O Que Somos
48 Capítulo 46
Capítulo 46
Voltar pra casa depois de quase uma semana fora dava para Bella uma sensação melancólica e estranha, aquela viajem tinha sido perfeita, sentiria falta daqueles dias tranquilos, tomou mais um dos comprimidos que o médico tinha passado suspirando, teria que mudar algumas coisas que comia por causa disso, o remédio dava muitas náuseas, ainda bem que tomaria apenas uma semana.
Edward tinha cochilado no inicio da viajem na poltrona e o convenceu a deitar no quarto que descobriu no fundo do jatinho. Estava deitada com ele, presa em seus braços fortes, eram quase dez horas de viajem, se sentia cansada, mas não tinha sono. Félix estava na cabine com o piloto e copiloto, sem sombra de duvidas se divertia mais que ela, nessas horas queria ter comprado algum livro ou coisa do tipo para se distrair.
Seus pensamentos sempre retornavam a conversa que tiveram naquela tarde. Não conseguia esquecer as palavras de Edward, algum dia com certeza precisaria revisitar suas memórias sombrias, voltar para os dias de dor e sofrimento que passou naquele lugar maldito não parecia uma boa ideia, fazia anos que não se deixava pensar naquilo.
Não se recordava dos pais biológicos e durante sua juventude tinha alguns lampejos de uma época feliz, talvez lembranças ou mesmo sua imaginação, por muito tempo acreditou nisso, manteve a fé que eles a procuravam e iriam tira-la daquele inferno, mas a cada dia, a cada surra suas esperanças de se desfaziam, até chegar ao ponto de todo o sentimento bom ser substituído por rancor e ódio, não sabia seria capaz de perdoa-los algum dia.
Entendia a vontade de Edward em querer descobrir mais sobre essa parte de sua vida, seu noivo não tinha sangue de barata, desconfiava que ele estaria tramando algo para descobrir mais sobre o monstro do seu passado, não o culparia se tivesse feito, só não poderia suportar caso ele a forçasse a encarar o que desejava esquecer. Uma discussão sobre isso não aconteceria mais, seu passado estava morto e pretendia deixa-lo assim, não o revisitaria.
Tentou se acomodar melhor na cama e Edward a puxou mais para o seu peito, não havia a mínima possibilidade de conseguir sair dali sem acorda-lo, suspirou rendida e fechou os olhos, o jeito seria contar carneirinhos.
Edward despertou com pequenas batidas na porta do quarto, ainda estava um pouco desorientado, Isabella estava dormindo calmamente em seus braços, a cobriu e caminhou até a pequena porta.
–Senhor, vim avisar que estamos chegando. – Félix falou baixo.
–Claro, vou acordar Isabella e já tomaremos nosso lugar.
–Sim senhor. Heidi pediu para perguntar se vão tomar café em casa ou na da sua tia.
–Na de tia Esme. Iremos direto para lá.
–Tudo bem.
Ele fechou a porta e se sentou na cama, Bella fez um bico durante o sono e se virou procurando o corpo quente do noivo, como não encontrou nada abriu um olho vendo-o na ponta da cama a observando, imediatamente sentiu seu rosto queimar e mordeu o lábio, nunca se acostumaria com aquele olhar intenso que ele lhe lançava.
–O que está fazendo aí? – perguntou depois de algum tempo.
–Eu ia te acordar. – beijou seu rosto – Estamos chegando.
Ela assentiu e se espreguiçou, foi com ele até o pequeno banheiro, escovou os dentes e arrumou seu cabelo, suas roupas estavam um pouco amassadas, mas ainda sim estava apresentável, saiu do banheiro e se acomodou na poltrona prendendo o cinto, não demorou muito e seu noivo sentou ao seu lado fazendo a mesma coisa e segurando sua mão. Ao ver os grandes prédios da ilha de Manhattan se sentiu mais próxima de casa. O pouso foi tranquilo, o tempo estava ótimo com um sol fraco pelo inicio da manhã, mas confortável.
Depois de passarem pela alfandega Félix os acompanhou até o carro parado próximo a saída exclusiva do aeroporto, o transito por ser sábado de manhã estava carregado, provavelmente por algum acidente Edward começou a murmurar uma música qualquer pra ver se passava o tempo, estava concentrado na letra quando escutou um pequeno riso. Cessou sua cantoria e olhou para Bella com uma sobrancelha arqueada.
