O Que Causa o Terror

1 O Que Causa o Terror


O Que Causa o Terror

As mais antigas histórias de terror provêm das lendas folclóricas e crenças de muitos povos que, com o passar dos anos, evoluíram e deram origem a seres assombrosos como os vampiros, monstros, gêmeos malignos — os chamados doppelgängers —, zumbis, fantasmas e até mesmo alienígenas. Encontraram até mesmo um espaço tomado por trevas dentro da própria mente e alma humanas, transformando os assombrados em assombradores, os anjos em demônios. Demonstraram isso incrivelmente R. L. Stevenson, em O médico e o monstro, e Mary Shelley, em Frankenstein — se é que podemos considerar o monstro de Viktor um ser humano, mas já que fora construído de membros humanos, pode-se considerá-lo dessa maneira. Todas as criaturas clássicas do terror parecem possuir relação com a escuridão de alguma maneira. Os vampiros, lobisomens, zumbis e até a própria consciência parecem encontrar nas sombras o cenário ideal para suas atividades obscuras, sejam elas sombras literais — a escuridão da noite, de um túmulo ou de um castelo medieval — ou as sombras que se manifestam em nossa psique.

Mesmo nos dias de hoje, o horror ainda permanece vivo não apenas nas histórias de filmes, livros e videogames, mas também na própria humanidade com histórias de casas mal-assombradas, rádios fantasmas e creepypastas, que é um nome não tão bonito que a juventude deu a supostos “jogos mal-assombrados”. Mas ele é ainda igualmente vivo na própria pele, com os próprios sentidos, tête-à-tête com a escuridão e com o anormal.

O anormal — aquela era a essência do terror para Gustav Schriften: aquilo que foge aos padrões da humanidade, muitas vezes passando pelo bizarro e, em quase todas elas, atingindo a sordidez. Em todas as obras que o talentoso escritor de terror lera ou assistira, todas elas eram marcadas pelo anormal. Drácula, Carmilla e Frankenstein, com seres que fugiam à humanidade comum; O médico e o monstro, com a ciência que fugia à ciência comum; os contos de Edgar Allan Poe e H. P. Lovecraft e até mesmo os romances de Stephen King, todos eles com eventos que iam de encontro ao usual. Todos eles, por mais originais e diferentes na maneira de serem narrados, tinham algo em comum: a presença do sobrenatural, daquilo que fugia às leis da natureza.

Era com aquela ideia em mente que escrevia sua nova obra ao mesmo tempo em que torcia para ganhar mais uma adaptação no cinema repleta de atores hollywoodianos, uma trilha sonora de fazer arrepiar os cabelos e muitos sustos. Apesar de que ele bem sabia que o susto não consistia no medo real; é muito fácil dar um susto, mas muito difícil causar o verdadeiro medo. Poucos escritores conseguiam fazê-lo bem, e, sem querer se gabar, Gustav sabia que era um deles. Seus livros eram best-sellers não porque se apegavam a uma receita de sucesso, mas porque eram verdadeiramente aterradores, lembrando os grandes clássicos do terror. Contudo, tinha de admitir: as adaptações para o cinema ajudaram muito, é claro.

Porém, seu horror ainda não era o suficiente para gravá-lo como um dos maiores e mais memoráveis escritores do gênero. Precisava de um toque a mais, um enredo um pouco mais chamativo, uma criatura um pouco mais original, um protagonista um pouco mais cativante. Se tivesse uma cena tão memorável quanto à do monstro criado por Viktor Frankenstein tomando vida e acordando; ou uma criatura tão assombrosa e ainda assim fascinante como os vampiros de Bram Stoker ou como o palhaço de It; ou se tivesse um personagem enraizado até mesmo na linguagem popular, como o Dr. Jekyll e o Sr. Hyde, sua contraparte maléfica; se tivesse tudo aquilo, seria visto como um dos maiores escritores de terror de todos os tempos, figurando ao lado de Gaston Leroux, Henry James, Edgar Allan Poe, Charles Baudelaire, Oscar Wilde e muitos outros que foram marcados na história pelos seus escritos horrendos.

Naquela madrugada, no entanto, aquilo ainda parecia ser um sonho inatingível, principalmente com tantos problemas em seu novo romance. Já estava no capítulo seis e, além de não ter nenhuma ideia para os capítulos posteriores, também tinha percebido furos de enredo em cenas anteriores. Naquela noite regada a café e energético tinha se dedicado a reelaborar as cenas e, quem sabe, pensar no que sucederia do capítulo seis em diante. Para embalar a jornada de trabalho e tentar inspirá-lo, ouvia Carnage Visors do The Cure, uma música de dar arrepios em qualquer um que a escutasse em meio à escuridão e também pelo seu tamanho pouco comum: vinte e oito minutos de pura atmosfera apavorante, diferente dos singles de cantores pop de no máximo cinco minutos.

