Capítulo 64

Renée observou a luz do sol ultrapassando os enormes prédios, a muito não tinha sono e nem fome, suas preocupações tomavam todas as suas forças. Não conseguia entender como a vida era irônica, depois de tantos anos querendo que Bella enfrentasse o passado turbulento para que conseguisse deixar tudo para trás e ele estava bem ao lado de todos.

Temia que sua filha a deixasse de lado por causa da família biológica, afinal, ela havia sido cruelmente tirada dos Cullen e os amava. Carlisle havia deixado claro que faria o impossível para que ela se mantivesse longe deles e pelo poder que ele tinha sabia que isso poderia acontecer, mesmo não querendo acreditar em tamanha sandice aquela possibilidade ainda existia e gritava em seu peito.

Charlie estava estranho, distante, recluso e com a fisionomia visivelmente abalada. O conhecia a mais de trinta anos, conviveu com ele durante sua vida toda e nunca tinha presenciado seu marido tão abatido. Ele chegava a parecer culpado. Do quê exatamente ela não sabia e temia perguntar, mas provavelmente era pelo estresse e pressão que estava sendo alocada a ele com essa descoberta bombástica.

Frustrada resolveu tomar um banho quente para clarear a mente, iria até os Cullen e conversaria com eles. Nunca iria abrir mão de sua filha e aquela menina, mesmo não tendo o seu sangue era a sua filha, sempre seria.

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Edward tinha passado a noite em claro velando o sono de Bella, imaginava que ela teria pesadelos ou teria dificuldades para dormir, contudo nada disso aconteceu. Ambos conversaram durante horas antes de ela adormecer em seus braços calmamente, apenas resmungando coisas inteligíveis e risinhos durante o sono.

Agora, depois de tomar banho, ela estava em pé frente ao espelho de corpo inteiro no closet encarando seu próprio reflexo, de inicio pensou que ela iria se vestir, mas depois de dez minutos não entendia o que tanto sua esposa procurava ali e isso já estava o incomodando.

Suspirando foi até ela a abraçando por trás e colocou a cabeça no seu ombro encontrando seus olhos no espelho, suas mãos automaticamente seguiram para a leve protuberância que começava a dar sinais.

–O que foi, pequena?

–Minha barriga está aparecendo. – sussurrou mordendo o lábio inferior – Cresceu tão rápido.

–Sim. – concordou – Você já o sente se mexer?

–Ainda não, por enquanto o que sinto é como se fosse um frio na barriga.

Ele a virou acariciando seu rosto com a ponta dos dedos.

–Quero senti-lo se movendo. Pelo que li nos livros lá pelo mês que vem já conseguiremos.

–Você e seus livros sobre gravidez. – brincou com ele – Até parece que vai abandonar a vida de empresário para ficar em casa comigo e o bebê.

–Eu sou capaz de fazer tudo por vocês.

–Então se prepare para estar em torno de mamadeira e fraudas, Sr. Cullen. – o provocou.

–Isso não me assusta, pequena.

Bella sorriu e beijou rapidamente seus lábios correndo para se vestir. Iria aproveitar que suas forças estavam renovadas para enfrentar o furacão que se tornou sua vida, não existia motivos para adiar o inevitável, era uma mulher madura e como tal enfrentaria seus problemas com a cabeça erguida.

A maioria das suas calças jeans não cabiam mais, teria que fazer compras o mais breve possível, se seu bebê puxasse a Edward seria grande e precisaria de bastante roupas até o fim da gravidez, isso sem falar na sua alimentação, não queria ficar parecendo um elefante, mas também não poderia abrir mão das suas comidas preferidas, por fim cansada de pensar no peso que ganharia pegou um jeans mais solto e uma blusa de lã branca.

–Tem certeza que quer ir conversar com meus tios agora? Poderia pedir que eles viessem aqui ou deixar para fazer isso mais tarde, talvez depois de você passar no médico.

–Edward, eu estou bem, não se preocupe.

–Não quero que se estresse e passe mal de novo, Esme e Carlisle entendem que você precisa de tempo para pensar.

