Capítulo 63

O menino de cabelo cobre se olhava no espelho enquanto tentava arrumar sua roupa, sua mãe havia dito que precisava estar lindo para ver sua nova priminha, como se já não tivesse Alice e ela não era legal, sempre chorava e não gostava de brincar com ele e Emmett, sem duvidas essa nova não seria diferente, mulheres pareciam ser dramáticas demais. Coitado de seu pai que obedecia todas as ordens de sua mãe. Ele nunca iria se casar. Nunca.

Suspirando por ter que usar essa roupa ridícula foi ao encontro dos pais, eles já estavam prontos o aguardando na sala, seu pai sorriu quando o viu descer a escada.

–Está bonito, filho.

–Estou horrível. – bufou – Pareço um boneco.

–Pare com isso. Meu menininho está perfeito.

–Mãe, por favor, não me chama assim. Já sou um homem.

–Claro que é. – rolou os olhos abraçando seu garotinho – Vamos logo.

Seus tios não moravam longe, apenas algumas ruas de distancia, mas sua mãe como sempre era exagerada e odiava chegar atrasada. Mulheres.

Ao passar pela porta de entrada encontrou seu primo todo arrumado e penteado sentado no sofá, riria dele se não estivesse na mesma situação, Alice também estava sentadinha com seu vestido amarelo. Seus pais logo foram ver o embrulho rosa nos braços da sua tia e suspiravam, para ele bebês sempre tinham cara de joelho, contudo os adultos ficavam sempre falando: “Nossa como parece com o pai”, “Ele é lindo”, “Tem o seu nariz”.

Mentira. Bebês não se pareciam com ninguém. Bando de povo mentiroso.

–Edward, vem conhecer sua priminha.

Relutante caminhou para a tia, faria tudo o que ela pedisse. Olhou para dentro do embrulho e o ar foi roubado do seu peito. Aquele bebê era lindo, ela tinha muitos cabelos escuros, como chocolate, os olhos verdes mais claros que os seus, o pequeno nariz perfeito, a boquinha vermelha e as bochechas rosadas. Assim que se aproximou mais dela colocou o dedo bem devagar em seu rosto, a menininha deve ter gostado porque com sua pequena mãozinha segurou em seu dedo.

–Ela gostou de você. – sua tia sorriu – Conversa com ela.

–Hum... – não sabia o que dizer a um bebê – Oi Mel, eu sou o seu primo mais velho. Vou te proteger e cuidar de você! Sempre que precisar de um amigo, pode contar comigo.

A menininha mexeu no colo da mãe e apertou mais forte o seu dedo, parecia que tinha entendido suas palavras.

Aquela foi a primeira vez que Edward Cullen percebeu ter nascido para proteger Melanie.

[...]

Esme não conseguia entender todas as emoções que estava presenciando em tão pouco tempo. Há alguns meses quando James, seu suposto amigo, havia dito que tinha assassinado sua filha sentiu um desespero tão grande que não era capaz de verbalizar suas ideias, ela queria morrer também.

A pessoa que foi capaz de vê-la através de tudo o que tinha acontecido foi a garota por quem nutria um forte sentimento materno, que não sabia de onde surgiu, a amava como uma filha e por ironia do destino ela era mesmo a sua filha, a sua menininha perdida.

Logo que contou ao marido sobre a possibilidade de tudo ser real, ele acionou um amigo da família que confirmou muitas das suas suspeitas e confirmou que Isabella era mesmo sua filha, os dias que ela passou longe foram os mais difíceis, saber que ela estava ali tão perto e ao mesmo tempo tão longe a angustiava, temia a forma que seria recebida, temia sua rejeição.

Carlisle tinha ido atrás de Charlie Swan e voltou para casa com o rosto machucado e falando que eles não tirariam sua filha, foi impossível acalma-lo. Assim que soube que seu sobrinho estava na antiga casa do irmão ele tinha ido correndo até lá e para não deixa-lo fazer alguma besteira o seguiu.

Edward havia os recebido com um suspiro, não havia discussão, mas era visível a tensão dentro da residência, a troca de palavras entre seu marido e seu sobrinho nunca pareceu tão desconexa antes, tudo o que conseguia compreender era murmúrios e vozes distorcidas.