A música já terminava seu segundo replay desde que Gustav começara. Escolhera a madrugada justamente pelo poder que ela emanava nos tempos antigos: a hora em que a escuridão dá as caras no mundo, em que ela sai de sua toca e busca causar o medo nas pessoas comuns, o momento em que os vampiros, lobisomens e demônios acordam para praticar o mal aos desavisados que ousavam enfrentar a poderosa noite. Até hoje, a noite parecia exercer aquele poder. Quando sua esposa o via escrevendo até altas horas da madrugada, logo o mandava ir para a cama, como se alguma espécie de criatura das trevas fosse devorá-lo. Ele achava irônico que, mesmo numa época cientificamente esclarecida, o noturno ainda fosse visto com tanto maus olhos.

Naquele momento, apagava uma enorme cena do arquivo de seu livro. Seu personagem principal, Dietrich Träumer, tentava matar a suposta mocinha da história, a misteriosa Margarethe Brauer. Tudo parecia perfeito na história, até encontrar uma cena que não se lembrava de ter escrito — provavelmente o fizera quando estava com muito sono. Era uma cena verdadeiramente horripilante: Dietrich encontrava Margarethe desmembrando outra pessoa, e a maneira com que foi descrita realmente era tão vívida que chegava a causar tonturas. Mas ele tinha decidido matar Margarethe capítulos antes, de modo que aquela cena não poderia ocorrer. Ele apagou-a com um rápido clique no backspace. Coincidentemente, as duas primeiras notas do baixo de Carnage Visors, seguidas da bateria cujo ritmo parecia passos caminhando lentamente atrás de si, começaram novamente. O bumbo da bateria parecia marcar as batidas de um coração perfeitamente em calma, enquanto a guitarra e o baixo com suas notas prolongadas tiravam um som que parecia etéreo, pertencente a outro mundo, um mundo sombrio, cinzento, frio e chuvoso.

Assim que apagou a cena, voltou aos capítulos anteriores para continuar seu trabalho reestruturando e revisando o que já havia escrito. Tudo parecia bem ali, portanto logo voltou a escrever o capítulo seis, substituindo aquela cena mórbida por outra. Àquela altura, a música já assumia um ritmo mais vigoroso, com mais riffs de guitarra e com o prato da bateria marcando intensamente o ritmo feito um metrônomo. A música naquele momento parecia combinar perfeitamente com a cena que principiava a escrever, com bastante ação. O terror, no entanto, deixaria para outro momento.

Os dedos no teclado estavam frenéticos, incapazes de parar por um segundo sequer até que todo o conteúdo de sua mente fosse derramado nas páginas do Word. Escrevia com tanto vigor que o café esfriava na mesa e o som do teclado conseguia ser mais alto que o som da música. Quando estava no fim do parágrafo mais marcante do capítulo, seu teclado simplesmente pifou. “Dietrich começara a cccccccc]]]]]]]]]]]]]]]]]]]]” aparecia em sua tela, com mais colchetes aparecendo a cada milissegundo.

— Desgraça — Gustav xingou. Parecia estar inabalável, apesar de praguejar, mas logo deu um soco no teclado para tentar fazer com que ele parasse de teclar sozinho.

Mas o teclado não parou.

— Mas que merda, se isso não parar, vai estragar o arquivo todo! — Tentou segurar o backspace, mas foi inútil, pois o teclado continuava a digitar sozinho, e agora não apenas colchetes, mas letras, números e acentuações gráficas quaisquer.

Gustav rapidamente deu um pause na música, tirou os fones e se inclinou para tentar desplugar o teclado do computador. Assim que voltou à tela do computador, percebeu que seu teclado havia digitado mais, portanto tentou plugar o teclado novamente, mas ele continuou a digitar mais letras aleatórias, portanto o desplugou de novo e definitivamente. Salvou o arquivo em seu pendrive, pois teve a ideia de continuar a escrita pelo notebook, e desligou o PC. Iniciou seu notebook, plugando também seus headphones, mouse e o pendrive no aparelho. Não se esqueceu, é claro, de abrir uma aba com outra música: Exercise One, do Joy Division, outra música igualmente aterradora, que começava com um teclado cujas notas mais pareciam berros do além ou o vento sibilando numa cidade desolada, macabra.

Assim que abriu o arquivo novamente, seus pelos se arrepiaram. O coração bateu subitamente muito mais forte, e uma sensação de choque pareceu cobrir seu corpo como uma aura. O teclado sibilante da música, agora com o baixo que pareciam os grunhidos de uma fera, tornava tudo igualmente macabro.

