O Que Somos
72 Capítulo 69
A luz branca!
Linda e radiante, como se fosse um sol, mas sem o calor aconchegante e atraente durante o frio do inverno que cortava a cidade.
Havia escutado diversas vezes que quando as pessoas estavam morrendo enxergavam a luz branca e não deveriam segui-la porque ela lhe levaria até caminho final, acreditava ser uma bobagem, mas aquela luz era tão ofuscante e chamativa que mesmo sem saber me vi atraída por ela, parecia que algo dentro de mim clamava por sair da escuridão e encontrar o meu caminho.
Sorri ao me lembrar da expressão: Luz no fim do túnel.
Não sei bem onde estou e tudo isso parece tão surreal que não posso ignorar e se tiver uma chance de descobrir sobre o que isso se trata eu iria atrás, afinal, minha curiosidade é o que me define.
Pareceu uma eternidade até conseguir sair daquela escuridão e o que vi quase me cegou, primeiro; meus olhos foram bombardeados pela claridade inesperada e depois de me acostumar foi impossível não suspirar diante de tanta beleza.
Estava em uma campina lotada de flores das mais diversas cores. Margaridas, tulipas, cravos, frésias, íris e jasmim eram flores e mais flores até onde meus olhos poderiam alcançar. Simplesmente lindo, talvez o paraíso e estava sozinha ali, não havia ninguém para admirar comigo todo aquele fascínio. Odiava o sentimento de solidão, a tristeza e a insegurança. Fazia muito tempo que não me sentia assim, desde antes de conhecer Edward.
Edward!
Aonde está meu marido, me sinto como se não o visse a muito tempo, tempo demais pra mim. O quero de novo, ele consegue expulsar toda a dor e o medo que está em mim e em nosso bebê, ele é o único que mesmo sem palavras pode me garantir que tudo ficará bem e dará certo no final.
Preciso do meu marido para afirmar que eu e o sapinho estamos bem, que poderemos contar com seu apoio em qualquer situação, afinal, é esse o papel do marido, proteger sua esposa e filhos. Garantir que eles estejam bem e sei que ele daria sua vida por nós, mas ainda assim, o quero ao meu lado.
Como de costume não pude evitar passar a mão na minha barriga grande e meu menininho se mexeu, suspirei aliviada me sentando embaixo da única árvore que existia ali, parecia ser uma macieira que havia sido bem maltratada pelas marcas no seu frágil tronco, mas que hoje dava lindos e prósperos frutos. Pelo menos, meu filho ainda estava comigo, com ele poderia sentir que em algum momento Edward viria por nós, ele nunca me abandonaria sozinha.
Sem poder conter soltei um bocejo, com a gravidez eu comia mais e dormia também e era muito tentador não deitar naquela grama fresquinha para um cochilo rápido, já que estava aqui iria aproveitar essa tarde gostosa em meio a tanta beleza.
Acordei com pequenas mãos suaves acariciando meu cabelo, era um carinho tão bom e gostoso que me tentava a dormir novamente por todo o tempo que conseguisse. Me aproximei mais daquele calor aconchegante e voltei a cair em um sono profundo.
–Você é muito preguiçosa. – a voz de uma menininha alegre me fez abrir os olhos.
Ela ostentava um pequeno sorriso tímido que me era vagamente familiar, estava com um vestido azul rodado, seus cabelos castanhos ondulados contrasteando com seus olhos verdes intensos travessos e alegres. Com certeza, conhecia aquela garotinha de algum lugar.
–Vamos, se levante.
–Eu vou cochilar mais um pouco, — balbuciei fechando os olhos — se quiser, deite-se um pouco e aproveite porque em Nova York nunca vamos encontrar um tempo tão agradável assim.
Ela riu ainda sentada e cutucou o meu braço.
–Sente-se, não temos muito tempo e precisamos conversar.
Estava um pouco desorientada e curiosa, mas mesmo assim me forcei a sentar e cruzei as pernas assim como ela fazia a minha frente.
–É estranho te ver aqui. – a voz da pequena parecia calma, mas um tanto receosa.
–Esse é um lugar muito bonito, se soubesse que ele existia teria vindo antes. – deu de ombros ainda bocejando.
–Você não estava pronta para vir aqui antes, então tudo que pude fazer foi esperar até o momento certo.
Momento certo?
–E agora é esse momento?
–Sim, até porque você não tem como sair daqui sem que eu permita, então terá que me ouvir para depois encontrar uma saída.
–Estou morta? – era isso. Eu tinha morrido e agora estava no paraíso com um pequeno anjo para me guiar.
–Não. – riu levemente – Acho que você está tendo uma... epifania.
–E você sabe o que é isso?
Não era possível que uma criança de uns cinco anos soubesse o significado amplificado daquela palavra, eu só a aprendi quando estudava sobre filosofia no MIT.
–É quando há a compreensão súbita de algo, no seu caso, pelo encontro e aceitação do seu passado, sua forma de agir no presente e a conclusão do futuro.