–Eu preciso ir até eles. – o abraçou pelo pescoço – Sinto isso no meu coração e preciso conversar com eles, encontrar uma forma certa de concertar tudo para todos nós.

Edward procurou algum sinal de reticencia em seu rosto, não deixaria que ela fizesse algo que poderia ser negativo a ela ou ao bebê e como não viu apenas suspirou. Caminhou com ela presa em seu pescoço até a cama e se deitou a prendendo suavemente contra seu peso.

–Quando James confessou tudo o que tinha feito eu conversei com Esme. – sussurrou – Ela se sente culpada pelo que ele fez e eu prometi que estaria com ela sempre, não importasse a situação. Eu segurei sua mão e prometi, Edward.

–Você tem razão. Só ainda não consigo acreditar que você aceitou tão fácil.

Bella mordeu o lábio e suspirou.

–Eu não aceitei, me conheço como Isabella e não sei se Melanie existe em mim, mas farei isso por Esme. Pelo amor que tenho por ela.

–Entendo e mesmo assim estou orgulhoso de você. Nem sei como dizer o quão feliz estou por vocês, pequena.

Ela riu um pouco constrangida com o olhar que ele a direcionava e escondeu o rosto entre seu ombro e pescoço, não diria a ele que estava morrendo de medo que tudo desse errado, havia um incomodo no seu peito que a deixava inquieta e sempre que se sentia assim alguma coisa ruim acontecia.

Tentando espantar os maus pensamentos fez questão de arrastar o marido para uma caminhada até a casa de Esme e Carlisle, o caminho se resumia a menos de duas quadras e poderia aproveitar para esticar as pernas, se agarrou a ele para afugentar o vento frio que batia no seu rosto. Edward apenas a abraçou mais forte orando em silencio para que tudo desse certo e se resolvesse, ele suportava qualquer tipo de pressão, mas sabia que Bella não e por ela queria que isso se acertasse.

Precisava convencer seu tio a retirar o processo contra Charlie, mas parecia impossível fazê-lo ver que o juiz fizera apenas o que acreditava ser o certo e não o condenaria por isso, foi graças a ele que sua mulher estava hoje em seus braços.

Sua tia estava os esperando na porta quando entraram, sem demora roubou Bella dos seus braços a abraçando com força. Deu espaço para as duas e entrou cumprimentando brevemente seu tio e os primos, com certeza, já sabiam de tudo.

–O que você acha disso? – Emmett o questionou quando se sentou.

–Bizarro, estranho, inacreditável.

–Ela é a minha irmãzinha. – sussurrou alegre – A menininha atrevida e esperta que corria conosco.

–A pirralha que conseguia calar a sua boca, Memmett. – Alice brincou emocionada.

Edward não os respondeu, não gostava de pensar em todo o tempo que tinham passado longe um do outro e imaginar sobre como seria sua vida se ambos tivessem crescidos juntos deixava um gosto ruim na boca.

Quando Bella finalmente conseguiu sair dos braços de Esme se sentia sem folego, sempre a amara como se fosse sua mãe, desde a primeira vez que se encontraram e agora esse sentimento se mostrava verdadeiro.

Carlisle foi até elas e a apertou em seus braços sussurrando pedidos intermináveis de perdão.

Lagrimas caiam por seu rosto quando conseguiu encarar seus olhos azuis.

–Está tudo bem. – murmurou com a voz embargada – Está tudo bem agora.

Assim que finalmente conseguiu se sentar sorriu para Emmett e Alice, seu rosto queimava de vergonha, uma coisa era ser a esposa de Edward, outra bem diferente é ser a filha deles e essa ideia ainda a deixava sem chão.

As palavras pareciam ter fugido da sua mente, simplesmente escapulido para outro plano astral. Seus dedos batucavam insistentemente contra a perna de Edward.

–Você se sente melhor?

A voz de Carlisle a fez suspirar e corar mais. Como poderia esquecer que havia desmaiado como uma heroína vitoriana quando escutou a conversa no dia anterior?

–Sim. Foi só o choque. – engoliu em seco ao se lembrar da sensação que teve – Não esperava que ao acordar descobrisse tanta coisa.

