O Que Somos
41 Capítulo 39
Capítulo 39
O balanço calmo e suave fez seu estomago protestar, mas seu corpo parecia não querer responder nenhum estimulo, abriu os olhos e não reconheceu o lugar em que estava, colocou sua mente para funcionar.
Sua última lembrança era da sua mãe e Esme a forçando a beber um chá que a deixou tonta, depois nada!
Olhou algumas pequenas janelas redondas do seu lado e algo azul anil muito parecido com o oceano, aquilo não era possível, não passava de um sonho bizarro, acordaria na sua cama vazia e sozinha como fazia há dias. Moveu suas pernas devagar percebendo os movimentos retornarem. Se levantou ainda um pouco tonta, foi o prazo de encontrar o banheiro para colocar tudo pra fora, tudo era o sanduiche e o café de sua última refeição, não tinha forças para se mover. Ficou ali sentada paradinha esperando acordar daquele sonho bizarro.
Ao olhar para o imenso oceano a sua frente teve certeza do que estava fazendo, era sua única chance, quando ouviu o que sua tia estava planejando teve ímpetos de a chamar de louca, a chamou em seus pensamentos inúmeras vezes, mas mordeu a língua porque ela estava preocupada com os dois cabeças dura que não conseguiam decidir o que fazer, ambos tomados pelo medo, não teve muitas opções do que seguir o que ela falava e deixar que o destino fizesse o resto, se ele fosse tão bom quanto havia mostrado no passado teria uma chance para esclarecer tudo.
O barco estava pronto, seguro e abastecido. Quando Garret chegou com sua menina desacordada nos braços ficou desesperado, ela parecia muito pior do que ele, mais magra e seus olhos com círculos intensos escuros, se praguejou por ter deixado as coisas chegarem nesse ponto, ela parecia tão frágil, como um cristal que se apertasse com um pouco mais de força a quebraria.
Viajavam há mais de dez horas, no começo tinha ficado deitado com ela, apenas aproveitando o suave cheiro de morangos que desprendia dos seus cabelos, cuidou de que todo o sistema de navegação estivesse calibrado e quando estava com fome e foi preparar algo para comerem, não dava para fugir por muito tempo, desligou o fogo da canja de galinha que Esme tinha preparado e voltou para o quarto. Quase teve um infarto ao ver a cama vazia, em apenas três passos cruzou o aposento até o banheiro.
–Você está bem? – questionou ao vê-la no chão.
Bella não tinha força alguma para se mover, e, por algum motivo não ficou surpresa ao encontrar Edward parado ali olhando para ela, concordou com a cabeça e ele a ajudou escovar os dentes e a pegou no colo para deitá-la na cama.
Não sabia como sobreviveu sem o contato do corpo dele contra o dela, parecia uma eternidade desde a última vez que se viram. Ele acariciou sua face e plantou um beijo demorado em sua testa que fez lágrimas inundarem seus olhos e tratou de afasta-las, não era o momento para choro, precisava se manter forte.
–Senti tanto a sua falta pequena. – sussurrou a abraçando.
–Onde estamos? – perguntou confusa.
–No meio do oceano atlântico nesse momento.
Ele a olhou para observar todas as expressões que cruzavam seu rosto, surpresa, confusão, um pouco de raiva e por fim aceitação. Não sabia como interpretar tudo isso. Por mais que não existisse uma maneira dela fugir não queria que ela pensasse nessa hipótese.
–Minha mãe e Esme me drogaram? – sua voz saiu falsamente calma, enquanto suas mãos tremiam horrivelmente.
–Não sei o que elas fizeram, mas quando chegou aqui já estava desacordada. – tentou parecer o mais tranquilo possível – Você dormiu por mais de dez horas, estava ficando preocupado com você.
Afastou o corpo do dele se enrolando em uma bola, não podia acreditar que tinham armado para ela dessa forma. Ali não poderia fugir dele, no meio do oceano em um espaço limitado, não sabia como escaparia dessa, não sabia se queria fugir dessa.
–Está com fome? – Edward perguntou ansioso – Claro que está. Espera um pouco que vou trazer sua comida.