–Qual o motivo do riso Srta. Swan?
–Nenhum Sr. Cullen. Não posso rir mais?
–É claro que pode, mas me parece que está rindo de mim. – brincou – Acho que vou ter que tirar esse sorriso de você. Aposto que pode fazer coisas mais úteis com a boca do que rir do seu pobre futuro marido.
O rosto de Bella estava corado, mas seu sorriso continuava. Colou a boca na orelha dele e sussurrou:
–Meu querido futuro marido, com certeza mais tarde posso te provar que sei fazer muitas outras coisas com a boca, basta apenas você pedir.
Edward se moveu desconfortável no banco de couro e conteve um gemido ao sentir a boca quente em sua orelha, aquela menina seria sua perdição. Não entendia como passou tantos anos sem saber qual era o gosto dos seus lábios, o toque de suas mãos ou a felicidade do seu sorriso, apenas agradecia aos céus por tê-la agora no exato momento que precisava dela.
O carro parou na frente da mansão e Bella nem esperou que abrissem a porta para ela, parecia uma eternidade desde a última vez que tinha ido aquela casa, em alguns passos seu noivo estava ao seu lado segurando sua mão, foram lentamente para a porta, como de costume Emma abriu a porta e sorriu ao vê-los juntos, Edward colocou o dedo indicador na frente dos lábios pedindo silencio e caminhou para a sala de jantar, todos estavam a mesa inclusive Renée.
–Bom dia família. – não pode evitar falar em voz alta.
Em questão de segundos foram bombardeados de abraços que separaram suas mãos. O falatório era geral que pareciam uma multidão os atropelando.
–Calma pessoal, um de cada vez. – pediu sorridente.
–Quando vocês chegaram? – questionou Esme abraçada a ele.
–Agora, viemos diretamente pra cá. – esclareceu se sentando na mesa posta.
Renée olhou sua filha e a abraçou forte, era bom rever esse brilho de felicidade em seus olhos e perceber que ela parecia mais saudável, ainda estava um tanto apreensiva sobre seu último encontro e temia ainda encontrar aquela tristeza que a dominava, no entanto parecia que ela tinha sido totalmente expurgada nesses dias longe de todos.
–Bebê como você está?
–Estou bem mãe. – sorriu retribuindo ao abraço – Só me sentindo sufocada.
Sua mãe a soltou e aproveitou para cumprimentar o resto da família.
–Rosie sua barriga cresceu muito.
–É que você ficou longe por muito tempo. – abraçou a amiga e acariciou sua barriga pontuda.
–Não vou mais me distanciar. Prometo.
Ambas riram e se sentaram a mesa, Bella não estava com muita fome por causa do remédio que obstruía seu estomago, então tomou apenas um suco e comeu os pãezinhos que só Emma sabia fazer e o bolo de chocolate de Esme. Discutiram sobre o tempo de viajem, os lugares, as pessoas e Alice sobre os presentes que tinham trago para cada um deles, era bom finalmente ter todos em volta. Depois do café as meninas como de costume foram para o jardim. Renée soltava pequenas ameaças no ouvido de Bella a fazendo rir, sem realmente se preocupar. Ouviu um latido baixo e suas pernas foram atacadas por uma bola gigante.
–Pequeno da mãe. – se ajoelhou o abraçando tinha sentido tanta falta de seu pequeno companheiro – Senti saudades.
–Ele não parava de chorar, dava até dó. – Alice falou acariciando sua orelha. – Parecia o... – fez um gesto de desdém com a mão como se não fosse nada de importante.
–Mamãe não vai mais te deixar. – ele lambeu seu rosto inquieto no seu colo. – Falando em mãe, dona Renée, a senhora não me disse o motivo de não vir antes.
–Eu estava resolvendo um problema na universidade, iria vir o mais rápido possível. – levantou as mãos em sinal de paz.
–Sei e como está o papai e o Gabe?
–Estão ótimos, seu pai continua turrão e seu irmão já está trabalhando, senti falta do meu menino em casa, já não aguentava mais ficar naquela duvida de se ele estava bem ou não. – falou dramaticamente – Quando penso que tenho apenas um filho problemático aparece mais um.
–Reclama, mas não consegue ficar longe.
–Claro que não. Minhas crias tem que ficar embaixo das minhas asas, mesmo depois de crescidos.
Bella riu e sentou-se à mesa redonda deixando Red no chão.
–E você Esme como está?
