Notas iniciais
Este primeiro capítulo ficou excepcionalmente longo. Pensei em cortar, mas achei que podia acabar perdendo muito se fizesse isso.
Enfim, espero que gostem.

Lina Boyd tinha sido casada com Roger durante cinco anos quando a criança nasceu. Era uma linda menina ruiva e já cheia de sardas, com enormes olhos verdes que pareciam olhar para dentro da alma das pessoas. Claro que ela não estava realmente olhando, porque era apenas um bebê de um ano que chorava e impedia o casal de ter noites de sono completas. Ainda assim, formavam uma família feliz. Os vizinhos, os Allen, tinham um filho um dia mais velho que a pequena Elise, de forma que as duas mães vivam juntas, conversando, trocando experiências ou apenas fazendo companhia uma para a outra. Pouco a pouco, aquilo se tornara uma amizade intensa entre as duas mulheres.

Naquela mesma tarde, uma tarde de dia das bruxas, as duas estavam na cozinha fazendo doces para dar às crianças vestidas de bruxas, vampiros e fantasmas para buscar doces. Mal sabiam elas que suas fantasias estavam completamente erradas e em nada condiziam com o que vampiros, bruxas e fantasmas se pareciam na realidade. Mas Lina já não podia fazer nada, ela não era mais parte daquele mundo. Tinha se refugiado no mundo trouxa depois que os Longbottom tinham sido torturados até enlouquecerem.

— Sabem Lina, o dia das bruxas é o meu dia preferido do ano. Tudo fica tão escuro e misterioso, e as crianças ficam tão animadas… às vezes dá até para acreditar que a magia existe mesmo. Não acha? – Perguntou Rachel, a vizinha.

— Como? Ah, sim. É muito bonito. – Respondeu Lina, esticando os olhos para checar se as crianças estavam bem. Elise e Thomas engatinhavam para lá e para cá, perseguindo um ao outro.

Quando sozinhos, os pequenos tinham personalidades completamente diferentes. Elise era curiosa, interativa e barulhenta, olhando para todos os lugares e percebendo cada detalhe, tocando em tudo o tempo todo. Isso preocupava Lina, já que a curiosidade da filha poderia facilmente lhe render uma semana no hospital esperando que os médicos lhe tirassem uma chave da garganta, ou algo do tipo. Ou pior, ela poderia acidentalmente achar sua varinha.

Thomas era quieto, centrado, podia passar horas olhando para um só lugar. Tão silencioso que parecia não estar ali. Sua aparência era completamente diferente da de Elise, com seus olhos profundamente negros, pele escura e cabelos cacheados. Talvez a única coisa que tivessem em comum fosse o fato de cada um ter puxado a exata aparência da respectiva mãe, quase como se o pai não tivesse influenciado na genética.

— Imagine, Lina, daqui a alguns anos, nossos pequenos saindo de mãos dadas pela rua para pedir docinhos.

Lina riu. Ela podia perfeitamente imaginar aquela cena. Os dois vestidos de bruxos, com cestinhas em forma de abóboras nas mãos, batendo de porta em porta e recebendo balas, chicletes, bolos e pipoca doce ao oferecer a escolha "doces ou travessuras?".

— Nós vamos continuar aqui, fazendo doces para as outras crianças. – Agora Lina olhava para fora, para a luz de fim de tarde que começava a finalmente desaparecer e dar lugar para o céu noturno. – Daqui a pouco vão começar a bater na porta. É melhor botarmos esse bolo no forno logo.

— Oh, deuses, é tarde mesmo. Vou por o prato de balas lá embaixo.

— Tenho que preparar algo para o jantar, antes que Roger chegue do trabalho. Ele vai estar cansado hoje. – Sussurrou a ruiva, mais para si mesma que para a amiga, que já desaparecera nas escadas. Usualmente, o marido era quem cozinhava, mas desde que Lina perdera seu emprego após o fim da licença maternidade, ela assumira o cargo de cuidar da cozinha. Às vezes ela desejava poder simplesmente fazer alguns movimentos com a varinha e fazer seu trabalho. Mas qualquer sinal de mágica vindo daquela rua a delataria, traria Aquele-Que-Não-Deve-Ser-Nomeado direto para sua porta.