Ele saiu da cabine respirando fundo tentando manter suas emoções sob controle, era obvio que ela não queria estar ali, não deveria ter concordado com aquele plano, como ela poderia perdoa-lo depois de ter dito quase as mesmas coisas que o imbecil do Black? O pior é que ela o amava e a magoou apenas porque estava com ciúmes e com raiva, não tinha o que fazer, se não tentar mostrar a ela que estava arrependido. Voltou com dois pratos em uma bandeja, ela se encontrava na mesma posição.
–Quer ajuda para se sentar?
–Não precisa. – ela falou baixinho e se sentou colocando as costas na cabeceira.
Edward colocou um prato no colo dela e pegou o seu. Bella não queria comer, seu estomago doía e estava receosa de vomitar tudo novamente, deu a primeira colherada receosa e não conteve um pequeno suspiro de rendição conhecia esse tempero, estava delicioso, esvaziou o prato sem nem mesmo dar conta.
–Quem está pilotando o barco? – sua voz parecia mais firme depois de comer.
–Eu sou o capitão.
Ela não pode segurar um pequeno sorriso de surpresa, Edward Cullen era um homem de mil facetas com certeza, ele retribuiu o sorriso se inclinando para pegar o prato da sua mão e a acariciando suavemente antes de plantar um beijo em sua bochecha. Bella ofegou e sentiu seu corpo se aquecer, era um traidor que sempre se rendia a apenas ao som da sua voz rouca.
–Para onde estamos indo? – questionou se afastando dele.
–Sei não. – brincou se levantando – Qualquer lugar com terra para reabastecer o veleiro.
–Não temos um lugar certo para ir? – parecia apavorada com a ideia – Uma rota?
Ele riu e saiu da cabine não a respondendo, deixou a louça dentro da pequena pia, ouviu leves passos atrás de si e começou a lavar os pratos, sentia que ela precisava de espaço para colocar suas ideias em ordem e ele também precisava pensar em uma forma eficiente de se reaproximar da sua menina.
Bella estava curiosa com aquele lugar, assim que Edward a deixou sem uma resposta resolveu pelo menos conhecer onde estava, no caminho encontrou mais três cabines grandes, dois banheiros no fim do corredor e uma pequena sala de tv. Voltou e deu de cara com a cozinha anexada com uma sala gigante e muito bem decorada, não tinha percebido antes, mas seu... Edward. Estava sem camisa, apenas com uma calça de linho branca e descalço lavando as louças de costas para ela, suspirou e forçou sua mente a parar de babar nele, olhou ao redor apreciando a ampla cozinha iluminada por uma claraboia no teto, mordeu o lábio e subiu a escada em caracol.
A visão era linda, todo aquele azul por todo lado com as luzes do sol refletindo na superfície, foi até o parapeito de madeira apreciando o cheiro salgado que desprendia do mar, o vento bagunçando seus cabelos, se inclinou um pouco para ver a água embaixo do barco, mas antes que chegasse a encostar o peito na madeira seu corpo foi puxado para trás.
–O que pensa estar fazendo? – a voz irritada de Edward a fez piscar confusa algumas vezes antes de retomar seus pensamentos.
–Queria ver a água embaixo do barco.
–Não se incline dessa forma aí Isabella. – ele a segurou pelos braços, apavorado com o que poderia ter acontecido – O motor está ligado, se você caísse ele iria te cortar ao meio.
–Desculpe – sussurrou mordendo o lábio e afastando seu olhar do dele.
Ele parecia cansado e também tinha olheiras escuras revelando os dias insones e parecia mais magro, Bella passou a mãos pelo peito dele confirmando isso, toda aquela distancia não tinha apenas a afetado. Por um momento não pode deixar de se questionar o motivo de terem ficado tanto tempo longe um do outro, foram muitas as vezes que confessaram não poder sobreviver sozinhos, o que os mantinham de pé era o amor e não sabia como administrar toda a falta que sentia dele, mas as lembranças de seu último encontro e as palavras duras e ofensivas dele a fizeram recuar um passo saindo do seu abraço.
–Isso não vai mais acontecer, prometo.
