando-se a uma altura maior do que pensara. Mas não era nada disso que o atraía, concentrando toda sua atenção. Todas as luzes, emaranhados de cores e brilhos e ramos de fios dançantes estavam canalizando-se em uma espiral de estrelas, reflexos e pequenas explosões atemporais.
Era como se toda a teia do tempo se focasse nessa malha de fios, cujo núcleo cintilava em prata e dourado. Percy podia ver imagens, cenas, memórias de um passado não muito distante formando-se entre os laços dos fios. Era uma eternidade reunida em uma espiral de luz estática.
Um lampejo aumentou a eletricidade da sala, pressionando seus pulmões, ensurdecendo-o por um breve instante.
Seu corpo voltou-se com ritmos cada vez mais sóbrios após a onda elétrica que percorreu pelo seu redor, embora não tenha o afetado fisicamente. Um raio camuflava-se em uma das esferas densas de luz, mas podia enxergar a cápsula de energia se moldar, espiraladas e com redes de complexos fios iluminados por uma fonte de luz inumana, que atraía sua consciência para seu interior a cada segundo mais.
Então ele ouviu.
A sala aquietou-se. O ar esfriou. A pulsação de Percy tornou-se frenética, com uma frequência esmagadora. O que deveria fazer? O que havia sido feito? Percy não hesitaria mais uma vez. Ele aproximou-se da redoma de luz, com os punhos cerrados. Uma corrente de ar ultrapassou-o silenciosamente e seus movimentos estancaram. Ele não estava sozinho no salão. Alguém havia chegado e, por alguma razão, ansiava por isso. Seus dedos voaram para seu anel de casamento, manuseando os detalhes que redemoinhavam em sua extensão, o frio do metal alentando-o, nutrindo-o com uma esperança repentina.
Então aqueles passos que conhecia por tantos anos, que imaginava poder reencontrar em todas as manhãs, retornaram, e não eram mais memórias. Dessa vez, eram reais. Percy respirou fundo, os pulmões rangendo-se pela sua tentativa de se manter forte. Mas talvez pudesse aprender a ser mais forte agora. Ele tinha de ser.
—Você demorou, Cabeça de Alga.
Ele sabia. Ele nunca se perderia enquanto pudesse ouvir aquela voz. Ele não desistiria de continuar enquanto pudesse se lembrar. Lembrar-se dela. Percy nunca duvidou que ela o encontraria. Seus calcanhares cederam aos seus impulsos sinceros e o guiou até o lado oposto do nó corrente de luminosidade. E seus pés pararam, próximos de um par de pés descalços e da presença amena que trajava um vestido branco simples, esvoaçando pelos seus tornozelos. Os braços cansados de Percy ascenderam-se, suavemente sentindo a impressão longínqua dela, porém intensa. Seus dedos acariciaram as bochechas gélidas, coradas, de sua guerreira inseparável, de sua companheira que não mais poderia acompanhá-lo, mas que mesmo assim estava ali. Um sorriso repuxou o canto de seus lábios, discreto e tímido, aparecendo com uma inesperada mudança em si, assim como a gota de lágrima que escorregou do canto de seus olhos contemplativos.
A voz daquele pai, que um dia fora apenas um semideus de uma profecia temida, quase não pôde ser ouvida. Mas o nome proferido com singeleza e afeto ecoou pelo espaço, desafiando qualquer obstáculo cuja intenção fosse desvanece-la.
—Annabeth.
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