— Nossa, este ano todos estão se dedicando muito. Você deveria ir olhar lá fora. Homens e mulheres vestidos de todos os jeitos, parece até que vieram de outro mundo! Se não soubesse, até acharia que são bruxos de verdade.

— Como disse? – Lina tentou forçar um sorriso, mas seu coração estava batendo nas orelhas. Bruxos e bruxas na rua, andando livremente? Aquilo não podia ser bom. Se os Comensais da Morte estivessem ali, não haveria tempo de fugir com Rachel e as crianças. Sua boca ficou seca com o pensamento da marca negra flutuando sobre sua casa. Como a tinham achado? Ela desertara, fugira para o mundo trouxa e escondera sua varinha. Nunca mais usara mágica.

Foi até a janela de seu quarto e viu homens e mulheres de trajes coloridos, apertando as mãos uns dos outros com alegria e festejando. Não era capaz de ouvir o que diziam uns aos outros. Não os reconhecia também, mas não seria difícil que tivessem se disfarçado com a poção polissuco ou algo do gênero. A ruiva pensava em mil desculpas que podia dar para fazer Rachel se esconder com Elise e Thomas, mas todas elas envolviam contar sobre o mundo da magia e ela não faria isso a menos que não lhe restassem opções.

Lina se manteve perto da janela, dando desculpas atrás de desculpas para que Rachel cuidasse dos doces enquanto ela secretamente buscava sua varinha. Seu coração pulava dentro do peito, quase estourando. Se o Lorde das Trevas aparecesse em sua casa, realmente não haveria nada a ser feito a não ser morrer para que a amiga e as crianças fugissem. O que seria de Roger? O que seria de Elise? Crescer sem saber que era bruxa.

A varinha, assim como algumas outras pequenas lembranças de sua realidade, estava enterrada sob uma tábua solta embaixo da cama, onde Roger jamais procuraria. Havia ali uma pena e um pergaminho. Com as mãos tremendo, pegou o pequeno objeto de madeira. Salgueiro. Um único fio da cauda de um unicórnio sendo seu núcleo. Treze centímetros de comprimento. Leve, polida por baixo da camada de poeira. Lina percebeu como tinha sentido saudade de segurá-la antes de enfiar o objeto dentro da manga, prendendo-a com um elástico para que não caísse. Dentro de sua cabeça, recitou todos os feitiços que conhecia e poderia usar para segurar o inimigo por algum tempo. Se apenas conseguisse desarmá-lo… Que piada, desarmar o Você-Sabe-Quem em um duelo, quando não duelava há anos.

A porta se abriu e o coração gelou por um segundo, antes que reconhecesse os passos acelerados do marido subindo as escadas. Lembrou que não tinha feito o jantar. Não importava. Talvez eles nunca mais jantassem. Uma lágrima rolou de um dos olhos verdes, iguais aos da filha.

— Lina, você está aí? Oh, Rachel! – Ela ouviu Roger falando no outro cômodo. Ouviu a breve conversa dos dois com um nó na garganta. Depois os passos do marido se aproximaram do quarto. – O que houve, querida?

A mulher não soube como responder, apenas abraçou o marido com força.

— Seu coração está acelerado, o que aconteceu? – Perguntou, tocando os cabelos cacheados da esposa.

— Eu apenas… Apenas esqueci de fazer o jantar. É isso. – Jogou a desculpa no ar.

— Oh, querida, isso não é um problema. Sabia que estaria muito ocupada com os doces e as crianças, então trouxe Kebab do restaurante da esquina. Vê? – Levantou a sacola, cuja comida que guardava tinha um cheiro inimaginavelmente bom. Lina sorriu, decidindo aproveitar aquela última noite. Não havia muito o que fazer, de qualquer maneira.

Convidaram Rachel para jantar e os três se sentaram à mesa para comer. As duas crianças ainda se ocupavam em brincar. A pequena agora se apoiava no sofá, tentando ficar de pé, os finos fios de cabelo tremulando com seu desequilíbrio. Thomas estava sentado, assistindo a amiga cair repetidamente, tendo cada queda amortecida pela fralda. Ele ainda não andava, mas já soltava os primeiros sons coerentes. As brincadeiras das crianças costumavam ser assim, com um assistindo o outro. Mas às vezes se sentavam em silêncio, um de frente para o outro, como se estivessem conversando.

