Capítulo 1 — A Primeira Noite


Ele não conhecia S/N.

E S/N também não o conhecia — não de verdade.

Mas havia o primo dela, a formatura, e aquele fim de ano que parecia carregar um peso de despedidas e começos.


Ela tinha chegado para passar a virada, ou talvez apenas o começo do ano — ninguém lembraria com clareza depois. Mas ele a viu na escola, no dia da formatura, só de longe, como quem repara em algo que o corpo nota antes da mente.


Naquela noite, porém, foi ela quem o procurou.


(Notificação no Instagram.)


Uma mensagem, enviada pelo celular do primo dela.

Curiosa, direta, com um sorriso escondido nas entrelinhas.


S/N (por mensagem):

— E aí... você quer alguma coisa comigo ou não?


Ele riu sozinho. Naquele tempo ele era mais solto, mais ousado — ou gostava de acreditar que era.


Responder foi fácil.

Marcar foi ainda mais.


O encontro aconteceu num domingo à noite, no quintal da casa da avó dela. O ar estava morno; o céu, sem pressa.


A conversa começou simples, como se ambos soubessem que a parte importante já estava por vir. As horas se moveram devagar, até que o relógio chegou perto das onze.


Foi quando os silêncios começaram a falar mais do que as palavras.


Eles se aproximaram.


(O beijo acontece.)


No começo foi calmo. Depois ganhou calor.

As mãos encontraram caminhos pela cintura dela, descendo devagar, como quem aprende a ler pela pele.


O mundo ficou menor.


A respiração dela começou a falhar entre um beijo e outro, e ele sentia o corpo dela responder, como se já houvesse uma conversa antiga entre os dois, mesmo que nunca tivessem trocado uma frase antes daquela noite.


Em certo momento, ela se ajoelhou.

Houve um gesto, um impulso, um silêncio que carregava mais do que qualquer palavra permitiria.

Mas a noite ainda estava se construindo, então os dois se levantaram outra vez, voltando um ao outro com a urgência de quem não quer perder nada.


Ele a segurou pelas coxas e a levantou.

S/N passou os braços pelo pescoço dele, como se já soubesse exatamente onde ficar.

A pia de cimento serviu como abrigo improvisado para um momento que pareceu maior do que o quintal inteiro.


Eles se encaixaram.


O ritmo vinha como respiração — às vezes lento, às vezes ansioso.


S/N (ofegante):

— ... que delícia...


Ele tentava manter o controle, como quem segura o próprio corpo para não atravessar alguma linha invisível.


Ela dizia que estava muito bom.

Dizia e sentia.

Parava e chamava.

Acelerava e puxava de volta.


E assim ficaram — nesse vai e volta, nesse quase, nesse limite que parecia sempre à beira de desaparecer — por quase duas horas.


Eles não pensavam em nada.

Não havia mundo.

Não havia tempo.


Havia apenas o corpo, o calor, o risco, e a estranha certeza de que aquela noite não terminaria ali.

Mesmo quando pararam, mesmo quando a respiração voltou, mesmo quando o silêncio tomou forma.


A história tinha apenas começado.

E os dois sabiam disso — mesmo sem dizer.

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