–Imagina para nós que nem tínhamos mais esperanças. – Alice resmungou se apertando ao irmão.

–Eu mantive. – Esme sorriu olhando para sua menina – Você me fez segurar minhas esperanças todo o tempo... Foram suas palavras que me fizeram seguir e acreditar.

Bella sorriu se lembrando daquela noite horrível, parecia irônico que todo aquele tempo ela falava sobre si mesma.

–Nós sempre te amamos como se fosse da família. – Carlisle foi até ela e se sentou ao seu lado apertando suas mãos com carinho – Me sinto um tolo por todo esse tempo você estar tão perto de nós e não percebemos, poderíamos ter ficado mais tempo juntos como uma família de verdade.

–Estamos juntos no momento certo. – Bella garantiu – Antes... Antes de conhecer Edward e todos vocês eu não sei como receberia essa... Noticia.

–Eu sei, mas se tivéssemos uma pista de onde você estava iriamos atrás, te buscaríamos. Nunca abandonamos a ideia de te encontrar, se algum dia passasse pela minha mente que o homem que sempre considerei meu irmão teria feito... O que fez. Te juro que faria muita coisa diferente.

–Eu passei grande parte da minha vida acreditando que havia sido rejeitada. – confessou – Foram anos em tratamento com psicólogos, terapeutas e o tudo mais, contudo, ninguém tirou essa ideia da minha mente. Quando eu aceitei vir pra Nova York desejava apenas fazer meu trabalho e voltar para Boston, continuar com a minha vida simples e pacata lá. Eu não podia sequer ouvir falar na minha infância sem ficar na defensiva.

–Esme me disse pelo que você passou e eu sinto muito... Eu falhei como pai, falhei como marido... – algumas lágrimas caíram do seu rosto e Bella as secou com carinho – Quando ela me disse que havia encontrado nossa menininha... Foi como se o sol se abrisse depois de uma longa temporada de inverno, fiquei confuso e incrédulo, mas Charlie me mostrou uma foto sua e era a minha Mel lá. O rosto, o cabelo, as feições, só que algo havia sido alterado, eu percebi que você tinha mudado.

Bella franziu a sobrancelha pensando em suas palavras, para ela a mudança ocorreu no momento em que aquele monstro... James, colocou a mão nela, desde a primeira vez que ele a agrediu e infelizmente isso não tinha como mudar porque já estava encravado na sua memória.

–Eu mudei muito, quando meus pais me encontraram parecia com um bichinho assustado e ferido, devo muito a eles.

Esme suspirou sentindo seu peito se apertar, ela não tinha perdido apenas ver sua filha caçula crescer, ela havia perdido o amor genuíno e único materno que adquiriam com a convivência, mesmo sendo sua mãe biológica, ela nunca a veria como sua mãe verdadeira, e saber disso parecia que uma estaca se encravava no seu peito.

–O importante é que você voltou. – a mulher mais velha conseguiu falar – Está de volta a sua família agora.

Bella estava confusa, sentia a dor de Esme, via a dor nela em suas feições, em suas palavras, entendia o sentimento esmagador que viveram com a perda da filha e que agora eles haviam recebido um milagre, os amava, no entanto aquelas palavras davam a entender que esperavam que cortasse relações com os Swan e isso não o faria, assim como não os deixaria de lado.

–O sangue Cullen corre nas suas veias. – Carlisle reforçou – Sempre correu, você não tem motivos para manter o sobrenome Swan.

Aquilo era exatamente como tinha imaginado. A dor deles falava mais alto e queriam que ela escolhesse.

Como um gesto de rebeldia afastou suas mãos das dele e se levantou irritada.

–Não mantenho mais o nome Swan porque me casei com Edward, porém se não o tivesse feito ainda sim seria uma deles. Eu entendo que vocês sofreram muito com o desaparecimento da sua filha... – ela parou um pouco confusa – Da Mel... Meu... Enfim, vocês sofreram e eu sinto a dor de todos por tudo o que aconteceu, sei que estão com raiva do mundo, então me expliquem o que desejem que eu faça? Que deixe de lado as pessoas que me apoiaram nos momentos difíceis? As que me mostraram que o mundo não era o que aquele monstro me fez acreditar?