–Tio, entenda, por favor, o que Bella não precisa é saber disso agora.

–Ela é minha filha, até agora não consigo acreditar que ela estava tão próxima da gente, eu deveria ter seguido meus sentimentos.

Carlisle estava tão quebrado que foi difícil enxerga-lo como o homem forte que costumava ser.

–Amor, calma, tudo vai dar certo. – segurou em seu rosto – Mas esse assunto tem que ser abordado com cuidado e não assim de uma hora para outra, temos a nossa menina agora, isso é o suficiente.

–Isabella não precisa desse estresse agora.

Edward precisava fazer seu tio enxergar que sua esposa não poderia sofrer um choque como esse, tinha que cuidar da sua mulher e do seu filho, mesmo que fosse necessário passar por cima dele e o faria sem nenhum peso na consciência.

–Você tem que entender, eu falhei, Edward. Como pai, como marido. Não quero magoar ninguém, mas precisa ver o meu lado, entenda que pela primeira vez em muitos anos eu sei que a minha filha está viva, que ela está do meu lado.

Antes que pudesse retrucar tudo aconteceu rapidamente, parecia que tudo ao seu redor estava desmoronando, não sabia o que fazer ou como agir, assim que confirmou para Bella que ela era filha de Esme e Carlisle seu corpo desfaleceu contra o dele.

Rapidamente ele correu com ela para seu quarto, não deveria ter dito nada, deveria ter mantido a boca fechada, talvez impedir que seus tios entrassem na sua casa. Se culpava por ela não acordar, deveria leva-la ao hospital, sim, essa era a melhor coisa que poderia fazer.

–Filho, calma.

A voz de Esme só foi capaz de aumentar a ansiedade em seu peito.

–Vou leva-la ao hospital. – disse firme pulando em um pé só para colocar o sapato – Não vou esperar para algo ruim acontecer.

–Edward. – Carlisle o chamou da porta – Eu posso examina-la.

–É melhor não. Causamos essa bagunça, tenho que garantir que Bella vá ficar bem.

O homem mais velho segurou nos ombros do sobrinho.

–Eu sou médico, me deixe dar uma olhada nela.

A contra gosto ele assentiu se sentando ao lado de Bella, nada de ruim poderia acontecer a ela ou ao seu bebê.

Carlisle fez um exame rápido na garota, não parecia ser nada grave, apenas aumento de pressão, o que era compreensível. Seu sobrinho tinha razão, não deveria ter contado a ela dessa forma, ela merecia uma conversa longa e tranquila sobre o assunto.

–Me desculpe, filha. – sussurrou em seu ouvido – Me perdoe por não tê-la protegido. Eu não fui o pai que você merecia ter e fracassei.

–Você não fracassou, tio. Só não podia imaginar que uma pessoa da sua confiança iria sequestra-la.

Ele concordou e foi até a esposa a abraçando, queria ter o poder de voltar no tempo, mudar o que aconteceu e garantir que sua filha não tivesse passado por nenhum sofrimento, queria tê-la protegido e não foi capaz.

–Eu mereço que ela me odeie, Edward. Entendo se ela nunca mais quiser me olhar no rosto, eu mal consigo encarar o espelho.

Edward suspirou e abraçou ao tio. O entendia, foi com ele que passou os últimos dezesseis anos, conhecia sua dor porque ele também a sentia, compreendia seu desespero e a culpa, ela o consumia toda vez que encarava os olhos de sua esposa.

–Isso não é sua culpa, tio. Não é minha culpa. Tudo o que aconteceu foi uma fatalidade ocasionada por James, por sua mente doentia e não há nada que possamos fazer agora, a não ser seguir em frente.

–Sei que James tem culpa, mas nunca vou conseguir me perdoar, esse é o castigo que eu mereço.

Ele queria convencer o tio que isso não era verdade, mas nesse momento não havia nada que pudesse fazer, apenas o tempo mostraria que poderia ter paz e esperava que não demorasse porque a culpa era capaz de fazer as pessoas cometerem loucuras.

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Bella abriu um olho pensando ter tido um sonho, um bem bizarro, nele Esme e Carlisle eram seus pais biológicos. Parecia até cômico, era impossível isso ser verdade, seus pais biológicos nunca seriam boas pessoas, eles não a amavam e na primeira oportunidade tinham a entregado para aquele monstro.

