O Pássaro que não Voava
1 O Pássaro não tinha Asas
Notas iniciais
A notícia me abateu, me sentei na mesa do café e fiquei olhando para a noticia naquele pedaço de papel.
Depois de processá-la na minha cabeça, corri para o cesto de roupas sujas e procurei o isqueiro e o cigarro que peguei dele na noite passada. Esse era o motivo pelo qual eu teria que reencontrá-lo, eu tinha que devolver pra ele o que eu havia pegado emprestado.
Quando os achei, troquei de roupa e fui ao parque, exatamente ao banco onde conversamos na noite anterior. Estava com o cigarro e o isqueiro juntos na mão. Jay, um velho amigo, se sentou ao meu lado.
“Não sabia que fumava.” ele disse, baixinho.
“Só ás vezes.” respondi, olhando para o lago que se estendia a nossa frente.
“Não é o que parece, o maço está quase vazio.” Ele disse, enquanto se levantava e ia até o lago.
Ele pegou uma pedra, arremessou e a pequena pedrinha quicou três vezes na água antes de afundar.
A vida deveria ser assim, te dar três chances antes de acabar.
Me levantei e fiquei em pé ao lado dele.
“O maço não é meu, é de um amigo.”
Peguei uma pedra e arremessei, ao invés de quicar ela simplesmente afundou.
“Como a vida.” sussurrei.
“O quê disse?” ele perguntou. “Desculpe, não escutei.”
Me virei e voltei ao banco.
“Não me deu chances, assim como a vida.”
Acendi um cigarro e coloquei-o entre os dentes.
Jay e eu fomos caminhando até o bar onde fui com Larry. Nos sentamos na mesma mesa.
“Me sinto culpada.” suspirei “O deixei sozinho.”
“Não é sua culpa.” Jay disse, colocando a mão em meu ombro.
“Mas se ao menos eu tivesse falado com ele ao invés de só ficar escutando-o” disse, chorando.
“Algumas pessoas só precisam que as ouçam, não que as respondam.”
Ficamos um tempo sentados lá. Começou a garoar. Me despedi de Jay e fui caminhando pela chuva até o prédio onde Larry morava, o mesmo de onde ele se jogou. Subi até o terraço, me sentei e acendi um cigarro. Fiquei olhando a fumaça subir e desaparecer com o vento. Uma brisa fria passava por mim e me deixava com frio. Pensei em Larry, em como teria sido seu voo até o chão e comecei a chorar.
Estava sentada na beira do edifício. A vista do pôr-do-sol era bela, a mais linda que já vi. Mas não pensava em me jogar, afinal, eu era um pássaro que não sabia voar.
Fale com o autor