–Bem melhor agora que vocês dois se acertaram. – essa era a verdade, via a ambos como filhos e ter presenciado a curta separação tinha quebrado seu coração.
–Advinha só? – Alice praticamente quicava na cadeira – Já sabemos o sexo do bebê.
–É uma menina. Vimos na última ultrassonografia. – Rosie falou animada – Ela é tão linda Bells.
–Claro que é. – estava emocionada, não sabia o que tinha dado na sua cabeça para se afastar dessa família – Vai ser nossa princesinha.
–Sim, agora falta você me dar um neto.
Bella estava bebendo um gole de suco e quando assimilou as palavras de sua mãe não pode evitar que ele descesse pelo buraco errado tendo uma crise de tosse, as meninas foram até ela batendo suavemente em suas costas, não esperava aquilo.
–Tudo bem? – perguntaram depois que se recuperou.
–Sim, foi apenas o susto. – respirou fundo ainda sentindo o peito queimar – Mãe, você realmente não tem senso de oportunidade. Eu e Edward ainda nem casamos, vamos deixar tudo isso para depois.
Renée riu sabendo que a filha estava constrangida em falar do assunto, mas cedeu, a conhecia muito bem e por mais que negasse não querer ter filhos tão cedo ela mantinha uma áurea materna e seu sexto sentido dizia que teria um neto até o fim do ano.
Quando conseguiram ficar sozinhas por algum tempo se olharam, sempre se comunicaram apenas com olhares, não era preciso muitas palavras para entender que alguma coisa estava acontecendo.
–Aconteceu alguma coisa? Você me parece estranha.
–Eu passei mal durante a viagem e tive febre.
–O que aconteceu? Você está bem agora?
–Sim, estou. – suspirou interrompendo seu falatório – Estou ótima, mas não é sobre isso que queria falar com você, é outra coisa que preciso desabafar.
–Você sabe que pode confiar em mim.
–Quando estava com febre, acho que delirei um pouco e falei alguma coisa sobre meus... Meus... Pais biológicos.
Sua voz saiu um pouco forçada na última parte, odiava citar seus pais biológicos e eram raras as vezes que utilizava esse gênero.
–O que você lembrou?
–Não cheguei a me lembrar de fato. Não sei sobre o que se tratava e nem quis entrar muito no assunto, Edward me questionou sobre isso, ele quer que eu enfrente essa parte da minha vida, que eu supere.
–Filha, já conversamos tanto sobre isso. – pegou suas mãos.
Renée odiava tanto esse assunto quanto a filha, odiava pensar que pessoas capazes de entregar uma criança a um homem louco poderiam ainda estar vivos e ter a possibilidade de voltar para suas vidas causava um nó em seu estômago.
–Eu sei. Não quero me lembrar Deles, não quero falar sobre Eles e muito menos ir atrás de algo que me faz mal. Tenho medo do que posso descobrir.
–Eu também tenho, nunca vou esquecer a imagem daquela garotinha ferida quando Charlie a colocou no carro. Você é minha filha independentemente de qualquer coisa ou pessoa e sempre vai ser. Se quiser descobrir mais sobre essa parte de sua vida não serei contra.
–Obrigada mãe. Mas eu não quero. Essa história só me traz dor e tristeza. Tudo isso pertence ao passado que é onde deve ficar.
A mulher mais velha sorriu e beijou o rosto da filha, sentia falta da sua menina, saudade dos tempos que conversavam, compartilhavam segredos e brincadeiras. Sua menininha era tímida e introvertida sempre foi um sacrifício fazê-la falar mais de duas ou três palavras e hoje estava tão aberta. Devia tudo isso a Edward, ele tinha transformado sua filha.
–Vou estar aqui quando decidir enfrentar isso porque você vai. Eu e Charlie iremos apoia-la sempre.
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Edward riu com os rapazes enquanto falavam sobre o que ele tinha perdido na semana, o clima estava ameno e não comentaram do seu estado anterior, o que agradecia enormemente. Parabenizou Emmett pelo bebê que em breve estaria entre eles e depois entrou em uma conversa com Jass sobre o trabalho, precisava se inteirar dos últimos contratos da empresa, na segunda tudo voltaria ao normal e tentaria ao menos administrar melhor seu tempo.
–Agora falta apenas você maninho. – Emmett bateu em suas costas – Vai entrar para o time dos casados, virar o homem da casa, pai de família, está pronto para esse passo?