–Bella, é claro que o papai e a mamãe não iriam te pedir isso. – Alice interveio se levantando para abraçar a irmã – Nunca poderiam fazer.

–Ninguém pediria isso a você. – Emmett completou.

Edward se resignou a olhar para os tios, orando em silencio para que eles não tomassem uma decisão equivocada, não poderia dizer a Bella que já estavam fazendo com que Charlie fosse responsabilizado por receptação de menor, esse assunto deveria ser tratado por ele e Carlisle quando ambos estivessem mais calmos.

–Não é o que me parece, Emmett. – suspirou se separando de Alice e começando a andar de um lado ao outro pelo enorme escritório, sua cabeça começava a doer.

–Estou tentando corrigir meus erros com você, filha. Pela primeira vez em dezesseis anos eu tenho a chance de corrigir o que foi feito, eu não vi você ir para a escola, não fui às suas reuniões, não presenciei sua formatura e não te levei ao altar...

–Infelizmente tudo isso já aconteceu, já passou, Carlisle e não temos como voltar no tempo. Eu amo você e amo Esme. Amo muito, mas não me afastarei de Charlie e Renée.

O médico encarou a filha caçula, percebendo a mesma personalidade difícil que ostentava na juventude, se hoje ela tinha os traços físicos de sua esposa, os comportamentais eram totalmente seus. Se sentia em uma sinuca de bico, sem saber como agir, temendo que qualquer movimento errado iria perde-la novamente.

Uma batida na porta interrompeu seus pensamentos e gritou para que a pessoa entrasse.

–Desculpe-me, Dr. Cullen. – Emma resmungou sentindo a tensão no ar – O senhor e a senhora Swan estão aqui e gostariam de falar com os senhores.

Respirando fundo para se acalmar mirou a pequena figura teimosa a sua frente, era melhor que todos estivessem ali, assim acabaria de vez com aquele assunto.

–Mande-os entrar, Emma.

A governanta assentiu e saiu, logo Charlie e Renée entraram fechando a porta atrás de si. Ver todos os Cullen em um ambiente fechado causou um súbito aumento cardíaco, contudo não daria o braço a torcer, era a sua filha que estava em jogo.

–Não direi que é bom vê-los. – Carlisle se jogou na sua cadeira – Mas estávamos falando de vocês

Bella deu um pequeno sorriso para a mãe e a abraçou, apreciando a calma e segurança que esse gesto sempre passava pra ela.

–Com certeza, temos muito sobre o que falar. – retrucou tomando um lugar ao lado de Edward – Como você está, filha?

–Ela não é sua filha. – Esme praticamente rosnou – Nunca foi.

–E ela foi sua? – ironizou – Pelo que eu sei, quem deixou que ela fosse abandonada em uma floresta fria e chuvosa não fui eu. Eu não fui o motivo de ela ter passado por coisas que não desejaria para o meu pior inimigo. Meu filho encontrou essa menina quase morta, ela começou a viver quando estava em contato com a minha família e agora vocês querem tirar tudo de nós.

–Só estamos retomando o que nos é de direito. – Carlisle falou irritado – Se o seu marido tivesse agido dentro da lei, minha filha estaria em casa há muito mais tempo.

–Charlie fez tudo corretamente e mesmo se não tivesse feito e Bella fosse devolvida pra vocês, quais mais riscos ela não sofreria?

Os ânimos dentro do escritório estavam exaltados e ninguém se atrevia a entrar na guerra verbal que se formou e quando tentaram foram ignorados.

Charlie se manteve em silêncio, sua consciência nunca tinha pesado antes por algo que tinha feito, nunca se arrependera dos seus atos e não poderia começar agora, mas devia a verdade, não para Carlisle, mas sim para aquela menina doce que lhe entregou sua confiança.

–Você está bem, pai?

Forçando um sorriso ele acariciou o rosto da menina. Ela era a sua filha, sempre tinha sido.