Mas se lembrar das atitudes de Edward, a briga que seu pai teve com Carlisle, o sentimento que nutria pelos Cullen, tudo só a levava a duvidar de toda sua vida, agora tudo no que havia baseado sua história e seus sentimentos pareciam errados, desconexos.

Sua cabeça estava pesada e sua boca seca, ela queria estar sonhando, seria fácil se tudo fosse apenas algo criado por sua mente, porque ter de lidar com mais uma incerteza a deixava inquieta. Talvez devesse tentar voltar a dormir, seria bom fugir da realidade, mesmo que por algumas horas, contudo, sabia que os problemas não sumiam dessa forma, ela teria que enfrenta-los e mostrar que era uma lutadora. Com esse pensamento e bastante relutância abriu os olhos.

Novamente estava no quarto do casarão, Edward estava deitado a suas costas, seus braços a prendendo firmemente contra o corpo forte, uma mão acima do seu ventre acariciando sua barriga. Com cuidado se virou encontrando os lindos olhos esmeraldas a prendendo, ele sempre dizia tudo com um olhar e ali conseguia esclarecer todas suas duvidas, mas agora não sabia mais em que acreditar.

–É verdade? – sentiu um nó na garganta – Esme e Carlisle?

–Sim, anjo. – confirmou – Eles são seus pais biológicos.

–Não pode ser, Edward. – se afastou dele saindo da cama – Não faz sentido, isso não faz nenhum sentido.

–Amor, sei que está confusa, mas me escute.

–Eu não consigo entender, como posso?

–Às vezes existem coisas que não podemos explicar.

Sua boca se abriu para perguntar novamente como aquilo poderia ser real, contudo as palavras não saíram.

–Como descobriram?

–Na noite do nosso casamento, Esme viu sua marca de nascença, por isso que ela desmaiou, por isso estava chorando daquela forma. Ela não conseguia acreditar que era real... E eu tinha contratado um detetive quando me contou sobre seu passado, ele confirmou o resto, ontem de manhã fui conversar com ele.

–Como isso é possível? – sussurrou atordoada.

–Por causa do destino talvez.

–Destino não existe, nós criamos nossa vida, determinamos o que será feito e lidamos com as consequências, temos direito de escolha... – sua garganta comprimiu e o ar pareceu mais espesso.

Edward com um movimento ágil abriu a gaveta do criado mudo e pegou o inalador a ajudando durante sua crise de asma.

–Respira. – pediu acariciando suas costas – Respira, amor. Com calma. Está melhor?

–Estou. – confirmou ainda com o inalador na mão – Eu posso ver o relatório?

Edward a olhou abismado. Já tinha visto sua mulher em todos os humores, brava, irritada, alegre, feliz, empolgada, triste, decepcionada, assustada, mas nunca tão apática e fria. Não conhecia essa Isabella, nunca lidou com ela e isso o deixava apreensivo.

–Amor, eu não acho uma boa ideia você lê-lo agora. – ficou a um passo de distancia – Sua pressão está alta e isso não faz bem para você e muito menos para o bebê.

–Eu sei. – sussurrou respirando fundo, tinha que pensar no seu filho – Preciso ficar sozinha.

–Não mesmo. A última coisa que você vai fazer é ficar sozinha.

–Não estou pedindo a sua opinião, Edward, só preciso de algumas horas sozinha.

–Bella... – começou coçando a cabeça – Eu amo você. Sou seu marido, temos que resolver isso juntos.

–Dessa vez eu preciso pensar comigo mesma, então você me deixa sozinha ou eu vou sair daqui.

–Sei que você está confusa, mas eu não vou deixa-la sozinha. Essa hipótese não existe.

–Se você não me der espaço eu vou procurar em qualquer lugar. Será que não tenho o direito de ter privacidade?

Essa conversa não estava levando a lugar nenhum, só conseguia deixa-la mais irritada e arredia.

–Não se trata disso e sim que você não está bem, não posso deixar que corra mais um risco. Entenda isso!