Edward não sabia se ela se referia ao abraço ou a aproximação demasiada na popa, balançou a cabeça e cruzou os braços, precisavam resolver aquela situação, não poderiam continuar do jeito em que estavam.
–Bella, precisamos conversar. – falou suavemente.
–Até parece que tenho outra opção. – deu de ombros resignada.
Ele sorriu de lado a pegando pela mão indo até a proa do veleiro e a sentou nos bancos macios brancos, tirou a franja do seu cabelo que cobria os olhos verdes e acariciou seu rosto, estava morrendo longe dela e ver como ela estava se auto destruindo acabava com ele.
–Estamos sozinhos no barco? – Bella quebrou o silêncio constrangedor.
–Sim, mas não se preocupe que ele é rastreado por satélite, então se qualquer coisa acontecer vão saber que estamos com problemas e ele também consegue navegar sozinho com os motores e o GPS, mas temos que hastear as velas para economizar combustível. – explicou da melhor forma possível.
–Para onde vamos?
–Irlanda para reabastecermos, depois é surpresa – apertou a mão que ainda estava dentro da sua. – Você está diferente.
–Me sinto diferente. – deu de ombros não sabendo como interpretar seu comentário. – Você quer conversar sobre a forma que eu mudei?
–Não. Queria te pedir desculpas mais uma vez... Não agi certo ao ocultar meus atos de você e aprendi nesses dias que não posso fazer nada por você sem que tenha o seu consentimento e opinião. Eu me apaixonei por aquela menina de olhar compassivo e despretensioso que me perdoou tão fácil mesmo sendo um idiota... Mais e mais... Um erro após o outro...
“E você se tornou a minha razão de viver, nos comportamos mal, fomos idiotas e eu não soube o que fazer quando você não concordou comigo, pensei que era o certo, mas não foi bem assim... Hoje entendo mais claramente e espero que você ainda possa ver em mim a pessoa que queira dividir a sua vida. Não quero e nunca quis que mudasse nada, prometo que vou tentar controlar o meu ciúme, nosso tempo longe um do outro me fez ver isso.”
Uma lágrima rolou por seu rosto e Bella a secou também com os olhos lacrimejantes, ele a tinha sequestrado para se explicar, no tempo que passaram separados, nunca o esqueceu, não conseguiria, um pedaço de sua alma pertencia a ele e era a maior parte. Suspirou rendida.
–Eu também fui uma idiota – mordeu o lábio e desviou o olhar – Você fez aquilo para me proteger e não deveria ter ido visitar Jacob pelas suas costas, mas quando a noite você não quis me dizer o que tinha acontecido com ele eu senti que você estava me escondendo alguma coisa e não gosto quando me tratam como se eu fosse uma criança ou feita de vidro, posso me cuidar sozinha. Sou tão responsável quanto você pelo ponto em que chegamos.
–Não foi não pequena. Eu coloquei os gravetos e ascendi o fogo. – sorriu sem vontade, ainda tinha um segredo importante que não poderia contar, não ainda. – Só não quero que em cada discussão que tivermos você fuja de mim.
–Que ditado horrível. – riu baixinho se aproximando dele. – Não quero mais brigar Edward. Não quero mais passar por isso, eu só saí porque queria colocar minha mente em ordem depois de tudo aquilo, me sentia sufocada e pressionada de todos os lados e mesmo sem querer acabamos nos magoando.
–Eu sei... Desculpa-me pelo que disse. Te conheço melhor que isso e ainda assim fui um cretino com você, e, nunca tive motivos. Se você soubesse o quanto me arrependo e sofro só de pensar nesses dias longe de você.
–Lembra o que eu te disse na manhã em que começamos a namorar? – ela o questionou suavemente.
– “Quando o passado passou é melhor deixar assim”. – recitou as palavras.
–Exatamente, é melhor assim, deixar tudo para trás e aprender com isso. Eu te amo Edward. – acariciou seu rosto torturado – Nunca deixei de te amar e isso não vai mudar, só me afastei para tentar clarear minha mente das nossas atitudes, mas foi um erro porque não conseguimos ficar sem o outro e quase nos destruímos.