A dor de cabeça que Bella sentia aumentou e sua nuca palpitava, suas mãos suavam e sua visão estava um pouco turva. Não entendia nada do que eles falavam. Que história era aquela de crime?

–Você gosta de falar tanto que tudo o que fez foi pelo bem de Isabella, mas Charlie sabe que irá pra cadeia se ficar confirmado que ignorou as leis de adoção.

Rapidamente sua mente processou essas palavras. Seu pai iria preso porque a protegeu, porque não poderia correr o risco de voltar às mãos de um louco novamente, os Cullen iriam cuidar para que ele fosse condenado pela bondade que fez por ela?

–Vocês estão processando meu pai? – sussurrou ainda incrédula – Eles estão te processando?

–Você não precisa investigar nada, Carlisle, eu mesmo irei te contar sobre tudo.

–Charlie, você não é obrigado a dizer nada. – Emmett interviu – Se você fez algo errado, o meu pai também o fez, não se trata de nenhum dos dois, então pense bastante.

–Obrigado, Emmett, mas não se preocupe. – com resolução deu alguns passos e encontrou o olhar de Carlisle – Quando Gabriel encontrou Isabella na estrada passei a noite toda em claro tentando encontrar uma forma de ajuda-la. Naquela época, eu via casos como aquele todos os dias e quando devolvíamos aquelas crianças para suas famílias de origem elas sempre se machucavam de novo ou acabavam mortas. Cansei de ser chamado porque encontraram diversos meninos espancados em hospitais e valetas.

Carlisle arfou reconhecendo que aquele homem tinha salvo a vida da sua menininha, mesmo a mantendo dezesseis anos longe da sua família, não queria admitir que lhe devia isso, lhe devia gratidão.

–Eu tomei a decisão de adotar aquela garota e o fiz. – sua voz falhou e não teve coragem de encontrar o olhar da sua filha – A regulamentação para adoção é clara quando mostra que se deve procurar parentes vivos do menor. Eu o fiz inicialmente, procurei nos registros de crianças desaparecidas, mas não havia nada lá, até que dois meses depois encontrei uma possibilidade de uma mulher ser a mãe de Isabella.

Todos os olhares se fixaram nele. Era difícil admitir um segredo de tantos anos.

–Você nunca me falou sobre isso.

Ele abaixou a cabeça e se negou a fazer contato visual com a esposa.

–Me perdoe, Renée, mas não queria envolve-la.

–Eu sou sua esposa, sempre estive envolvida, Charlie... Quem... Quem era a mulher que...

–Victoria. – a interrompeu – Victoria Brown.

Renée respirou fundo se lembrando da mulher, ela morava em Forks, ambas estudaram no mesmo colégio durante anos, mas até onde sabia Victoria não tinha filhos.

–Numa tarde eu e os meninos fomos pescar com Harry, Bella estava tão contente, ela nunca pareceu tão tranquila, estava sorrindo e falante – ele riu com a lembrança — decidimos passar na lanchonete para comer alguma coisa e quando ela viu Victoria simplesmente travou... Ela parou na entrada e... Eu nunca tinha presenteado tanto medo no olhar.

Bella encarou o pai e forçou sua mente a se lembrar, mas parecia que estavam falando sobre a vida de outra pessoa e não a dela. Sua mente era um branco interminável daquela época.

–Quem é Victoria? – Alice questionou notando que seus pais pareciam estarrecidos para comentar sobre qualquer coisa.

–Victoria é amante de James. – Edward esclareceu pegando o celular para acessar os dados gravados até encontrar a foto da mulher.

Charlie suspirou quando confirmou se tratar da mesma mulher.

–Foi por isso que nos mudamos para Boston, recomeçamos a nossa vida. Não poderia permitir que aquela mulher machucasse minha menina. Eu sabia que ela poderia não ser filha de Victoria, mas se ela fosse...

Agora Edward entendia. As atitudes de Charlie criaram um fator crucial para que não tivessem descoberto tudo antes. Se ele tivesse denunciado e investigado aquela mulher nunca teriam passado por tanto sofrimento e tantas incertezas. James estaria a muito mais tempo na cadeia pagando por seus crimes.