Bella não estava querendo brigar, mas precisava ficar um pouco longe de tudo e respirar sem o controle de Edward ou qualquer pessoa, talvez se conseguisse ficar sozinha e distante dessa confusão colocaria suas ideias no lugar, conseguiria que seu cérebro voltasse a funcionar como deveria.

Sem dar atenção ao marido, saiu do quarto batendo a porta. Tinha passado da hora de enfrentar seu passado e já que ele a seguiu não iria deixar domina-la, ela era mais forte agora, mais inteligente e tinha determinação o suficiente para lutar, mesmo que fosse contra ela mesma.

A tarde estava fria e assim que passou pela porta de entrada um vento gelado a atingiu, talvez caminhar um pouco ajudasse, iria deixa-la mais calma.

Os seguranças no portão a olharam desconfiados quando ordenou que o abrissem, foi necessário gritar com um gigante, que acreditava ser o chefe dos outros, para que fizessem o que tinha pedido e mesmo assim aquele troglodita só abriu o portão depois que falou com alguém pelo rádio.

Seus passos foram calmos nos primeiros metros, queria estar longe daquele condomínio para depois se deixar pensar em tudo o que havia sido revelado. Iria deixar sua mente em branco.

As casas ficavam distantes uma das outras dando um ar campestre de falsa privacidade, passavam poucos carros e nenhum taxi, não que iria pegar um, já que sua bolsa havia ficado no quarto, mas seria bom saber que ali tinha outro meio de transporte caso precisasse em alguma emergência.

Quando estava relativamente longe de todo aquele mundo, se deixou inundar por lembranças: Seu casamento na semana anterior era uma das mais lindas, a imagem de Edward parado no altar com seu cabelo bagunçado e o sorriso mais lindo que poderia dar, o ambiente forrado de flores, seus pais, seus amigos, todos que amava.

Um pouco antes, quando descobriu que estava gravida, ver seu bebê na ultrassonografia e escutar seu coração foi a melhor coisa que pode presenciar, nunca imaginou que seria mãe, contudo, saber que gerava uma vida inocente a alegrava, esse era o seu presente divino, a sua benção.

A viagem à Itália, que gerou seu pequeno bebê, aqueles dias foram simplesmente maravilhosos. Ficar longe de tudo apreciando o amor. Antes daquilo, tudo parecia um borrão, o pedido de casamento, sua confissão a Edward sobre seu passado, conhecer aquele homem maravilhoso, o medo do desconhecido.

Como isso poderia ser real?

Nada fazia sentido. Estava enlouquecendo ou delirando. Nem tinha um ano que sua vida foi virada de ponta cabeça e tudo havia mudado.

Edward era o seu primo. Ela havia se casado com seu primo.

Agora sim, temia perder a sanidade. Se os Cullen fossem mesmo os seus pais, Edward seria o seu primo de primeiro grau.

Mas se Esme e Carlisle realmente fossem seus pais então... James era o homem que causou todo o medo e trauma da sua infância.

Com essa constatação seu corpo paralisou imediatamente no meio da calçada, isso seria compreensível, ela sentia um medo irracional daquele homem, seus olhos pareciam extremamente familiares, assim como sua voz.

Foram necessários vários exercícios de respiração para conseguir acalmar as batidas frenéticas do seu coração, se fechasse os olhos e se concentrasse seria capaz de ver perfeitamente o rosto dele na noite em que fugiu, por isso ele tinha aquela cicatriz no rosto, ela havia batido nele com a pedra.

Ele sempre disse que seus pais não a amavam, que não suportavam sua presença, por isso a entregou pra ele. Melanie foi sequestrada. Ela havia sido sequestrada. Droga, era confuso demais.

Como conseguiria lidar com todos sabendo que seus pais biológicos não a entregaram. Não poderia abrir mão dos Swan. Renée e Charlie sempre seriam seus pais, os que a apoiaram, protegeram, amaram, cuidaram. Porém também amava os Cullen, Esme era uma grande mulher, a amava. Amava Carlisle, Emmett e Alice.

Sua vida parecia uma novela mexicana absurda, cheia de descobertas sem fim, um drama interminável, só faltavam os nomes compostos e seria um sucesso de audiência.

Não sabia o quanto tinha caminhado, mas suas pernas doíam e o numero de pedestres aumentado consideravelmente, devia estar próxima ao centro, não fazia ideia de que andou tanto.