Havia percebido no parágrafo em que o teclado apresentara problemas o seu nome. E agora ele estava em negrito.

“Dietrich começara a cccccccc]]]]]]]]]]]]]]]]]]]]]]]]]]]]]]]]]]]]]]]]]]]]]]]]]]]]]]]]]]]]]]]]]]]]]]]]]]]]]]]]]]]]Qai9ludhaiffnckslofweytai[kifusgdtkjvlxgustavmz\waeiutgjkzlsa~pikujlaWE0I9UHGBV.KLSÇKWPIUTEHTJKLSAÇIOHUEIOspkjchvbuioaKJSUIGHOKLÇDewuiro3248738920947929fyu*(&¨&*(¨%$%¨&*(45tiwaergweih8”

Apesar do susto que tomou, procurou ser racional: provavelmente aquilo era um problema no salvamento. Coincidentemente, o teclado escreveu seu nome no meio de todas aquelas letras sem sentido e, ainda mais coincidentemente, devido a um problema de leitura no arquivo, justamente seu nome ficou em negrito.

A música tornou a repetir enquanto Gustav, impassível, ainda observava seu nome marcado no meio daquele caos. O teclado daquela vez começara tão nitidamente que ele parecia sentir os ventos que aqueles sons evocavam, percorrendo janelas de madeira antiga e cortinas, uivando quando passavam por elas. Era tão vivo que sentiu que aquela brisa gritava. Aquilo gelou seus ossos. Sentiu que a brisa clamava por piedade num círculo do Inferno, e gritava por ele querendo se livrar da temível fera que lhe castigava. O baixo, então, começou, e ele não era mais o baixo que se lembrava, mas se assemelhava a cada nota a um grunhido bestial. Quando o vocalista deveria entrar para cantar as linhas “When you’re looking at life / In a strange new room”, uma voz ainda mais grave que a do baixo-barítono Ian Curtis cantou as mesmas linhas, uma voz que parecia ser distorcida, parecia pertencer a um demônio, parecia perfurar toda a terra que havia entre o Inferno e a superfície e ainda assim parecia ser dita apenas dentro da sua cabeça feito o devaneio de um esquizofrênico. Não parecia haver mais fones de ouvido; apenas a voz que parecia estar ali, aqui, lá longe, em todos os lugares, propagando-se pelo planeta inteiro de tão alta, mas principalmente dentro de si, já que ela parecia emanar de dentro de sua cabeça para tomar substância em outros lugares.

No computador, o parágrafo apagou-se sozinho. Gustav sequer havia começado a digitar alguma coisa até que simplesmente o último parágrafo — o mesmo que o computador anterior escrevera sozinho — fora deletado sem mais nem menos. No lugar dele, digitou-se sozinho:

“GUSTAV

O

QUE

CAUSA

O

TERROR?”

Gustav olhava tudo aquilo apavorado, seus olhos arregalados, seu corpo trêmulo, com a onda de choque ainda envolvendo-o. Sentia sua nuca formigando, um arrepio na espinha e uma vontade intensa de correr, fugir dali. O horror se materializara diante dele, e ele não possuía reação alguma. A única reação que tinha era de fechar os olhos para não mais ver a barra vertical piscando após o ponto de interrogação. Por algum motivo, por mais inofensivo que aquele escrito fosse, olhar para ele lhe dava uma sensação de pânico, como se algo de terrível fosse acontecer, como se a porta de seu quarto fosse ser subitamente aberta por um maníaco com uma máscara assustadora ou como se...

A música transformou-se num grito horripilante de gelar a alma. Gustav pulou na cadeira, controlando-se para não gritar, sentindo todos os seus músculos se retesarem logo em seguida. Ele tirou o fone num impulso depois daquilo e seguiu-se um silêncio ainda mais assustador, um silêncio que dava indício de que seria quebrado subitamente por algum som ainda mais mortificante.

A música retornou na sua cabeça, naquela mesma voz distorcida que parecia ter saído das profundezas da Terra e, ao mesmo tempo, parecia ecoar por todo o universo conhecido, e cantou o mesmo verso da música: “When you’re looking at life / In a strange new room...”. Enquanto isso, Gustav mantinha os olhos tão fixos na tela excessivamente clara que tudo ao redor começou a escurecer, um efeito comum após ficar muito tempo olhando a claridade em contraste com a escuridão, mas que naquele momento não parecia ser tão comum assim.

