O Que Somos
21 Capítulo 21
Capítulo 21
As palavras saíram por sua boca sem perceber. A simples menção de que ela não o queria o deixava desesperado e todo amor que tinha por ela nunca poderia ser entregue a ninguém mais. Tinha que ser ela. Apenas a sua pequena menina teimosa. Não a deixaria, essa não era uma opção.
A abraçou apertado sentindo o contato daquele pequeno corpo gelado, escutando o pulsar de seus corações naquele cômodo escuro e sentindo suas respirações se misturarem. Como poderia viver sem ela sabendo o gosto que tinham seus lábios? Já conhecendo cada pedaço de seu corpo e de sua mente?
–Me peça qualquer coisa, mas eu não posso e não vou abrir mão de você. – Ele sussurrou no silêncio.
Por alguns poucos segundos Bella imaginou que aquilo era um tipo de sonho que sua mente estava criando para iludi-la, para fazê-la se desligar da realidade. Por que tinha se apaixonado por ele? Sabia que o sentimento que tinha por ele ia muito além de uma simples atração ou mesmo afinidade sexual. Queria estar com ele. Não sabia como agir, como interpretar o que tinha visto, nem as palavras de Alec ou as dele. Se afastou do corpo quente e se recostou na parede, deixando seu corpo cair por ali. Rodeou os joelhos com os braços e enterrou seu rosto ali, deixando suas emoções se libertarem e as lágrimas saírem. Chorou. Por ele, por ela, pela dor que suas lembranças causavam. Amava-o, tinha certeza, assim como sabia que o amor já havia sido usado contra ela antes. Seria tão mais fácil se não o amasse.
–Anjo, olhe pra mim. – ele estava sentado à sua frente com seus olhos marejados. Em seu íntimo sabia que ali seria o fim, mas não poderia desistir – Me desculpe por ter, mesmo inconscientemente, te machucado. Juro que não o queria. Tanya está no meu passado, não posso mudar isso, mas posso garantir que ela não irá interferir no nosso presente e futuro.
Ela o olhou mordendo o lábio. Desejava poder voltar no tempo, para aquela manhã durante o casamento de Alice; queria tê-lo agarrado no carro antes da festa; queria ter dito antes que o ama. Ninguém a conhecia, não realmente, e ele tinha quebrado todos os muros que existia a sua volta. Ele sabia de coisas que nem mesmo seu irmão tinha conhecimento. Uma vez tinha lido que amar é perdoar e aprender a conviver com isso. Tudo poderia dar certo afinal.
–Você me ama? – o questionou ainda chorosa.
–Mais do que tudo. – confirmou sem tocá-la.
–Ele dizia que amor era para tolos, que ninguém me amava e que por isso eu estava sendo punida. – falou baixinho, era como se aquele monstro fosse pular ali a qualquer momento e levá-la de volta para o mundo de medo e escuridão.
–Seja “ele” quem for ele estava errado. – Disse com segurança, contendo suas mãos e querendo passar consolo – Eu te amo mais do que a mim mesmo, daria minha vida por você, porque você é minha vida.
–Eu... Eu... Eu te amo também – sussurrou o olhando – Não queria, mas esse sentimento é mais forte que eu.
Ele não sabia se ficava feliz por ela ter admitido que o amava ou irritado por ela não querer o sentimento. Ainda estava tentado digerir tudo o que estava acontecendo: ela tinha dito um pouco de seus medos para ele e isso talvez já explicasse o motivo de ela temer o amor.
–Me conte pequena, por que você não quer me amar?
–Não é obvio? – desviou o olhar – Quando você ama uma pessoa, você fica vulnerável e eu aprendi da pior forma que não se deve deixar isso acontecer. Assim fica mais fácil de lidar quando a pessoa sai da sua vida.
–Eu não vou sair, Isabella, você querendo ou não eu vou continuar onde estou. – falou firme.
–No chão do banheiro? – perguntou se sentindo mais leve.
Edward apenas riu e se levantou, a ajudando. Tirou o vestido molhado corpo dela, suas roupas intimas e a secou com carinho. Beijou sua testa mantendo seus lábios ali, sentindo seu cheiro. Correu até o closet e pegou uma calça de moletom e uma camiseta grande e a vestiu colocando-a na cama quente.
–Não vou mais sair da sua vida. – ele afirmou a enrolando nos cobertores. – Ah, e por que se enfiou na água fria?
–Me ajuda a pensar melhor.
Ele fez uma careta, mas não disse nada. Tirou suas roupas e se deitou ao lado dela, trazendo o corpo dela para mais perto de seu. Não queria discutir naquele momento, deixaria para o dia seguinte quando estivessem mais calmos. Como ele esperava que estivessem.
Quando Bella acordou sua cabeça estava pesada e martelava, seu estomago embrulhado e sentia muito calor. Aos poucos as lembranças da noite anterior invadiram sua mente e ela gemeu interiormente. Não era um sonho, realmente tudo tinha acontecido. Edward estava agarrado a ela com braços e pernas. Bella tentou sair do seu agarre devagar para não alarmá-lo. Queria colocar seus pensamentos em ordem antes de conversar com ele. Com dificuldade saiu da cama e o viu agarrar o seu travesseiro.