–Acho que sim, não deve ser tão complicado.
Os meninos riram de sua ingenuidade e ele ficou sem entender.
–Cara, complicado não é, mas espera só até você fazer algo que a Bells não goste, pelo que notei da baixinha ela é fogo e vai te dar uma dor de cabeça gigantesca.
–Sei muito bem controlar minha mulher. – sorriu para eles erguendo o copo.
–Você é quem acha – Carlisle riu – É com as baixinhas que tem que tomar mais cuidado. Você pensa que pode com elas, mas elas te fazem olhar para elas de cabeça baixa enquanto te encaram de cabeça erguida.
Foi impossível não rir da lógica dele, afinal era o que tinha o casamento mais duradouro de todos ali e com uma baixinha, o tempo com os homens da família era o mais divertido, se sentia obrigado a admitir, pensava que Emm fosse o único a fazer piada de tudo e pode comprovar que ele havia herdado esse dom, infelizmente parecia ter sido passado no seu sangue.
Durante o almoço o clima não se alterou, pelo contrário, parecia uma grande família conversando ao mesmo tempo sobre assuntos diversos. Bella olhou para Edward que estava ao seu lado e sorriu, só poderia ser grata a ele por além de tê-la presenteado com seu amor lhe deu aquela família linda. Ele se virou para ela e beijou seus dedos voltando a conversar com Carlisle. Parecia que tudo estava entrando em seu eixo afinal.
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O homem estava sentado em sua mesa, ainda no escritório, cuidando do trabalho pendente, deveria aproveitar que não tinha mais ninguém no prédio para atrapalhar seus objetivos. Antes tudo estava bem, mas bastou a vadiazinha do Cullen entrar na empresa que teve que remodelar todos os seus planos. Se ela interferisse muito teria que dar um fim nela, por mais que fosse até bonita.
Escutou o telefone da mesa tocando e fez uma careta, não imaginava quem poderia ser em um domingo àquelas horas.
–Sim.
–Até que enfim consegui falar com você. – a voz da mulher parecia preocupada e aliviada.
–Eu já disse para não me ligar aqui. – rosnou sem paciência – O que aconteceu?
–Eles descobriram.
Seu corpo congelou por alguns instantes e sua voz não saia, não tinha como descobrirem o que tinha feito, era muito bom em eliminar as provas.
–Descobriram o quê?
–Sobre o lugar. Sobre a menina.
–Olha, não tem como descobrirem sobre ele. Isso é um assunto encerrado, se você bem se lembra e por sua culpa. – respirou fundo – Me explique essa história direito.
–Tem um homem aqui fazendo perguntas.
–Fala de uma vez. Que homem? Que tipo de perguntas?
–Ele disse que o seu nome é Jason Menkis, Lenkis... Algo assim, falou que é historiador e que está escrevendo um livro sobre o povo indígena e sua forma de caça na cidade, mas tem algo nele que parece saber bem mais do que isso.
–É só sobre aquele lugar?
–Não, ele pediu para um dos moradores o ajudar a encontrar vários, mas não sei... Isso não me parece ser apenas curiosidade de historiador, ele nem tem cara disso. Parece mais com aqueles soldados fortes de filme.
–Escuta bem. Se ele questionar alguma coisa sobre aquele lugar você desconversa, mente, faz qualquer coisa, mas não o deixe ir lá. Não se esqueça que se eu cair você vai junto e vou fazer questão de ir para um lugar bem melhor do que merece.
–Eu não sou burra. – falou indignada, queria avisá-lo e era tratada assim, antes não tivesse ligado pra ele.
–É bom mesmo se lembrar disso.
Desligou o telefone e se levantou da mesa, estava irritado como não se sentia a muito tempo, sem se conter pegou um dos enfeites de vidro e o jogou na parede lançando estilhaços por toda a sala.
Era claro como agua que nunca descobririam o que havia feito, não tinha testemunhas vivas, além da burra que tinha usado e ela não o entregaria, a vadia valorizava bem o seu pescoço e sabia do que ele era capaz de fazer, mas mesmo assim não conseguia parar de pensar nas suas palavras.
Se aquele homem não fosse apenas um historiador iria dar de cara na parede porque não existia nada que o ligasse a aquele lugar ou ao que aconteceu nele, se fosse preciso se livraria de cada um que se intrometesse em seu caminho, não seria a primeira vez, e, com certeza, não seria a última.
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