Um carro preto parou ao seu lado na calçada e suspirou ao ver Edward caminhar em sua direção, é obvio que alguém a seguira, ele nunca iria relaxar com sua segurança.

Ainda estava confusa sobre ele, se fosse mesmo primos não seria bom manterem um relacionamento, seu filho mesmo poderia herdar diversas doenças genéticas. Precisava pesquisar sobre isso imediatamente e conversar com seu médico, simplesmente não era justo que uma criança inocente pagasse pelos pecados dos pais.

–Vamos para casa. Está frio.

Edward parecia receoso com sua resposta e não se aproximou quando estendeu seu casaco, como se ela fosse um animal selvagem ferido e se ousasse aproximar em demasiada acabaria sem a mão.

–Não quero ir pra casa. – sussurrou vestindo a blusa – Ainda não consegui pensar em tudo.

–Você andou por quase dois quilômetros no frio, não vou deixar que congele aqui fora. – foi enfático – Não sente fome?

Pensando em comida a fez lembrar que passou o dia sem nada no estomago, realmente estava com fome, muita.

–Venha. – estendeu sua mão pra ela – Vamos comer e conversar um pouco.

Bella aceitou a mão e ele a levou para o interior aconchegante do carro. Félix e o outro segurança estavam nos bancos da frente em silencio e sabiamente os ignorando.

–Vou ligar pra Heidi e pedir que comece a preparar o jantar.

–Não precisa. Quero comer comida chinesa hoje.

–Tudo bem.

Com um gesto com a cabeça quase imperceptível ela nota que Félix começa a dirigir a frente. Não sabia o que dizer a Edward, sua mente estava mais conflituosa do que quando saiu de casa, mas dessa vez em relação ao seu casamento.

O interior do automóvel estava carregado de tensão, ninguém ousando dizer nada.

–Você quer ir para o apartamento ou para a mansão?

Bella gostava do apartamento, passaram excelentes momentos lá, mas nesse momento precisava mais do conforto da biblioteca com sua lareira, com todo aquele calor e a sensação de paz que aquele espaço oferecia.

Félix tinha estacionado para pegar o pedido que alguém deve ter feito no caminho e voltou poucos minutos depois com vários sacos na mão.

–A mansão.

–Você quer conversar?

–Ainda não, Edward.

Novamente o caminho foi feito em silencio, cada um preso em seus próprios pensamentos. Assim que voltaram para a mansão Bella foi direto para a biblioteca, Edward a observava de canto de olho enquanto comiam em silencio. Era a segunda caixinha que ela devorava e demonstrava que não pararia tão cedo.

–Tudo isso é loucura. – sussurrou enquanto comia.

Edward levantou a cabeça da caixinha e a encarou, não tinha palavras para consola-la, sua esposa precisava lidar com todo o medo e o que poderia fazer por ela era estar ao seu lado, mesmo quando ela não pedia.

–Eu desconfiei depois que você passou mal na Itália. – confessou – Mel costumava chamar Emmett por apelidos e Rufles também, mas não tinha como provar, pensei que estava alucinando e criando ilusões onde não existia nada.

–Quem é Rufles?

–Era o cachorro da Mel... Seu... Enfim, era o cachorro. – falou confuso – Depois de tudo o que aconteceu ele ficou triste e irritado, poucas pessoas chegavam perto dele. O Red é muito parecido com ele; a mesma raça, o mesmo comportamento de menino mimado.

Pensando nisso ele percebeu que talvez esse fosse o motivo de ter concordado quando ela pediu para adotarem o cachorro, a semelhança que os dois animais aparentavam.

–O tal detetive te falou sobre o homem que...

–Sim, confirmou que era James. – com o nome do homem citado o corpo de Bella enrijeceu – Você se lembra de alguma coisa sobre ele?

–Me lembro de quando fugi da cabana.

Edward respirou fundo e se sentou ao seu lado, abraçando o pequeno corpo. Estava agradecido que ao invés dela se afastar o abraçou.

–A cicatriz que James tem no olho, acho que fui eu quem fez.

–Sinto muito, meu anjo. – sussurrou triste – Eu deveria ter te alcançado quando correu de casa, se estivesse com você ele nunca teria se aproximado, você não teria passado por tudo o que passou.