Beleza. Essa menina é muito inteligente, minha boca estava lá no chão agora. De onde ela havia surgido, afinal? Quem era ela? E o mais importante, o porquê estou aqui?
–Tudo bem. – disse lentamente ainda em choque – E quem é você?
–Eu sou você! Sou você antes de o monstro te pegar, antes que sua vida fosse mudada, sou você quando ainda mantinha a fé.
–Eu tenho fé. – retruquei mal humorada.
–Não tem. – seu olhar ficou triste por alguns segundos me observando atentamente que até me esqueci da loucura de ela ser eu ou eu ser ela. Nossa que confusão imensa, parece ser pior do que no dia em que descobri ser filha de Esme e Carlisle.
–Se eu não estou morta, como é que você pode ser eu? A menos que estejamos em uma nova teoria física de um universo paralelo e o meu outro eu é... Você... ou eu sou a sua versão mais velha, o que seria mais compreensivo já que você tem uns cinco anos ou menos. – franzi o cenho e suspirei tentando pensar melhor no que poderia ter acontecido – Não acredito que isso seja real porque teríamos que ter quebrado uma barreira dimensional para nos encontrarmos e eu não faço a mínima ideia de como isso pode ser possível.
Ela rolou os olhos dramaticamente e bufou.
–Me esqueci de como você é Nerd.
–Não sou Nerd. – protestei indignada.
Eu sempre tive uma inteligência acima da média, mas nunca fui uma Nerd. Nunca!
–Tanto faz, mas isso não é um universo paralelo. – deu de ombros – Estou dentro de você. Sempre estive, mas a dor e a raiva me encobriram, fizera com que você se esquecesse de mim. Eu sei que você tem medo Dele, mas o que esta fazendo não vai resolver seus problemas. A culpa não é da mamãe, nem antes e nem agora. Sei que você está pressionada, mas fugir não é uma escolha.
–Eu já não sei quem é minha mãe. – confessei confusa – São tantas confusões... tantos problemas que cheguei a um ponto de não saber nem mesmo quem sou. Não sei se sou Isabella, filha de Renée, ou, Melanie, filha de Esme, passei por um grande choque de realidade que me permitiu não ter que escolher ser uma das duas, no entanto. Agora mesmo sabendo que posso ter Esme e Renée ainda me sinto dividida entre uma e outra.
–Você é tão... Burra.
Será que nesse universo paralelo dar uns tapas em uma criança era crime? Porque essa pirralha estava merecendo.
–Isabella, eu entendo perfeitamente que Renée é sua mãe, mas Esme é a minha e eu a amo. Eu quero ir pra casa. – suspirou baixando o olhar para o gramado – Eu sempre quis voltar. Você não precisa abrir mão de uma das duas, ambas te amam como você é e pelo que se tornou sendo Melanie ou Isabella. Agora você é a as duas e terá que aceitar, precisa entender que o seu corpo e sua mente precisam se unir.
–Eu não me sinto assim e isso é frustrante. – sussurrei pegando sua mão.
A verdade é que o medo e o rancor ainda me prendiam fortemente, sabia que a culpa de tudo era somente de James e estava verdadeiramente disposta a esquecer dos problemas que cercavam minha família para que voltássemos a ser unidos, infelizmente no começo a minha vontade não parecia ser o suficiente, eu dei o primeiro passo, contudo precisava que todos me encontrassem no meio do caminho, precisava que estivessem dispostos a erguer uma bandeira branca.
Eu sabia que estava agindo erroneamente, mas caramba. Os Swan sempre cuidaram de mim e vê-los sendo acusados por isso me doía muito, assim como também me feria saber que os Cullen passaram anos acreditando serem culpados pelo desaparecimento da filha.
Eu nunca conseguiria virar as costas para ninguém, aquela pessoa nunca seria eu porque amo à todos e só precisava mostrar isso para eles.
Magoei Esme profundamente e me arrependo disso, eu a amo como se ela fosse minha mãe, o que de fato ela é. Ver a dor nos olhos dela quando disse que preferia ficar longe deles me machucou muito, não tinha outra alternativa naquele momento. Foram eles que me fizeram escolher.
Todos simplesmente chegaram me bombardeando de todos os lados, me pressionando a fazer coisas que não poderia, não conseguiria e não queria. Me senti encurralada e ferida, totalmente pressionada a ponto de estourar e tive que tomar uma atitude, não foi a melhor e muito menos a certa e sim a que eu tinha o poder de fazer.
Quando estava na biblioteca dos Cullen tinha total consciência de que libertaria um lado e prenderia outro. Daria uma filha a uma mãe enquanto outra a perderia e por mais que eu quisesse as duas comigo me sentia como uma criança que quer comer doce e salgado ao mesmo tempo e mesmo sabendo que terá uma dor de estomago horrível continua a engolir tudo junto.
