O Príncipe e o Servo
1 Regra n° 1 ✧ Você não pode morrer.
Notas iniciais
Era uma vez um príncipe. Todas as empregadas se ofereciam para ele, porém isso não o interessava; o corpo de uma mulher nunca o interessou e, principalmente, os facilmente vendidos. Vivia em sua monotonia, até um novo servo se juntar ao palácio. Esse era pequeno e muito propenso a cometer acidentes.
O servo, ao carregar panos, uma certa manhã, tropeçou em seu próprio pé e caiu. O príncipe, que estava andando por ali, o viu e começou a rir muito alto. As pessoas (servos e guardas) que presenciaram a cena ficaram espantadas, pois o nunca viram o príncipe agir de tal maneira.
O empregado, com sua forte personalidade, apenas lançou um olhar raivoso ao lorde. Ao notar isso, o futuro soberano ficou intrigado; ninguém nunca o olhara de tal forma. Tomado por curiosidade, o jovem nobre passou seus dias solitários vagando pelo castelo procurando ou observando o rapaz que lhe chamou atenção. Seus dias eram compostos por o achar e observar
Porém, em um certo dia, o príncipe, viu a si mesmo o seguindo a um lugar peculiar. Fugindo completamente da rotina.
O garoto se dirigia ao jardim. Mas ao olhar para trás, se deparou com o homem alto, moreno, de roupas extravagantes e cheias de joias. O servo o olhou feio, novamente, e correu para o castelo.
Naquele momento, o príncipe percebeu que, se ia descobrir o segredo sobre o rapaz que o atormentava os pensamentos, deveria permanecer despercebido. Logo no dia seguinte, deu início a seu plano. Vestiu roupas diferentes. Não tão chamativas. Também resolveu se livrar das joias, eram desnecessárias e pesadas e apenas precisas em ocasiões especiais.
Neste dia, o príncipe, John, percebeu que o jovem servo estava consciente de que estava sendo seguido , pois a cada passo, o garoto olhava para trás, parecendo saber que deveria haver alguém ali, causando sua batida em vários pedestais.
E, ao achar que não havia ninguém, o servo, Jack, suspirava aliviado e continuava a fazer suas tarefas.
À tarde, no horário de almoço real, cujo o príncipe faltara, o empregado se dirigiu ao jardim.
E John, ainda o seguindo, pensou “é hoje! ”.
O servo estava se dirigindo ao “Paredão das Folhas”, que era um lugar especial, como um jardim dentro de outro.
Era uma espécie de sala de quatro paredes, feitas apenas de folhas, e dentro haviam árvores e plantas exóticas, um laguinho azul e um pequeno banco de madeira. Ao entrar lá, John se jogou atrás de um arbusto e assistiu enquanto Jack se abaixava sobre um outro arbusto e retirava algo de lá. Algo que abraçou com carinho e seu rosto transbordou de felicidade, fazendo o coração do príncipe dar batidas mais fortes.
O servo sentou-se à frente do banco, com as pernas cruzadas, próximas ao lago. Tirou algo pequeno e fino do bolso. Um pedaço de grafite. E o objeto tão especial, era um bloco de folhas em branco. O garoto começou a esboçar e rabiscar.
Naquele momento, o príncipe, tão hipnotizado pelos olhos castanhos, deixou-se repousar sobre os arbustos descuidadamente e observar. De tempos em tempos, Jack parava, olhava para o céu, pousava o grafite sobre os lábios, refletia e voltava a desenhar. Depois de vários minutos de apenas observação, John não conseguiu mais se segurar. Levantou e chegou por trás do servo, pegou o bloco de suas mãos, fazendo o mesmo se sobressaltar.
— Muito bonito – falou o nobre, admirando seu próprio retrato.
— Não tenha ideias erradas, não carrego nenhum tipo de afeto por vossa Majestade.
— Então não gosta de mim? Estou desapontado — respondeu, com um sorriso de canto de boca.