Edward não poderia mais suportar a distância entre eles, segurou o rosto dela nas mãos atacando seus lábios, por alguns segundos Bella ficou surpresa com sua atitude, mas agarrou seus cabelos retribuindo o beijo com igual paixão, sua mente flutuava com a intensidade dos seus carinhos, como tinha sentido falta deste homem, não conseguia sobreviver sem o amor de sua vida.
Edward colou o corpo ao dela caindo no sofá a prensando enquanto suas mãos se moviam pelo pequeno corpo, seus dedos avaliando como ela estava mais magra. Afastou de seus lábios para olhá-la. Bella estava com os lábios inchados, vermelha e ofegante, desceu as mãos da nuca dele o acariciando os ombros, o peito, estomago e parou na borda da calça de linho branca, ele segurou a mão errante e a levou até os lábios.
–Você me perdoa? – queria confirmar.
–Só se me desculpar também.
Sorriu verdadeiramente pela primeira vez em mais de 21 dias e a beijou novamente, mas dessa vez suave e calmo sugando seus lábios um de cada vez brincando com ela a fazendo sorrir e apertar sua bunda.
–Hey, essa mão boba aí?
Bella riu constrangida se agarrando mais a ele, olhou o céu claro acima deles e nunca se sentiu mais parte de um lugar como agora, o abraçou roçando o rosto na barba dele, simplesmente adorava a barba em contato com o seu corpo.
–O que está pensando? – ele questionou apreciando o cheiro bom que desprendia dela.
–Em como senti sua falta.
Ele queria dizer que a culpa era dela, porque afinal ela tinha decidido partir, mas a culpa pertencia a apenas ele mesmo e aceitaria, que pelo menos agora, ela estava ali com ele novamente nos seus braços, trocou suas posições e a colocou em cima do seu peito a apertando mais forte, ela riu sem fôlego e o beliscou para se soltar.
–Você pode mesmo pilotar essa coisa?
–Claro que sim. Não acredita em mim?
–É obvio que acredito... Se você diz que sabe.
–Não acredita na minha palavra Srta. Swan? Vou te provar. — se sentou a jogando nos ombros e caminhando até a cabine de comando no piso superior.
–Edward. Me solta. – gritou rindo.
–Não, você não acredita que eu saiba navegar, então terei que mostrar isso para você marujo.
Ele se sentou na grande cadeira e a puxou para o seu colo, rodou a cadeira para olhar o grande painel de controle, havia tantos botões que sua cabeça deu um nó, ele começou a mostrar os principais e suas funcionalidades, aquilo era como um grande computador e cheio de coisas novas, Edward sorriu com a expressão de curiosidade e concentração que ela fazia a cada explicação que dava.
–Mas isso tudo está no automático – ele tornou a rodar a cadeira mostrando a grande janela de vidro que era possível ver toda a frente e lados, estava tão distraída que mal se deu conta de quando ele colocou suas mãos junto com as dele em cima do enorme timão de madeira. – Isso aqui controla tudo, olhe para mim o tempo todo e quando mandar segure firme e aperte esse botão vermelho, não mude o curso.
Se levantou da cadeira a deixando atônita e desceu até o grande mastro central desatando os nós que prendiam a vela principal e a assimétrica, amarrou as últimas cordas e gritou para que ela apertasse o botão. Assim que sua mão deixou o botão vermelho Bella sentiu um tranco e percebeu que o veleiro estava em maior velocidade, era incrível ver como o vento esticava ao máximo o tecido azul os levando mais rápido ao horizonte.
–E então, o que acha? – a voz risonha de Edward a fez sorrir.
–Isso é muito bom.
Ele riu e voltou a se sentar e a colocou novamente em seu colo passando suas mãos pelas dela, pela primeira vez notou que ela ainda usava o anel de noivado, como ela tinha sido levada desacordada para o barco e o pequeno bronzeado em torno de sua mão sabia que ela nunca o tinha tirado e isso o fez mais radiante do que estava, beijou sua bochecha e respirou fundo em contentamento, afinal, tudo estava retornando ao lugar que não deveria ter saído.
Havia esperança afinal de tudo.
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