–Você me disse que não tinha nenhuma pista sobre as pessoas que fizeram aquilo com a Bella, Charlie. Você sabia que precisava de alguma pista e mesmo assim mentiu?

–Sim. – confessou – Eu o fiz porque pensava não ter chances de você descobrir.

Bella caminhou até Charlie e o fez encará-la.

–Isso é mentira, não é?

–Sinto muito, querida. Só não queria que você se magoasse mais. Eu presenciei todo o seu medo, as suas duvidas e traumas... Se tivesse falado sobre a essa hipótese você teria ido atrás de Victoria, mesmo que fosse para pedir uma explicação.

–Você mentiu pra mim, papai... Não importa se foi para me proteger ou não, você simplesmente mentiu.

–Algum dia...

–Não. – o interrompeu energicamente – Eu sei muito bem que tudo o que fez foi para me proteger, mas você nunca me ensinou a fugir, sempre incentivou tanto a mim quanto Gabe a lutar pelo certo, pela verdade, doesse a quem for e agora me fala que poderíamos ter toda a verdade há muito mais tempo se tivesse aplicado aquilo que nos ensinou?

–Bella, entenda...

–Cansei de entender! – gritou – Todos me pedem para entender o que fazem com a minha vida, como se fosse uma criança, como se fosse uma marionete. Parece que nenhum de vocês enxerga que eu cresci, que sei cuidar de mim mesma.

–Você me tirou o direito de conviver com a minha filha, Charlie. Mesmo inconscientemente foi uma das principais pessoas que quebrou minha família.

Carlisle soltou um riso sem humor e enterrou a cabeça entre os braços.

–Sou homem o suficiente para assumir minhas falhas. – afirmou erguendo o queixo – O que fiz foi por amor a essa menina e faria tudo novamente.

–Pois saiba, Charlie, que suas ações custaram dezesseis anos de dor e desespero, apenas uma denuncia e tudo seria diferente. Eu teria a minha filha em meus braços e você a sua paz porque a partir desse momento farei o impossível para que pague.

Bella olhou para os dois homens tentando fazer sua mente funcionar. Nunca tinha presenciado aquele olhar frio e raivoso em nenhum dos dois e isso a assustava.

–Não sou apenas eu que irei pagar, Carlisle, afinal, foi você quem conviveu sua vida toda com o inimigo. O que aquele homem fez com Isabella você ainda irá pagar pelo resto dos seus dias, ou, estou errado?

–Pare os dois. – pediu sentindo suas pernas falsearem – Parem!

–Já chega, Carlisle. – Esme interviu indo até o marido – Você já passou de todos os limites possíveis e imagináveis.

–Não, Esme. Eu estou cansado disso. Esse homem é praticamente um sequestrador e você vai ficar do lado dele? Do homem que manteve sua filha longe? Aquele que foi um dos responsáveis pelo seu choro todas as noites, as orações não respondidas e o desespero em cada data especial?

Ela engoliu o choro ciente de que o marido estava – até certo ponto – certo.

–Estou do lado da nossa filha e é desse lado que você deve ficar também.

O escritório ficou em silencio enquanto cada um pensava na repercussão da última hora, sabiam que esse era o exato momento onde precisavam chegar a um consenso, precisavam tomar uma decisão.

–Você pode me chamar de sequestrador, pode me processar, mas isso não muda que o pai de Isabella hoje sou eu. É até mim que ela vem quando está doente, cansada, com medo.

–Veremos se você continuará com esse pensamento, Charlie.

Os olhares caíram sobre Bella, por alguns segundos ela se perguntou o que todos esperavam que ela falasse, até que como um clique tudo fez sentido.

–Vocês esperam que eu escolha?

Suas pernas tremeram e se não fosse por Edward teria ido ao chão.

–Amor, está se sentindo bem? – suas palavras não tinham nada menos que preocupação com ela.