A voz ecoava, e para onde Gustav olhava, não mais havia o seu escritório, apenas um grande vazio negro e uma porta branca. Gustav sentia que algo sairia dali, portanto se afastou. Quando deu às costas para a porta branca, deparou-se com outra porta branca. Ela parecia haver se teleportado, mas depois notou que havia duas portas brancas. Então tentou ir para os lados, mas outras portas apareceram de onde ele estava, e depois mais portas apareceram do lado de outras portas, até que por fim ele se viu rodeado por portas brancas.

A escuridão do quarto começou a escorrer e envolver aquelas portas. Parecia uma espécie de piche, mas ele parecia ter vida própria, pois envolvia as portas e as engolfava com coisas que pareciam ser tentáculos, mas eram apenas pingos de uma substância tão negra quanto o breu que havia ao fechar os olhos, e esses pingos escorriam na direção que bem queriam, não respeitando nenhuma lei da gravidade.

Naquele local em que estava nenhuma lei natural poderia funcionar. Era a terra do absurdo.

Depois que a gosma preta se apoderou de tudo — se é que havia algo, pois aquele lugar parecia o nada —, ela lhe falou com aquela voz cósmica:

— RESPONDA-ME, GUSTAV: O QUE CAUSA O TERROR?

Seu coração pareceu parar durante algum instante. Não podia ver a criatura que falava, mas sentia que ela o observava intimamente; estava olhando de frente para ele, estava olhando os pelos eriçados de sua nuca atrás, olhava-o por dentro, em sua mente, e Gustav sabia que ela também sabia a resposta, mas ela o instigava a dizê-la, a coisa queria ouvir aquilo da sua própria boca.

—... O sobrenatural...? — ele respondeu.

— VOCÊ NÃO COMPREENDE O QUE É O TERROR MESMO ESTANDO FACE A FACE COM ELE. VOCÊ CRÊ QUE APENAS O SOBRENATURAL ASSOMBRA OS HOMENS. NÃO PERCEBE QUE A ALMA HUMANA SÓ NECESSITA DE UM SIMPLES ESTÍMULO PARA NELA SER DESENCADEANDO O TERROR, UM ESTÍMULO TÃO NATURAL QUANTO A LUZ E AINDA ASSIM TÃO DIFERENTE DELA.

A escuridão retrocedeu e uma das portas reapareceu. Ela abriu devagar, pouco a pouco, e Gustav somente imaginava o que sairia daquela porta. Para abrir tão vagarosamente daquela maneira, só poderia ser algo verdadeiramente aterrorizante, como a criatura por trás daquela voz. Mas aquela criatura não poderia sair daquela porta, porque a própria criatura estava em todo o lugar, ela era aquele lugar... Era?

Fechou os olhos com força quando a porta quando a porta começou a emitir rangidos próprios de madeira e os manteve fechados durante cerca de um minuto. O que quer que tenha saído dali estava esperando apenas que ele abrisse os olhos para poder assustá-lo de tal forma que ele entraria num estágio de pânico ainda maior do que estava, se é que era capaz de atingir tal patamar. Mas nada iria acontecer se não abrisse os olhos, e se nada iria acontecer, ele permaneceria preso naquela dimensão irreal, naquele vazio escuro.

Tirando forças do seu próprio medo, abriu os olhos de uma só vez.

Sua esposa entrava no seu escritório, dizendo-lhe pela enésima vez enquanto abria as cortinas, revelando um dia claro de sol:

— De novo você passou a noite aqui! Já cansei de te falar pra não trabalhar até altas horas da noite!

Gustav não teve resposta para aquilo. Ainda pensava sobre como estava numa dimensão surreal em certo momento, mas quando abriu os olhos, encontrava-se no seu escritório, com sua esposa lhe dando uma bronca por trabalhar a madrugada inteira. Aparentemente, tudo parecia haver sido um pesadelo, um pesadelo tão vivo e do qual tinha tantas reminiscências que ainda não se convencera de que não era real. Afinal, ainda conseguia relembrar com detalhes a voz macabra. Se não fosse um pesadelo, o que havia sido aquilo?

Ao olhar para o lado, viu que o computador ainda estava sem teclado. Pelo menos uma parte daquilo parecia ter sido real. Quando se voltou para o notebook, ele viu aquilo que mais o espantou, deixando-o no mesmo estado de pânico e horror em que estivera. Começou a tremer mais uma vez, sentindo os músculos se enrijecerem enquanto lia as palavras escritas no arquivo:

“GUSTAV

O

QUE

CAUSA

O

TERROR?

O OBSCURO.”

“A emoção mais forte e mais antiga do homem é o medo, e a espécie mais forte e mais antiga de medo é o medo do desconhecido.”

— H. P. Lovecraft, O horror sobrenatural na literatura (1927).

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!