Agora conseguia olhar para aquela menininha sorridente e fazer a ligação dela comigo, seu sorriso sincero parecia que tinha lido em meu rosto toda minha luta interna. Ela era o meu ponto de equilíbrio onde eu decidiria que poderia combinar os dois sabores juntos e que apenas eu precisava lutar para uni-los, assim como os quatro me uniram.
–Não podemos fugir para sempre. – se aconchegou ao meu lado.
–Eu não sei como corrigir as coisas. – disse sinceramente – Estou tentando fazer o certo para todos, soube que Carlisle e Charlie se entenderam e conversei com Renée sobre meu passado. Eu quero começar uma vida com eles, eu ia ligar pra Esme, eu a amo muito, muito mesmo e quero que cheguemos todos a um ponto de equilíbrio, mas não posso permitir que o fantasma de James circule por nossas cabeças porque sabemos bem que há uma batalha ocorrendo e mais cedo ou mais tarde ela nos afetara.
–James terá o que merece, não se preocupe quanto a isso. Ele pagará pelo fez conosco.
–Eu assim espero porque tenho tanto medo dele que chego até congelar quando escuto seu nome. – confessei estremecendo.
–Não se preocupe tanto com ele agora, tudo dará certo. – seu sorriso animado me convenceu de que eu realmente tinha perdido minha fé no momento em que aquele monstro colocou suas mãos em mim porque aqui agora, sentada com aquela menina eu me sentia em paz como não me senti em um longo tempo, talvez como eu nunca me senti – Seu bebê é um menino.
–Sim. – mesmo não sendo uma pergunta me vi obrigada a confirmar.
–Você já escolheu o nome. Com certeza, Edward vai adorar.
–Acho que sim. – estava incerta sobre isso ainda, não que eu tivesse tempo para falar com ele, mas deveria ter dito que pensava que esse seria um nome bonito e apropriado para o nosso pequeno sapinho.
–Com certeza vai. O destino nos uniu depois de tanto tempo, um amor assim só se é retratado por aquilo o que somos. Eu sei que está confusa, porém quando acordar e olhar para mamãe, pense no bebê. Ele lhe fará refletir sobre tudo o que conversamos e você encontrará uma forma de unir a todos.
–Tem certeza que não estou morta?
Queria confirmar porque aquela conversa, com certeza, não era fruto da minha mente perturbada.
–Você está bem viva. – soltou uma risada infantil e coçou os olhos – Só peço que no dia você se lembrar do sentimento que nutria pela mamãe e pelo papai diga a eles que nunca mudou. Que por mais longe que estivesse e mais confusa que sua mente ficou você sempre os levou no coração e jamais se esqueceu deles.
–Eu vou me lembrar de tudo? – senti lágrimas nos meus olhos e minha voz saiu embargada.
–Vai! Não vai demorar muito, você só ficou longe das pessoas porque tinha medo de amar novamente e perde-los, só basta olhar dentro de si mesma que verá tudo aquilo que foi implantado por nossa família. Toda ela.
–Você é muito sábia. – constatei por fim já sem conter minhas lágrimas.
–Isso é porque eu sou você. – sorriu e secou meu rosto deixando um pequeno beijo na minha bochecha – Aprendi tudo isso com Isabella Swan; a ser forte, decidida, compenetrada e teimosa, enfim, ninguém é perfeito.
Soltei uma pequena risada a abraçando, sentindo que pela primeira vez nos meus vinte um anos, eu estava em paz, estava completa.
–Já conversamos muito. – se afastou e levantou em um gesto hábil que eu já não tinha por causa do tamanho da minha barriga – Todos estão muito preocupados com você. Está na hora de voltar.
–Tudo bem. – mordi o lábio e me virei para a árvore cheia de folhas, minha mão automaticamente foi para o coração disforma que tinha sido talhado ali por uma faca ou canivete. O M&E ainda era perfeito como um gesto de amor eterno.
Entendi agora que aquela arvore era eu. Eu havia sido maltratada, machucada, ainda tinha cicatrizes, mas hoje florescia, dava frutos e aquela inscrição era o meu coração que ainda continuava sendo Melanie Cullen e o meu grande amor: Edward.
Pela primeira vez consegui ver que eu me sentia em paz, mesmo com todos os problemas não resolvidos, o medo, a incerteza e o emaranhado de confusão que me esperava quando acordasse, eu estava realmente em paz porque sabia que hoje tinha pessoas que realmente me amavam e se preocupavam comigo. Todos que eu amava e que me amavam de volta estariam ali pra mim sempre que precisasse. Me socorreriam na hora que eu precisasse e me amariam independente de quem fosse.
Agora eu sabia quem eu era e não por causa de um nome, mas sim pelo meu espirito que nunca parou de batalhar.
–Até logo, Mel. – sussurrei para o nada quando novamente meu mundo se escurecia e desvanecia.
Finalmente, era hora de voltar pra casa!
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