— Sua expressão contradiz suas palavras, senhor. Mas, de qualquer forma, nunca disse algo assim. Quis dizer que não fiz o desenho por afeto a vossa Alteza e sim, por falta de ideias.
— Não pedi por suas razões. Apenas disse que estava bonito. Entretanto, de fato, minha próxima pergunta seria o motivo de ter desenhado a mim – ainda calado, Jack o olhava como sempre: raiva e desconforto. Tirou o caderno das mãos do príncipe, voltando a sentar-se de frente para o lago.
— Se me olha de um jeito tão hostil, como pode me pegar como modelo? Isso é um tanto quanto cruel.
— Não sei do que você está falando... Vossa Majestade.
— Diga-me, servo, seu nome – Jack olhou-o de cima a baixo e um pequeno sorriso se formou em seus lábios.
— Apenas, se você disser “por favor”.
— Você é meio ousado para alguém que cai no chão cinco vezes ao dia e bate nas paredes mais cinco vezes no mesmo dia – e olhando para a expressão de desafio no rosto do pequeno rapaz, disse: Tudo bem. Por favor, seu nome?
— Jack Williams – respondeu, fazendo uma reverência exagerada.
— John Von Doux, mas pode me chamar de príncipe. Encerremos as formalidades – disse o nobre, com ironia. Jack estava sentado no chão e John em pé ao seu lado, com uma leve brisa passando pelos dois.
— Sobre eu cair no chão cinco vezes ao dia... – começou o servo olhando para cima e percebendo que o outro já o encarava – você estava mesmo me espionando?
— E daí se estava? Sou um homem muito à toa que pode fazer o que lhe dá na telha.
— Eu sei, — falou Jack, voltando a encarar a sombra das árvores na água- por isso quis desenhar a tristeza em seus olhos.
Pela primeira vez em dezoito anos, o príncipe ficara sem palavras. Apenas olhou para cima e se retirou. Enquanto andava em direção ao castelo, pensou: “Sim, ele é realmente muito interessante. ” .
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Na manhã seguinte, ao raiar do sol, um guarda entregou um bilhete a Jack:
“A partir de hoje, você será meu servo pessoal. Deverá me acordar toda manhã às dez horas. Deverá informar-se sobre meu cotidiano com a minha antiga empregada. E sobre refeições, trate com a cozinheira.
Atenciosamente, príncipe John. ”
— Qual o significado disso?! – gritou. Porém, o homem já havia ido embora.
Depois de se vestir, o servo foi a procura da, até então, empregada pessoal do príncipe.
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— Banho. O príncipe toma banho todos os dias. É um habito peculiar que ele aderiu em uma viajem. Ele mesmo construiu um lugar especial para seus banhos, não faço ideia de como seja o tal lugar, ele apenas manda que eu lhe de toalhas e se banha por si – falou a velha.
— Tudo bem.
— As refeições estão a mercê dos cozinheiros. E a cima de tudo, você apenas fala se ele falar com você. E se isso acontecer, fale o mínimo possível. Acorde-o com a luz do sol, ou seja, abrindo as cortinas. Nunca se dirija a ele. E, por fim, ele lhe dirá o que quer e como quer. E nunca seja insolente, à menos que queira uma punição severa.
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Às dez horas, contra todas suas vontades, Jack estava abrindo as cortinas para que o príncipe acordasse.
Ao ver o servo, magricela, de cabelos castanho-claro com roupas aos farrapos , ao lado de sua cama, John ficou satisfeito.
— Bom dia – sem resposta. Apenas uma reverência. – Pode pedir a cozinheira o de sempre, e depois traga para cá – falou, achando estranho a falta de argumentos que o deixará sem falas um dia antes.
Em silêncio, Jack saiu do quarto. O príncipe se levantou e olhou para fora da janela, pensativo.
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Dez minutos depois, o servo estava de volta.
— Qual o seu problema? – Perguntou o príncipe, irritado.
— Não sei do que o senhor está falando – sabendo que, obviamente, o servo não falaria nada, John tomou outra providência.
— Vista-me.
— Q- QUÊ?!