— São feitos um para o outro, você não acha, Lina? – Rachel também sorria observando os bebês.

Depois de jantar e arrumar a louça, os três passaram mais algum tempo juntos na sala, ouvindo música e de quando em quando descendo para levar doces para crianças que batiam na porta. Lina tomava o cuidado de descer todas as vezes, caso recebessem a visita que temia.

Mas não receberam e aos poucos ela foi relaxando, deixando-se levar pela conversa e pelos sons engraçados que Elise fazia com a boca quando tentava imitar as poucas palavras que Thomas produzia. Mesmo com pouca idade, era muito claro que o menino era o cérebro da dupla, enquanto ela carregava um espírito aventureiro. Às vezes parecia que a menina protegia o amigo, em especial quando recebiam visitas de estranhos. Ela se sentava à frente dele. Claro que era um pensamento muito pouco coerente, mas era o que parecia.

Já eram onze horas da noite quando Rachel pegou seu filho adormecido no colo e foi para o apartamento ao lado, não se importando em usar a porta da frente. Depois de terem ganhado intimidade, os amigos entravam na casa um do outro pela porta de vidro aos fundos da casa, passando pela área comum do prédio.

Logo Elise estava no berço e o casal estava na cama, dormindo. Roger dormia como uma pedra, Lina se revirava na cama, tendo um sonho terrível com um forte clarão verde e uma explosão em uma casa desconhecida.

Acordou e procurou novamente a varinha, que ela cuidadosamente escondera na gaveta da mesinha de cabeceira enquanto o marido tomava banho antes de ir para cama. Levantou-se e colocou um robe por cima da camisola branca. Foi ao quarto de Elise e pegou a pequena filha no colo, tomando cuidado para não acordá-la. Parou diante da janela e abriu as cortinas para olhar lá fora. Pela terceira o quarta vez no dia, seu coração pareceu despencar dentro do peito. Uma figura encapuzada estava parada à porta. Ele ergueu uma mão em direção à maçaneta e pareceu testá-la. Depois, tirou uma varinha do bolso. Foi o que bastou para que Lina parasse de olhar e começasse a agir.

Correu para o quarto onde o marido dormia e o acordou, sem se importar em fazê-lo com calma.

— Mas o quê…? – Ele perguntou, sonolento.

— Não importa mais. Pegue Elise, Vá para o apartamento da Rachel buscar ela e Thomas. De lá, vá para a garagem e pegue o carro. Vá para Glasgow, eu vou encontrar vocês depois. – Mentiu. – Anda logo, não faça perguntas, não precisa levar nada. Aqui, não esqueça o dinheiro e as chaves do carro. Não volte para essa casa. Não chame ninguém.

Vendo o horror nos olho da esposa, Roger fez o que ela mandava apesar da dor insuportável no coração. Talvez a maior característica do casamento dos dois fosse a confiança cega que tinham um no outro. Ele correu pela varanda e entrou no apartamento de Rachel com a chave extra que tinham em casa. Logo Lina ouviu o carro sair da garagem e disparar pela rua. Bem quando passos subiam pela escada. Puxou a varinha e reuniu toda a pouca coragem que lhe restava.

— Expelliarmus! – Gritou com todas as forças, apontando a varinha para a figura encapuzada que se aproximava. A varinha do desconhecido voou para longe e Lina continuou a ameaçá-lo.

O homem tirou o capuz. Lina suspirou, aliviada.

O homem era Sirius Black.

— Meu deus, Sirius… – Seu coração ainda saltava quando ela abaixou a varinha. Mas depois a levantou novamente. – Como o chamávamos na escola.

— Almofadinhas. Qual era o seu maior sonho quando estava em Hogwarts?

— Me tornar professora de poções.

A tensão se dissolveu no ar quando os dois amigos se abraçaram. Mas a felicidade também foi momentânea.

— Lina, precisamos conversar.