Lavou o rosto e escovou os dentes. Olhou o seu reflexo no espelho e fez uma careta: estava com os olhos inchados e vermelhos, pálida e seu cabelo uma bagunça. Os prendeu em um rabo de cavalo e caminhou até a cozinha. Precisava de uma coisa que odiava: chá. Esperou a água ferver e colocou sua cabeça para funcionar, tinha que contar a Edward o motivo que a fez fugir, se lembrou vagamente que já tinha revelado muito a ele na noite passada, tinha que se libertar do passado de uma vez, não poderia mais conciliar o passado e o presente. Quando a chaleira apitou colocou a água na caneca e tomou dois comprimidos, tomou o chá forçando-os a descer. Seu estomago estava uma bagunça. Era por isso que nunca bebia.
Tombou a cabeça no sofá fechando os olhos. Como queria que sua vida fosse mais simples. Ela temia que algum dia ele percebesse que ela não era a mulher para ele e corresse para os braços de uma como Tanya.
Edward rolou na cama sentindo falta de algo, passou as mãos pelos lençóis e gelou, em um pulo estava de pé no meio do quarto. Não tinha nada fora do lugar. Caminhou até a sala e a encontrou no sofá, soltou um suspiro de alivio, por alguns segundos tinha pensado que ela tinha fugido. Caminhou até ela e sentou na mesa de centro à sua frente.
–Hey, tudo bem? – tentou ao máximo permanecer calmo.
Ela abriu os olhos e admirou aquele menino em corpo de homem que a tirava do sério, mas que fazia seu coração dar pulos.
–Sim... Eu acho. – falou incerta, não sabia como agir depois da noite passada.
–Quer conversar?
–Sobre o que?
–Ontem à noite. – respirou fundo – Queria reforçar Bella tudo que te disse realmente é verdade, não tenho motivos para mentir pra você ou para enganá-la.
–Eu sei. – ela falou baixinho – Me desculpe, mas... Não sei o que me deu.
Edward acariciou sua mão e levando aos lábios. Estava aliviado por ela não ter mandado-o embora, por ter acreditado nele, e por talvez até ter aceitado o seu amor.
–Está tudo bem, acho que teria agido da mesma forma se eu visse você toda intima com um ex que eu não tivesse o conhecimento.
Ela fez uma careta e o abraçou, o cheiro dele sempre a acalmava. Ele rodeou seus braços em torno do corpo pequeno e beijou seus cabelos. Queria passar segurança para ela, queria mostrar com aquele abraço que sempre estaria ali por e com ela.
–Queria que você confiasse em mim o suficiente para me contar todos os seus segredos. – ele sussurrou agarrado a ela.
Caiu um silêncio na sala que pareceu durar uma eternidade antes que as primeiras palavras saíssem.
–Eu tinha uns cinco anos quando fui adotada pelos Swan. – revelou baixinho – Não me lembro de muita coisa daquela época, lembro que estava chovendo muito forte, tinha árvores por toda a parte, eu estava machucada e com tanto medo, medo daquele lugar, Dele, do mundo.
Edward a apertou mais forte se sentando no sofá com ela ainda no seu colo, mas ela não se moveu e seu corpo tremia levemente.
–Os Swan estavam voltando de uma apresentação na escola do Gabriel, ele me viu entre os muitos carros que estavam parados na estrada por causa de uma barreira que tinha sido rompida. No escuro! – ela respirou fundo e passou as mãos pelos cabelos notando que estava trêmula – Ele saiu do carro correndo na chuva e foi até mim. Ele estava vestido de Lincoln e era como um anjo de cartola que tinha aparecido para me salvar. Ninguém além dele tinha me visto ali, só ele, aquele menino de olhar bondoso.
Em seus vinte e oito anos, Edward sempre se culpou por não ter podido ajudar seus pais quando eles morreram naquele acidente de carro, mas ele tinha seus tios que o amavam como um filho e aquela menina não tivera ninguém para protegê-la, tinha que admitir que em alguns momentos sentia um ciúme irracional da forma em que ela falava do irmão, entretanto agora podia entender o motivo de ela ser grata a ele.
–Te abandonaram ali? Como você foi parar naquele lugar? – abordou o elefante na sala.
Ela levantou de seu colo e foi em direção à janela que tinha vista para ver a rua. Olhou para os carros e para as pessoas que andavam na calçada, cada um cuidando de suas vidas sem ter o conhecimento do que acontecia lá em cima. Ele queria apenas saber o tinha acontecido e essa era a parte difícil porque apenas seu pai e sua antiga psicóloga sabiam. Ela sentiu seu peito se comprimir pelas lembranças distorcidas. Percebeu quando ele ficou atrás de si deixando um pouco de espaço para que ela pudesse respirar.