— Você não é surdo. Vis-ta-me.
— N-não.
— Está recusando seu trabalho?
— Não, não senhor! Apenas fiquei surpreso pois sua última serva não... me falou sobre este... hábito?
— O que, exatamente, ela lhe disse? – olhando para baixo, ele voltou a se calar, deixando o príncipe ainda mais nervoso. – Ela o aconselhou a não falar, não foi? – Jack apenas balançou a cabeça em aprovação. – Eu apenas disse aquelas coisas a ela pois a achava irritante –disse John com um suspiro. O servo o olhou com curiosidade. – Ontem você estava falando normalmente e sendo petulante, não? Eu ainda o quis, sabendo que você fala mais do que deveria, então que tal cortar o ato? O chamei pois queria sua verdadeira forma, não este ratinho assustado. Fale, se você me entende!
— Claro. E como o senhor quer que eu seja verdadeiro, eis aqui eu: Você não é aleijado, vista-se sozinho.
(ノ◕ヮ◕)ノ*:・゚✧
As quatro primeiras semanas se passaram com muita calma. Jack não escondia sua personalidade forte, a não ser quando tinha de acompanhar o príncipe quando o mesmo ia ver o rei, e John não ligava para isso. Admirava-o por ser diferente e impetuoso.
O servo o acordava com brutalidade quando o amo se recusava a levantar. Tinha folgas, em algumas tardes para desenhar. Poderia se dizer que tudo estava em paz... Até o dia em que um acidente muito comum ocorreu, porém, os resultados foram diferentes.
Jack estava andando pelo castelo, levando toalhas para o banho do príncipe, quando uma delas caiu e fez com que o servo tropeçasse. Naquele momento, John o estava procurando, sem razão aparente. Porém, diferente das outras situações, Jack não caíra sozinho no corredor. O servo, ao olhar para frente, percebeu que havia se chocado com um guarda real, e derrubado o mesmo.
— Mil perdões. Você está bem? – perguntou o empregado.
— Ah, sim. Estou acostumado. Tenho uma amiga muito propensa a acidentes. Aprendi a sentar sem dor, entende? – disse o guarda, acabando-se de rir. Jack ficou assustado. “Tadinho, deve ter problemas mentais”.
— Deixe-me ajuda-lo – falou o guarda, se postando de pé. O servo o estendeu a mão, achando-o muito simpático.
— Você é sempre assim animado ou está feliz?
— Estou feliz – disse o guarda, ajoelhando-se para ajuntar as toalhas do chão.
— Hm...
— Se fosse da guarda do rei, entenderia.
— Achei que fosse um trabalho irritante – falou Jack, recolhendo as tolhas da mão do outro. — Ele deve ser divertido.
— Não, é que hoje é meu dia de folga. – Ambos riram um pouco e o servo percebeu que sua mão ainda estava junta a do guarda. Tirou a apressadamente e seguiu seu rumo.
Se voltarmos uns poucos segundos antes, teremos a visão do príncipe diante àquela situação. Ficara extremamente enraivecido. Tudo o que ele vira fora seu querido servo chocando-se com um homem alto, forte e atraente. Depois, conversando com o mesmo homem enquanto estavam de mão dadas. Terminando, por rirem juntos.
Parado no mesmo lugar, viu o estranho homem aproximando-se, e, o guarda, logo ao vê-lo, fez uma reverência:
— Vossa Majestade.
— Não se relacione com o meu servo – E com apenas um olhar de John, o homem estremeceu. O príncipe seguiu seu caminho, indo atrás de Jack, e o guarda mal conseguiu se mover.
(ノ◕ヮ◕)ノ*:・゚✧
Logo no primeiro dia, John resolveu revelar sua fonte de banho para Jack. O mesmo, ficou encantado ao ver. Era uma sala anexa ao palácio, sem teto, com muralhas ás ruínas, rosetas crescendo nas paredes e árvores brotando do chão, fazendo sombra na enorme fonte de banho, além das flores, e os pequenos raios de sol, que se infiltravam entre as folhas. O príncipe disse ao servo que a fonte ficava sobre uma plataforma de metal, e que em baixo havia uma abertura que continha carvão e madeira, utilizados para aquecer a água já situada na fonte. Três vezes na semana a fonte era esvaziada, para que pudesse ser preenchida com água fresca e para colocar mais carvão e madeira embaixo. Mas haviam outros homens que cuidavam disso.