O olhar de Sirius era tão dolorido quanto o dela estivera momentos antes.

— Lina, Tiago e Lílian estão mortos. Você-Sabe-Quem… entrou na casa. Rabicho… Rabicho era quem sabia a localização… Ele os denunciou para o Lorde das Trevas, Lina.

A ruiva foi andando para a sala, como se pisasse em um chão que não estava lá. Se sentou no sofá, calada, olhando para o tapete da sala. Sirius a seguiu e sentou-se ao lado dela. O outro olhava a casa, sentindo algo se revirar dolorosamente dentro de seu coração. Nõa demorou para que explodisse.

— Pelas barbas de Merlin, Lina, você nem sequer olhou pela janela hoje? O que tem feito desde que sumiu? Fechado os olhos para o nosso mundo? Se escondido como uma covarde, uma bruxa como você… Você… – Sirius parecia estar verdadeiramente fora de si. Lina chorava descontroladamente, incerta se por causa das palavras de Sirius ou pela morte dos amigos. – Você nos abandonou, Lina! Me abandonou! Eles podiam estar vivos se não fosse por você. – Sirius tremia, completamente fora de controle. Mesmo entre as lágrimas, a mulher pode perceber que não era aquilo que ele estava realmente pensando.

— Sirius… Se controle. Sente-se, vou fazer um chá.

— Não. Preciso ser rápido. Estarão atrás de mim, ninguém vai acreditar que não fui eu. Mas Lina, não fui eu. Preciso que acredite em mim. – Agora ele se ajoelhava diante dela e apertava sua mão entre as dele. Os olhos cheios de lágrimas eram os de um homem louco. A ruiva, ainda chorando, levou uma das mãos ao rosto do animago.

— Eu acredito.

Em um momento de descontrole, ele a beijou, percebendo o quanto quisera fazer aquilo nos últimos cinco anos. Podia sentir que ela queria também.

— Sirius… Não. – Ela se afastou. – O que aconteceu aconteceu. Não existe mais nenhum jeito de voltar atrás.

Houve um momento de silêncio extremamente desconfortável. Por fim, Sirius decidiu que não seria razoável dizer o que ele realmente pensava sobre aquele tal casamento. Sobre o fato de que, se ela não tivesse fugido, ele deveria ser o homem dormindo ao seu lado na cama.

— Mas o menino sobreviveu. – Disse depois de pigarrear, quebrando o silêncio.

— Menino?

— O pequeno Harry Potter. Não é muito mais novo que a sua filha, pelo que vi agora pela janela.

— Sirius… o que está dizendo é que… Você-Sabe-Quem não conseguiu matar um garotinho?

— Mais do que isso. Ele desapareceu. Perdeu o poder. Todos estão comemorando… O garoto já tem um apelido. Harry Potter, o menino que sobreviveu.

— Que será feito dele?

— Dumbledore mandou que Hagrid o buscasse. Eu emprestei minha moto. Vai morar com os tios, pela parte de Lílian.

— Sírius… você sabe como são aqueles trouxas… você sabe como odiavam a Lílian… Esse garotinho vai sofrer. Não vai saber quem é… Eu… Eu poderia criá-lo. Vou mandar uma coruja a Dumbledore agora mesmo!

— Lina. – Sirius a segurou no sofá. – Não questione as decisões de Alvo sobre este bebê. Deixe meu afilhado fora deste mundo por agora. Deixe que ele cresça longe de um mundo onde todos o conhecem. Vai confundir sua cabeça. Talvez se torne um menino arrogante, ruim. Deixe que ele cresça sem saber que seus pais foram brutalmente assassinados, traídos por um amigo. – Parou de falar e respirou fundo. – Agora eu preciso ir.

A ruiva se levantou e foi com ele para abrir a porta.

Antes de sair, Sirius a beijou mais uma vez. Sem qualquer resistência por parte dela. Ambos sabiam muito bem que aquilo era um adeus.

O bruxo foi até o outro lado da rua, se certificou de que ninguém estava olhando, e desaparatou.

Notas finais
E aí, o que acharam? Surpresos? Querendo me matar?
Contem aí nos comentários se alguém curte a ideia do Sirius ter um romance mal resolvido.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.