–Já aconteceu. – se apertou mais a ele – É estranho saber que eu estava evitando o meu passado e todo o tempo ele estava do meu lado... Eu não me sinto como se fosse Melanie, para mim, saber disso não altera muita coisa, sei que sou Isabella, não quero mudar.

–Você não precisa. – acariciou seu rosto – Como seu marido não importa quem você seja, você é Isabella Cullen. A minha esposa, a mãe do meu filho.

Esposa. Mãe do seu filho.

Será que era só pra ela que tudo isso parecia errado?

–Nós somos primos... Isso é no mínimo... Estranho, nunca vi nada assim.

–Nosso relacionamento não é estranho. Não é errado. – se afastou para encarar seus olhos – Nosso amor foi uma benção, independentemente do nome que leve ou do sangue que carregue você é a mulher que eu amo.

–Eu também te amo, mas se isso for verdade muita coisa vai mudar.

–Nada vai mudar. – a interrompeu energeticamente – Eu não vou deixar você, resta saber se você vai me deixar porque a minha vida, o meu coração e o meu destino estão em suas mãos.

Bella o olhou durante intermináveis minutos, tantos que sua comida foi esquecida. Como poderia deixa-lo? Seu coração e seu corpo pertenciam a ele, não seria capaz de abandona-lo. Se o fizesse estaria se condenando a viver um inferno porque sem ele não havia vida, ele era o seu tudo.

–Não. Nunca faria isso. Eu te amo, Edward, mas não sei o que pensar ou como agir. Parece... Parece que estou presa em um sonho bizarro, como o País das Maravilhas, ou que enlouqueci completamente e agora estou na ala psiquiátrica de algum hospital delirando.

–Devo confessar que também me sinto confuso com tanta informação, não esperava descobrir que tudo o que acreditamos era uma mentira, uma farsa.

–Meu pai e Carlisle estavam brigando por causa disso?

–Sim. – não queria mais mentir nem ocultar nada dela – Tio Carlisle estava alterado, falou algumas coisas que estavam presas e Charlie não deixou por menos. Foi preciso que Gabriel os afastasse.

–Por que não me contou antes?

–Não queria te magoar, acabamos de nos casar e olha o tamanho da encrenca que estamos metidos. – bufou se jogando no sofá – Você está chateada comigo por ter escondido isso?

Bella rolou os olhos e se deitou sobre seu peito, aquela pergunta era absurda, nunca ficaria chateada com ele por querer protege-la.

–Eu amo Esme e Carlisle, sempre os amei como se fossem meus pais, mas saber que realmente são ainda é irreal.

–Você vai aceita-los?

Sua pergunta saiu antes que conseguisse segurar a língua, precisava dessa resposta, Bella sempre tinha sido enfática sobre sua decisão de não conhecer os pais biológicos e agora ter a confirmação que eles eram seus tios e estavam tão próximos havia criado essa duvida em seu peito.

–Creio que aceitei a ambos, não posso dizer ao certo se foi como figuras paternas, mas sempre os aceitei.

–Você não vai perder Charlie e Renée, eles te amam, só vai ganhar mais dois pais.

Dois pais e duas mães! Mal conseguia administrar as broncas de dois imagina quatro, eles iriam enlouquecê-la.

–Quero conversar com Carlisle e Esme, ter uma discussão real sobre... Tudo. Devo isso a eles e a mim mesma.

–Podemos ir amanhã depois que formos ao médico.

–Você está se sentindo mal?

–Eu estou bem, mas você desmaiou, esse estresse todo não faz bem ao bebê e preciso ter certeza absoluta que ambos estão bem antes de você querer enfrentar o que vai vir pela frente.

–Nosso filho vai nascer neurótico. – comentou acariciando sua barriga.

–Igual à mãe.

Bella bateu em seu braço arrancando uma risada do marido, não era preciso a confirmação dele pra saber que ele também estava a ponto de enlouquecer, compartilhavam uma vida agora e tudo que acontecia com um afetava ao outro. Não era uma escolha e sim um fato. Ele a virou no sofá e beijou sua testa.

Agora para que tudo entrasse no lugar dependia apenas de suas escolhas e da sua maturidade.