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Ao chegar lá, John viu Jack empilhando as toalhas no chão, ao lado da fonte.
— Eu não sabia que você tinha amigos no castelo... — o servo virou-se e viu o príncipe despindo-se, lentamente.
— Não tenho –respondeu o servo, virando-se rapidamente com as orelhas coradas.
— Então, quem era o homem com quem estava conversando antes?
— Não perguntei. Tudo o que sei, é que ele é da guarda de seu pai.
— Mantenha distância, você não está aqui para fazer amiguinhos – replicou John com desdém.
— Para falar a verdade, seria muito gratificante ter um amigo por aqui. Cada empregada me olha com raiva e inveja por sua culpa e a maioria dos guardas são sérios e entediantes.
— Você tem a mim. Deveria ser suficiente – falou o príncipe enquanto entrava na água.
— Você é o futuro rei, meu senhor. Não misture as coisas – John virou se para responder, porém Jack já havia saído.
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Indo em direção ao quarto do príncipe, Jack caiu novamente, porém não se apressou a levantar. Teria ficado mais tempo no chão se não fosse pela mão que sentiu em seu ombro, ajudando-o a ficar de pé. Era novamente o guarda.
— Vaga pelo castelo em seus dias de folga? – Perguntou o servo, sorrindo.
— Exatamente – disse o "homem atraente", retribuindo o sorriso. – Para onde você está indo?
— Para o quarto do príncipe.
— Quer ajuda? – disse o guarda, com animação.
— Não tem nada melhor para fazer de sua vida? – perguntou o rapaz menor.
— Não – respondeu o guarda, sorrindo.
— Tudo bem. Qual é o seu nome?
— Porter. E você?
— Jack – e com um aperto de mão, eles se foram.
(ノ◕ヮ◕)ノ*:・゚✧
Na porta do quarto, uma empregada, não muito familiar forçava a fechadura, segurando lençóis.
— Posso ajuda-la? – perguntou Jack.
— Lençóis limpos para o príncipe — falou, constrangida, a mulher.
— Ótimo. Ambos podem ajudar.
— Quanta bagunça um homem pode fazer? – Perguntou Porter.
— O príncipe? Bom, quando vocês entrarem, verão o que ele faz da noite para o dia.
E ao ver, ambos fizeram sons de surpresa. Roupas espalhadas por todos os lados, manchas de comida nas paredes, a cama completamente desarrumada, papeis e livros pelo chão, e uma cortina rasgada.
— Você – começou Jack, apontando para a mulher – arrume a cama e pode ir. Porter, ajunte todos os papeis e livros e coloque-os na escrivaninha.
Alguns minutos depois, o príncipe entrou no quarto, surpreendendo completamente os três empregados.
— Uma festa em meu próprio quarto e eu nem fui convidado. E você! Eu achei que o tinha avisado para ficar longe – falou o príncipe, usando um roupão. Começou a discutir com o guarda, que respondia, mesmo estando muito amedrontado. Mas o olhar de Jack, pousou-se sobre a mulher, que retirava algo brilhante, lentamente, de seu avental.
Ela correu em direção ao príncipe, porém o servo foi mais rápido. Se firmou a frente do nobre, recebendo a facada ao lado do estômago. John caiu no chão, segurando Jack em seus braços, ainda em estado de choque. Porter, vendo que a mulher iria investir novamente, empunhou a espada, atravessando seu peito e, por fim, matando-a.
— Busque ajuda – falou o príncipe com voz trêmula. E assim o guarda saiu correndo do quarto. – Jack – chamou.
— John – chamou pela primeira vez o servo, levando uma mão a face do príncipe.
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