O Que Ele Mudou Na Minha Vida Desde Então
19 Capítulo XIX por Antonio F. Carriedo
Notas iniciais
Depois daquele dia, Lovino começou a ser menos rude... E pensar que eu estava com medo de que ele se afastasse de mim pela ousadia. Passamos a passar (?) mais tempo ainda juntos, não só na casa dele, mas também na minha, em lanchonetes, cinema, parques... Qualquer coisa me servia de desculpa pra convidá-lo. Trocávamos mais mensagens “desnecessárias” – antes ele só mandava o necessário e ponto, agora mantinha mais a conversa, de vez em nunca puxava assunto mas eu entendo que ele esteja se esforçando. Mas apesar de tudo, depois daquele dia, nada mais “extra-amigável” aconteceu. Claro que eu queria, mas queria que ele quisesse também, então eu esperaria.
– Quê que é esse símbolo esquisito aqui? – uma frase bem comum aos nossos diálogos dita por mim enquanto estudávamos, dessa vez na casa dele.
– Significa micro... Eu já te falei 1.000 vezes, é pra pegar esse valor aqui e transformar pra Coulomb – eu não disse que ele estava 100% dócil também.
– Ai Lovi, isso é porque eu estou cansado já, podemos fazer um intervalo?
– ... Tudo bem. Quer lanchar?
– Hummm... Você que vai fazer?
– O que você está insinuando?
– Nada, ué, haha. Só estou com medo de ser envenenado ou algo assim.
– Se eu quisesse te matar, faria de uma forma bem torturante, você merece – ele falou tudo num tom muito sério, mas quando chegou em ‘você merece’ ele vacilou e deu uma risada.
– E qual foi o meu crime?
– Bom, fora você ser o boboca-mor? – eu achei muito fofo ele me chamar só de “boboca” porque ninguém é mais boca suja que ele – Agora pouco você me chamou de Lovi de novo.
– Acho que você vai ter que se acostumar, é mais forte que eu, mas acho que vou adicionar mais um crime a essa lista – estávamos sentados no chão usando a cama como mesa, só que Lovi estava encurralado entra a cama, a cômoda, a parede e eu. Dito isso, comecei a me aproximar e vi seu meio sorriso se desmanchar para uma expressão séria, quase medrosa, encostando-se cada vez mais na parede pra fugir de mim.
– É? Q-qual seria?
– Eu vou – chegando mais perto – roubar – mais perto – de você – mais um pouco – um bei... – já encostando, rosto no rosto – rute.
Me afastei rápido e voltei ao “normal”.
– Digo, a gente poderia lanchar Beirute.
Eu sei o que eu poderia ter feito. Na verdade, essa era minha intenção inicial, mas eu não sei do que ele tem medo, não quero que seja de mim. Sem contar que é legal provocar ele, mas dessa vez eu esperaria ele se manifestar. Lovi ainda ficou alguns segundos estático como ele estava antes, me levantei e ofereci minha mão como ajuda para que ele se levantasse também. Aí ele saiu do transe com uma expressão de desgosto e usou minha mão para me puxar, assim me derrubando. Claro que eu poderia facilmente me segurar, mas deixei pra saber o que ele queria fazer.
Tá, eu caí, ele me virou e subiu em cima de mim. Só consegui pensar “eita ferro, é agora”. Só que ele sentou no único lugar que não deveria, uou, rápido demais e eu tinha medo de que “Tonhão” – como o Francis e Gilbert nomearam – se manifestasse e assustasse Lovi. Ainda mais porque, ele se mexeu demais para alcançar minha mãos e segurá-las em cima da minha cabeça.
– “Rá, agora você está preso”, Antonio – aaawn, ele lembrou do dia no jardim...
– Ok, você venceu, LoviNOOOO, agora levanta – você não entende meu desespero porque o pior estava começando a acontecer. Quer dizer, é muito bom a pessoa que tu gosta em cima de você, roçando a bunda no seu amiguinho, mas não quando ela faz isso na inocência e se notar que seu amiguinho tá gostando pode o afastar de vez.
– Não, você sabe o que significa preso, Tony? – fiquei momentaneamente emocionado mas tinha preocupações maiores agora.
– É sério, Lovi, eu me rendo, mas levanta.
– Tá doendo?
– S-sí... Isso... é.
– Hum... Ok. – você sabe que ele não levantou, né? Ele começou a... a... quicar!
– Já chega – segurei-o e me levantei assim mesmo. Talvez com medo de cair, fechou os braços e as pernas ao meu redor com toda sua força, haha, mas ainda estava “sofrendo”, então joguei ele na cama, mas como estava muito colado eu fui junto, ficando em cima dele. Apoiei com os braços pra não cair em cima dele, agora acho que tinha caído a ficha, sentido “algo”. Mas ele não surtou nem se afastou, então eu resolvi agir. Isso mesmo, me afastei antes que perdesse o controle e fui direto pra porta.
– Vamos? – levou alguns segundos para ele se recompor e tomar a frente direto para a cozinha. Lá estavam Ludwig e Feliciano, então fizemos o tal Beirute e comemos todos juntos, conversando sobre a vida e tudo mais. Eu não esperava que um professor, filho de outro professor, namorasse um aluno, filho do diretor que também é professor... Talvez tivesse muita vigilância, até porque o professor Erik – que é o pai do Ludwig – namora com o Otho, então eles devem “controlar” muito... Ou não, haha. Mas deve ser difícil pra ele, porque o Otho não facilita nem pra mim que sou da idade do Lovino.
Até que deu minha hora, depois de Lovi lavar a louça e eu ir secando, ele me acompanhou até a porta e nossa despedida foi um tanto embaraçosa. Ficamos alguns minutos lá fora só falando coisas do tipo “o tempo tá nublado né”. Aí eu entendi que na verdade era culpa minha esse silencio constrangedor estar se prolongando demais. Então resolvi ir embora logo.
– Então, to indo antes que comece a chover, ainda tenho que buscar meu carro na oficina e... Bom, tchau. – e me virei para a rua, pronto pra começar a andar mas Lovi me puxou pela barra da camisa, então me virei para ele de novo, só para ver a coisa mais fofa da face da Terra. Ele estava todo vermelho, olhando para um ponto fixo no chão, com a boca meio aberta emitindo sons desconexos como que parar começar uma frase mas não sabendo como e sempre mudando de ideia. Digamos que eu não aguentei, sorri e voltei, bem perto, segurei seu queixo e o levantei para que me encarasse. Com uma careta, ele fechou os olhos e esperou que eu fizesse algo. E eu fiz, dei-lhe um beijo. Na testa, e voltei para o meu caminho.
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