–Edward? – o chamou quando estavam deitados na cama confortável.

–Oi.

–Estou feliz que Carlisle e Esme sejam meus pais.

Edward estava com a cabeça em sua barriga sussurrando palavras para o bebê e quando escutou suas palavras a olhou atentamente, sua manhã tinha sido difícil, na melhor das hipóteses, vê-la sair porta a fora depois de confirmar o que foi dito pelo seu tio era como se sua alma tivesse sido arrancada de seu corpo.

Sabia que ela precisava pensar em tudo, a conhecia o suficiente para perceber que Isabella sempre se sentia melhor depois de ficar sozinha por algumas horas, por isso havia deixado claro para Esme que a biblioteca seria seu cantinho seguro.

Ordenou a três seguranças que a seguissem em uma distancia confortável enquanto conversava com Carlisle, seu tio estava arrasado e não se conformava em descobrir que a filha estava tão perto durante tanto tempo e eles não foram capazes de enxergar isso, a culpa o consumia e infelizmente esse sentimento cabia a ele aprender a se perdoar, tudo o que poderia fazer por ele era confortá-lo e orar para que tudo se acertasse.

–Eles também estão felizes em saber que você é a filha deles. – beijou seu rosto – Esme não se cabe de felicidade, mas temo por Carlisle.

–Por quê?

–Ele se culpa e por causa disso está trocando os pés pelas mãos.

–Cada um reage de uma forma, Edward. Carlisle precisa de tempo e quando a poeira baixar tudo vai fazer mais sentido.

–Você é muito esperta, Sra. Cullen. Sinto que você amadureceu muito rápido, cresceu muito cedo.

Essa era uma verdade. Ela cresceu muito cedo, como não gostava de pessoas em volta todo o seu foco foi alterado para os números e para os estudos, o único tempo livre era quando dormia e mesmo assim se tornava bem pouco por causa dos pesadelos.

–Eu só pensei bastante e se o meu bebê tivesse sido tirado de mim, não suportaria que ele me rejeitasse depois. Vou ser mãe, Edward, isso me fez mudar de ideia, me fez abrir minha mente. – se aconchegou em seus braços quentes – Quando conversamos na Itália estava com medo do que eu poderia encontrar no meu passado e desconfiava que você tinha contratado alguém para descobrir mais sobre isso.

–Você não me falou nada e não queria perturbá-la. – se defendeu – Você, Isabella Cullen, é minha mulher e eu te conheço bem. Sabia que se falasse abertamente sobre o detetive iria ficar neurótica. Não faria nada que te magoasse, mas precisava encontrar aquele maldito, precisava aplicar justiça em seu nome.

–E você o fez, você me protegeu do perigo e de mim mesma. Foi com você que aprendi o valor do amor, Edward. O que sou hoje é graças a você. Antes eu pensava apenas em mim e hoje consigo compreender todo o meu entorno. Me sinto confusa e perdida ao saber de tudo, a ficha ainda não caiu, na verdade, parece que um prédio caiu na minha cabeça. O único ponto seguro que tenho agora é você e o bebê.

–Não somos os únicos a se preocupar com você, basta aceitar isso, anjo.

Bella sorriu suavemente.

–Temos uma família grande, mas até que resolvamos isso, vou me concentrar no nosso casamento e no nosso filho, e, amanhã... Bom, o amanhã daremos um jeito quando chegar.

Notas finais
Olá, amores. Esse capítulo foi complicado de escrever, são muitos detalhes e muita coisa conflituosa, afinal, escrever sobre sentimentos sempre é mais difícil do que apresentar apenas fatos. Eu, particularmente, gostei de escrever esse capítulo porque ele será um prelúdio importantíssimo para o próximo. Queria agradecer muito a todos que estão comentando, eu adoro essa interação, pra mim é importantíssimo ver o quão entrosados estão com os personagens e como sentem que eles também pertencem a vocês. Como disse antes, o próximo capítulo será o encontro da Bella consciente com o fato de Carlisle e Esme serem os seus pais biológicos e em conjunto chegou a hora de colocar tudo em pratos limpos então pode haver também o confronto - necessário - entre os Cullen e os Swan, mas vamos esperar para ver o que vai dar. Espero que tenham gostado. Beijos