Com dificuldade ela se ergueu e mesmo vacilando nos próprios pés encarou Charlie e Carlisle. Amava aos dois, contudo aqueles homens agora pareciam desconhecidos inimigos, via o ódio em seus olhares, magoa, rancor e isso a assustava.

–Todos esperam que eu escolha entre um e outro?

O silencio foi sua confirmação. Havia sido uma tola por acreditar que agora tudo se resolveria e poderia dar um fim ao seu passado, tudo tinha se complicado mais do que antes, sua mente tinha formado um nó.

–Sinto muito. – olhou de Esme a Renée.

Sua voz estava presa na garganta e as lágrimas escorriam dos seus olhos.

–Eu jamais deixaria de lado a pessoa que mais me amou e me apoiou em tudo. Nunca viraria as costas para quem me protegeu e cuidou de mim. Quando tinha medos e traumas era Charlie Swan quem segurava minha mão e me contava histórias, quem me levava para pescar porque dizia que isso acalmava. Já você Carlisle é um dos maiores exemplos que poderia ter na minha vida. Eu amei você e Esme desde a primeira vez que coloquei meus pés aqui e esse sentimento nunca mudará, saber que vocês são meus pais biológicos é... Fantástico, é imensurável saber que posso amar tantas pessoas assim, do mesmo modo que pra mim parece inacreditável ser amada. Acreditar que fui vitima de uma lavagem cerebral de um monstro foi a melhor noticia que recebi, foi um balsamo pra minha alma.

Como poderia escolher entre uma das duas famílias. Isso não era justo de jeito nenhum.

–Amo vocês quatro... Amo mesmo, mas não os reconheço. – seu queixo tremeu ao pensar nas suas próximas palavras – Na infância, fui Melanie Cullen e até meses atrás Isabella Swan. Quando estava na escola li um poema que dizia o seguinte: “Não é carne da minha carne; Nem osso dos meus ossos; Mas milagrosamente é meu próprio”. Esse é o poema da adoção.

Seus olhos ardiam pelas lágrimas e sua garganta queimava, mesmo assim não se deixou abater.

–Eu tenho aqui o sangue, a carne, o amor e o carinho, mas nenhum de vocês consegue ser grato por isso. – um sorriso de negação apareceu em seu rosto – São orgulhosos demais para dar o braço a torcer e tentar encontrar uma forma de resolver os problemas. Sou parte das duas famílias, contudo, vocês querem que eu escolha... Pois bem. Hoje sou apenas Isabella Cullen, esposa de Edward Cullen.

–Bella, não é assim, amor.

Edward a apertou em seus braços e beijou seus cabelos não gostando de como ela tremia em seus braços, isso não era para terminar assim.

Com cuidado ela se afastou dos braços do marido, deu as costas para todos e foi até a porta, parando quando sua mão tremente tocou na fechadura.

–Melanie Cullen não existe mais dentro de mim. E um dia fui Isabella Swan e já que querem tanto que escolha por uma das duas famílias, assim vou fazer... Eu... Não escolho nenhum dos dois, estou formando a minha própria família, estou fora dessa briga de vocês, então, façam aquilo que desejarem porque, não tenho mais motivos para querer entrar em uma guerra sem sentido, não vou procurar por nenhum de vocês, assim como não há motivos para me procurarem mais.

Suas palavras poderiam ser duras e cruéis, até mesmo desumanas, só que não permitiria que a manipulassem de forma tão frívola, não era mais uma garotinha, iria enfrentar suas escolhas mais tarde, mas nesse momento queria apenas desaparecer.

Notas finais
Olá amores do meu coração que tanto ama vocês. Bajulando um pouquinho para quebrar a tensão ;D Não me matem em pensamento pessoal porque a autora é totalmente imparcial, só retrato os fatos. Chegamos no impasse onde todos os erros e equívocos foram apresentados, já disse antes que não estou do lado de ninguém, sou neutra em tudo isso. Então, não as ameaças não vão funcionar e nem preciso citar nomes. Meninas, estou adorando os comentários, a presença e o carinho de vocês me incentivam sempre que sento para escrever, fico super contente. Espero que tenham gostado. Beijos Kim