–Antes disso... Eu não me lembro do rosto dele, mas lembro que ele falava sobre eu ser indigna como minha mãe, como não era para eu ter nascido... Ele me batia muito... muito mesmo e com qualquer coisa que estivesse ao alcance de suas mãos... Algumas vezes mal conseguia levantar do chão e, quando eu levantava, ele amarrava minhas mãos e meus pés e me batia mais.
A voz dela quebrou na última revelação. Ainda podia sentir as cordas ao redor dos seus pulsos e esfregou as mãos para se libertar daquela sensação. Não tinha coragem de encarar o olhar dele. Não queria ver piedade, nunca quis.
–De todas as coisas que tem na minha mente, não consigo encontrar nenhuma sensação de medo de quando estava com meus pais biológicos, mas eles me entregaram para aquele monstro, Edward. – suas mãos se fecharam tão forte que seus nós dos dedos ficaram brancos, o escárnio era evidente em sua voz – Por muito tempo me perguntei quem realmente era o monstro da minha vida: se era aquele que me fazia lembrar o quão inútil eu era que nem meus pais me quiseram ou se eram aqueles que deveriam me amar e proteger. Amar machuca, entende?
Bella olhou pra ele com tanta dor nos olhos que Edward queria encontrar com esse homem pessoalmente e mostrar como é bom apanhar. Manteve seus pensamentos para si mesmo, sabia que ela ainda não tinha terminado de contar tudo.
–Se lembra naquela noite em que tive um pesadelo na sua casa? – Ela perguntou.
–Sim. – falou simplesmente
–Era um flash de memória. – explicou o olhando nos olhos, suas lágrimas caíam sem pedir permissão, passou a mão no rosto para tentar clarear seus pensamentos – Eles acontecem as vezes. Naquela noite eu me lembrei do dia em que consegui fugir, estava há dias sem comer, com medo e sabia que ele iria me matar, sentia isso. Eu era mantida em uma cabana velha de madeira no meio do nada, então esperei até ele sair com o carro. Quando notei que não tinha barulho nenhum consegui tirar uma das dobradiças da porta da frente e corri mato adentro.
Seu corpo todo tremia, sabia como era a sensação das lembranças, mas deixá-las saírem da sua boca era ainda pior. Inconscientemente procurou uma das mãos dele com a sua, gostando da forma que o pequeno contato podia fazer sua respiração se normalizar.
–Não sei como, mas ele me encontrou, eu ouvia ele gritar por mim. Me chamava de pequena raposa traiçoeira. – ela riu sem humor – Ele sempre me chamou assim: Raposa. Ele costumava dizer que a raposa era um animal inteligente, mas que se alguém conseguisse prendê-la poderia esmagá-la facilmente. Me escondi em uma árvore, quando achei que ele não estava mais perto corri mais e mais. Eu era inteligente o suficiente para saber que ele não devia me pegar, mas ele me achou e me jogou no chão. Eu... Eu... Olhei pro chão e... Olhei em volta, tentando achar uma forma de fugir enquanto ele vinha em minha direção. Foi aí que encontrei uma pedra, eu acho, bati nele com toda a força que tinha e voltei a correr. Dessa vez não parei. Corri tanto que acho que corro até hoje.
Edward puxou o corpo dela de encontro ao seu, tentando imaginar todo o terror psicológico e físico que sua pequena tinha sofrido tão nova, tão pequena e tão inocente. Queria trazê-la de volta das suas lembranças, e que não apenas seu corpo estivesse com ele.
–Ele tinha uma tatuagem no braço, eram duas cobras entrelaçadas. Tem vezes que as vejo pulando em mim, como se fossem reais, as sinto me sufocando. Quando cheguei à rodovia e vi todos aqueles carros e encontrei Gabe, senti um alivio tão grande que nem sei como descrever. Se não fosse por ele e por seus pais, provavelmente estaria morta.
–Charlie o encontrou? – perguntou entre dentes.
–Não, eu não me lembrava dele, o lugar em que fui encontrada era cheio de matas e arvores, era praticamente impossível. Não havia registros sobre crianças desaparecidas naquela região e eu tive um bloqueio de memória. Foram uma série de fatores contra. Eu tenho uma cicatriz na cabeça de alguma pancada, o médico disse que isso causou o bloqueio. Não me lembrava nem o meu nome. – por alguns poucos segundos ela sorriu – Gabe falava que eu parecia com sua avó Marie e sua tia Isabella. Eu gostava quando ele me chamava assim, me sentia parte de algum lugar.
–Eu te juro que ninguém mais vai machucá-la. – afirmou beijando suavemente seus lábios vermelhos, tentando distrair a ambos. Tinha que fazer alguma coisa quanto a isso o mais rápido possível. – Como se sente?
–Bem melhor por ter conversado com você.
Pela primeira vez em anos se sentia livre das lembranças esmagadoras da infância, se sentia em casa nos braços de Edward. O abraçou mais forte e o beijou. Aquele monstro estava errado afinal: amar era bom, era incomensurável, era divino.
“Esquecer é uma necessidade. A vida é uma lousa, em que o destino, para escrever um novo caso, precisa de apagar o caso escrito”
Machado de Assis
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